Archive for the ‘contos’ Category

  • Perpetuum Mobile

    Date: 2016.11.29 | Category: alegria, amizade, amor, contos, encantamento | Response: 0

    Ele era alto, corpulento. Quem o visse numa foto, barbudo e com um ar feroz, pensaria logo na expressão “voz de trovão”, mas ele era um homem gentil, de voz suave e bem modulada. Seu fogo era profundo, como o magma, só terremotos agitavam a casca de serenidade com força suficiente para fazê-lo entrar em erupção. Bagunceiro confesso, a mente sempre tentando escapar do corpo num devaneio. Amava os livros com paixão.

    Ela era de estatura mediana, curvas fartas, sorriso fácil. Adorava conversar. Muitos amigos, e ela os adorava, mas não era gregária. Multidões a incomodavam. Era uma gata. Como todo felino havia que ter seu momento de solitude, geralmente de madrugada, acompanhada da lua. Organizada e metódica, os potes de tempero da cozinha cuidadosamente etiquetados, as panelas arrumadas por tamanho, nas gavetas as roupas organizadas por cor. Amava livros com paixão.

    Pois livros têm esta característica de juntar. E eles se juntaram pelos livros, pelas letras, pelas palavras. Ficaram juntos pelas conversas, pelos filmes, pelas ideias. Os papos foram ficando mais longos, a vontade de se ver maior. Mas eles tinham esta polaridade estranha: a bagunça dele, a organização dela.

    A bagunça estava lá, perene, impossível de erradicar; o objeto imexível. A organização avançava em ondas, era o mar batendo naquele rochedo do caos; a força irresistível. Como todo o paradoxo, a tensão causa a paralisia. Nem o rochedo bloqueava o mar, nem o mar derrubava o rochedo.  E assim viviam, num moto-contínuo.

    Foram encontrados, de pé, imóveis, segurando a mesma lata de desodorante, em frente à prateleira de artigos de higiene bucal do supermercado. Meses depois, ainda agarrados à lata, ninguém sabe dizer se eles estão mortos ou não.

     

     

     

  • Rabiscos

    Date: 2016.01.19 | Category: Asas de Borboleta, contos | Response: 0

    Miriam não se considerava escritora, ela rabiscava. Tinha sempre na bolsa um bloco de papel de onde tirava papeluchos para escrever pequenas notas — no ônibus, no metrô,  na recepção do consultório do dentista, no salão de cabeleireiro. Qualquer coisinha que chamasse a atenção merecia uma anotação num pedacinho de papel.  Chegando em casa, retirava da bolsa aqueles papeizinhos amassados e os colocava mais ou menos organizados numa caixa de papelão que viera com um antigo presente de aniversário.

    Logo, precisou comprar uma caixa maior, depois duas. Já estava na terceira caixa. Os amigos, curiosos, queriam saber o que tinha escrito lá.  “Cacos”, ela respondia. A resposta não satisfazia, e a curiosidade não satisfeita virou pressão. “Quando você vai nos mostrar o que tem lá?” “A gente quer ver, oras, que bobagem esconder!” Um dia, cansada do assédio constante,  pegou três papeizinhos, um de cada caixa, e os apresentou numa reunião de amigos. Não queriam ler? Pois ali estava.

    Os rabiscos de Miriam passaram de mão em mão, por toda a sala. O silêncio foi aumentando. Aumentando e se alongando. Finalmente, o melhor amigo de Marisa disse, resumindo o que parecia ser o sentimento de todos:”Não entendi.”

    “É por isso que não mostro.” respondeu Miriam. Sem mais, recolheu os três papeluchos e os retornou às suas caixas.

    No dia seguinte, um domingo, ela saiu de manhã bem cedo com sua cachorrinha Menina, uma cesta de lanche e as três caixas.  Levou Menina de carro até a Floresta da Tijuca, sentou num lugar sossegado e tirou as caixas da sacola. Um por um, ela leu em voz alta para Menina todos os rabiscos. Menina escutava atenta, aqueles olhos de mel cheios de amor pela dona.

    Miriam lia, sorria e perguntava: “Que tal?” Menina sacudia a cabeça para um lado ou para o outro, tentando entender o que a dona queria. Se fosse para a direita, Mariana fazia pequenos barquinhos de papel e colocava de volta na caixa, se para a esquerda, ela picotava em pedacinhos e colocava na outra caixa. Se não houvesse reação, ela fazia bolinhas e guardava na terceira caixa. Logo Menina desinteressou-se da brincadeira, aliviou-se numa árvore e deitou-se aos pés de Miriam para roer seu brinquedo favorito.  A dona passou então a ler para si mesma e metodicamente produzir barquinhos, picotes e bolinhas.

