Archive for the ‘esperança’ Category

  • Date: 2005.05.30 | Category: esperança | Response: 0

    Explosão

    Não há nada mais triste que perceber que aquela pessoa em quem depositamos as maiores confianças, os mais profundos planos, as coisas mais bonitas e sagradas, no fim das contas simplesmente não está interessado em nós os suficiente para tentar nos entender, quanto mais nos aceitar como somos. Tão melhor foi para ele construir um ícone que apertava cada vez que queria carinho/colo/atenção/proteção. Mais triste ainda é perceber que fui conivente com uma grande mentira. E naquele momento em que pensávamos que éramos uma dupla, que dois lutavam juntos por um mesmo ideal, ele e eu descobrimos que estávamos sós.

    Entretanto, a grande maravilha de ser só, de ser UM, o milagre da libertação de todas as amarras, é que descobrimos que quando não há laços com pessoas determinadas, o mundo inteiro é nosso irmão, o universo inteiro é nosso para explorar, a vida é uma grande aventura, e ser de ninguém é ser livre para ser o que a vida sugerir que sejamos, a cada minuto. Pois que seja: sou um, mas nenhum outro um vai me impedir de ser o melhor um que este um pode ser.

    Como diz a Joss Stone, estou pegando minha vida de volta.

    Right to be Wrong (Joss Stone)

    I’ve got a right to be wrong
    My mistakes will make me strong
    I’m stepping into the great unknown
    I’m feeling wings though I’ve never flown
    I’ve got a mind of my own
    I’m flesh and blood to the bone
    I’m not made of stone
    Got a right to be wrong
    So just leave me alone

    I’ve got a right to be wrong
    I’ve been held down too long
    I’ve got to break free
    So I can finally breathe
    I’ve got a right to be wrong
    Got to sing my own song
    I might be singing out of key
    But it sure feels good to me
    Got a right to be wrong
    So just leave me alone

    You’re entitled to yout opinion
    But it’s really my decision
    I can’t turn back, I’m on a mission
    If you care don’t you dare blur my vision
    Let me be all I can be
    Don’t smother me with negativity
    Whatever’s out there waiting for me
    I’m going to face it willingly

  • Eu já volto!

    Date: 2005.02.24 | Category: Asas de Borboleta, esperança, espírito | Response: 0

    Stella, Alfredo, Aninha, amigos todos:

    Da mesma forma que há tristezas grandes demais para palavras, onde o silêncio é a única resposta, da mesma forma que há portas que se fecham que não se reabrem jamais, há alegrias que não podem ser descritas, há novos caminhos que se descortinam e mobilizam todo nosso ser por um instante.

    Não abandono o Asa, apenas a borboleta dorme um segundo, pousada sobre um livro de poesias, enquanto a Assunção corre aqui e ali na vida real, coração e mente ocupadíssimos.

    Tudo está muito bem, e vai ficar melhor!

    Beijos estalados nas bochechas dos amigos, uma risada graaannndeee e feliz, e tchau!

    Daqui a pouco volto!

  • Sonho de Rosas

    Date: 2004.11.01 | Category: amor, beleza, esperança, vida interior | Response: 0

    Hoje à noite tive um sonho. Neste sonho estava num jardim, num pequeno canteiro, com antigas roseiras. As roseiras estavam cheias de botões, mas sufocadas pelas folhas mortas, seus galhos emaranhados como por forte vento, a terra ressecada. Que dó me deu ver aquelas veneráveis roseiras abandonadas assim.

    Lá fui eu, vagarosamente separei os galhos emaranhados, retirei uma a uma as folhas mortas que ainda estavam penduradas nos galhos, varri o chão, reguei, dei uma remexida na terra do canteiro, coloquei terra nova e adubada por cima. Recolhi o lixo todo, me preparava para levar tudo para um depósito qualquer, quando uma voz me avisou: “Sue, olha…”

    As três roseiras – eu disse que eram três? – estavam vivas, vibrantes, desabrochadas. A mais próxima de mim, à minha direita, tinha rosas amarelas, de um amarelo tão intenso que mais pareciam douradas, umas rosas sem espinho, lisas, que abriam como pequenos cálices de ouro. As rosas pareciam me dizer “somos a Amizade”.

