• O Resumo da Ópera Trágica que Vivemos

    Date: 2016.03.25 | Category: luta, pai | Response: 0

    Lá em 1500, um certo fidalgo Pero Vaz de Caminha foi enviado, a mando do Rei de Portugal, com o navegador Pedro Alvares Cabral para averiguar se havia algo a ser explorado nestas plagas. Descobriu-se que sim, havia muito a ser explorado em riquezas naturais — minerais e vegetais. Assim se fez.

    Durante séculos praticamente só isso se fez, até que Dom João VI pegou sua família e amigos e para cá veio ligeiro, fugido de Napoleão. Chegando aqui, descobriu que nada havia sido urbanizado, não havia sequer um abrigo decente para sua nobre família. Então, no início do século dezenove, começou o desenvolvimento do Brasil em que hoje vivemos.

    Devagarinho, porque estas coisas são lentas, o povo brasileiro descobriu que tem amor pelos azulejos portugueses, pelas igrejas barrocas, pelas frutas tropicais, pelos ritmos africanos, pela comida nativa. Descobrimos que o tempo quente aquece nosso coração junto com nossas paixões, e esse calor acolhedor trouxe gente de toda parte para cá. Desde o próprio Portugal e da Espanha até o Líbano e Israel; Coréia, Itália e Japão, todos aqui recebem um sorriso de boas vindas.

    Infelizmente, os séculos de abandono se fizeram notar num descomprometimento da classe mais abastada (de origem portuguesa) que aqui morava, que preferia mandar seus filhos estudarem em Lisboa, Porto ou Paris que construir Universidades aqui. Nenhum amor pareciam ter pela terra que os abrigava, sempre suspirando pela Europa que deixaram para trás. Fizeram uma triste escola entre membros de todos os estratos da sociedade, que aprenderam que a coisa pública é “terra de ninguém” a ser usada e abusada de acordo com a vontade volátil do momento.

    Este governo — que agora tentamos tirar do poder legitimamente, com a mesma autoridade com que o colocamos lá — levou esta falta de amor por nossa terra, e a exploração de suas riquezas, a níveis quase lendários. Apropriou-se da coisa pública e do dinheiro de nossos impostos e do trabalho de nossos funcionários públicos como o mais ferrenho senhor de escravos.

    Só que a escravidão do povo brasileiro serve hoje não a um senhor de engenho, mas a uma organização chamada Foro de São Paulo, que tem como intenção declarada acabar com a soberania dos países da América Latina e formar um bloco socialista – à força, por meio de matança se preciso for, com o apoio de ladrões, traficantes e assassinos, como o habitual deste tipo de governo totalitarista — com um governo central, que chamam de La Patria Grande, sob o comando dos irmãos ditadores de Cuba.

    O POVO BRASILEIRO NÃO QUER ISTO. DE JEITO NENHUM, SOB NENHUM ASPECTO. Se for necessário, damos as nossas vidas, para que as futuras gerações sejam livres. É isto o que acontece aqui agora.

  • Rabiscos

    Date: 2016.01.19 | Category: Asas de Borboleta, contos | Response: 0

    Miriam não se considerava escritora, ela rabiscava. Tinha sempre na bolsa um bloco de papel de onde tirava papeluchos para escrever pequenas notas — no ônibus, no metrô,  na recepção do consultório do dentista, no salão de cabeleireiro. Qualquer coisinha que chamasse a atenção merecia uma anotação num pedacinho de papel.  Chegando em casa, retirava da bolsa aqueles papeizinhos amassados e os colocava mais ou menos organizados numa caixa de papelão que viera com um antigo presente de aniversário.

    Logo, precisou comprar uma caixa maior, depois duas. Já estava na terceira caixa. Os amigos, curiosos, queriam saber o que tinha escrito lá.  “Cacos”, ela respondia. A resposta não satisfazia, e a curiosidade não satisfeita virou pressão. “Quando você vai nos mostrar o que tem lá?” “A gente quer ver, oras, que bobagem esconder!” Um dia, cansada do assédio constante,  pegou três papeizinhos, um de cada caixa, e os apresentou numa reunião de amigos. Não queriam ler? Pois ali estava.

