Hoje de madrugada, durante o sono, tive um insight sobre a pessoa que meu pai foi em vida, algo tão forte que me lançou direto de sono profundo para estado de vigília – acordei, não sobressaltada, mas com um sentido de urgência que me gritava: “corre, corre escreve isso antes que você durma de novo e esqueça!”
O meu corpo material reclamava… “mas às 03:40 da manhã?!”, mas minha mente foi irredutível, bateu pé: “Só depois disso vou conseguir dormir. Não antes”. Conformada, peguei papel e caneta – ESSE era o tamanho da minha urgência nesta Era da Digitação – e procurei registrar o mais fielmente possível o que me ocorreu durante o sono.
O ‘sonho’ que tive com meu pai foi rápido – ou, pelo menos, o trecho que permaneceu vívido na minha memória. Estávamos os três, eu, ele e minha irmã, aqui no nosso apartamento, mas a casa aparecia em sua versão mais antiga, na época em que havia um ‘quarto do casal’ onde ele e mamãe dormiam juntos. Entretanto, no sonho ele já estava aposentado de suas tarefas profissionais, o que demonstraria que o apartamento já não deveria estar daquele jeito fazia algum tempo.
Minha irmã também aparecia em sua versão muito mais jovem, calça jeans baggy e franjinha repicada, camiseta branca. Descrevendo isso me dou conta de que o fato de ter conversado com ela sobre os anos oitenta antes de dormir, assistindo ao canal flashback VIVA, coloriu a parte visual deste encontro onírico com papai. Eu digo encontro porque esta coisa de sonhar com ele e mamãe, em versões antigas de casas nossas, sempre me mostra que há um encontro interno verdadeiro com eles, porque sempre sei, em pensamento, que eles não estão mais neste mundo, mesmo enquanto converso.
Seja como for, minha irmã desfazia malas com roupas dos anos 80 e ajudava meu pai a vestir seu uniforme de gala. Estranhei isso de uma maneira feliz, porque sabia que desde a sua entrada para a reserva já não havia um único uniforme militar de qualquer tipo no armário de meu pai. Devo ter expressado meu prazer de alguma forma, não consigo lembrar exatamente o que disse, mas foi algo como “ih, que lindo!”, e isto suscitou uma reação inesperada dele:
- “É, pelo visto eu vou ter de voltar a usar isto aqui por uns tempos, mas se você quer saber acho tudo isso um saco!”
Eu tentei argumentar que para nós era bom vê-lo vestido assim, naquele traje que representava para nós segurança, força paterna, autoridade no seu senso mais protetor, mas acho que ele ficou irritado comigo, do jeito que sempre ficava quando eu não entendia algo que ele queria dizer, e foi embora. A imagem foi se dissipando, e a palavra ‘saco’ soava em eco suspeitamente como a palavra ‘shallow’ (em ingles, superficial). Enquanto eu saía velozmente do sonho para a vigília, meus pensamentos sussurravam com veemência:
- “Seu pai era mais que isso! Ele era mais que a farda, a patente, apesar disto tudo fazer parte dele!”
Lembrei, acordada no escuro, ainda deitada, que muitas vezes meu pai me disse que – ao escolher sua profissão – escolhera a segurança. Não apenas para a vida DELE, mas para a nossa também. Ao escolher sua profissão, meu pai pensou em sua família que ainda não existia, em sua velhice que estava longe de chegar. Meu pai, portanto não escolheu um sonho ou algo que lhe dava simplesmente prazer e alegria: ele escolheu uma profissão que correspondia às suas expectativas de um tipo de vida. Ele planejou e executou seu plano.
Meu espírito sonolento acabou por perceber que tinha dado de cara com uma revelação importante a respeito de meu pai: ele era um realizador.
Não que ele fosse um militar sem senso de hierarquia, pouco convencido do valor do seu trabalho, sem amor pela corporação, longe disto. Ele possuía tudo isso em fartas doses, mas ao mesmo tempo estava acima disto, não era isto que o definia como homem. Na verdade, meu pai teve uma bela carreira militar, mas sinto que teria sido tão ou mais bem-sucedido em qualquer outra profissão que precisasse da força de um guerreiro: um técnico desportivo (já que ele era sedentário demais para ser o atleta; se fosse atleta, certamente teria o impulso de um medalhista, porque era focado e muito competitivo), um grande administrador de empresas, dono de uma construtora. Qualquer atividade que desse a ele uma equipe para liderar, que tivesse campanhas de conquista.