    No canto mais distante de mim, uma roseira de rosas malva, cor de aurora. Suaves, mais miúdas que as outras, desabrochavam em pequenos cachos de manhã. Como criancinhas rosadas, estas rosas me diziam, em coro, “somos os Dons da Alma”…

    No canto esquerdo, a maior roseira de todas. Ameaçadora com seus espinhos – fôra a que dera maior trabalho para limpar, como os arranhões em minhas mãos podiam atestar –, eu podia ver que, nela, o trabalho ainda não estava terminado. No entanto, sua resposta aos meus cuidados era ainda mais generosa que a das outras duas. Rosas rubras, enormes, abertas como imensos cataventos sanguíneos, me olhavam silenciosas. Não me diziam o que eram, mas quando eu perguntei seus nomes, elas apenas me perguntaram o que eu pretendia plantar no canto que estava vago, bem à minha frente.

    Repentinamente percebi que havia um toco morto diante de mim. Eu olhei para a roseira-sangue, e já que ela não me dizia o que ela representava, perguntei que roseira era aquela que jazia morta ali. As flores da roseira desabrocharam ainda mais, e responderam, pesarosas: “Esta é a Paixão. Ela morreu faz pouco tempo”. Olhei para a roseira morta, e entendi a pontada que senti no peito ao olhar para aquele tronco seco. Comentei em voz alta e um pouco embargada que não tinha ferramentas para arrancar aquelas raízes profundas.

    “Escolhe uma muda e deposita no côncavo que você vê em cima deste toco“, foi a resposta. Dei conta que havia uma bandeja de mudas, bem ao alcance da minha mão direita, e eram todas jovens roseiras das mais variadas cores. Intrigada, examinei todas. A que me chamou mais atenção foi uma muda que possuía uma única rosa branca.

    Branca? Não exatamente. As bordas de suas pétalas tinham cores diferentes, fios coloridos em suas pontas. O centro do botão tinha este arremate em amarelo bem clarinho, e as cores iam ficando mais vivas à medida que as fieiras de pétalas se aproximavam da parte de fora, passando do laranja para o rosa-chá, para o rosa claro e o rosa profundo, chegando ao arremate de um vermelho muito parecido com a da roseira rubra. Parecia uma rosa que continha todas as outras rosas dentro dela. E o branco era de uma perfeição aveludada que me encantou, nem esverdeado nem amarelado, como algumas vezes costumam ser as rosas brancas, mas tinha o branco muito alvo das margaridas.

    Silenciosamente retirei esta muda da bandeja e removi o saco plástico que envolvia suas raízes. Ajoelhei-me, depositei com cuidado aquela única rosa branca e sua pequenina roseira no côncavo da paixão morta. Uma coisa extraordinária aconteceu… a pequena muda se fundiu com a antiga raiz e começou a crescer numa velocidade espantosa, até virar uma roseira adulta. Entretanto, a rosa multicor que estava desabrochada, retraiu-se até virar novamente um botão!

    Tonta, olhei para as rosas-sangue numa pergunta muda. A resposta veio num doce murmúrio interior:

    “Você escolheu o Amor, que é a reunião de todas nós. Mas o amor necessita de dois. Enquanto o segundo não visitar este jardim, esta rosa permanece em botão, e nós seremos suas guardiãs. Mas você não deve deixar de regá-la com suas lágrimas, de adubá-la com seus sorrisos. E de vir nos visitar de tempos em tempos. Precisamos muito destes cuidados seus…”

    – Quem SÃO as rosas rubras? perguntei entre assustada e impaciente.

    “Quem guarda as amizades e o amor, e distribui os dons da alma?” foi a resposta.

    – Ah, é o coração! respondi.

    E acordei.

  • Gentileza

    Date: 2004.10.28 | Category: amizade, esperança, espírito | Response: 0

    O Rio de Janeiro tem muitas caras. Geralmente as que aparecem na mídia são a da criminalidade e da sensualidade exacerbada. Mas o Rio também tem sua suavidade escondida, às vezes o meio do lixo.

    Era assim com o Profeta Gentileza, cujo nome de batismo era José da Trino, mas que foi rebatizado na tristeza, na loucura e no fogo: o incêndio do circo norte-americano em Niterói, no dia 17 de dezembro de 1961, no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas. Dizem que entre estas pessoas estava a família de José. O que aconteceu neste incêncio transformou a vida deste homem, e poderia ter transformado de muitas formas. Mas a dor e a loucura, em vez de virar violência e amargor, virou… Gentileza.

