Archive for the ‘encantamento’ Category

  • Flamenco

    Date: 2004.02.10 | Category: Asas de Borboleta, encantamento | Response: 0

    (Ele a rodeia) Olá.
    (Ela enviesa o olhar) Quem és?
    (Segurando a casaca) Eu sou!
    (Abanando o leque) Será?
    (Batendo os calcanhares) Vem cá.
    (Sacudindo a saia) Não vou.
    (Empinando os ombros) Porque?
    (Batendo a castanhola) Não sei.
    (Chegando perto) Tens fome.
    (Afastando-se devagar) Tu também.
    (Sapateando forte) Sou velho.
    (Rodando rápido) Não és!
    (Arqueando os braços) És jovem.
    (Rodopiando) Não sou!
    (Sedutor) E que tem a idade?
    (Sedutora) Nada tem…
    (Encostando) E porque falamos nisso?
    (Pousada em seu ombro) No que?
    (Virando-lhe o rosto) Quero beijar.
    (Rodando veloz) Vem me buscar.
    (Mais sapateado) Vou já!
    (Mais castanhola) Mas já!
    (Mais calcanhares) E se não for já?
    (Girando os pulsos) Amanhã é tarde demais.
    (Agarra-lhe a cintura) Então é já!
    (Encosta-se nele) Já…

  • Viagem

    Date: 2004.01.28 | Category: alegria, amizade, Asas de Borboleta, encantamento | Response: 0

    Quatro da manhã. Apesar da escuridão da noite, estou inebriada de luzes. Das luzes das grandes velas perfumadas dispostas de modo elegante numa bandeja à minha frente. Da quantidade de pequenas luzes da cidade que eu vejo dispostas abaixo de mim, da janela do décimo-quarto andar. O jogo de sombra e luz. As velas bruxuleiam, as luzes das antenas piscam ritmadas: 1-2-3, 1-2-3-4…

    Impera um silêncio urbano, que é mais um sossego que uma ausência de som. A cidade ressona, e a chuva que me recebeu na chegada continua intermitente, sem nunca cessar de todo. A chegada da luz do dia torna a cidade um gradiente que vai do cinza-grafite do asfalto ao cinza-concreto dos prédios ao cinza-prata das nuvens carregadas até o branco forte e sem sutileza da luz. O dia e a noite entram e saem de repente, sem a despedida colorida de uma aurora ou entardecer.

    É uma cidade grave, mas que não deixa de ser gentil. Não me pesa nos ombros como faz o Rio algumas vezes, mas se planta firme sob meus pés. Tem suas rudezas inconscientes, e suas ingenuidades, tem os encantos desastrados do jovem tímido, uma urbe gigante que enrubesce com a paquera descompromissada da visitante carioca.

    Em torno de mim estão pessoas graciosas, e os momentos passsam suaves, com o murmurejar da chuva que cai, dos carros que passam lá embaixo, ao som de Andreas Vollenweider e Bach e Ella Fitzgerald. As amizades que fiz e revisitei aqui são sólidas como o aço e o concreto dos edificios — e acredito que ainda mais duradouras que estes.

    Predios. Carros. Gente. Lojas. Bares.

    Movimento constante, de e para todos os lugares.

    Sim, meus amigos, estou em São Paulo.

  • Sentimentos

    Date: 2004.01.12 | Category: alegria, Asas de Borboleta, encantamento, vida interior | Response: 0

    Queridos amigos, hoje é meu aniversário. Completo 39 anos, e começo a caminhada em direção aos 40. E não gostaria de ter outra idade. Sou muito mais feliz hoje que aos 29, e infinitamente mais feliz que aos 19. Espero poder manter a mesma progressão em relação aos 49. Se tudo continuar desta forma, meus 89 anos serão maravilhosos!

    Mesmo assim, a alegria que tenho com aniversários (gosto deles tanto quanto o Chapeleiro Louco da Alice gosta de desaniversários) vem mesclada com um sentimento de tristeza… que não é bem tristeza, eu não sei como explicar… Mas descobri estes dias num livro uma pessoa que sabe. Uma pessoa que descreveu a chegada de uma carta com os mesmos sentimentos que tive ao receber hoje um cartão especial… ainda mais especial porque não era esperado.

