• Entrega

    Date: 2016.12.27 | Category: alegria, amor, beleza, encantamento | Response: 0

    Nunca fui mansa. Não sou mansa hoje, duvido que um dia eu seja mansa. Desde cedo me criei só, testando minhas forças e minha resistência sem apoio e sem ajuda.  Percorri a maior parte do caminho em companhia apenas do vento e de meus pensamentos. A quantos lugares belos e terríveis eu fui na companhia deles, mas de todos estes lugares eu voltei, inteira, para estar aqui.

    Meu temperamento é afogueado e guerreiro, e é justamente este fogo e esta força que me tornam a mais fiel das companheiras, a mais leal das amigas. Percorro qualquer distância, trabalho e luto até meu coração estourar para ajudar aos que amo. Não há simplismo possível no meu caso, é tudo complexo e multicor. Nada é lugar-comum, nem minhas qualidades nem meus defeitos.

    Tentaram, ao longo dos anos, me domesticar. Inútil. Sou indomada, não aceito arreio. A mão dura da conquista não me subjuga. Sou arisca, sou veloz e sou agressiva também. Ao menor sinal de cabresto eu empino, e se tentam o laço eu mordo e coiceio. A mão do afago e da paciência, por outro lado, me acalma. A nobreza e a força me atraem, a doçura me conquista, mas sempre quis os três, juntos. Não achando, caminhei sozinha.

    Segui sendo de um equilíbrio delicado, instável, que se desfaz e se recompõe como os caleidoscópios. Doía, às vezes, ser quem sou, me perguntava se algum dia alguém viria ao meu encontro sem me examinar como a um carro usado, procurando defeitos, antigas batidas, razões para reduzir o preço da compra…  Doía, porque não sabia se, mesmo diante do parceiro mais perfeito, eu saberia deixar de ser sozinha para ser um par.

    Eis que chega o momento da entrega, o momento que eu imaginava com um pouco de tremor, e não, não há nada a temer. Ele existe, é nobre, é doce, passou por tantos lugares terríveis quanto eu, talvez lugares ainda mais escuros e assustadores. Ele é forte, mas em vez do arreio, ele me oferece a mão. Mão que eu posso deixar um instante para investigar algo ali adiante e depois retornar, segura de que espera por mim. Ele destila minha doçura e estimula minha docilidade, justamente porque ama minha força.

    Agora é dele, é para ele, é por ele, cada batimento do meu coração.

  • Trajetos

    Date: 2016.12.12 | Category: Asas de Borboleta, Olhares, vida interior | Response: 0

    Desperto. Antes mesmo de abrir os olhos, sinto o peso do gato na perna. Como durmo de lado, geralmente virada para o lado direito, ao abrir os olhos vejo a janela do quarto e a estante logo abaixo dela, que guarda meu CD player e meus CDs. Passeio os olhos sonados pelas lombadas das capas, pensando se vale a pena colocar um para tocar, mas as playlists no computador me tornaram preguiçosa.

    Viro de costas e o gato já sai correndo do quarto, prevendo a refeição que virá. Aos pés da cama, o armário, marfim e azul. Gosto deste tom de azul, um pouco mais acinzentado que o azul céu, mas claro o suficiente para ser repousante. Espreguiço e alongo, coisa que nunca mais deixei de fazer desde a terapia com RPG. É um ritual gostoso, meio felino, este de esticar.

    Levanto. Ao lado da cama a bancada do computador e, perto da porta, meu oratório. Faço minhas orações da manhã, geralmente breves, porque há miados insistentes vindos da sala. A caminho do banheiro para outro ritual matinal, saúdo silenciosamente as fotos de família e os livros da estante do corredor. Da porta do banheiro, vejo os quatro gatos espalhados pelas cadeiras da sala, esperando atentos. Lavo o rosto e termino de despertar. Hora do café.