    Já era tardinha quando Miriam acabou a leitura. O lanche consumido, Menina alimentada e dormitando na grama fresca. Alguns passarinhos, atraídos pelo som ritmado da leitura, levantaram vôo e foram procurar o que fazer.  Miriam pegou as caixas e procurou uma mangueira centenária. Com a ajuda de uma ferramenta pega na mala do carro, cavou um buraco fundo  ao lado da raiz grossa, com a ajuda entusiasmada de Menina. Ali deitou todas as bolinhas e tornou a cobrir o buraco com a terra remexida.  Menina queria cavar de novo, mas Miriam a levou de volta para o carro.

    Parou na entrada do Parque Nacional da Tijuca, na área das churrasqueiras. Lá, escolheu uma que ainda estava incandescente da farra domingueira dos frequentadores do parque e queimou os picotes.  As duas caixas vazias ela deixou na área de lixo reciclável do parque. Partiu na direção da Barra.

    O final de tarde estava lindo, a brisa agradável, o mar meio agitado. Trancando o carro, levou menina e a última caixa para a areia. Logo, uma frota de barquinhos de  papel navegava rumo a alto mar. A caixa vazia voltou para o carro cheia de pedaços de conchinhas. Pelo visto, pensou com um sorriso torto, continuo colecionando cacos. Voltou para casa com a cachorrinha profundamente adormecida no banco de trás, tirou definitivamente o bloquinho da bolsa e ligou o computador.

    Naquele mesmo ano, lançou seu primeiro livro.

     

     

  • A Caminho de Casa

    Date: 2014.04.26 | Category: contos, plantas, vida interior | Response: 0

    Ele pegava o metrô para o trabalho todos os dias. Sempre pelo mesmo caminho, ida e volta, passando por aquela figueira imensa, barbuda e sombria, a um quarteirão de casa. Era, para ele, um eterno desagrado aquela árvore; na ida o símbolo do desencanto com o trabalho que não gostava, na volta o marco do cansaço, o ponto onde ele sempre suspirava e pensava “mais um quarteirão e estou em casa”.

    Era uma árvore centenária e mal-humorada, se é que árvores têm humor. Sombria, escura, parecia saída de um pântano de filme de terror, as grossas raízes tomando conta da calçada, as folhas verde-escuras tapando o sol acima, as folhas amarelas e caídas atrapalhando o passo abaixo. Todo dia, duas vezes por dia, ele a olhava descontente, quase tão soturno quanto ela, e se cruzavam com um grunhido e um farfalhar de asas – porque os pássaros da região pareciam não compartilhar da má impressão que ele tinha daquela árvore, e nela construíam ninhos, tranquilas e satisfeitas. Mas, para que haja uma história é preciso que algo aconteça, e aconteceu.

    O Rio tem as suas tempestades, e naquele dia teve uma delas — das grandes, cheias de ventos, raios e inundações. A esposa já ligara durante a tarde, avisando que tomasse cuidado na volta, as ruas estavam alagadas. Ele saiu do escritório no Centro, antevendo a corrida de obstáculos habitual dos cariocas nos dias de chuva: pulando poças e disputando marquises enquanto duelavam com seus guarda-chuvas. Sem muitos problemas chegou no metrô, e suportou conformado o empurra-empurra da hora do rush. Um assento finalmente vagou para ele na última estação antes da sua, mas ele o ignorou – o curto tempo que sentaria só teria o efeito de amaciar o corpo e tornar a corrida até em casa mais sacrificada no meio da chuva.

    Aliviado descobriu que já não chovia na sua vizinhança, o vento havia levado as nuvens pesadas para o outro lado do morro (sempre há um morro à vista nesta cidade, pensou ele meio sem saber porquê). Fechou o guarda-chuva e observou da saída da estação se seria um trajeto penoso, se valia a pena fumar um cigarro e esperar os outros passageiros dispersarem. Com um olhar rápido percebeu que a água do chão já secava, aumentando a umidade do ar e a sensação de calor. Decidiu guardar o cigarro para fumar na janela de casa.

    No caminho de volta, a surpresa: uma equipe do Departamento de Parques e Jardins trabalhava diligentemente para remover a figueira, que caíra durante a tempestade. Ele parou um instante para olhar os trabalhos, sem saber se a árvore caíra pela força da chuva e do vento ou apenas por puro cansaço de viver. Talvez, ele pensou com um riso curto, ela tenha se suicidado por pura maldade, apenas para derrubar espetacularmente os três postes que ele via no chão, até que o riso se transformou em gemido, ao pensar nos lances de escada que teria de subir se o prédio estivesse sem luz.