    Bem, abusando da escritora Clarisse Lispector, o post de aniversário da Sue vai ficar por conta dela, enquanto eu sento num cantinho e — já que não posso colocar um cartão eletrônico junto ao peito — escuto meu coração bater.

    Parabéns para mim!

    “[A Elisa Lispector e Tania Kaufmann]

    Lausanne, 13 de julho de 1946

    Elisa, Tania,

    escrevo de Lausanne, sentada ao parapeito do lago Leman. Perto tem uma orquestra com uma mulher tocando violino, uma marcha meio valsa, meio militar. Junto tem um hotelzinho estreito chamado Hotel du Port. Há montanhas a pique na outra margem do lago. Há uma fontezinha dividida em três ramos sobre uma bacia de pedra. Há uma criança comendo um biscoito Uma mulher de chapéu branco num barco. Vocês quase que podem adivinhar que é sábado de tarde. O lago é de água doce e tem um cheiro gostoso de água. O lago é enorme e transparente. Junto de mim é esverdeado. Mas do meio para o fim está da cor do céu e a montanha mesmo está da cor do céu. Hoje à noite vai ter uma festa noturna no lago, sobre um barco. No banco está sentada uma mulher com o chapéu preto e fita branca enterrado até os olhos como em 1920 e tanto, lendo jornal. Isso que eu estou sentindo pode-se chamar de felicidade. Só que a natureza se faz tão estranha que o próprio momento de felicidade é de temor, susto e apreensão. É pena que não possa dar o que se sente, porque eu gostaria de dar a vocês o que sinto como flor. Compreendo que ontem em Berna, quando recebi carta de vocês, ficasse tão aflita. Talvez fosse de alegria — e de não poder dar esta mesma alegria naquele mesmo instante. Um momento muito forte como o de ontem sempre arrasta tudo para ele: arrastou todos os meus pecados que Deus não precisa castigar, porque neles mesmos vem o castigo. Pecado de egoísmo, de indecisão, pecado de deixar morrer gente de fome e comer, pecado de não entender o mundo, pecado de amar demais, pecado de não saber amar. Vi um filme idiota onde o rapaz dizia: eu gosto de você. E a moça dizia: eu sei, mas não gosto do jeito pelo qual você ama as pessoas. Eu sei, é preciso dar muito mais do que dou. É também de minha natureza carregar nos ombros a culpa do mundo. Se todos sentissem isso talvez saísse um novo mundo. Uma pessoa só pode apenas sucumbir. Foi isso que fiz chorando no cinema e aliviando uma mágoa confusa. O início disso tudo foi a carta de vocês que eu botei junto do coração para sentir o calor dela e dormi assim, e mesmo agora, sentada junto do lago, tenho a carta na mesma posição, com o envelope me arranhando um pouco. Não incomoda, é como um aperto de mão um pouco mais forte. Agora tem um passarinho se aproximando da fonte. E dois meninos passaram, me olharam e continuaram a falar em francês. Fomos há pouco ver uma exposição de pinturas holandesa, de Van gogh para cá. Eu estava vendo pacificamente com a cabeça. De repente vi um pequeno quadro Vers le soir, de um pintor chamado Karsen. Entendi muito bem o que você disse, Tania, sobre a paisagem que se misturou com você. Esse quadrinho finalmente me dominou. É uma casa no cair da noite. Não posso descrever. Tem umas escadas, umas heras, o branco é azulado e tudo um pouco escuro; tem umas estacas — é um fim de caminho com mato. Gosto de muitas coisas; mas de repente uma coisa é o que a gente está vendo e acima dela não existe mais nada, pelo menos por um instante; não sei se estou me explicando bem.

    Toda esta carta foi uma tentativa malograda de tirar um retrato deste lugar junto do lago Leman, porque esqueci de trazer a máquina. E aproveitei a ausência da máquina para tirar o retrato deste momento também. Que Deus abençoe vocês e lhes dê uma alma luminosa. A paz esteja com vocês, minhas queridas.