Acho, na verdade, que ele só foi realizar esta parte da sua personalidade depois que tornou-se comandante de PAMAs – que são os Parques de Material Aeronáuticos, locais onde é feita a manutenção dos aviões da força, verdadeiros parques industriais. Ele gostava de ser aviador, era bom piloto, mas nunca vi nele o amor passional por voar que via em muitos dos seus colegas. Para ele fazia mais sentido planejar algo, levar o plano a termo, perceber e medir o resultado positivo daquilo; o vôo era mais uma das muitas atividades envolvidas na visão global.
Acordei convicta que o espírito de meu pai está em algum novo tipo de ‘missão’, e eu tenho cá meus palpites a respeito do tipo de missão em questão. Ele passou fortemente para mim, neste encontro, duas impressões: a primeira foi a aceitação desta nova tarefa em sua totalidade, da mesma forma que ele dava sua dedicação total a suas tarefas profissionais; a segunda foi que ele, o homem, preferia estar ainda usufruindo da liberdade de explorar seus talentos, oportunidade que ele só teve depois de encerrada sua vida profissional (e muito mais ainda, pressinto, depois de sua morte). Meu pai me ensina, mais uma vez, o senso de dever.
É, pode ser um saco, mas nem por isso você deixa de fazer com toda sua potência, nem faz de má-vontade. Meu pai tinha esta integridade de intenção, essa retidão que o fazia abraçar intensamente mesmo aquilo que não era prazeroso, tendo abraçado o projeto. Ele tinha uma fidelidade a suas convicções que era quase canina, esta dedicação às suas tarefas e compromissos assumidos.
Aprendi dele, neste sonho, que o que o movia por dentro era um senso de conquista – que é tão melhor descrito pela palavra accomplishment em inglês – que permeava todas as suas escolhas. Ele não tinha o prazer como critério de escolha, apesar de ter prazer no resultado positivo daquilo que se propunha a conquistar. Ele escolhia atividades que o ajudassem a conseguir o RESULTADO que desejava, e assim mudar um pouco o mundo e deixar a sua marca.
Pai, você deixou.
Há muito tempo escutei os sons lindos, esvoaçantes de uma jovem alma testando suas asas de compositor. Escrevi aqui um texto com as visões que a linda música me evocou, tanto na apresentação ao vivo - inesquecível - quanto no arquivo gravado que posteriormente o autor me enviou. Lindo, tudo lindo, jovem e solto no ar. Naquele tempo, viajei junto com ele no ar, tentando acompanhar no texto o vôo da melodia. Diz-me ele que fui bem sucedida, tenho eu cá minhas dúvidas.
Hoje recebi uma composição nova, pelo menos bem mais recente que a anterior. Não esperava nada de concreto, abri o arquivo apenas na expectativa de descobrir qual o presente desta vez. Era um presente maior.
O início solene, quase em procissão, suaviza, como se o compositor desejasse não assustar o ouvinte com a cerimônia, ou como se um espírito mais solto se vislumbrasse por detrás de um véu de formalidade. A música entra neste claustro calmo, vazio, cheio de doçuras e pequenos silêncios relaxantes, com fontes murmurantes e bancos de pedra debaixo de árvores frondosas, dando boas vindas e convidando o ouvinte a se aproximar mais. Pausa e um olhar profundo se troca. Muito se diz nos intervalos silentes de sons. Pouco se fala. Expectativa. A música espera e convida a serenar.
Passamos através de um arco, abandonando o claustro e chegando à beira d’água. Os suaves acordes vão ficando mais cheios, mais graves. É o encontro, o dar-se a conhecer; esta alma não voa mais tão livre nem tão alto, pois expressa com mais veemência e maturidade suas próprias concentricidades. A música não convida a subir, mas a aprofundar. Anéis e anéis de ondas sonoras partem de uma mesma origem, mas se ampliam e alcançam novas distâncias, causadas pelo mergulho criativo num lago muito, muito calmo e profundo.
O vento fica mais forte, encrespando a superfície; movimentos de crescimento, afinal, causam também crise. Não há aqui, entretanto, revoluções e enchentes que que poderiam ocorrer em almas menos pausadas, fortes e honestas que esta. Este é um lago protegido num vale cercado de altas montanhas feitas de fé, confiança e beleza. A música corre firme, mas nunca agressiva, contundente sem ser violenta.