    Desistiu de olhar os funcionários da prefeitura recortarem o tronco caído da árvore morta e terminou o trajeto até sua casa, tornado um pouco mais longo e difícil pelas escadas que foi realmente obrigado a subir. Escutou o relato da esposa, irritada pelas quase 12 horas sem energia, desistiu totalmente do cigarro (estava mesmo tentando parar) e tomou seu banho à luz de velas antes de deitar. Tanto melhor a falta de luz, pois assim ele dormia mais tempo sem assistir aos noticiários deprimentes da TV.

    Dormir cedo fez com quem ele acordasse antes do despertador e da esposa, coisa rara para quem se arrastava a contragosto para fora da cama toda manhã. Resolveu que o cigarro adiado de ontem podia ser fumado esta manhã, antes que a mulher acordasse para reclamar do cheiro. Pegou o maço, o isqueiro, o cinzeiro e apoiou os cotovelos no peitoril da janela da cozinha. Foi aí que ele viu o buraco.

    A paisagem da janela estava drasticamente alterada pela ausência daquela árvore. Inesperadamente, sentiu aquele vazio dentro do peito também. Sozinho e de cigarro na mão, enfrentou a realidade que as coisas MORREM mesmo, quando chega a hora, mesmo figueiras centenárias. E a morte é uma coisa boa, que tem o seu papel. Tudo o que vive mais que deveria — e isto às vezes acontece — se transforma em fonte de aborrecimento e desgosto. A figueira partira e sua partida abrira um pedaço de céu que não existia antes na sua janela.

    Terminou o cigarro e acendeu mais um, recebendo da esposa já desperta uma caneca de café forte e quente, e um resmungado “mas você não tinha parado de fumar?” Ele sorriu e disse “verdade” enquanto apagava o cigarro. Talvez fosse mesmo o último, subir as escadas ontem o deixou totalmente sem ar. Voltou a olhar a janela, enquanto tomava a bebida fumegante da caneca. Escutava atrás de si as idas e vindas da mulher arrumando a mesa do café da manhã; sorvia sua bebida e olhava para fora, pensando no buraco de céu onde antes havia uma figueira. A mulher, já tomando seu próprio café sentada à mesa, avisou que ele estava se atrasando para o trabalho.

    Pousou a caneca na pia.

    Saiu da cozinha traçando uma linha reta até o telefone.

    Discou o número que sabia de cor, depois de tanto tempo.

    O sinal de chamada tocou uma vez, tocou duas.

    “Alô. Escritório de advocacia, bom dia.”

    “Maurício, sou eu.”

    “Fala rapaz! Não vem trabalhar hoje?”

    “Não vou trabalhar mais. Eu me demito.”

    “Ahn!?”

    “_”

    Ao sentar diante da esposa de queixo caído, pensou na modernidade e como era anticlimático não colocar com firmeza o telefone no gancho… Aquele CLICK fazia falta. Nem tudo precisava morrer, afinal… Com um sorriso maroto e aliviado, pediu à mulher estupefata:

    – Me passa a manteiga, por favor.

  • História sem Título

    Date: 2004.10.24 | Category: amor, Asas de Borboleta, contos | Response: 0

    “…so good on paper… so romantic… so bewildering…”

    No quarto ela arrumou as malas. Malas leves, o que ela levava com ela de mais precioso não pesava muito. O gosto do primeiro beijo na estação do metrô; o som da primeira vez que ele gemera seu nome; a textura da pele dele na sua mão; o cheiro de homem limpo nas suas narinas. Além disso, algumas roupas, as fantasias que vestira para fazê-lo feliz.

    “…I know nothing stays the same…”

    Saía sem deixar muitas pistas, não sobrara muito de concreto, o principal estava no coração. Deixou no travesseiro alguns fios de cabelo. No chão, ao pé da cama, um chinelo virado. Na maçaneta, um sutiã. Na pia do banheiro, um montinho de pasta de dente. Na sala, alguns CDs fora da caixa, com uma risada… ela sabia que ele ficava maluco com desordem. Mas, quem sabe desta vez, ele sorriria também, entendendo que ela precisava deixar alguma marca que estivera ali, mesmo sabendo que eram marcas fáceis de apagar.

    “…Down comes the rain, and washed the spider out…”

    Na cozinha, um copo na bancada, com um dedo de água dentro. O avental esticado em cima da pia, para lembrar as tantas vezes que ele a abraçara por trás enquanto cozinhava. Uma colher de pau largada sobre o fogão. No ímã da geladeira, em forma de borboleta, um bilhete preso que diz apenas: “fui”.

    “… I believe in love, now who knows where or when, but it’s coming around again…”

    Parada no umbral da porta aberta, ela olhou longamente para dentro do que fora o seu refúgio nestes anos em que ela amara com o desprendimento que só os amores impossíveis têm. E descobriu, não muito surpresa, que a dor da amputação daquele amor não era menor por desejar sinceramente que ele fosse feliz sem ela.