    Os rabiscos de Miriam passaram de mão em mão, por toda a sala. O silêncio foi aumentando. Aumentando e se alongando. Finalmente, o melhor amigo de Marisa disse, resumindo o que parecia ser o sentimento de todos:”Não entendi.”

    “É por isso que não mostro.” respondeu Miriam. Sem mais, recolheu os três papeluchos e os retornou às suas caixas.

    No dia seguinte, um domingo, ela saiu de manhã bem cedo com sua cachorrinha Menina, uma cesta de lanche e as três caixas.  Levou Menina de carro até a Floresta da Tijuca, sentou num lugar sossegado e tirou as caixas da sacola. Um por um, ela leu em voz alta para Menina todos os rabiscos. Menina escutava atenta, aqueles olhos de mel cheios de amor pela dona.

    Miriam lia, sorria e perguntava: “Que tal?” Menina sacudia a cabeça para um lado ou para o outro, tentando entender o que a dona queria. Se fosse para a direita, Mariana fazia pequenos barquinhos de papel e colocava de volta na caixa, se para a esquerda, ela picotava em pedacinhos e colocava na outra caixa. Se não houvesse reação, ela fazia bolinhas e guardava na terceira caixa. Logo Menina desinteressou-se da brincadeira, aliviou-se numa árvore e deitou-se aos pés de Miriam para roer seu brinquedo favorito.  A dona passou então a ler para si mesma e metodicamente produzir barquinhos, picotes e bolinhas.

    Já era tardinha quando Miriam acabou a leitura. O lanche consumido, Menina alimentada e dormitando na grama fresca. Alguns passarinhos, atraídos pelo som ritmado da leitura, levantaram vôo e foram procurar o que fazer.  Miriam pegou as caixas e procurou uma mangueira centenária. Com a ajuda de uma ferramenta pega na mala do carro, cavou um buraco fundo  ao lado da raiz grossa, com a ajuda entusiasmada de Menina. Ali deitou todas as bolinhas e tornou a cobrir o buraco com a terra remexida.  Menina queria cavar de novo, mas Miriam a levou de volta para o carro.

    Parou na entrada do Parque Nacional da Tijuca, na área das churrasqueiras. Lá, escolheu uma que ainda estava incandescente da farra domingueira dos frequentadores do parque e queimou os picotes.  As duas caixas vazias ela deixou na área de lixo reciclável do parque. Partiu na direção da Barra.

    O final de tarde estava lindo, a brisa agradável, o mar meio agitado. Trancando o carro, levou menina e a última caixa para a areia. Logo, uma frota de barquinhos de  papel navegava rumo a alto mar. A caixa vazia voltou para o carro cheia de pedaços de conchinhas. Pelo visto, pensou com um sorriso torto, continuo colecionando cacos. Voltou para casa com a cachorrinha profundamente adormecida no banco de trás, tirou definitivamente o bloquinho da bolsa e ligou o computador.

    Naquele mesmo ano, lançou seu primeiro livro.

     

     

  • Finados

    Date: 2015.11.02 | Category: espírito, mãe, pai, saudade, vida interior | Response: 0

    Hoje é dia de lembrar, e eu estou lembrando. De mãos. Mãos. Eu não sei se muitos adultos param para pensar que tudo para a criança é muito alto, muito grande, muito largo, então ela vê as coisas em pedaços. Pelo menos, assim era comigo.Uma das minhas lembranças mais antigas era de adultos conversando enquanto eu enxergava muitas pernas, minha visão passando muito pouco da altura daqueles joelhos.

    Mãos. Mãos são pequenas o suficiente para uma criança observar. Lembro das minhas queridas mãos. As mãos de minha avó, pintadinhas de idade, rezando o terço, eu deitada em seu regaço esperando o fim da reza e mais uma história de Pedro Malasartes antes de receber minha bênção e dormir. As mãos da irmã de minha avó, deformadas pelo reumatismo, mas ainda ágeis para costurar roupinhas para minhas bonecas, brincar de massinha, me chamar para enrolar rosquinhas de polvilho e fazer o doce de laranja mais gostoso que eu já provei. A eterna disponibilidade daquelas mãos.