Dizem as ondas velozes e intensas que nunca foram tão longe antes na declaração de sua verdade:
“Eis-me aqui!”
“Eu penso!”
“Eu desejo!”
“Eu espero!”
“Eu sinto!”
“EU SOU!!”
Raras vezes se tem a oportunidade de passear com tanta liberdade na alma de um compositor, mas eu não esperaria nada menos de uma pessoa tão bela. Obrigada, Alfredo Votta Jr.
Até o mês de setembro passado - seis meses atrás - eu não tinha alguns canais da TV paga que contrato. Com a mudança de plano passei a assistir o canal Animal Planet. Rapidamente, principalmente por causa do teor cada vez mais distorcido e mórbido das tvs, aberta e paga, este canal se tornou meu favorito. Como amo cães - adoraria ter uma “matilha mista” de cães e gatos, mas acho inviável por morar em apartamento e pelo meu estilo de vida bastante sedentário (mea culpa) - tornei-me audiência assídua do programa “O Encantador de Cães” (ou The Dog Whisperer ou El Encantador de Perros) com Cesar Millan.
Não dá para assistir ao programa de Cesar sem se apaixonar perdidamente por seu anjo de quatro patas, seu grande companheiro, o cão terapeuta Daddy. Um pitbull forte, com cabeção, corpão, orelhas cortadas, Daddy teria tudo para ser um canino assustador; basta, no entanto, olhar naqueles olhos dourados, líquidos, profundos, cheios de luz, e você vê que aquele ser é especial, doce, confiável, sem ser fraco em instante algum. Totalmente adorável. Como vocês podem ver, a maior parte do tempo eu assisto o programa procurando uma chance de ‘namorar’ Daddy.
Uma coisa leva à outra, e eu acabei seguindo Cesar Millan no Facebook e no YouTube. Eu acho Cesar encantador em muitos níveis, desde a maneira com que ele se entusiasma com a recuperação de cada cachorro desajustado que ele e Daddy ajudam até a forma que seus olhos brilham quando ele encontra um bebê ou uma criança pequena na casa dos clientes - invariavelmente ele acaba com eles no colo; é lindo ver o amor expansivo que ele tem por sua família, a maneira como ele utiliza a ajuda da mulher e dos filhos, mantendo-os sempre presentes na sua vida profissional; bacana ver como ele adora uma chance de zunir pelas estradas de patins com um cão à toda velocidade.
O Cesar é um cara inteiro, às vezes gauche na sua postura quase canina de não ter medo de mostrar o que sente - e nunca vi um amor tão palpável e um companheirismo tão intenso entre um humano e um cão como entre Cesar e Daddy. Fiquei enamorada de um e de outro, e principalmente de ver os dois juntos. O próprio Cesar fala sobre a maneira especial de Daddy de olhar para ele, differente de qualquer outro cão que ele tenha tido.
Aí, o choque: dia 19 de fevereiro descubro no site www.cesarsway.com um vídeo de Cesar fazendo um tributo pelos dois anos de FALECIMENTO de Daddy. Ai. Ai. eu senti uma facada no peito como se meu próprio cão tivesse morrido naquele instante diante de meus olhos, sem aviso prévio. É normal escutar que “certas pessoas não podiam morrer”; eu penso que nenhuma pessoa a que esta frase pudesse se aplicar era mais merecedora de vida eterna que Daddy. Doeu muito em meu coração saber que eu conheci o cão mais especial do mundo quando ele já não era deste mundo… e doeu mais ainda imaginar o que Cesar, sua esposa Ilusion e seus filhos - que foram, afinal, criados por aquela babá querida e babenta - sentiram com aquela morte.
Demorou um tempo para eu digerir esta notícia, e eu confesso que agora assisto o programa procurando mais ainda por Daddy, mas com lágrimas escorrendo pelas faces quando vejo uma cena particularmente tocante dele. Agridoce, totalmente agridoce. Quem lê o Asa sabe que a morte de pessoas amadas é algo muito familiar para mim, que já aprendi a lidar com isso, tentando transformar dor em lirismo, beleza e aceitação. Mas é sempre estranho descobrir que a pessoa que você está aprendendo a conhecer e amar já não existia naquele mesmo momento em que você a viu pela primeira vez.