    Este homem, até sua morte em 1996, percorria as ruas do Centro do Rio e as barcas Rio-Niterói, dizendo palavras de gentileza e escrevendo mensagens nas pilastras dos muitos viadutos. Poucas palavras restaram, porque algum prefeito pouco gentil achou que pintar os viadutos de cinza-tristeza era melhor que preservar as palavras de José. Mas parece que o espírito do Profeta paira ainda sobre o Rio, e afeta ainda algumas pessoas.

    Este recente carioca aquijá se confessou afetado. E resolveu aderir à pequena e silenciosa campanha que eu trouxe do blog da Carol, Eu acredito em você. Pois está lançada a campanha faz um tempo, pelo Profeta Gentileza, e as crianças (Carol tem 16 anos) e as borboletas – e agora um escritor! – já aderiram.

    Tomara que espalhe.

  • Ouvidos atentos, braços abertos

    Date: 2004.10.27 | Category: amizade, amor, esperança, vida interior | Response: 0

    Escrevi para um amigo, ele me deu as costas. Falei com uma amiga, ela me deu conselhos. A rejeição foi o chute no estômago no lutador caído. E de que adiantam conselhos quando se está assim? As palavras não entram, não conseguem atravessar a eterna discussão entre a mente e o coração: “Não pode!” “Mas eu quero!” “Não pode!” “Mas eu quero!!” A dor era a mesma, e também a confusão. Que fazer, que fazer, com quem falar? Paro, ando, escrevo, choro, peço colo a meu pai, me deixo atropelar por um caminhão?

    Aí, duas coisas aconteceram. Escutei sua voz. Cansada, tensa, aborrecida. Mas era você. Eu não estava muda, e você não estava surdo. A certeza de que o dolorido passa consolou, ou ao menos mandou a enxaqueca embora. Conversamos, desenhamos, a sensação de estranheza, de que o mundo tinha acabado, foi sumindo durante a noite.

    A segunda coisa foram os braços abertos do amigo. Acolheu (era só o que eu queria!) o que o outro amigo não quis nem ver. Escutou sem julgar, falou palavras de carinho, falou a principal: eu ENTENDO. Não eu TE entendo, mas eu entendo. Entendendo, ele me ajudou a desenrolar. Desenrolando o fio deste novelo emaranhado, descobri a Eternidade.

    Amor não acaba, amor é eterno. Esta certeza que é seu chão há de ser meu teto.

  • Reforma

    Date: 2004.09.10 | Category: alegria, amizade, Asas de Borboleta, esperança | Response: 0


    Ruins

    Primeiro vem o quebra-quebra. Devagarinho as paredes vão-se abrindo em janelas e da escuridão faz-se a luz. Mas a luz nos mostra que há centenas de pequenos defeitos a ser corrigidos, milhares de mínimas falhas para consertar. Pega o formão, respira fundo, bate-bate, fura-fura, derruba, joga fora o entulho.
    Depois do sofrimento começa a construção. Às vezes a construção é lenta, parece que nunca vai acabar. Faz a argamassa, espalha em cada tijolo, monta o complexo quebra-cabeça, deixa secar. Enche os buracos, alisa a massa, faz a parede crescer. Dá forma ao conteúdo novo, faz um novo espaço nascer.

    De repente, surpresos, nos pegamos colorindo uma vida que estava cinza, ordem e beleza brotando do caos, olhamos em volta perplexos e nos perguntamos: “Mas fui EU que fiz tudo isto?”

    Para Maurício, com um beijo.

  • Fim de sonho, Início de Realização

    Date: 2004.09.04 | Category: alegria, amizade, encantamento, esperança | Response: 0

    Foram quatro dias da mais profunda felicidade. Acabou dia 02 de setembro de 2004 um projeto que veio do fundo do meu coração, fruto de muito trabalho duro, resultado dos esforços conjuntos de membros de um grupo que se organizou em torno de uma paixão comum, e que depois deste simpósio posso com firmeza chamar de grandes amigos. Foi mais do que bom. Foi um sonho. Um sonho que se tornou realidade na minha frente. Mais importante, percebi que não era um sonho só nosso, destas pessoas do Brathair.

    Foi gratificante ver a seriedade de todos, desde o aluno mais novinho da graduação até o professor doutor mais graduado. Foi emocionante sentir a felicidade de todos, dezenas de alunos vieram me abraçar no último dia e dizer o quanto estavam tristes de ter acabado. Eu também estou triste que acabou. Eu nunca senti tanta irmandade numa atividade acadêmica antes. Todas as palestras lotadas, pessoas tomando nota, gravando, fazendo perguntas. Nunca vi tantos olhos brilhando juntos.