    As mãos da minha tia acendendo a lamparina diante da imagem da virgem sobre sua cômoda. Mãos de professora, girando o mimeógrafo e deixando a casa com cheiro de álcool, datilografando e me deixando datilografar em sua máquina portátil, me interessando pelas letras antes mesmo que eu aprendesse a ler. Mãos finas e muito brancas, as mãos de professora de minha tia. As mãos tão bonitas de minha mãe, sempre de unhas pintadas e tão cheirosas que o ritual de dormir da Malu-bebê incluía cheirar seus dedos, e só os seus. Nenhum outro servia.

    As mãos de meu pai… muitos momentos eu olhei aquelas mãos fazendo coisas. O cigarro era seu eterno companheiro. Eu as observava fumando, dirigindo, escrevendo, limpando as peças de carne do churrasco, me ensinando a fazer pequenos consertos pela casa. A última coisa que ele fez em vida, na ambulância que o levou pela última vez ao hospital, foi me estender a mão e me soprar um beijo. Na minha alma ainda seguro firme na minha a mão do meu pai.

    Mãos que me guiaram pela vida, me mostrando o que fazer e o que não fazer. Me apoiaram, me ensinaram a andar, a escrever, a fazer crochê, a costurar e a cozinhar. Principalmente mãos que me amaram. Hoje é o dia de lembrar delas, de pedir a Deus que estenda suas mãos misericordiosas em direção às minhas queridas mãos, e as mantenha na graça. Que nenhuma delas se solte, Senhor.

  • A Caminho de Casa

    Date: 2014.04.26 | Category: contos, plantas, vida interior | Response: 0

    Ele pegava o metrô para o trabalho todos os dias. Sempre pelo mesmo caminho, ida e volta, passando por aquela figueira imensa, barbuda e sombria, a um quarteirão de casa. Era, para ele, um eterno desagrado aquela árvore, na ida o símbolo do desencanto com o trabalho que não gostava, na volta o marco do cansaço onde sempre suspirava e pensava “mais um quarteirão e estou em casa”.

    Era uma árvore centenária e mal-humorada, se é que árvores têm humor. Sombria, escura, parecia saída de um pântano de filme de terror, as grossas raízes tomando conta da calçada, as folhas verde-escuras tapando o sol acima, as folhas amarelas e caídas atrapalhando o passo abaixo. Todo dia, duas vezes por dia, ele a olhava descontente, quase tão soturno quanto ela, e se cruzavam com um grunhido e um farfalhar de asas – porque os pássaros da região pareciam não compartilhar da má impressão que ele tinha daquela árvore, e nela construíam ninhos tranquilas e satisfeitas. Mas, para que haja uma história é preciso que algo aconteça, e aconteceu.

    O Rio tem as suas tempestades, e naquele dia teve uma delas, das grandes, cheias de ventos, raios e inundações. A esposa já ligara durante a tarde, avisando que tomasse cuidado na volta, as ruas estavam alagadas. Ele saiu do escritório no Centro já antevendo a corrida de obstáculos habitual dos cariocas nos dias de chuva, pulando poças e disputando marquises enquanto duelavam com seus guarda-chuvas. Sem muitos problemas chegou no metrô, e suportou conformado o empurra-empurra da hora do rush. Um assento finalmente vagou para ele na última estação antes da sua, mas ele o ignorou – o curto tempo que sentaria só teria o efeito de amaciar o corpo e tornar a corrida até em casa mais sacrificada no meio da chuva.

    Aliviado descobriu que já não chovia na sua vizinhança, o vento havia levado as nuvens pesadas para o outro lado do morro (sempre há um morro à vista nesta cidade, pensou ele meio sem saber porquê). Fechou o guarda-chuva e observou da saída da estação se seria um trajeto penoso, se valia a pena fumar um cigarro e esperar os outros passageiros dispersarem. Com um olhas rápido percebeu que a água do chão já secava, aumentando a umidade do ar e a sensação de calor. Decidiu guardar o cigarro para fumar na janela de casa.