Estou ainda aprendendo a profundidade da lealdade, do comprometimnto e do amor de Daddy, e a cada programa de Cesar em que ele aparece, a cada artigo sobre Daddy que leio em seu site, a cada foto dos dois juntos que eu vejo, mais me convenço que 16 anos é tempo curto demais para um anjo ficar em nossas vidas, mas Deus provavelmente estava precisando de um anjo doce de olhos dourados e cauda abanante para ajudar a salvar este mundo podre.
E lá vai Daddy para mais uma missão.
“You’re in the arms of the Angel; may you find some comfort here” (Angel - Sarah McLachlan)
A madrugada sempre me atraiu. Desde pequenina eu sentia que coisas importantes aconteciam quando se estava dormindo, e a gente não via. Depois eu fui crescendo… descobri que as plantas crescem de noite, longe da luz… descobri que eu gostava mais de ler quando não era interrompida por outras pessoas e coisas… descobri que escutava melhor o barulho profundo do oceano quando a noite serenava o ruído do tráfego… descobri que podemos escutar a cidade respirar de madrugada.
Descobri que a noite tem mesmo muitas atrações para mim. A maioria dos posts deste blog foram escritos durante a madrugada, e este não é exceção. A minha imaginação fica mais solta durante a noite, quando não tenho de me preocupar se a roupa está passada, o que dizer à amiga que liga, qual o cardápio do almoço, que instruções dar à empregada. Sozinha, com meus gatos dormindo à minha volta, olho pela janela e tento descobrir o que acontece naquela janelinha lá longe, que também tem a luz acesa. Me pergunto se a pessoa de lá - homem? mulher? - também se pergunta o que aquela luzinha distante do meu apartamento quer dizer. Alguém está doente? Um casal de namorados briga? Faz as pazes? Alguém estuda? Alguém escuta música baixinho?
São tantos alguéns possíveis fazendo tantas coisas imagináveis que acabo partindo no tal Alazão da Noite de que a música fala… parto nesta viagem com a Poesia, que nem sempre é a minha. Nem sei o que busco, mas acabo encontrando algo. Hoje encontrei uma ligeira mudança no ar da noite - mais frio - um céu mais límpido me avisando que estamos no outono, estação que eu amo. Essa pequena mudança - que durante o dia, com o sol, não percebi - me pôs a pensar nos outonos todos que tenho visto e experimentado.
Me deu saudade da revista que publicava online com meu amigo Evandro Ferreira… revista que acabou porque as pessoas a quem pedíamos artigos diziam que nosso nível era alto demais para elas. Nós não achávamos, escrevíamos o que sentíamos e observávamos, as coisas que líamos, as músicas que escutávamos. Mas observo hoje, em dias de BBB, que aquilo que mostrávamos era realmente diferente demais. Como não fazíamos militância de nada, nosso pequeno cantinho acabou por acabar.
Tenho pensado muito nestas coisas que acabam, coisas preciosas que fazem falta. A Revista Outonos me faz falta, a força da juventude às vezes me faz falta, as pessoas que amo e que partiram me fazem falta. Mas eu ainda estou aqui, e tento, neste estertor glorioso de outono em que a vida parece ter-se transformado, manter viva a alegria, a poesia e a lembrança disto tudo.
E lá vem mais uma lembrança de falta, mais uma reviravolta nesta viagem pela madrugada, mais um mês de março, com suas partidas… e eu ofereço esta linda canção a um dos amados que partiram em março, meu querido Alex Cabedo. Ele também me trazia poesia. Feliz aniversário de vida eterna, querido Alex, um pouco atrasado, mas não por esquecimento. ãs vezes é difícil falar daquilo que para nós é tão especial e profundo. Que cante então Maysa.
Tenho estado tão calada… imagino que os poucos amigos e leitores que ainda me seguem estejam quase desistindo de buscar pela Sue aqui.
Eu peço carinhosamente desculpas, peço também que não desistam. Este blog vai voltar a ser meu coração na web, mas acontece que meu coração tem passado por muitas mudanças. Os próximos posts vão falar mais da alma que do coração, acho eu, porque tenho estado mais em contato com ela ultimamente. Talvez por estar perto de comemorar meus 47 anos, agora no dia 12, talvez por perceber que o mundo em volta de mim anda cada dia mais SEM alma. O que eu sei é que este período gestacional de silêncio está próximo de acabar, mas a criança que vai nascer ainda não mostrou seu rosto para mim.