    “…itsy-bitsy spider climbs up the water sprout”

    Antes de fechar a porta pela última vez, considerou a possibilidade de tirar aquela música do repeat e desligar o som. Ele sempre era tão preocupado com curto-circuitos. Considerou a possibilidade por apenas alguns segundos, depois deu de ombros. Ele chegaria logo com sua nova menina. Seria uma maneira de quebrar o gelo, explicar porque ele deixava Carly Simon tocando num apartamento vazio. Como a concordar com ela, Carly canta naquele momento…

    “Don’t mind if I fall apart, there’s more room in a broken heart…”

    Nada mais a fazer, a não ser seguir a marcação da peça: exit stage, left. Bateu a porta com um ‘merda’ baixinho, sabendo de antemão que aquele aperto na garganta ia levar litros de lágrimas para passar.

    “It’s coming around again…”

  • Contos de Fadas

    Date: 2004.06.13 | Category: Asas de Borboleta, contos, encantamento | Response: 0


    Greg Olsen

    – Tia borboleta, tia borboleta!
    – Sim, crianças?
    – Conta uma história?
    – Conto sim. Todo mundo preparado?
    – SIM!
    – Pois muito bem:

    “Era uma vez um conto de fadas às avessas. Desta vez, não era a princesa que ficava presa numa torre, mas sim um príncipe encantado que estava preso num labirinto. Durante um longo tempo ele esperou encontrar sozinho a saída de lá, mas em vão.

    Um belo dia, uma princesa peregrina passou ao lado da grande muralha de pedra que cercava o labirinto, e escutou o lamento do príncipe, que chorava através de sua flauta. O som a fez parar e escutar. Logo, ela começou a cantar do lado de fora do labirinto, e foi o príncipe que se quedou a escutar. Enfim, começaram a fazer música juntos, mas a muralha de pedra encantada que o aprisionava reagiu, e a hera que a cobria criou enormes espinhos pontiagudos, e a princesa foi obrigada a se afastar.

    Sentada debaixo de um grande carvalho, a princesa recostou no tronco centenário e pensou. E pensou, e pensou. Finalmente,erguendo a mão, arrancou três fios de seu cabelo vermelho, e com eles teceu o que parecia o corpo de um pássaro, sem asas. Tendo feito isto, a princesa pensou no cárcere frio que aprisionava aquele nobre príncipe, e duas grossas lágrimas caíram de seus olhos. Ao cair, as duas lágrimas se transformaram em duas grandes plumas brancas. Estas ela espetou, uma de cada lado do boneco tecido com seus cabelos, nos lugares onde haveria asas em um pásaro.

    Em seguida, a princesa pegou este curioso boneco em suas mãos, trouxe-o para bem perto de seu rosto e sussurrou-lhe palavras, baixinho. Pousando-o na grama, tirou de seu vestido um broche que enfeitava o vão entre seus seios, e com ele espetou seu dedo. Três gotas de sangue caíram sobre o boneco, que tornou-se um lindo pássaro vermelho de asas brancas e alçou vôo em direção ao labirinto.

    O príncipe, que nada conseguia enxergar além da muralha de seu labirinto, achava que tinha tido um sonho, que apenas em sua imaginação escutara a voz de um anjo a acompanhar sua flauta. Deprimido, sentado na grama entre lindas flores que não percebia mais, o príncipe apoiava os braços sobre os joelhos flexionados, e descansava a cabeça sobre os braços. Quando o pássaro começou a cantar, numa voz que parecia um som mesclado de sua flauta e a voz que escutara, o príncipe quase não levantou a cabeça, tão convicto estava que era um sonho. Mas o cantar insistente do pássaro acabou por aguçar sua curiosidade, e ele levantou a cabeça. O pássaro começou a instruir o príncipe, com as seguintes palavras:

    – Alteza, é chegada a hora da sua liberdade. A princesa que me criou o espera do lado de fora. Para que consiga sair daqui, é preciso que siga minhas instruções.

    – Instruções?

    – Sim, meu príncipe. Vou pousar em seu braço, e você vai ter de me matar com sua faca. Abra meu corpo e tire meu coração de dentro do peito, segure-o nas mãos. Ele vai se transformar num lindo anel de rubi. Ponha-o no dedo. Minhas asas se transformarão em duas plumas brancas, espete-as na sua boina. Meu corpo se transformará em um cordão mágico, segure-o forte entre as mãos quando ele começar a mexer.

    Dito isto, o pássaro deu um rasante e pousou suavemente no braço do príncipe. O príncipe acariciou a cabeça do animal, hesitante de matar bicho tão lindo, mas com algumas palavras de incentivo do pássaro, acabou por pegar a faca e abrir o peito emplumado. Ao pousar o coraçãozinho do animal, que ainda batia, na palma de sua mão, apareceu o dito anel. O pássaro voltara a ser o boneco tecido de cabelos vermelhos, com duas plumas brancas espetadas como asas.