    Nunca vi monitoras fazerem ‘claque’ para uma professora de outra universidade que elas tinham acabado de conhecer, com direito a cartaz escrito “Sue, você é gente paca!” (Risos) Alguém aí já viu garotas escreverem isto de uma professora que estava fazendo elas trabalharem feito doidas? Que meninas especiais, estas monitoras… Uma delas chegou a dizer que vai se formar na UFRJ e depois se matricular no curso de secretariado executivo da minha universidade, só para ser minha aluna de inglês… menina danada, só para me fazer chorar…

    Agora, é fortalecer e construir sobre o sonho e a felicidade de todos, estabelecer uma base de estudos medievais forte neste país, descobrir de onde vimos e para onde podemos ir. Com a alma cantando, as verdes colinas de Erin combinadas com as verdes matas da Terra de Santa Cruz. Eu já falei demais, como sempre, mas agora passo a palavra a Amergin, irmão de Evir, os primeiros príncipes Milesianos a colonizar a Irlanda, muitos séculos antes de Cristo. Estes foram os primeiros versos feitos na Irlanda, esta terra de guerreiros e poetas… vieram do livro Leabhar Gabhála, ou Livro das invasões.

    The Mystery (translated by Douglas Hyde)

    I am the wind which breathes upon the sea,
    I am the wave of the ocean,
    I am the murmur of the billows,
    I am the ox of the seven combats,
    I am the vulture upon the rocks,
    I am a beam of the sun,
    I am the fairest of plants,
    I am a wild boar in valour
    I am a salmon in the water,
    I am a lake in the plain,
    I am a word of science,
    I am the point of the lance in battle,
    I am the god who created in the head the fire.
    Who is it who throws light into the meeting on the mountain?
    Who announces the ages of the moons?
    Who teaches the place where couches the sun?
    (If not I)

    O Mistério (tradução para o português por Assunção Medeiros)

    Eu sou o vento que sopra aragem sobre o mar,
    Eu sou a onda do oceano,
    Eu sou o murmúrio das vagas,
    Eu sou o touro dos sete combates,
    Eu sou o corvo sobre as pedras,
    Eu sou um raio de sol,
    Eu sou a mais bela das plantas,
    Eu sou um javali selvagem em valor,
    Eu sou o salmão na água,
    Eu sou um lago na planície,
    Eu sou uma palavra de ciência,
    Eu sou a ponta da lança em batalha,
    Eu sou o deus que criou na cabeça de fogo.
    Quem é aquele que joga luz no encontro nas montanhas?
    Quem anuncia as eras das luas?
    Quem ensina o lugar de descanso do sol?
    (A não ser eu)

  • Irish Blessing

    Date: 2004.08.26 | Category: alegria, amizade, esperança, luta | Response: 0

    On the eve of meeting a bunch of Irish-loving folks, here’s an Irish blessing…

    May those who love us love us.
    And those that don’t love us,
    May God turn their hearts.
    And if He doesn’t turn their hearts,
    May he turn their ankles,
    So we’ll know them by their limping.

  • Filhos

    Date: 2004.07.23 | Category: amor, Asas de Borboleta, esperança, espírito, luta | Response: 0

    O texto, como podem ver, não é meu. Recebi de um querido amigo, por e-mail, o link para a página onde originalmente foi publicado na íntegra.

    Gostaria de ter escrito sobre um filho que tive, principalmente um texto lindo assim, mas nunca tive este privilégio de gestar. Ao ler este texto, minha reação primeira foi me afogar em lágrimas, porque perder um filho, ou não ter um filho, é sempre motivo de grande dor. Mas o texto é tão simples e firme na sua esperança, que acabei chorando e sorrindo ao mesmo tempo.

    As coisas são simples assim, mesmo: ou se ama, ou não; ou se acredita que a vida é precioso dom de Deus, ou que a lei da selva prevaleça. Afinal de contas, se tudo é um acidente, que diferença faz a moral? Que diferença faz qualquer coisa?

    Não, não estou e jamais fui niilista. Muito pelo contrário, tudo e todos à minha volta são tão preciosos que eu às vezes perco o fôlego. Ou choro feito uma boba.