Esperemos.
Hoje é a celebração da Epifania do Senhor, e desejo a todos tardiamente um Natal Santo - que, entretanto, pode começar em seus corações agora mesmo - e que escutem a mensagem amorosa de Deus mais de perto. Mesmo que para isso tenham que viajar de muito longe, como fizeram os Reis Magos.
Um beijo estalado.
Quem acompanha a trajetória do meu blog – que completa nove despretensiosos anos de vida no dia sete de agosto próximo – vai perceber que eu nunca falei de política dentro dele. Sou declaradamente apolítica. Isso tem várias explicações, que vão servir como introdução para este post um pouco diferente:
- Eu faço parte daquela massa chamada de “brasileiros” (eita nome que cobre uma multidão de vícios…) que encara os políticos como um produto sub-humano, traiçoeiro, vil, absolutamente indigno de confiança; e que portanto encara a política como uma atividade que congrega pessoas assim, e que talvez as torne assim pela pressão dos pares; resumindo, para mim política não presta de uma forma geral, e no Brasil em particular presta ainda menos;
- Eu acredito firmemente na capacidade das pessoas resolverem seus problemas através do bom-senso e da argumentação direta e honesta; já fiz isso algumas vezes; um dos meus amigos mais queridos e admirados eu conheci e admirei pela primeira vez numa discussão online, onde estávamos em posições opostas; estou falando do doce filósofo-dançarino, o Lord-fofinho Evandro Ferreira, que já foi meu “parceiro no crime” nesta Internet gigante de meu Deus, editando comigo o site-revista Outonos, de saudosa memória; a discussão saudável me trouxe um grande amigo e possibilidades novas para minha vida; a política nacional – já que não entendo nada de política fora daqui – faz TUDO menos isto; muito pelo contrário, ‘inimigo político’ é uma expressão comum na prática da profissão;
- Não há nada que eu respeite mais que uma pessoa que discorde de mim de forma inteligente e cortês, que me faça defender minhas crenças da mesma forma; isto me faz testar, professora que sou por profissão e por temperamento, a força e a verdade de minhas crenças, me ensinando a cada dia o que é essencial, o que é importante e o que é descartável; alguém que tenha a mesma intenção de aprender, humildade para reconhecer acertos e erros e vontade de crescer junto; a política aposta e investe na ignorância e na estagnação pessoal dos pobres eleitores; crescer, só mesmo o poder pessoal de cada político;
- Nunca tive notícia de prática política que efetivamente RESOLVESSE os problemas de uma comunidade; é piada nacional o fato que todos os políticos, em todas as eleições de todos os níveis, todos os anos, dizem que vão resolver os problemas da saúde, da segurança e da educação; como as leitoras-misses d’O Pequeno Príncipe, todos eles falam e nenhum deles sabe do que está falando; ou sequer se interessa em descobrir.
Depois destes argumentos iniciais, vou surpreender um pouco vocês: nada disso é culpa da política, nem mesmo o fato de política não prestar. Porque a política é uma FERRAMENTA, uma maneira de indivíduos se relacionarem entre si. Como toda ferramenta, a qualidade da política depende da pessoa que faz uso dela. Portanto, sou apolítica porque meu foco pessoal está acima e além da política, está no que chamamos sem o devido respeito de Cultura.
Meu amigo Evandro não foi citado apenas por saudades, apesar de senti-las e pretender matá-las assim que possível, fazendo uma visitinha ao planalto, já que a beira mar não o tem atraído. Ele foi citado porque aquela discussão onde nos conhecemos foi nos comentários de um texto de Alexandre Silva, publicado em seu blog com o título “Quem não lê não é humano”. Eu concordava, Evandro discordava. Com as argumentações de cá e de lá, fomos percebendo que estávamos discordando apenas do estilo do escritor – irônico, apresentando os seus argumentos através do exagero satírico – e não do conteúdo mais profundo do texto. O que torna o homem um Homem é justamente a cultura mais elevada produzida pela sua civilização. Mesmo. Defender e divulgar esta cultura, propagá-la, ensiná-la aos mais jovens, isto é o que fortalece um país, uma civilização.