    No caminho de volta, a surpresa: uma equipe do Departamento de Parques e Jardins trabalhava diligentemente para remover a figueira, que caíra durante a tempestade. Ele parou um instante para olhar os trabalhos, sem saber se a árvore caíra pela força da chuva e do vento ou apenas por puro cansaço de viver. Talvez, ele pensou com um riso curto, ela tenha se suicidado por pura maldade, apenas para derrubar espetacularmente os três postes que ele via no chão, até que o riso se tornou em gemido, ao pensar nos lances de escada que teria de subir se o prédio estivesse sem luz.

    Desistiu de olhar os funcionários da prefeitura recortarem o tronco caído da árvore morta e terminou o trajeto até sua casa, tornado um pouco mais longo e difícil pelas escadas que foi realmente obrigado a subir. Escutou o relato da esposa, irritada pelas quase 12 horas sem energia, desistiu totalmente do cigarro (estava mesmo tentando parar) e tomou seu banho à luz de velas antes de deitar. Tanto melhor a falta de luz, pois assim ele dormia mais tempo sem assistir aos noticiários deprimentes da TV.

    Dormir cedo fez com quem ele acordasse antes do despertador e da esposa, coisa rara para quem se arrastava a contragosto para fora da cama toda manhã. Resolveu que o cigarro adiado de ontem podia ser fumado esta manhã, antes que a mulher acordasse para reclamar do cheiro. Pegou o maço, o isqueiro e o cinzeiro e apoiou os cotovelos no peitoril da janela da cozinha. Foi aí que ele viu o buraco.

    A paisagem da janela estava drasticamente alterada pela ausência daquela árvore. Inesperadamente, sentiu aquele vazio dentro do peito também. Sozinho e de cigarro na mão, enfrentou a realidade que as coisas MORREM mesmo, quando chega a hora, mesmo figueiras centenárias. E a morte é uma coisa boa, que tem o seu papel. Tudo o que vive mais que deveria — e isto às vezes acontece — se transforma em fonte de aborrecimento e desgosto. A figueira partira e sua partida abrira um pedaço de céu que não existia antes na sua janela.

    Terminou o cigarro e acendeu mais um, recebendo da esposa já desperta uma caneca de café forte e quente, e um resmungado “mas você não tinha parado de fumar?” Ele sorriu e disse “verdade” enquanto apagava o cigarro. Talvez fosse mesmo o último, subir as escadas ontem o deixou totalmente sem ar. Voltou a olhar a janela, enquanto tomava a bebida fumegante da caneca. Escutava atrás de si as indas e vindas da mulher arrumando a mesa do café da manhã, sorvia sua bebida e olhava para fora, pensando no buraco de céu onde antes havia uma figueira. A mulher, já tomando seu próprio café sentada à mesa, avisou que ele estava se atrasando para o trabalho.

    Pousou a caneca na pia.

    Saiu da cozinha traçando uma linha reta até o telefone.

    Discou o número que sabia de cor, depois de tanto tempo.

    O sinal de chamada tocou uma vez, tocou duas.

    “Alô. Escritório de advocacia, bom dia.”

    “Maurício, sou eu.”

    “Fala rapaz! Não vem trabalhar hoje?”

    “Não vou trabalhar mais. Eu me demito.”

    “Ahn!?”

    “_”

    Ao sentar diante da esposa de queixo caído, pensou na modernidade e como era anticlimático não colocar com firmeza o telefone no gancho… Aquele CLICK fazia falta. Nem tudo precisava morrer, afinal… Com um sorriso maroto e aliviado, pediu à mulher estupefata:

    – Me passa a manteiga, por favor.

  • A Rosa e os Espinhos

    Date: 2014.04.14 | Category: amor, espírito, vida interior | Response: 2

    Ela andara só por toda a vida. Como nunca tivera o que verdadeiramente chamar de seu e nunca realizara o destino que desejara para si, ela cobiçava. Cobiçava o destino alheio. Assim é a vida… Quando por muito tempo o caminho trilhado é só, nos parece que só resta espiar, maravilhado e faminto, aqueles caminhos que são compartilhados – daqueles que tiveram a chance do amor verde, tenro e frutificado. Companhia, por isso, parecia a ela o maior dos tesouros. Nunca lhe viera fácil companhia de qualquer tipo. Era simples saber o porquê: nunca fora mansa, não era mansa e duvidava de um dia vir a ser mansa.