    Clarice.”

    P.S.: O lindo reloginho de borboleta na coluna da esquerda foi um presente do meu amigo Beto, do Casa de Loki. Obrigada, querido Beto. Estou com muitas saudades de ver seu rosto em sala de aula. Beijos da tia de inglês.

  • Impressões sobre o fim de um ciclo

    Date: 2004.01.09 | Category: alegria, amizade, encantamento | Response: 0

    Ontem acabou uma viagem que começou a tomar forma em fevereiro de 2003. Ontem também acabou um blog especial, de um amigo especial. Ontem, espero, foi o final de um período de sofrimento para mim, e o início de um ano de produção.

    Não sei ao certo o que dizer sobre o que senti de estar estes dias com o Luis Ene aqui no Rio e em Goiânia, exceto que mais uma vez confirmou-se o que eu já tinha percebido em outros encontros com pessoas que conheci na Internet: a presença física é pouco mais que uma ampliação do contato eletrônico. Não tive surpresas, nem boas nem ruins, já que minha expectativa era mesmo de um homem gentil, alegre, amigo, solidário. Posso, no entanto, dizer que ao vê-lo partir senti que um pedaço de mim estava partindo com ele para Portugal. E vai ficar lá.

    Agora estou cansada, cheia daquele cansaço feliz que sentimos depois de uma festa onde dançamos e rimos e brincamos a noite toda, porque foi verdadeiramente um momento de celebração estar com meu amigo. Andamos pelo centro da cidade, subimos e descemos pelos morros arborizados do Rio (a floresta estava particularmente bonita, fresca e cheia de borboletas para receber Lord N), fomos a livrarias, a barezinhos e a restaurantes, conversamos, conversamos, conversamos. Agora, no silêncio do meu quarto, fico lembrando e rindo da telefonista carioca que falou conosco em espanhol, sem conseguir entender o cantado lusitano da voz do Luis. Fui também intérprete, de um lado e de outro.

    A partir de hoje o objetivo é aproveitar o que me resta de férias antes do início das aulas para tentar organizar o que vai ser o ano. A mente grávida de idéias e projetos precisa agora preparar os caminhos de execução. O corpo precisa voltar à disciplina que impede que o problema de coluna volte a me atormentar. A vida continua num novo patamar.

    Luis, querido, espero que sua viagem tenha sido boa e que o retorno à casa tenha sido feliz. Saudades imensas, mas saudades gostosas, porque sei que você também deixou um pedacinho seu aqui comigo. vou cuidar bem dele, prometo.

  • Boris

    Date: 2002.09.17 | Category: Asas de Borboleta, encantamento, vida interior | Response: 0

    Photobucket
    Boris Valejo foi um dos primeiros que me ensinou que mulheres devem ter asas de borboleta.

  • Ocean Gypsy

    Date: 2002.08.31 | Category: beleza, encantamento, vida interior | Response: 0


    (M. Dunford / B. Tatcher)

    © Turn of the Cards Music

    Try to take it all away, learn her freedom just inside a day

    And find her soul to find their fears allayed

    Try to make her love their own, they took her love, they left her there

    They gave her nothing back that she would want to own

    Gold and silver, rings and stones, dances slowly off the moon

    No one else could know, she stands alone

    Sleeping dreams would reach for her, she cannot say the words they need

    She knows she’s alone and she is free

    Ocean Gypsy of the Moon

    The Sun has made a thousand nights for you to hold

    Ocean Gypsy, where are you?

    Shadows followed by the stars have turned to gold, turned to gold

    Then she met a hollow soul, filled him with her light and was consoled

    She was the Moon and he the Sun was gold

    Eyes were blinded with his light, the sun she gave reflected back the night

    The Moon was waning almost out of sight

    Softly Ocean Gypsy calls, silence holds the stars awhile

    They smile sadly for her where she falls

    Just the time before the dawn, the sea is hushed, the ocean calls her

    Day has taken her, and now she’s gone.