A nossa civilização, a chamada Civilização Ocidental Judaico-Cristã, tem sofrido ataques intensos e constantes, desde o século dezoito. Não ataques externos, como o que aconteceu na época das Cruzadas e da invasão moura da Europa. São ataques internos, corrosões, erosões de valores. Começou lá no dito “Iluminismo” que apagou as luzes da alma, com a deusificação do homem, a virada de costas para valores espirituais, o cientificismo burro (que graça a Deus está acabando), as teorias materialístico-políticas de pasteurização do homem, que o transformam em formigas num formigueiro dirigido por porcos (obrigada, George Orwell).
O homem sempre foi o autor de seu próprio caminho, ele nunca foi “incluído” em nada, a não ser na dieta de alguns predadores. Mas isso há muito, muito tempo atrás. Hoje, distantes do equilíbrio forçoso e muitas vezes cruel da natureza, nos iludimos com os conceitos fabricados pelos criadores do tal “politicamente correto” (olha a política aí de novo, no meio da porcaria) e achamos que é “bonito” deixar todo mundo falar o que quiser, desrespeitar os mais velhos, debochar da religião, deixar as crianças serem expostas indiscriminadamente a todo tipo de informação: boa, ruim, péssima, mais ou menos.
Isso não significa respeito pelo outro, significa desrespeito por si. Significa deixar qualquer um falar mal daquilo que nos é caro, desrespeitar nossa mãe maior, que é a nossa identidade cultural. Eu fico com a sabedoria popular e com a mãe do Tambor, quando elas dizem que “em boca fechada não entra mosca”, “se não tem nada bom a falar, fique calado”, “certas coisas não se diz”. Lavem mesmo as bocas dos rebentos com sabão, não os deixem xingar pessoa alguma. Dêem a palmada e o beijo necessários, ensinem seus filhos a rezar, a proteger os mais jovens, a pedir bênçãos aos mais velhos, a honrar a bandeira, a cantar o hino nacional, a respeitar a bandeira e o hino dos outros. Sejam pais e mães civilizatórios, não amigos.
Estou convencida que o atentado da Noruega é resultado de anos deixando um maluco falar o que quiser na Internet, deixando malucos falarem e fazerem o que bem entenderem, alegando sempre a tal “Liberdade de Expressão”. A reação politicamente correta de passear nas ruas com flores “pedindo paz” é a mais inócua de todas, porque paz se conquista com fortaleza. A fortaleza de saber e valorizar quem somos. A fortaleza de não permitir que nenhuma circunstância diminua isso. O Japão é o exemplo mais gritante desta fortaleza. No meio de uma tragédia que deixaria um país como o Brasil imerso na barbárie, os japoneses limpavam as ruas, aguardavam nas filas, andavam pacificamente, amparados pela vigorosa cultura que os sustenta.
Há pessoas que vivem a vida como a Noruega, num mar de pacífica ilusão, e que reagem com perplexidade e flores quando a ilusão é quebrada. Eu prefiro tentar viver como o Japão, pé fincado na realidade, focada nas tarefas do dia a dia, honrando meus ancestrais, defendendo minha cultura. Sendo o que um amigo definiu muito bem como “o guerreiro impecável”.
Sendo assim, ofereço a vocês uma flor linda de um compositor que escrevia música para Deus, com todo o meu carinho.
Pedido de desculpas aos meus 14 leitores:
Queridos, mil perdões, mas a vida não-virtual está em pleno processo de mudança e nào tenho tido tempo de postar nada aqui. Não é nada de mais, apenas muita coisa para fazer, e pouco tempo para fazê-lo. Assim que a poeira assentar, escrevo algo aqui, bem bonito e bem carinhoso.
Mil beijos apressados!
Que fazer, de madrugada, sexta-feira, sozinha, com todos que você ama longe por algum motivo? Faça como a Cher: solte os cabelos, faça uma maquiagem báásica, ponha suas miçangas e seus brilhos, abra suas Asas de Borboleta… e cante! Pode rodopiar à vontade pela sala, quem vai reclamar? rsrs
(Música de fossa com ESSA produção e essa voz retumbante é TUDO! Junte a isso chocolate do coelhinho e três gatos dengosos e pronto! uma sexta-feira à noite cheia de sonho e riso está garantida.)