    Desde cedo só, testando forças e resistências sem apoio e sem ajuda, percorrera a maior parte do caminho em companhia apenas do vento e de seus pensamentos. Aprendera a solidão e a solidão a fortalecera, pois as dificuldades da vida, quando acompanhadas da solidão, quebram ou fortalecem. Ela certamente se fortalecera, e não só isso. Ela se mantivera isolada, indomada e altiva, cavalo selvagem e livre que não aceita arreio, com o temperamento afogueado e guerreiro como o dos melhores puro-sangue. O fogo e a força a mantinham trilhando, confiante, os caminhos difíceis demais para os mais fracos.

    Mas era preciosa a companhia. Ela a queria. A cada sinal da possibilidade de encontro – que ela sempre desejara livre, forte, afogueado e intenso como ela – ela parava. Muitas e muitas vezes ela se perguntara se era Ele quem chegava, aquele que andaria parelho com nela no seu passo veloz, sem tentar frear a velocidade ou fugir do desafio. Aquele que ela sabia ser tão forte quanto ela (ou mais, mais forte, desejava ela), mas que não utilizasse esta força para coagir ou impedir. Este seria o amor que a impeliria a enfrentar caminhos ainda mais únicos, mais difíceis e ermos, mais cheios de realização pessoal. Era Ele quem traria, por contraste e complemento, aquilo de melhor que ela era.

    Sempre, no entanto, a miragem se desfazia em algum momento, e ela via que, em vez dEle, havia um potro jovem pedindo proteção, um manso jumento que não tinha a menor idéia do que fazer com ela além de admirá-la, às vezes até um pangaré que à distância parecia mais do que era.Ela suspirava e olhava em volta, perguntando ao vento onde Ele estava, antes de partir mais uma vez num caminho só. O vento jamais lhe respondera.

    Tudo isso a tornara arisca. Exposta a muitos perigos sozinha, algumas vezes tomada de assalto e largada na beira da estrada quebrada e ferida, ela se erguia, uma vez e mais uma vez e mais uma outra ainda, para com um suspiro cansado voltar a carregar seus tesouros e suas chagas na esperança de poder depositá-los um dia, aliviada, aos pés dEle. Como ela percebia intensa a cura de saber que a grande distância que a levaria até Ele seria a mesma, até menor que o caminho que Ele percorrera. Que felicidade seria passear pela primeira vez nos amplos salões de uma vida que não foi projetada a dois, mas que foi preparada para este encontro. Óleos perfumados, presentes mútuos, jardins murados e alcovas secretas, tudo há muito guardado para este momento. Ela cobiçava, andava e meio impaciente esperava.

    Aos poucos a impaciência virava serenidade, a cobiça virava contemplação, e ela percebia que não, apesar de ser preciosa, a companhia não era a coisa mais preciosa que havia. Havia algo maior.

    Dentro de seu coração sem porteira e sem barreira, dentro de sua alma sem casca e sem proteção, lá no interior de sua morada havia um anjo com espada flamejante protegendo a entrada de um jardim vazio a não ser por um único banco de pedra; pairando sobre este jardim havia um coração em fogo coroado de espinhos que gotejava lentamente um sangue rubro e vivo, que regava uma única rosa rubra e viva que crescia por trás do banco, no meio de um imenso arbusto de espinhos. Ela senta no banco de pedra, finalmente entronizada em si mesma e n’Aquele que realmente importava mais que sua altivez, que sua força, que sua liberdade. Vagarosamente o arbusto de espinhos cresce e toma conta de todo o jardim, dificultando até mesmo a visão do anjo lá fora.

    Ao deitar no banco de pedra surpreendentemente confortável e acolhedor, e adormecer junto à sua rosa rubra, presente do grande coração de seu Mestre e verdadeiro amor de sua vida, ela suspira baixinho: Senhor, fico convosco; se Ele ainda vem, então que me busque aqui.

  • Oi!