    Quando o príncipe retirou as plumas e espetou-as em sua boina, o corpo do boneco, esquecido na grama, começou a se retorcer e desmanchar, e os três fios vermelhos começaram a crescer e engrossar, trançando-se e virando uma grossa corda que se movia em direção ao paredão de pedra. O príncipe lembrou do conselho do pássaro mágico e agarrou a corda com as duas mãos. Tornado leve pelas plumas e protegido dos galhos e espinhos pelo anel de rubi, o príncipe foi arrastado para cima e por sobre o muro, cavalgando aquele grosso cordame como se fosse uma serpente marinha.

    Logo estava diante da princesa, o cordame mágico rapidamente diminuindo e transformando-se novamente em três fios de cabelo, que retornaram à cabeça da princesa. Esta o olhava.”

    – E cada um que invente o seu final da história – disse a Borboleta sorrindo.

    – Ahhhhhhhhh!

    – Sinto muito garotada. Cada um vai ter de imaginar o que aconteceu depois.

    Alguns protestos, muita algazarra, as meninas defendendo o final feliz, os meninos imaginando os mais bizarros finais de filme de terror. Logo todos estavam correndo e brincando, a Borboleta e o conto já esquecidos. Todos menos uma: a mais pequenininha, que tinha ficado quieta e arregalada enquanto a Borboleta tecia a trama da sua história, subiu ao colo da Borboleta. Lá, pergutou baixinho:

    – Tia Borboleta…

    – Sim, pequena?

    – Algum dia vou ser capaz de criar um pássaro com meus cabelos?

    – Ah, lindinha, talvez. Mas é ainda muito cedo. Antes, você precisa aprender direitinho a ser muito feliz, para depois então começar a aprender a fazer o pássaro – para fazê-lo você precisa aprender duas coisas difícieis.

    – Que coisas, Tia Borboleta?

    – A primeira você já aprendeu, que eu vi enquanto contava meu conto, querida. A primeira é ter empatia profunda pelo outro. Chorar lágrimas sinceras pela dor alheia. Eu bem vi seus olhinhos molhados hoje – disse a Borboleta dando um beijinho no nariz da menina. Esta sorriu e perguntou:

    – E a segunda?

    – A segunda é ainda mais difícil, docinha. A segunda é aprender a escutar e entender a voz de seu próprio coração. Só quem é capaz de escutar todos os corações é capaz de fazer um pássaro como o da princesa da história. Agora vá viver, brincar, crescer, e um dia me conte o seu final para este conto!

    Com mais um sorriso, a menina se juntou à algazarra soando na distância, e a Borboleta sorriu e fechou os olhos. Num instante, no lugar dela via-se um estranho pássaro vermelho, de asas brancas, com um penacho de plumas coloridas na testa que lembrava curiosamente uma borboleta. Este pássaro levantou vôo e…

  • O Oceano e a Tempestade

    Date: 2004.05.07 | Category: amor, Asas de Borboleta, contos | Response: 0


    Storm at Sea

    Gota, goteja. Chove, pinga, troveja.

    Ela cresce. Dentro de si explodem energias em rasgos de luminosidade. Ela rodopia em torno de si mesma, e as forças conflitantes batem e rebatem de encontro uma à outra, com explosões e ribombos. Ela dança. Rodopiando, ela o vê, deitado em repouso cheio de força, à beira do movimento que ela ama. Ela grita por ele com a voz do trovão.

    Vento, venta. Sopra, bufa, solfeja.

    Ele se eleva. Sua pele se encrespa em mil arrepios ao vê-la selvagem, magnífica, pousada sobre seu corpo. Seu poderoso corpo se ondula em mil movimentos de amor, na busca de tocá-la. Ele dança com ela a sua dança, suas evoluções de água indo de encontro às evoluções de ar que vêm dela.

    Onda, ondula. Mexe, bate, volteja.

    Ela espalha seus longos cabelos de nuvem sobre o peito forte dele: vagalhões que retumbam em eco a seu ribombar. Trocam beijos de eletricidade. Ela corre as mãos de chuva pelo seu dorso de mar. Gemem gemidos de ar.

    Ondulam, ventam, gotejam. Mexem, bufam, trovejam.

    O poeta, assistindo da praia, corre pela areia de braços abertos como a voar. Boca escancarada de chuva, cabelos soltos no ar. Grito solto no vento, pés molhados de mar. Testemunha ignorada da dança do amor, ele observa de olhos muito abertos, o coração a murmurar: belo, belo, belissimo!