    Escrevi um texto no dia cinco de outubro do ano passado que tenho um filho. Escrevi com todo o coração o quanto amo este filho. Mas agora, descobri um texto de uma mãe que descreve com mais força o que é este amor, numa situação ainda mais dramática. Transcrevo então trechos do texto abaixo, e o dedico a meu filho Alex.

    Querido Vítor

    Você não sabe como ultimamente tenho me lembrado de você. Sabe porquê? Anda em voga o assunto de se permitir o aborto em caso de anencefalia, como foi o seu, lembra-se? Você não pode imaginar as barbaridades que mamãe tem escutado de pessoas grandes, não no sentido de grandes de coração, alma e inteligência, mas só por que são bem maiores do que você era quando esteve em meu ventre por nove meses, no entanto parecem não saber de nada.

    Lembra-se daquela tarde, logo depois de mamãe sair da casa do vovô Inaldo quando foi fazer a primeira ultra-sonografia, no 3° mês de gestação? Estava tão tranqüila afinal quantas e quantas ultras mamãe já havia feito quando esperava os seus irmãos, Gabriel, Marcus e Raquel. Lembro-me como se fosse hoje, deitada na cama, o médico fazendo a ultra quando, de repente, me fez aquela pergunta: – É o seu primeiro filho? Logo respondi com toda a tranqüilidade – Não. É o quarto, por quê? Vi que demorava a responder e percebi que havia algum problema com você. Indaguei novamente: – Por quê? Está tudo bem com meu filho? O que ele tem?

    A resposta foi seca e dura, como alguns médicos, ainda bem que nem todos, costumam tratar dessa forma a doença dos outros. Respondeu-me: – O seu filho tem um problema, não tem cérebro. Lembro-me de que comecei a chorar e perguntei a ele, na inocência de obter uma resposta científica: – O que vou fazer agora? E mais uma vez veio a frieza que na hora a mamãe não conseguiu captar, veio aquela resposta fria: – O seu médico sabe o que você tem que fazer! Perdoe-me, filho, por não ter dado uma resposta dura e clara ao médico naquele momento, mas a mamãe não conseguiu naquele instante captar a malícia do que ele queria dizer. Com certeza queria que eu te matasse.

    Passei a te amar mais ainda nos dias que se passaram, por que fui entendendo coisas que até então não sabia. Conversei com o obstetra e ele então me explicou como seria essa “gestação especial”. Enquanto estivesse comigo, dentro de mim, você estaria seguro, tranqüilo. Hoje entendo por que você não precisava de uma nova contribuição da mamãe para “ser”, você já existia, já era um ser humano existente, já era meu filho. Você só precisava crescer, suas próximas fases seriam de autocrescimento, de desenvolver o que você já “era”. Nos próximos meses a única coisa que mamãe teria de fazer e que você precisava como qualquer criança era de nutrição, oxigênio e o tempo. O seu tempo.

    Você sabe o quanto foi difícil, saber que não te teria nos meus braços por muito tempo depois que você nascesse. Mas logo resolvi a questão, perguntei ao médico qual o máximo de tempo que poderia ter você em mim, e ele respondeu de 38 a 40 semanas. Logo eu tinha pelo menos 38 semanas para estar muito perto de você, te amando. Lembra-se dos beijinhos que o papai, o Gabriel, o Marcos e a Rachel davam na minha barriga para você? Lembra-se de nós todos rezando todas as noites pedindo para você ficar “bom do dodói”, pois era assim que eu explicava para os seus irmãos o seu problema. E foi assim que os dias se passaram e no lugar da tristeza, entrou a alegria de ter você perto de nós, pelo tempo que Deus quisesse e fomos muito felizes.

    Lembra-se filho quando mensalmente mamãe ia ao médico, para acompanhar a sua gestação e eu escutava o seu coração batendo forte dentro de mim? (140 batidas/minutos). E o quanto era bom saber que você estava ali. Não podia eu dizer que você era uma parte minha, pois desde a concepção você já existia com um código geneticamente diferenciado, original em relação ao meu. Como podem algumas pessoas dispor do que não lhes pertence?