    Date: 2014.04.10 | Category: alegria, Asas de Borboleta | Response: 4

    Já fiz isso umas tantas vezes ao longo do tempo em que este blog existe.  Chegar de mansinho, tirar a poeira, jogar fora as flores mortas, arrumar tudo bem bonitinho e chamar vocês todos de volta para minha casa.  Nunca demorei tanto, mas estou de volta. Que seja uma coisa boa, este voltar.

    Bem vindos ao Asa de Borboleta versão 2014. 🙂

  • Alegria Profunda

    Date: 2010.10.10 | Category: alegria, amor, mãe, pai | Response: 2

    Tem uns dias já que eu tenho pensado e falado muito dos meus pais. Tanto um quanto o outro foi embora deste mundo confuso, minha mãe há quase 25 anos, meu pai há quase quatro. Aqui no blog já falei deles umas tantas vezes, sempre com muito carinho, orgulho e saudade. Acho que falta, a esta mistura, falar deles também com alegria e gratidão. Mas é difícil encontrar as palavras certas…

    Afinal de contas, como se agradece aos pais aquele olhar rápido, mas cheio de orgulho, que nos dá esta força interna para resistir às trombadas da vida? Como eu digo a minha mãe que AQUELE colo, NAQUELE momento, me sustenta até hoje?  Como eu digo a meu pai que só a presença dele me tornava capaz de enfretar e matar qualquer dragão? Que apenas pensar nele ainda me dá esta força? Mesmo que estivessem aqui, acho que eles ficariam surpresos e até meio encabulados, nem se lembrariam destes momentos que me marcaram, porque o amor e a aceitação deles era um pano de fundo em que nenhum de nós prestava muita atenção, apenas estava lá.

    Só que, nestes tempos de pais que jogam os filhos pela janela e filhos que matam pais a porretadas, eu me vejo como alguém que ganhou uma loteria existencial, que tirou a sorte grande, e nem sabia. Porque para mim, até pouco tempo atrás, este tesouro que herdei de meus pais era apenas a vida normal de uma família… família é assim mesmo, não é?

    Não, infelizmente não é. Hoje eu velo com alegria profunda, veneração e até um pouco de espanto esta maravilha que Deus me deu… um pai amigo, valente e sorridente, uma mãe amorosa e atenta, todos dois com o riso solto e o carinho fácil. Nossa! Eu mereço mesmo isso? Como faço para agradecer?  As palavras, mesmo que eu escrevesse aqui por horas e horas mais, não seriam suficientes nem capazes de passar a vocês o que eu sinto por meus pais. Mas o pessoal do Secret Garden conseguiu, nesta música.

    Neste Domingo branco e quieto, no sossego do meu quarto, eu queria dar a meus pais este presente.  Porque eles realmente me sustentam e me elevam, hoje e sempre.

    When I am down and, oh my soul, so weary;
    When troubles come and my heart burdened be;
    Then I am still and wait here in the silence,
    Until you come and sit awhile with me.

    You raise me up so I can stand on mountains;
    You raise me up to walk on stormy seas;
    I am strong when I am on your shoulders;
    You raise me up to more than I can be.

    You raise me up so I can stand on mountains;
    You raise me up to walk on stormy seas;
    I am strong when I am on your shoulders;
    You raise me up to more than I can be.

    There is no life, no life without its hunger;
    Each restless heart beats so imperfectly;
    But when you come and I am filled with wonder,
    Sometimes I think I glimpse eternity.

    You raise me up so I can stand on mountains;
    You raise me up to walk on stormy seas;
    I am strong when I am on your shoulders;
    You raise me up to more than I can be.

    You raise me up so I can stand on mountains;
    You raise me up to walk on stormy seas;
    I am strong when I am on your shoulders;
    You raise me up to more than I can be.

  • Uma pedra no meio do caminho

    Date: 2010.09.11 | Category: alegria, amizade, Asas de Borboleta, esperança, vida interior | Response: 4

    Photobucket

    Um belo dia (estava bonito mesmo, aquele dia) eu ganhei uma pedra. É, uma pedra, esta que está na foto acima. Um presente fora do comum, porque não foi atirado na minha direção com intenção de ferir, nem de quebrar qualquer coisa que eu possua. Foi um presente diferente mesmo, que marcou um dia diferente.