    OceanoMauro Malavasi

    Piove sull’oceano, piove sull’oceano
    Piove sulla mia identitá
    Lampi sull’oceano, lampi sull’oceano
    Squarci di luminositá

    Forse qua in America i venti del Pacifico
    Scoprono le sue immensitá
    Le mie mani stringono sogni lontanissimi
    E il mio pensiero corre da te

    Remo, tremo, sento
    Profondi e oscuri abissi

    É per l’amore che ti do
    É per l’amore che non sai
    Che mi fai naufragare e
    É per l’amore che non ho
    É per l’amore che vorrei
    É per questo dolore
    Questo amore che ho per te
    Che mi fa superar queste vere tempeste

    Onde sull’oceano, onde sull’oceano
    Che dolcemente si placherá
    Le mie mani stringono sogni lontanissimi
    E il tuo respiro soffia su me

    Remo, tremo, sento
    Vento in fondo al cuore

    É per l’amore che ho per te
    Che mi fa superare mille tempeste
    É per l’amore che ti do
    É per l’amore che vorrei
    Da questo mare
    É per la vita che non c’é
    Che mi fai naufragare in fondo al cuore
    Tutto questo ti avrá te e a semberá
    Tutto normale

  • Feitiço

    Date: 2004.04.19 | Category: amor, Asas de Borboleta, contos | Response: 0


    Other Worlds

    Ela era o que antigamente se chamaria de “cantora de cabaré”, e hoje chamam com certa indiferença de “músico da noite” – aquela criatura que pode ser confortavelmente ignorada, e que cria a música ambiente para seu chope e sua paquera. No caso dela, cantava sua tristeza diante de uma sala cheia de chope barato e paquera paga. Esta vida do trabalho na madrugada começou desde que Ele havia morrido, e ela achava bom. Qualquer motivo era bom para que ela não tivesse de enfrentar a cama vazia, a não ser quando já estivesse cansada o suficiente para não lembrar, não se importar.

    Quando ele era vivo, seu violonista, seu amor, seu parceiro, eles tinham sonhos compartilhados, músicas amorosamente compostas e guardadas para aquele dia mágico quando algum figurão da indústria fonográfica sentasse no bar e descobrisse que a dona daquela voz grave e aveludada poderia ser um produto para sua gravadora. Ela cantava para ele, ele tocava para ela, eles faziam amor no palco no meio da música. Buscavam casas de renome para apresentar um show cuidadosamente montado para mostrar a capacidade vocal dela, o virtuosismo dele, algumas composições próprias discretamente inseridas no meio de elegantes clássicos da MPB. Depois que aquele bêbado asqueroso atropelou seu amado na volta para casa, ela se contentava de acompanhar aquele pianista míope naquele boteco de pegação, cantando os pedidos anotados com letra quase ilegível naqueles guardanapos quase transparentes.

    Nada estava diferente naquela noite. Já havia cantado todos os boleros pedidos, as músicas de fossa anotadas, e os clientes vagarosamente levantavam, acompanhados ou sozinhos, para terminar a noite no hotel barato da esquina ou para esvaziar o estômago da bebedeira nos postes a caminho de casa. Alguns músicos conhecidos estavam em mesas nos cantos, jantando antes de ir para casa, bebendo seu chope com os colegas, ou simplesmente assistindo a colega cantar, depois deles mesmos terem terminado suas apresentações.

    De repente Ele estava ali, sentado num banco do bar, lindo como nunca, vestido – onde já se viu, naquele pulgueiro? – num belíssimo smoking, vagarosamente tragando um cigarro. Ela gelou por dentro, principalmente depois que percebeu que podia enxergar o rosto do bartender através do rosto dele. Terminou a música bruscamente, nem lembrava mais o que estava cantando. O pianista pequenino de meia idade olhou para ela, surpreso.

    – Que foi? Você está pálida…

    Ela olhava direto para o rosto daquele homem que ninguém mais parecia estar vendo, a fêmea adormecida pela dor despertando aos gritos dentro dela. Seu amor, seu marido, sua vida… Ela virou para o pianista, que recuou assustado, mais que nunca parecido com um ratinho de cartoon:

    – Você conhece as músicas de Rogers e Hart?

    – Aqueles compositores americanos? Algumas.

    – “Bewitched, Bothered & Bewildered”… conhece?

    – Conheço, mas a gente nem ensaiou… e como vamos tocar isto sem um saxofonista? Vai ficar esquisito…

    Ela olhou rapidamente entre as mesas, e lá estava ele. Seu amigo Gilberto era um saxofonista dos bons, e estava comendo uma pizza com uma das meninas do bar. Ela foi ao microfone:

    – Senhoras e senhores, temos aqui no bar conosco um grande amigo e um grande músico, o saxofonista Gilberto Faria. Venha aqui, Gilberto, queremos escutar você.