    Faço o trajeto do corredor até a cozinha com escolta felina, dezesseis patinhas seguindo meus pés. Chego à pia e eles se posicionam: uma no banco, outra na prateleira, os dois machos na porta da sala. No caminho, claro, de quem quer colocar a mesa do café. Antes de tentar, desisto, e dou aos gatos o desjejum primeiro. Depois de quinze minutos de atividade frenética, posso finalmente sentir o prazer do cheiro de café sendo coado, arrumar a mesa e tomar uma caneca fumegante.

    Geralmente não compro pão de manhã, sempre tenho algum estoque congelado. Isso me dá tempo de contemplar, sentada à mesa, a vista que tenho da janela, misto de bonita, com um pedaço enorme de céu e as árvores, e feia, suja pelos postes, fios e prédios de arquitetura duvidosa. O sol da manhã carioca costuma ser forte, e o céu muito azul, as tempestades são vespertinas.  A passarada da Floresta da Tijuca sempre visita – as maritacas passam em bando aos gritos, os bem-te-vis discutem a relação nos fios de alta-tensão. Um deles, gorducho e folgado, gosta de pousar no meu aparelho de ar-condicionado e provocar os gatos; se eu levanto e me aproximo, voa rápido dali.

    Depois determinar a segunda caneca de café, é hora de colocar a vida para rodar. Recolho a louça do café até a pia, arrumo o que tenho de arrumar, limpo o que tenho de limpar, sento ao computador para trabalhar.  A minha rua geralmente não me dá bom dia, só um boa tarde meio ofendido pela falta de atenção matutina. Mas é uma rua que eu gosto, muito arborizada, antiga, às vezes o paralelepípedo aponta debaixo de um buraco no asfalto. É uma rua que mostra as gerações todas da Tijuca, com casas centenárias e prédios recém-construídos.

    Descendo a rua em direção à rua principal, cumprimento sempre com o olhar a Casa de Maria Thereza. Esta, ao menos, é a informação em relevo (enquanto escrevo, não consigo lembrar se baixo ou alto), logo abaixo do beiral do telhado, junto com o ano 1914. A casa tem uma fachada estreita, mas como os terrenos na minha rua são fundos, pode parecer menor do que realmente é. É linda como uma casa de contos de fada, branca, varanda com pilares de pedra, as telhas antigas com múltiplas cores, um arbusto profusamente florido tombando por cima do muro alto, concessão da modernidade. Eu sempre me pergunto se aquela mensagem na alvenaria é uma homenagem de um marido amoroso, de um amante, de um filho saudoso, ou se havia ali algum tipo de lar assistencial num passado remoto. Namoro a casa e sigo adiante, porque a vida não espera a gente contemplar.

    Chega o fim da rua, que é uma pequena amostra do que é morar no Rio. De um lado, o comerciante português e sua delicatessen. Do outro, o coreano com sua lanchonete. Em frente, do outro lado da rua principal, o clube judaico. Uns passos adiante, a imensa igreja do tempo do império. Ao lado do marco histórico, a saída (porque saída, se vou entrar? me pergunto sempre) do metrô.

    E desce depressa, que o tempo não para nem espera.

  • Manifesto Anti-Feminista

    Date: 2016.12.03 | Category: alegria, amor, encantamento | Response: 0

    clarisse_e_os_homens

     

    “O homem. Como o homem é simpático. Ainda bem. O homem é nossa fonte de inspiração? É. O homem é nosso desafio? É. O homem é nosso inimigo? É. O homem é nosso rival estimulante? É. O homem é o nosso igual ao mesmo tempo inteiramente diferente? É. O homem é bonito? É. O homem é engraçado? É. O homem é um menino? É. O homem é também um pai? É. Nós brigamos com o homem? Brigamos. Nós não podemos passar sem o homem com quem brigamos? Não. Nós somos interessantes porque o homem gosta de mulher interessante? Somos. O homem é a pessoa com quem temos o diálogo mais importante? É. O homem é um chato? Também. Nós gostamos de ser chateadas pelo homem? Gostamos.