    Ocean Gypsy of the Moon

    The Sun has made a thousand nights for you to hold

    Ocean Gypsy, where are you?

    Shadows followed by the stars have turned to gold, turned to gold

    No one noticed when she died, Ocean Gypsy shackled to the tide

    The ebbing waves returning, spreading wide

    Something gone within her eyes, her fingers lifeless struck the sand

    Her battered soul was lost, she was abandoned

    Silken threads like wings still shine, winds take pleasure, still make patterns

    In her lovely hair, so dark and fine

    Stands on high beneath the seas, cries no more, her tears have dried

    “Oceans weep for her”, the ocean sighs

    Ocean Gypsy of the Moon

    The Sun has made a thousand nights for you to hold

    Ocean Gypsy, where are you?

    Shadows followed by the stars have turned to gold, turned to gold

  • O Unicórnio e o Caçador (Parte I)

    Date: 2002.08.30 | Category: amor, contos, encantamento, luta, outonos, vida interior | Response: 0

    Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

    Ela era um unicórnio diferente. As pessoas geralmente associam um unicórnio com paz e bem-aventurança, com cura e inocência. Ela, no entanto, era o unicórnio da inocência perdida, e tinha durante sua longa vida usado mais vezes seu chifre mágico como espada que como meio de cura. Sim, ela tinha matado e ferido. Nunca por opção, mas com o cerrar de mandíbulas e a determinação feroz de quem luta por aquilo que tem de mais precioso. Ela não se esquivava de derramar sangue, mas toda a vez lhe vinha o medo que o cheiro de sangue derramado deixasse de lhe subir às narinas como podridão e ficasse atraente. Ela tinha medo de se tornar o que mais odiava: de se tornar uma criatura que mata por prazer. Temia esquecer que era um unicórnio. Não encontrava há muito com outros de sua espécie, que haviam se recolhido do mundo sensível para evitar encontros com seres humanos modernos.

    Os humanos haviam mudado muito, e já fazia centenas de anos desde que a última donzela virgem e pura de coração havia colocado uma guirlanda de flores em seu pescoço. Muito, muito tempo se passara. Hoje era raro encontrar donzelas de qualquer espécie, e as mulheres não sabiam mais fazer guirlandas. A maioria nem tinha mais jardim para plantar flores. Ela, no entanto, não conseguia abandonar tudo com a facilidade dos outros unicórnios, sentia-se presa ao mundo material por um amor desesperado, e vezes sem conta ela se perguntara se esta sua incapacidade não seria uma falha grave em seu espírito. Será que lhe faltava algo?

    Ser um unicórnio solitário no mundo moderno fazia com que ela fosse arisca e temerosa. Poucos eram os lugares onde ela corria livremente. Na maior parte das vezes ela velava o sono das crianças escondida por trás do reflexo de prata da lua, e nem mesmo as crianças sabiam que ela estava ali. Não, nenhum humano podia vê-la mais, pois a reação de reverência e adoração dos humanos de outros tempos desaparecera. Agora, humanos de todas as idades eram predadores. Até as crianças bem pequenas, que em tempos remotos ao vê-la diziam “bonita!”, hoje usavam outras palavras, como “meu!” e “dá!”.

    Ela estava só, totalmente só, sem iguais e sem amigos. Lentamente a tristeza tomava conta dela, e transparecia em todo o seu corpo. Ela já tinha sido da cor da areia mais branca quando bate o sol forte, agora sua pelagem tomava a cor amarelada do marfim antigo. Ela não tinha mais brilho e – se não fosse um ser imortal – poderíamos dizer que a velhice estava tomando conta dela. Mas não era velhice, não no sentido que os humanos ficam velhos, era cansaço. Cansaço de alma. Uma alma recoberta por anos de solidão e desencanto.

    Não era natural nela fugir, se esconder, lutar e machucar. Ela era um ser que se deleitava na companhia de outros, na admiração que sabia suscitar. Um unicórnio era naturalmente vaidoso, e ela havia sido das mais vaidosas entre eles. Agora, quem se importava? Para quê manter-se bonita, se nem mesmo os animais a reconheciam mais? Se não haviam mais puros de coração, que soubessem quem ela era?