    Gilberto, surpreso, levantou os olhos do decote da moça e levantou-se ao som dos aplausos esparsos. A surpresa aumentou quando ela disse o nome da música que iam tocar juntos. Mas o desafio da jam improvisada, aliado à vontade de tocar – sempre presente em um bom músico – fizeram com que ele tirasse o seu instrumento do case sem discussão. Acertaram o tom, e os músicos se prepararam para tocar. Ela finalmente levantou os olhos e encontrou de novo aquele olhar transparente que não a abandonara um minuto, e que realmente ninguém mais podia ver.

    – Senhoras e senhores, esta música não está entre os pedidos, é uma música que significa muito para mim e para uma pessoa muito especial.

    Ela cantou de novo para Ele, depois de tantos meses… Ele vagarosamente subiu ao palco, posicionando seu corpo etéreo atrás do corpo material dela, tomando-a em seus braços de luz, beijando o pescoço de carne dela com o sopro de seus lábios imortais.

    “I’m wild again, beguiled again
    A simpering, whimpering child again
    Bewitched, bothered and bewildered am I”

    Vagarosamente, ele começou a dançar com ela, que fechou os olhos e deixou seu corpo balançar de encontro ao dele, corpo que ela podia sentir, cheiro que nunca saíra de sua memória…..

    “I’ll sing to him, bring Spring to him
    And worship the trousers that cling to him
    Bewitched, bothered and bewildered am I”

    Durante o solo de saxofone, o amor deles explodiu no gozo mais doce que ela jamais tivera. Ela terminou a canção numa névoa de prazer e felicidade… com a última nota do sax, escutou a voz dele dizer baixinho “amo você… sempre vou amar…”

    Naquele dia, por acaso, um produtor musical americano estava mesmo lá, enchendo a cara – vermelha do excesso de sol – com a cerveja e as piranhas baratas.

    Muitos anos depois, famosa e já velhinha, serenamente tomando a mão de seu amado, que viera buscá-la, ela confundiu a enfermeira americana, dizendo baixinho em português:

    – Eles nunca perceberam que você sempre esteve aqui….

  • Adeus

    Date: 2004.01.18 | Category: amor, Asas de Borboleta, contos | Response: 0

    Ela era feita do vento que elevava as almas dos místicos. Ele era feito do fogo que queimava no coração dos poetas. Quando se encontraram, as faíscas que voaram da colisão direta criaram cada uma seu universo. E eles ficaram a rodar um em volta do outro, cada um ao mesmo tempo satélite e astro-rei.

    Acontece que fogo e vento não conseguem ficar muito tempo juntos sem que o fogo queime todo o vento ou sem que o vento apague todo o fogo. Logo, eles deram mil passos atrás e mantiveram uma distância segura, mas ainda assim bailavam lentamente, num compasso paralelo, um sem tirar os olhos do outro.

    Mais uma vez, no entanto, as suas naturezas os traíram. O vento sopra onde quer, o fogo só existe onde há combustível que o alimente. E o fogo achou sua brasa e o vento encontrou sua elevada solidão. Ele queima mais tranquilo, sem a espora do amor dela; ela voa mais calma sem o calor do toque dele. Mas há dias em que ela lembra como era fazer voar em todas as direções as labaredas dos seus cabelos. E ela sabe que, de longe, ele lembra também da fria exaltação do seu afago.

    É duro, muito duro, quando a estrada finda sem que o amor acabe. Eles sabem melhor que ninguém. E sabem – ela sabe e ele sabe – que o vento agora sopra mais quente, pois leva consigo um coração de labareda; e o fogo queima mais forte em torno do seu novo coração de vento.

    A brasa, totalmente alheia, incandesce na mais perfeita paz.

  • Ele vem…

    Date: 2002.09.14 | Category: amor, contos, vida interior | Response: 0

    Coração, bate-bate. Respiração acelera. Pele arrepia. O sangue pulsa. O meio das pernas se umedece. Ela pressente a sua chegada. Com cuidados de Sherazade, banha-se em óleos, massageia, perfuma, escolhe sedas e rendados, música, comidas. Ele vem, ele vem. O pensamento lhe causa um calafrio que desce pela espinha e lhe esquenta as ancas como se ele já a tocasse ali.

    Ela passa o dia em doce expectativa, seguindo a rotina de sempre e sorrindo para si, a imaginar o que cada um com quem se encontrava diria se percebesse as labaredas que lhe ardiam por dentro. À noite ele vem. A certeza lhe dava uma nova cadência ao andar, mais lânguida, mais atenta a cada movimento de seu corpo. Flutuava.