    Poderia continuar com esta lista interminável até meu diretor mandar parar. Mas acho que ninguém mais me mandaria parar. Pois penso que toquei num ponto nevrálgico, como o homem nos dói. E como a mulher dói no homem.” (LISPECTOR, Clarisse, A Descoberta do Mundo, p.30; Editora Rocco, RJ, 1999)

     

    Clarisse é Clarisse. Ela tem o olho clínico para tocar nestes pontos nevrálgicos. O homem. Esta criatura tão parecida comigo e tão diferente. Esse decifra-me ou te devoro ao qual a gente se entrega sem medo. Ou com muito, muito medo. Com alegria e com raiva e com tanta ternura. Aquele abraço, aquele aconchego, aquele olhar crítico e aquela fala sem dó. O martelo do meu cinzel, aquele que me impele. E que me trava também. O piso e o teto das minhas paredes.

    Como viver com ele é quase tão difícil de descobrir quanto como viver sem ele. Como se cuida de um homem sem se tornar sua mãe, e como deixar que ela a proteja sem se tornar sua filha? Como administrar esta diferença entre pares? Como caminhar junto sem fazer o outro tropeçar?

    O que sei é que é o homem que me define, da mesma forma que é a mulher que define o homem. É uma magia, é um milagre, é uma luta diária. É este chiaroscuro que coloca a vida em foco. Não consigo e não quero imaginar uma vida sem homens, ou com homens emasculados, que deixaram de ser aquilo que são.
    Definitivamente, não sou uma feminista.

  • Perpetuum Mobile

    Date: 2016.11.29 | Category: alegria, amizade, amor, contos, encantamento | Response: 0

    Ele era alto, corpulento. Quem o visse numa foto, barbudo e com um ar feroz, pensaria logo na expressão “voz de trovão”, mas ele era um homem gentil, de voz suave e bem modulada. Seu fogo era profundo, como o magma, só terremotos agitavam a casca de serenidade com força suficiente para fazê-lo entrar em erupção. Bagunceiro confesso, a mente sempre tentando escapar do corpo num devaneio. Amava os livros com paixão.

    Ela era de estatura mediana, curvas fartas, sorriso fácil. Adorava conversar. Muitos amigos, e ela os adorava, mas não era gregária. Multidões a incomodavam. Era uma gata. Como todo felino havia que ter seu momento de solitude, geralmente de madrugada, acompanhada da lua. Organizada e metódica, os potes de tempero da cozinha cuidadosamente etiquetados, as panelas arrumadas por tamanho, nas gavetas as roupas organizadas por cor. Amava livros com paixão.

    Pois livros têm esta característica de juntar. E eles se juntaram pelos livros, pelas letras, pelas palavras. Ficaram juntos pelas conversas, pelos filmes, pelas ideias. Os papos foram ficando mais longos, a vontade de se ver maior. Mas eles tinham esta polaridade estranha: a bagunça dele, a organização dela.

    A bagunça estava lá, perene, impossível de erradicar; o objeto imexível. A organização avançava em ondas, era o mar batendo naquele rochedo do caos; a força irresistível. Como todo o paradoxo, a tensão causa a paralisia. Nem o rochedo bloqueava o mar, nem o mar derrubava o rochedo.  E assim viviam, num moto-contínuo.

    Foram encontrados, de pé, imóveis, segurando a mesma lata de desodorante, em frente à prateleira de artigos de higiene bucal do supermercado. Meses depois, ainda agarrados à lata, ninguém sabe dizer se eles estão mortos ou não.

     

     

     

  • O Resumo da Ópera Trágica que Vivemos

    Date: 2016.03.25 | Category: luta, pai | Response: 0

    Lá em 1500, um certo fidalgo Pero Vaz de Caminha foi enviado, a mando do Rei de Portugal, com o navegador Pedro Alvares Cabral para averiguar se havia algo a ser explorado nestas plagas. Descobriu-se que sim, havia muito a ser explorado em riquezas naturais — minerais e vegetais. Assim se fez.

    Durante séculos praticamente só isso se fez, até que Dom João VI pegou sua família e amigos e para cá veio ligeiro, fugido de Napoleão. Chegando aqui, descobriu que nada havia sido urbanizado, não havia sequer um abrigo decente para sua nobre família. Então, no início do século dezenove, começou o desenvolvimento do Brasil em que hoje vivemos.