    Depois de pensar muito, ainda incapaz de abandonar o mundo que tanto amava e onde vivera por tanto tempo, ela tomou uma decisão: se no mundo não cabia mais sua beleza, ela se sacrificaria por ele antes que a feiúra do mundo a transformasse em um arremedo de si mesma. “Melhor derramar meu sangue, para que seja sugado pela terra e transformado em vida, que tornar-me um espectro e lentamente desaparecer” pensava ela. E começou a buscar alguém que a reconhecesse pelo que ela era, e a ajudasse a fazer este último sacrifício.

  • Borboleta no jardim (tradução do post anterior)

    Date: 2002.08.21 | Category: alegria, Asas de Borboleta, beleza, encantamento | Response: 0

    “Marina viu uma borboleta voando no jardim. Ela não se surpreendeu com o fato da borboleta voar direto, atravessando o jardim, já que não achara coisa alguma bela para olhar, flor alguma na qual repousar. Ela adorava o modo de voar das borboletas. Sem linhas retas, sem pressa de chegar a algum lugar. Para cima e para baixo, para frente e para trás.

    Então a borboleta parou. Ela não parara no jardim, mas decidira vir sentar na janela e olhar para Marina. Ela olhava para o ser sentado na janela, olhando para dentro. Este movia suas asas como a dizer olá, e quando Marina não respondeu, a borboleta decidiu enviar uma mensagem em código. Ao menos, é o que parecia para Marina. A borboleta batia na janela, primeiro com uma asa e depois com a outra, como se realmente estivesse enviando uma mensagem.

    O problema era que Marina não entendia o código que a borboleta estava usando. Ela não entendia qualquer código de envio de mensagens. Em alguns momentos ela pensava que ela não tinha talento algum para se comunicar em qualquer idioma. Ela certamente não acreditava ter talento para se comunicar com Tom, de uns tempos para cá.(…)

    Ela estendeu a mão para a borboleta. Encostou a mão na janela, enviando pequenas mensagens de volta para ela. Elas ficaram fazendo isso, dedos e asas batendo contra a janela, ambas satisfeitas em ficar ali e contemplar uma à outra por algum tempo.

    O que pensava a borboleta dela, vivendo naquela casa, entre quatro paredes? O que ela sabia sobre as linhas retas nas quais as pessoas viviam? Escola, universidade, empregos; família, amigos, namorados, marido, filhos; quarto, apartamento, casa, casa maior, casa maior com jardim. Será que a borboleta se perguntava porque Marina não voava como ela – aqui e ali, para cima e para baixo, para frente e para trás – movendo-se onde quisesse, quando quisesse? Marina olhava para a borboleta e se perguntava a mesma coisa. Então, ela se lembrou de algo.

    Ela havia lido em um jornal algo sobre uma teoria que tudo no mundo é entrelaçado. Se você muda uma coisa, então esta coisa irá modificar outras coisas também. Ela se lembrava do exemplo que eles deram: uma borboleta pousa em uma flor em algum lugar do oriente e isto modifica uma outra coisa, e então uma terceira coisa muda e uma outra e uma outra, até que, finalmente, acontece um terremoto no ocidente, a milhares de milhas de distâncias.

    Marina observou a borboleta e perguntou: ‘Que mudanças você trará à minha vida? Haverá um terremoto em algum lugar do mundo hoje? Haverá um terremoto em minha vida?’ Ela sorriu ao considerar os próprios pensamentos e então espalmou a mão do outro lado da janela. Ela convidou a borboleta a entrar e pousar em sua mão. Mas a borboleta desapareceu no instante que a porta da frente se abriu e Tom entrou em casa.”

    (O Homem que Passava, por Collin Campbell; tradução, Assunção Medeiros)

  • Butterfly in the Garden

    Date: 2002.08.20 | Category: alegria, Asas de Borboleta, encantamento | Response: 0

    Que coisa espantosa que é a vida. Quando menos se espera, aparece poesia diante de nós. E quem diria, num texto PEDAGÓGICO! No meio da aula de inglês, virei borboleta… Meus alunos gostaram!