    O dia passou, ela nem sabia como. Lembranças vagas de entrar e sair de lugares, falar, trabalhar. Não tinha ido ao trabalho de carro, não confiava em sua concentração ao volante. Ele vinha, ele chegava. Faltava pouco agora, e ele vinha. Satisfeita, repassava mentalmente todos os preparativos. Nada fora do lugar, a casa limpa, perfumada com velas aromáticas e incenso. A truta na geladeira, pronta para assar. O vinho ela trazia consigo, francês, sutil. A sobremesa, delicado flan, receita de sua avó. No equipamento de som, música instrumental, violões flamencos, que sempre a faziam mais sexy e receptiva. O que havia para dar errado? Nada, pensava feliz. E ele estava para chegar.

    Com um sorriso brilhante para o porteiro, ela sobe. Enfia a chave na porta, abre ligeira, olhando o relógio e contando os minutos, organizando mentalmente as tarefas que faltavam para recebê-lo como queria. Aí, viu a luz da secretária eletrônica piscando. Mensagem…

  • O Unicórnio e o Caçador (Parte I)

    Date: 2002.08.30 | Category: amor, contos, encantamento, luta, outonos, vida interior | Response: 0

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    Ela era um unicórnio diferente. As pessoas geralmente associam um unicórnio com paz e bem-aventurança, com cura e inocência. Ela, no entanto, era o unicórnio da inocência perdida, e tinha durante sua longa vida usado mais vezes seu chifre mágico como espada que como meio de cura. Sim, ela tinha matado e ferido. Nunca por opção, mas com o cerrar de mandíbulas e a determinação feroz de quem luta por aquilo que tem de mais precioso. Ela não se esquivava de derramar sangue, mas toda a vez lhe vinha o medo que o cheiro de sangue derramado deixasse de lhe subir às narinas como podridão e ficasse atraente. Ela tinha medo de se tornar o que mais odiava: de se tornar uma criatura que mata por prazer. Temia esquecer que era um unicórnio. Não encontrava há muito com outros de sua espécie, que haviam se recolhido do mundo sensível para evitar encontros com seres humanos modernos.

    Os humanos haviam mudado muito, e já fazia centenas de anos desde que a última donzela virgem e pura de coração havia colocado uma guirlanda de flores em seu pescoço. Muito, muito tempo se passara. Hoje era raro encontrar donzelas de qualquer espécie, e as mulheres não sabiam mais fazer guirlandas. A maioria nem tinha mais jardim para plantar flores. Ela, no entanto, não conseguia abandonar tudo com a facilidade dos outros unicórnios, sentia-se presa ao mundo material por um amor desesperado, e vezes sem conta ela se perguntara se esta sua incapacidade não seria uma falha grave em seu espírito. Será que lhe faltava algo?

    Ser um unicórnio solitário no mundo moderno fazia com que ela fosse arisca e temerosa. Poucos eram os lugares onde ela corria livremente. Na maior parte das vezes ela velava o sono das crianças escondida por trás do reflexo de prata da lua, e nem mesmo as crianças sabiam que ela estava ali. Não, nenhum humano podia vê-la mais, pois a reação de reverência e adoração dos humanos de outros tempos desaparecera. Agora, humanos de todas as idades eram predadores. Até as crianças bem pequenas, que em tempos remotos ao vê-la diziam “bonita!”, hoje usavam outras palavras, como “meu!” e “dá!”.

    Ela estava só, totalmente só, sem iguais e sem amigos. Lentamente a tristeza tomava conta dela, e transparecia em todo o seu corpo. Ela já tinha sido da cor da areia mais branca quando bate o sol forte, agora sua pelagem tomava a cor amarelada do marfim antigo. Ela não tinha mais brilho e – se não fosse um ser imortal – poderíamos dizer que a velhice estava tomando conta dela. Mas não era velhice, não no sentido que os humanos ficam velhos, era cansaço. Cansaço de alma. Uma alma recoberta por anos de solidão e desencanto.

    Não era natural nela fugir, se esconder, lutar e machucar. Ela era um ser que se deleitava na companhia de outros, na admiração que sabia suscitar. Um unicórnio era naturalmente vaidoso, e ela havia sido das mais vaidosas entre eles. Agora, quem se importava? Para quê manter-se bonita, se nem mesmo os animais a reconheciam mais? Se não haviam mais puros de coração, que soubessem quem ela era?

    Depois de pensar muito, ainda incapaz de abandonar o mundo que tanto amava e onde vivera por tanto tempo, ela tomou uma decisão: se no mundo não cabia mais sua beleza, ela se sacrificaria por ele antes que a feiúra do mundo a transformasse em um arremedo de si mesma. “Melhor derramar meu sangue, para que seja sugado pela terra e transformado em vida, que tornar-me um espectro e lentamente desaparecer” pensava ela. E começou a buscar alguém que a reconhecesse pelo que ela era, e a ajudasse a fazer este último sacrifício.

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