    Devagarinho, porque estas coisas são lentas, o povo brasileiro descobriu que tem amor pelos azulejos portugueses, pelas igrejas barrocas, pelas frutas tropicais, pelos ritmos africanos, pela comida nativa. Descobrimos que o tempo quente aquece nosso coração junto com nossas paixões, e esse calor acolhedor trouxe gente de toda parte para cá. Desde o próprio Portugal e da Espanha até o Líbano e Israel; Coréia, Itália e Japão, todos aqui recebem um sorriso de boas vindas.

    Infelizmente, os séculos de abandono se fizeram notar num descomprometimento da classe mais abastada (de origem portuguesa) que aqui morava, que preferia mandar seus filhos estudarem em Lisboa, Porto ou Paris que construir Universidades aqui. Nenhum amor pareciam ter pela terra que os abrigava, sempre suspirando pela Europa que deixaram para trás. Fizeram uma triste escola entre membros de todos os estratos da sociedade, que aprenderam que a coisa pública é “terra de ninguém” a ser usada e abusada de acordo com a vontade volátil do momento.

    Este governo — que agora tentamos tirar do poder legitimamente, com a mesma autoridade com que o colocamos lá — levou esta falta de amor por nossa terra, e a exploração de suas riquezas, a níveis quase lendários. Apropriou-se da coisa pública e do dinheiro de nossos impostos e do trabalho de nossos funcionários públicos como o mais ferrenho senhor de escravos.

    Só que a escravidão do povo brasileiro serve hoje não a um senhor de engenho, mas a uma organização chamada Foro de São Paulo, que tem como intenção declarada acabar com a soberania dos países da América Latina e formar um bloco socialista – à força, por meio de matança se preciso for, com o apoio de ladrões, traficantes e assassinos, como o habitual deste tipo de governo totalitarista — com um governo central, que chamam de La Patria Grande, sob o comando dos irmãos ditadores de Cuba.

    O POVO BRASILEIRO NÃO QUER ISTO. DE JEITO NENHUM, SOB NENHUM ASPECTO. Se for necessário, damos as nossas vidas, para que as futuras gerações sejam livres. É isto o que acontece aqui agora.

  • Rabiscos

    Date: 2016.01.19 | Category: Asas de Borboleta, contos | Response: 0

    Miriam não se considerava escritora, ela rabiscava. Tinha sempre na bolsa um bloco de papel de onde tirava papeluchos para escrever pequenas notas — no ônibus, no metrô,  na recepção do consultório do dentista, no salão de cabeleireiro. Qualquer coisinha que chamasse a atenção merecia uma anotação num pedacinho de papel.  Chegando em casa, retirava da bolsa aqueles papeizinhos amassados e os colocava mais ou menos organizados numa caixa de papelão que viera com um antigo presente de aniversário.

    Logo, precisou comprar uma caixa maior, depois duas. Já estava na terceira caixa. Os amigos, curiosos, queriam saber o que tinha escrito lá.  “Cacos”, ela respondia. A resposta não satisfazia, e a curiosidade não satisfeita virou pressão. “Quando você vai nos mostrar o que tem lá?” “A gente quer ver, oras, que bobagem esconder!” Um dia, cansada do assédio constante,  pegou três papeizinhos, um de cada caixa, e os apresentou numa reunião de amigos. Não queriam ler? Pois ali estava.

    Os rabiscos de Miriam passaram de mão em mão, por toda a sala. O silêncio foi aumentando. Aumentando e se alongando. Finalmente, o melhor amigo de Marisa disse, resumindo o que parecia ser o sentimento de todos:”Não entendi.”

    “É por isso que não mostro.” respondeu Miriam. Sem mais, recolheu os três papeluchos e os retornou às suas caixas.

    No dia seguinte, um domingo, ela saiu de manhã bem cedo com sua cachorrinha Menina, uma cesta de lanche e as três caixas.  Levou Menina de carro até a Floresta da Tijuca, sentou num lugar sossegado e tirou as caixas da sacola. Um por um, ela leu em voz alta para Menina todos os rabiscos. Menina escutava atenta, aqueles olhos de mel cheios de amor pela dona.