    Guardei esta pedra por alguns anos – é, já passaram anos desde então, que coisa! – e faz um tempo eu a tirei de junto de minhas plantas, onde ela mora, e fiquei a contemplá-la. Lembrei da frase que escutei de meu amigo, quando recebi o presente. Uma frase simples que em mim se transformou numa meditaçào um pouco mais complicada.

    Vocês vejam, nestes anos que se passaram, enquanto meu presente dormia na prateleira, eu lutei muitas lutas. MInha vida modificou um bocado, e em parte por isso tenho postado tão pouco. Nada disso meu amigo sabia, nem eu, quando me presenteou. Ele simplesmente viu, numa pedra largada na beira de um rio, algo que ninguém tinha visto, me mostrou e me presenteou com a visão. Durante algum tempo eu a perdi, esta bonita visão. Outro dia ela me bateu forte, e eu entendi que muito da dureza porque passamos é para conquistar esta beleza, e que nada é apenas o que parece ser. Com a volta da visão, voltou a alegria.

    Sabem o que meu amigo me disse, quando me presenteou com uma pedra? “toma uma borboleta para você.”

    Pois aqui está a borboleta, querido, como eu a vejo agora. Espero que goste.

    Photobucket

  • O que importa

    Date: 2010.04.23 | Category: amizade, Asas de Borboleta, beleza, espírito, saudade, vida interior | Response: 3

    Recebi um comment especial, infelizmente o WordPress ou a Sonia (a comentarista em questão) não vincularam o texto a um post, pelo menos eu não achei o link. O melhor mesmo, então, é simplesmente citar o comentário aqui:

    Olá,
    Faz uns meses que adicionei seu blog nos meus favoritos, pois havia gostado imensamente das suas mensagens, pois me identifico muitíssimo com elas. Perdi meu pai, também com o tal tumor, e dias depois, minha mãe teve um derrame, vindo falecer no ano seguinte.Eu nunca sofri tanto em toda a minha vida. Acompanhei meu pai no hospital e depois minha mãe que morava com a minha irmã.
    Neste momento, estava eu olhando meus favoritos, onde tem muitas opões, de repente vi o seu blog, e entrei, e chorei novamente.
    Gostaria de parabenizá-la pela maneira poética e ao mesmo tempo objetiva que escreves, e por toda força que teve e tem.
    Um beijo carinhoso, de uma desconhecida que se sente ligada à você.

    Sonia, querida desconhecida, você entendeu errado, a força não é minha… É você que me dá esta força, quando me escreve, é um aluno que me diz que eu fiz diferença na vida dele, é um amigo que me abraça, é um estranho que me sorri. Eu simplesmente abro as asas e deixo o vento me levar.

    Obrigada por existir, obrigada por escrever. Sinto muito que você tenha passado por estas perdas tão próximas uma da outra, imagino o quanto foi duro. Minha mãe morreu 20 anos antes do meu pai, os dois devido a complicações causadas por tumores. Nas duas ocasiões lá estava eu ao lado deles, tentando engolir o medo e a tristeza para ajuda-los a nascer para a vida eterna. Acho que fui mais bem sucedida da segunda vez,  era tão jovem durante a doença da minha mãe…

    Como já disse tão bem o Dennis D. na ocasião do falecimento do meu pai, os buracos da alma ficam. Quanto a isso nada há para ser feito. É bom saber, no entanto, que há esta irmandade e esta humanidade à nossa volta que também sofre, que também sente. Se a minha dor ajuda a confortar a sua, saiba que a sua também ajuda a confortar a minha. Saiba com toda a segurança que estamos, sim, ligadas, e que isto é muito bom.

    Bem vinda ao meu coração 🙂

  • Dama das Rosas

    Date: 2010.03.25 | Category: amizade, dama rosas homenagem, vida interior | Response: 0

    sete anos

    Minha Quaresma não estaria completa sem isto…

    Sempre rezando por sua alma e pela felicidade de seu filho, querida Dama.  Que seu descanso eterno seja sempre em verdes campos repletos de doces cascatas.

    Manda um beijo de Páscoa para meus pais…

Tópicos recentes

Comentários

Arquivos

Categorias

Meta