    “Marina saw a butterfly flying in the garden. She was not surprised that the butterfly seemed to be flying straight through the garden, not finding anything beautiful to look at, no flowers to rest on. She loved the way butterflies flew. No straight lines, no hurrying to get somewhere. Up and down and backwards and forwards.

    Then the butterfly stopped. He didn’t stop in the garden, but he had decided to come and sit on the window and look at Marina. She looked at him sitting on the window, looking in. He moved his wing as as if to say hello and when Marina did not answer, the butterfly decided to send a message in code. At least, that is how it seemed to Marina. The butterfly hit the window first with one wing and then with the other as if he really was sending a message.

    The problem was that Marina did not understand the code the butterfly was sending. She did not understand any code for sending messages. Sometimes she thought she was not very good at communicating at all in any language. She certainly did not think she was good at communicating with Tom anymore.(…)

    She reached out to the butterfly. She put her hand on the window, sending out little messages to the butterfly. They continued like this for some time, fingers and wings knocking against the window, both of them happy to rest there and watch each other for a while.

    What did the butterfly think of her, living in this house, living between these four walls? Did he know about the straight lines people lived along? School-university-jobs; family-friends-boyfriends-husband-children; room-flat-house-bigger house-bigger house with garden. Did the butterfly ask itself why she did not fly like him, here and there and up and down and backwards and forwards, moving where it wanted, when it wanted? Marina looked at the butterfly and asked herself the same question. Then she remembered something else.

    She had read in a newspaper something about an idea that everything in the world is joined together. If you change one thing then this will change other things as well. She remembered the example they talked about. A butterfly lands on a flower somewhere in the east part of the world and this changes something else, and then something else changes and then something else and something else until, finally, there is an earthquake in another part of the world, in the west, thousands of miles away.

    Marina looked at the butterfly and asked him: ‘What changes will you bring to my life? Will there be an earthquake somewhere in the world because you stopped to visit me today? Will there be an earthquake in my life?’ She smiled at her own thoughts and then opened her hand on her side of the window. She invited the butterfly to come and sit on her hand. But the butterfly disappeared as the front door opened and Tom came into the house.”

    (Cambridge English Readers – Level Three – The Ironing Man by Collin Campbell)

    Depois eu traduzo com calma. Leve como uma borboleta.

  • Coração

    Date: 2002.08.18 | Category: alegria, amor, encantamento, vida interior | Response: 0

    Smile, though your heart is aching

    Smile, even though it’s breaking

    When there are clouds in the sky, you’ll get by

    If you smile, through your fear and sorrow

    Smile, and maybe tomorrow

    You’ll see the sun come shining through for you

    Light up your face with gladness

    Hide every trace of sadness

    Although a tear maybe ever so near

    That’s the time you must keep on trying

    Smile, what’s the use of crying

    You’ll find that life is still worthwhile

    If you just smile

    Em certas horas o coração frágil dos seres humanos parece que não agüenta a beleza. O coração fica dividido entre o aperto da melancolia e a expansão do arrebatamento estético, e parece que a alma vai rasgar ao meio. É nessas horas que se tem sorte de ter asas e alma de borboleta, pois já sabemos que toda a beleza é efêmera, e que por isso ela causa esta dor. E não apenas suportamos a dor, mas transformamos a dor e as suas lágrimas num doce néctar que alimenta o espírito.

    Hoje eu me senti assim quando visitei a casa de um amigo. Na entrada, ele me recebeu com a linda canção “Smile”, do Nat King Cole. Foi muito hospitaleiro, mostrou-me a casa toda, seus desenhos, seus escritos. O tempo todo tocava uma linda canção. Depois de um determinado momento, sendo tudo tão lindo, pus-me a sorrir e a chorar, ao mesmo tempo. Sua casa, meu amigo, é bela como seu coração, e contemplar os dois parte meu coração em mil pedaços. Então, cada pedaço vira um coração.

    Hoje estou toda coração.

Posts recentes

Comentários

Arquivos

Categorias

Meta