    Miriam lia, sorria e perguntava: “Que tal?” Menina sacudia a cabeça para um lado ou para o outro, tentando entender o que a dona queria. Se fosse para a direita, Mariana fazia pequenos barquinhos de papel e colocava de volta na caixa, se para a esquerda, ela picotava em pedacinhos e colocava na outra caixa. Se não houvesse reação, ela fazia bolinhas e guardava na terceira caixa. Logo Menina desinteressou-se da brincadeira, aliviou-se numa árvore e deitou-se aos pés de Miriam para roer seu brinquedo favorito.  A dona passou então a ler para si mesma e metodicamente produzir barquinhos, picotes e bolinhas.

    Já era tardinha quando Miriam acabou a leitura. O lanche consumido, Menina alimentada e dormitando na grama fresca. Alguns passarinhos, atraídos pelo som ritmado da leitura, levantaram vôo e foram procurar o que fazer.  Miriam pegou as caixas e procurou uma mangueira centenária. Com a ajuda de uma ferramenta pega na mala do carro, cavou um buraco fundo  ao lado da raiz grossa, com a ajuda entusiasmada de Menina. Ali deitou todas as bolinhas e tornou a cobrir o buraco com a terra remexida.  Menina queria cavar de novo, mas Miriam a levou de volta para o carro.

    Parou na entrada do Parque Nacional da Tijuca, na área das churrasqueiras. Lá, escolheu uma que ainda estava incandescente da farra domingueira dos frequentadores do parque e queimou os picotes.  As duas caixas vazias ela deixou na área de lixo reciclável do parque. Partiu na direção da Barra.

    O final de tarde estava lindo, a brisa agradável, o mar meio agitado. Trancando o carro, levou menina e a última caixa para a areia. Logo, uma frota de barquinhos de  papel navegava rumo a alto mar. A caixa vazia voltou para o carro cheia de pedaços de conchinhas. Pelo visto, pensou com um sorriso torto, continuo colecionando cacos. Voltou para casa com a cachorrinha profundamente adormecida no banco de trás, tirou definitivamente o bloquinho da bolsa e ligou o computador.

    Naquele mesmo ano, lançou seu primeiro livro.

     

     

  • Finados

    Date: 2015.11.02 | Category: espírito, mãe, pai, saudade, vida interior | Response: 0

    Hoje é dia de lembrar, e eu estou lembrando. De mãos. Mãos. Eu não sei se muitos adultos param para pensar que tudo para a criança é muito alto, muito grande, muito largo, então ela vê as coisas em pedaços. Pelo menos, assim era comigo.Uma das minhas lembranças mais antigas era de adultos conversando enquanto eu enxergava muitas pernas, minha visão passando muito pouco da altura daqueles joelhos.

    Mãos. Mãos são pequenas o suficiente para uma criança observar. Lembro das minhas queridas mãos. As mãos de minha avó, pintadinhas de idade, rezando o terço, eu deitada em seu regaço esperando o fim da reza e mais uma história de Pedro Malasartes antes de receber minha bênção e dormir. As mãos da irmã de minha avó, deformadas pelo reumatismo, mas ainda ágeis para costurar roupinhas para minhas bonecas, brincar de massinha, me chamar para enrolar rosquinhas de polvilho e fazer o doce de laranja mais gostoso que eu já provei. A eterna disponibilidade daquelas mãos.

    As mãos da minha tia acendendo a lamparina diante da imagem da virgem sobre sua cômoda. Mãos de professora, girando o mimeógrafo e deixando a casa com cheiro de álcool, datilografando e me deixando datilografar em sua máquina portátil, me interessando pelas letras antes mesmo que eu aprendesse a ler. Mãos finas e muito brancas, as mãos de professora de minha tia. As mãos tão bonitas de minha mãe, sempre de unhas pintadas e tão cheirosas que o ritual de dormir da Malu-bebê incluía cheirar seus dedos, e só os seus. Nenhum outro servia.