When you meet a boy
That you like a lot
And you fall in love
But he loves you notIf a flame should start
As you hold him near
Better keep your heart
Keep it out of danger, dearFor the way of love
Is a way of woe
And the day may come
When you’ll see him goThen what will you do
When he sets you free
Just the way that you
Said goodbye to meWhen you meet a boy
That you like a lot
And you fall in love
But he loves you notIf a flame should start
As you hold that boy near
Better keep your heart
Keep it out of danger, dearFor the way of love
Is a way of woe
And the day may come
When you’ll see him goThen what will you do
When he sets you free
Just the way that you
Said goodbye to meThat’s the way of love
The way of love
Quando você conhece um rapaz
De quem gosta muito
E você se apaixona
Mas não ele por vocêSe a chama arder
Quando ele se achegar
Melhor manter o coração
Fora de perigo meu bemPois o caminho do amor
É o caminho do pesar
E o dia vai chegar
Em que você o verá partirE então o que você fará
Quando ele a libertar
Do jeitinho que você
Disse adeus para mimQuando você conhece um rapaz
De quem gosta muito
E você se apaixona
Mas não ele por vocêSe a chama arder
Quando ele se achegar
Melhor manter o coração
Fora de perigo meu bemPois o caminho do amor
É o caminho do pesar
E o dia vai chegar
Em que você o verá partirE então o que você fará
Quando ele a libertar
Do jeitinho que você
Disse adeus para mimEste é o caminho do amor
O caminho do amor
Passei a Semana Santa em Arcoverde, sertão de Pernambuco. Estou num daqueles momentos de vida em que, depois de grandes perdas, se descobre que o mundo está limpo, lavado, e pronto para ser reconstruído. Fui buscar os tijolos e a argamassa das mãos de um homem santo, num lugar lindo e agreste, cheio de possibilidades.
Lá eu vi que a esperança e a confiança são primas e caminham juntas; que minha paz independe do que me acontece em volta; que há uma espiritualidade tão bela em minha Igreja a ponto de me jogar o coração para o alto da copa das árvores, e de me tirar o fôlego. Peguei meus tijolos: caridade, conforto, serviço, comunhão, Eucaristia. Peguei a argamassa, que é o Espírito Santo.
Agora é voltar para o Rio e começar a construir.
Queridos leitores do Asa,
Como todo inventário, este é longo e um tanto doído. Quem estiver procurando uma coisa mais leve, alegre e bonita, leia o post de cima.
Beijos,
Sue
Ontem, terça-feira 26 de abril, eu encontrei um amor antigo. Na realidade, mais que isso, meu primeiro e maior amor, aquele homem a quem um dia eu desejei dar filhos, aquele com quem gostaria ter passado todos os momentos de minha vida adulta, todas as etapas de minha vida. Mais ainda, aquele que eu esperava que segurasse minha mão enquanto eu desse meu último suspiro - ou que me estendesse a mão na mesma situação, se os papéis estivessem invertidos. É isso mesmo. Esse amorzão grande assim mesmo, generoso e desmedido, como talvez só os amores de juventude são capazes de ser.
Mas isso aconteceu há quase um quarto de século, aqueles momentos em que andávamos juntos, abraçados, num compasso tão igual que parecia que apenas um corpo se movia; quando respirávamos juntos, em uníssono, e o silêncio dizia tanto; quando o sentimento transbordava com tanta força dos meus olhos que ele tinha pudor de me olhar no rosto. Uma vez ele até me pediu que não o olhasse “daquele jeito”… como se eu pudesse evitar.
Num dado momento, há muito, muito tempo atrás, ele decidiu, quando chegamos a uma encruzilhada, que era hora de nos despedirmos. Foi um momento difícil, duro, para mim e para ele. Pela primeira e única vez me minha vida eu tive de consolar e enxugar as lágrimas de um homem naquele mesmo momento em que ele me dizia que não me queria mais. Mesmo sendo ambos tão jovens e inexperientes, o coração dele visivelmente doía, talvez com o eco da dor que ele sabia que me infligia. Ele sabia, ele também sentia, mas mesmo assim partiu, e só ele sabe o porquê.