    As mãos de meu pai… muitos momentos eu olhei aquelas mãos fazendo coisas. O cigarro era seu eterno companheiro. Eu as observava fumando, dirigindo, escrevendo, limpando as peças de carne do churrasco, me ensinando a fazer pequenos consertos pela casa. A última coisa que ele fez em vida, na ambulância que o levou pela última vez ao hospital, foi me estender a mão e me soprar um beijo. Na minha alma ainda seguro firme na minha a mão do meu pai.

    Mãos que me guiaram pela vida, me mostrando o que fazer e o que não fazer. Me apoiaram, me ensinaram a andar, a escrever, a fazer crochê, a costurar e a cozinhar. Principalmente mãos que me amaram. Hoje é o dia de lembrar delas, de pedir a Deus que estenda suas mãos misericordiosas em direção às minhas queridas mãos, e as mantenha na graça. Que nenhuma delas se solte, Senhor.

  • A Caminho de Casa

    Date: 2014.04.26 | Category: contos, plantas, vida interior | Response: 0

    Ele pegava o metrô para o trabalho todos os dias. Sempre pelo mesmo caminho, ida e volta, passando por aquela figueira imensa, barbuda e sombria, a um quarteirão de casa. Era, para ele, um eterno desagrado aquela árvore; na ida o símbolo do desencanto com o trabalho que não gostava, na volta o marco do cansaço, o ponto onde ele sempre suspirava e pensava “mais um quarteirão e estou em casa”.

    Era uma árvore centenária e mal-humorada, se é que árvores têm humor. Sombria, escura, parecia saída de um pântano de filme de terror, as grossas raízes tomando conta da calçada, as folhas verde-escuras tapando o sol acima, as folhas amarelas e caídas atrapalhando o passo abaixo. Todo dia, duas vezes por dia, ele a olhava descontente, quase tão soturno quanto ela, e se cruzavam com um grunhido e um farfalhar de asas – porque os pássaros da região pareciam não compartilhar da má impressão que ele tinha daquela árvore, e nela construíam ninhos, tranquilas e satisfeitas. Mas, para que haja uma história é preciso que algo aconteça, e aconteceu.

    O Rio tem as suas tempestades, e naquele dia teve uma delas — das grandes, cheias de ventos, raios e inundações. A esposa já ligara durante a tarde, avisando que tomasse cuidado na volta, as ruas estavam alagadas. Ele saiu do escritório no Centro, antevendo a corrida de obstáculos habitual dos cariocas nos dias de chuva: pulando poças e disputando marquises enquanto duelavam com seus guarda-chuvas. Sem muitos problemas chegou no metrô, e suportou conformado o empurra-empurra da hora do rush. Um assento finalmente vagou para ele na última estação antes da sua, mas ele o ignorou – o curto tempo que sentaria só teria o efeito de amaciar o corpo e tornar a corrida até em casa mais sacrificada no meio da chuva.

    Aliviado descobriu que já não chovia na sua vizinhança, o vento havia levado as nuvens pesadas para o outro lado do morro (sempre há um morro à vista nesta cidade, pensou ele meio sem saber porquê). Fechou o guarda-chuva e observou da saída da estação se seria um trajeto penoso, se valia a pena fumar um cigarro e esperar os outros passageiros dispersarem. Com um olhar rápido percebeu que a água do chão já secava, aumentando a umidade do ar e a sensação de calor. Decidiu guardar o cigarro para fumar na janela de casa.

    No caminho de volta, a surpresa: uma equipe do Departamento de Parques e Jardins trabalhava diligentemente para remover a figueira, que caíra durante a tempestade. Ele parou um instante para olhar os trabalhos, sem saber se a árvore caíra pela força da chuva e do vento ou apenas por puro cansaço de viver. Talvez, ele pensou com um riso curto, ela tenha se suicidado por pura maldade, apenas para derrubar espetacularmente os três postes que ele via no chão, até que o riso se transformou em gemido, ao pensar nos lances de escada que teria de subir se o prédio estivesse sem luz.

    Desistiu de olhar os funcionários da prefeitura recortarem o tronco caído da árvore morta e terminou o trajeto até sua casa, tornado um pouco mais longo e difícil pelas escadas que foi realmente obrigado a subir. Escutou o relato da esposa, irritada pelas quase 12 horas sem energia, desistiu totalmente do cigarro (estava mesmo tentando parar) e tomou seu banho à luz de velas antes de deitar. Tanto melhor a falta de luz, pois assim ele dormia mais tempo sem assistir aos noticiários deprimentes da TV.

    Dormir cedo fez com quem ele acordasse antes do despertador e da esposa, coisa rara para quem se arrastava a contragosto para fora da cama toda manhã. Resolveu que o cigarro adiado de ontem podia ser fumado esta manhã, antes que a mulher acordasse para reclamar do cheiro. Pegou o maço, o isqueiro, o cinzeiro e apoiou os cotovelos no peitoril da janela da cozinha. Foi aí que ele viu o buraco.

    A paisagem da janela estava drasticamente alterada pela ausência daquela árvore. Inesperadamente, sentiu aquele vazio dentro do peito também. Sozinho e de cigarro na mão, enfrentou a realidade que as coisas MORREM mesmo, quando chega a hora, mesmo figueiras centenárias. E a morte é uma coisa boa, que tem o seu papel. Tudo o que vive mais que deveria — e isto às vezes acontece — se transforma em fonte de aborrecimento e desgosto. A figueira partira e sua partida abrira um pedaço de céu que não existia antes na sua janela.

    Terminou o cigarro e acendeu mais um, recebendo da esposa já desperta uma caneca de café forte e quente, e um resmungado “mas você não tinha parado de fumar?” Ele sorriu e disse “verdade” enquanto apagava o cigarro. Talvez fosse mesmo o último, subir as escadas ontem o deixou totalmente sem ar. Voltou a olhar a janela, enquanto tomava a bebida fumegante da caneca. Escutava atrás de si as idas e vindas da mulher arrumando a mesa do café da manhã; sorvia sua bebida e olhava para fora, pensando no buraco de céu onde antes havia uma figueira. A mulher, já tomando seu próprio café sentada à mesa, avisou que ele estava se atrasando para o trabalho.

    Pousou a caneca na pia.

    Saiu da cozinha traçando uma linha reta até o telefone.

    Discou o número que sabia de cor, depois de tanto tempo.

    O sinal de chamada tocou uma vez, tocou duas.

    “Alô. Escritório de advocacia, bom dia.”

    “Maurício, sou eu.”

    “Fala rapaz! Não vem trabalhar hoje?”

    “Não vou trabalhar mais. Eu me demito.”

    “Ahn!?”

    “_”

    Ao sentar diante da esposa de queixo caído, pensou na modernidade e como era anticlimático não colocar com firmeza o telefone no gancho… Aquele CLICK fazia falta. Nem tudo precisava morrer, afinal… Com um sorriso maroto e aliviado, pediu à mulher estupefata:

    – Me passa a manteiga, por favor.

  • A Rosa e os Espinhos

    Date: 2014.04.14 | Category: amor, espírito, vida interior | Response: 2

    Ela andara só por toda a vida. Como nunca tivera o que verdadeiramente chamar de seu e nunca realizara o destino que desejara para si, ela cobiçava. Cobiçava o destino alheio. Assim é a vida… Quando por muito tempo o caminho trilhado é só, nos parece que só resta espiar, maravilhado e faminto, aqueles caminhos que são compartilhados – daqueles que tiveram a chance do amor verde, tenro e frutificado. Companhia, por isso, parecia a ela o maior dos tesouros. Nunca lhe viera fácil companhia de qualquer tipo. Era simples saber o porquê: nunca fora mansa, não era mansa e duvidava de um dia vir a ser mansa.

    Desde cedo só, testando forças e resistências sem apoio e sem ajuda, percorrera a maior parte do caminho em companhia apenas do vento e de seus pensamentos. Aprendera a solidão e a solidão a fortalecera, pois as dificuldades da vida, quando acompanhadas da solidão, quebram ou fortalecem. Ela certamente se fortalecera, e não só isso. Ela se mantivera isolada, indomada e altiva, cavalo selvagem e livre que não aceita arreio, com o temperamento afogueado e guerreiro como o dos melhores puro-sangue. O fogo e a força a mantinham trilhando, confiante, os caminhos difíceis demais para os mais fracos.