E o tempo foi passando, os anos desfiando como contas de um colar. Ele casou, separou, casou de novo, enquanto eu entrava e saía dos meus casulos, conquistando lentamente minhas Asas de Borboleta. Nossos cabelos foram ficando grisalhos, nossos olhos um pouquinho mais embaçados devido à idade, as filhas dele ficando mocinhas. Ele lá, eu cá, trajetórias paralelas com apenas um contato ocasional que nos colocava a par do que acontecia na vida do outro. Cinco anos se passaram desde que conversamos longamente ao telefone, mais ainda desde que nos vimos pela última vez. Até ontem.
Eu fui ao encontro dele, porque queria transformar as reticências em ponto final e a interrogação em exclamação. Precisava conhecer o homem maduro em que ele se tornara, e mostrar a ele minha maturidade. Precisava saber se minha alma ainda sentia a dor da falta que a presença dele sempre me fez – e que descobri que ainda faz. Precisava que ele soubesse – e espero do fundo do coração que ele tenha conseguido compreender o que eu pretendia – , queria que ele soubesse que ainda o amo.
Não é mais amor com desejo de encontro, de partilha, de construção de vida a dois. Demorei alguns anos para aceitar o não com que ele me presenteou, e sei que foi um presente complicado de dar para ele também, mas aceitei. Aceitei já faz tanto tempo que não sobra mais nenhuma réstia de esperança de sim. É não, eu sei que é, e está bem assim.
Escutei, nesta Semana Santa que passou, palavras da boca de um homem muito sábio. Mais que apenas sábio em si mesmo, mas inflado de uma Sabedoria Santa maior ainda que a dele. Deste homem eu escutei que Amor não é um sentimento - surpresos? eu não fiquei. Amar é uma forma de agir e de viver, a estrutura que escolhemos para, em torno dela, construirmos nossa vida. Esta decisão de amar, aí sim, pode vir acompanhada de uma gama imensa de emoções, sentimentos das mais variadas cores. Ouvi mais que isso: ouvi que os sentimentos mudam e se transformam, mas que o Amor é permanente.
Pois isso eu comprovei na alma ontem, naquele homem que eu vi e que esconde no fundo dos olhos doces, tão doces, o menino que a menina Sue aprendeu a amar tão fundo. Aquele homem que a Sue de hoje sabe que tem uma existência à parte da sua, uma vida própria que ela não ousa invadir, nem acha correto interromper. De jeito nenhum, nunca foi esse o objetivo da busca deste encontro.
O que eu queria descobrir, e consegui, é que este homem hoje desperta sentimentos diferentes daquela alegria profunda que o sorriso dele despertava na mocinha que eu não sou mais. Olhando para ele hoje, a dor da perda foi como uma facada; não só pela perda do relacionamento que tanto desejei, mas pela perda da juventude, do tempo que poderíamos ter passado juntos – eu que gosto tanto da companhia dele – a perda desta vida que poderia ter sido. Doeu, doeu fundo a ponto de eu quase chorar.
Outras coisas vieram junto com esta dor. Veio o sentimento meio doce, meio amargo de olhar para a foto daquelas meninas, achá-las lindas, e me perguntar como elas seriam se fossem minhas. Veio também o respeito ao ver tudo que ele construiu para si, e sei que foi sozinho, fruto de sua criatividade e seu trabalho. Veio a tristeza de perceber que era o que eu desejava ter construído para mim, e não consegui. Veio a felicidade de ver que ele tinha a mesma alegria no sorriso ao me receber na porta, que também me queria bem. Veio a alegria de perceber quanto ainda nos damos bem, que ainda somos capazes de conversar com a naturalidade dos verdadeiros amigos.
É este o inventário deste amor antigo: é uma rede translúcida, tecida de fios de perda, dor, nostalgia, amizade, carinho, respeito, confiança e afeto. Por trás e no meio desta trama, eu percebi com a mais serena certeza, brilhava forte o amor, do mesmo jeitinho que chegou ao meu coração há vinte e cinco anos, mais ou menos. Este é um amor que deseja a felicidade dele com a mesma intensidade que deseja a minha, um amor que é capaz de ver e se alegrar com a felicidade dele, mesmo que ela não me inclua.
É amor. Amor é para sempre. Era isso que eu queria que ele soubesse. O lugar dele em meu coração e em minha vida será sempre dele, imutável, perene, sólido como uma casa que vira um lar, um lar que ele pode visitar sempre que quiser e precisar.
E é vida que segue.