    Mas era preciosa a companhia. Ela a queria. A cada sinal da possibilidade de encontro – que ela sempre desejara livre, forte, afogueado e intenso como ela – ela parava. Muitas e muitas vezes ela se perguntara se era Ele quem chegava, aquele que andaria parelho com nela no seu passo veloz, sem tentar frear a velocidade ou fugir do desafio. Aquele que ela sabia ser tão forte quanto ela (ou mais, mais forte, desejava ela), mas que não utilizasse esta força para coagir ou impedir. Este seria o amor que a impeliria a enfrentar caminhos ainda mais únicos, mais difíceis e ermos, mais cheios de realização pessoal. Era Ele quem traria, por contraste e complemento, aquilo de melhor que ela era.

    Sempre, no entanto, a miragem se desfazia em algum momento, e ela via que, em vez dEle, havia um potro jovem pedindo proteção, um manso jumento que não tinha a menor idéia do que fazer com ela além de admirá-la, às vezes até um pangaré que à distância parecia mais do que era.Ela suspirava e olhava em volta, perguntando ao vento onde Ele estava, antes de partir mais uma vez num caminho só. O vento jamais lhe respondera.

    Tudo isso a tornara arisca. Exposta a muitos perigos sozinha, algumas vezes tomada de assalto e largada na beira da estrada quebrada e ferida, ela se erguia, uma vez e mais uma vez e mais uma outra ainda, para com um suspiro cansado voltar a carregar seus tesouros e suas chagas na esperança de poder depositá-los um dia, aliviada, aos pés dEle. Como ela percebia intensa a cura de saber que a grande distância que a levaria até Ele seria a mesma, até menor que o caminho que Ele percorrera. Que felicidade seria passear pela primeira vez nos amplos salões de uma vida que não foi projetada a dois, mas que foi preparada para este encontro. Óleos perfumados, presentes mútuos, jardins murados e alcovas secretas, tudo há muito guardado para este momento. Ela cobiçava, andava e meio impaciente esperava.

    Aos poucos a impaciência virava serenidade, a cobiça virava contemplação, e ela percebia que não, apesar de ser preciosa, a companhia não era a coisa mais preciosa que havia. Havia algo maior.

    Dentro de seu coração sem porteira e sem barreira, dentro de sua alma sem casca e sem proteção, lá no interior de sua morada havia um anjo com espada flamejante protegendo a entrada de um jardim vazio a não ser por um único banco de pedra; pairando sobre este jardim havia um coração em fogo coroado de espinhos que gotejava lentamente um sangue rubro e vivo, que regava uma única rosa rubra e viva que crescia por trás do banco, no meio de um imenso arbusto de espinhos. Ela senta no banco de pedra, finalmente entronizada em si mesma e n’Aquele que realmente importava mais que sua altivez, que sua força, que sua liberdade. Vagarosamente o arbusto de espinhos cresce e toma conta de todo o jardim, dificultando até mesmo a visão do anjo lá fora.

    Ao deitar no banco de pedra surpreendentemente confortável e acolhedor, e adormecer junto à sua rosa rubra, presente do grande coração de seu Mestre e verdadeiro amor de sua vida, ela suspira baixinho: Senhor, fico convosco; se Ele ainda vem, então que me busque aqui.

  • Oi!

    Date: 2014.04.10 | Category: alegria, Asas de Borboleta | Response: 4

    Já fiz isso umas tantas vezes ao longo do tempo em que este blog existe.  Chegar de mansinho, tirar a poeira, jogar fora as flores mortas, arrumar tudo bem bonitinho e chamar vocês todos de volta para minha casa.  Nunca demorei tanto, mas estou de volta. Que seja uma coisa boa, este voltar.

    Bem vindos ao Asa de Borboleta versão 2014. 🙂

Tópicos recentes

Comentários

Arquivos

Categorias

Meta