    E o tempo foi passando não é, filho, e aquele ser pequeno que existia em mim, já estava grande e pronto para nascer. Lembra-se que mamãe também sofreu muito quando estava chegando o dia do parto? É que eu sabia que o tempo de ficarmos juntos agora se tornava mais curto, não ficaríamos mais tão próximos como estávamos. Você tinha que nascer e seguir o seu caminho, o caminho que Deus-Pai havia traçado para você desde toda a eternidade. Nunca chorei de revolta, você sabe disso. Chorava de saudade, a mesma saudade que a mãe sente quando o filho se casa e vai embora, era a saudade natural de rompermos os laços com os filhos, às vezes mais cedo, outras mais tarde. Mas, nós seres humanos não somos, por mais que estejamos tentando ser, “Aquele que é”. Somente Deus é Aquele que é – só Ele pode dar o ser a outros e somente Ele pode tirar a existência desse ser, fazendo sua história mais curta ou mais longa, mas todos fazemos história e ninguém tem o direito de interromper a história de vida de outra pessoa.

    Você fez a sua história de Vida, fez a nossa história de vida, você até hoje é lembrado pelos seus irmãos. Sabia que muitas vezes a Raquel com apenas três aninhos, me perguntava quem tomava conta de você no céu? E aquela outra vez que estávamos eu e seus irmãos esperando em frente ao prédio onde morávamos a Kombi Escolar do seu Júlio, dias depois que você faleceu e o Gabriel com apenas quatro aninhos estava perto de mim, junto com a Raquel e o Marcos. De repente surge um senhor e me pergunta: – São seus filhos? – Sim, respondi. E ele novamente perguntou: – Você tem três filhos?: – São todos seus? – Sim respondi, tenho três filhos. O senhor foi embora, afinal era só curiosidade. Mas o seu irmão Gabriel olhou para mim e disse: – Por que você mentiu para ele? Na hora não entendi o que o seu irmão tão pequeno queria dizer e resolvi perguntar por que eu havia mentido para aquele senhor. Foi quando ele disse com toda a naturalidade e sentimento de família: – Você não tem três filhos, você tem quatro, por acaso esqueceu do Vitor que está no Céu?

    Confesso que fiquei desconcertada naquele momento, pois é evidente que não havia esquecido você, afinal tinha poucos dias que você havia nos deixado. Tentei explicar a ele por que havia dado aquela resposta ao senhor, por que havia dito três ao invés de quatro, expliquei-lhe que a mamãe não havia mentido, apenas se reservado, afinal se dissesse quatro filhos, ele perguntaria onde ele estava e eu teria que falar toda a história para alguém que não conhecia. E assim expliquei ao Gabriel que às vezes devemos manter nossa privacidade. Mas ao mesmo tempo, depois daquele questionamento aprendi uma lição. Aprendi que seus irmãos tinham em você alguém muito presente, alguém que fazia parte daquela família, mesmo não estando ali entre nós e passei a dar a resposta que ele queria quando me perguntavam quantos filhos eu tinha. Dizia: – Tenho quatro, um faleceu. Hoje eu digo: – Tenho seis, um faleceu, pois após você vieram a Catarina e a Maria Teresa. Pronto estava resolvido o que incomodava o seu irmão. E ele, seu irmão, estava certo com apenas quatro anos de idade, porque você Vitor não era alguém que tinha passado pelas nossas vidas, você fazia parte dela, você era um pedaço de nossa história e eu não tinha que te esconder. Mas você sabe que nenhum de nós jamais te esqueceu.

    E eis que chegou o grande dia. Era o dia de você nascer, mamãe e papai foram juntos para o hospital às 21:00 horas. Enquanto esperávamos os médicos chorávamos muito os dois, porque sabíamos que estava próximo a nossa separação. Mas você, já sabia que mamãe havia preparado o melhor para você durante os nove meses em que estivemos juntos, escolheu todos os médicos que iriam te dar todo o carinho que você precisaria e que eu não poderia dar naquele momento. Conversei com Dr. Dernival para que batizasse você ainda na sala de parto, eu queria te dar tudo que uma mãe quer para um filho, a Eternidade. Um pouco antes de entrar no Centro Cirúrgico ele ainda me perguntou: – Como ele se chamará? – Vítor, respondi com firmeza, vindo depois, a saber, que o seu nome significava “aquele que venceu” e você venceu mesmo!

    Chorei muito quando recebi a notícia no dia seguinte pela manhã, pois você havia nascido às 23:50 hs e eu estava sedada, mas lembro-me que mesmo sonolenta perguntei ao Dr. Fernando (seu neonatologista), pessoa tão especial e humana, como você estava e apaguei ouvindo ao longe a resposta que você não estava muito bem. Doce Dr. Fernando quis poupar-me, você já havia morrido e ele havia ficado os 40 minutos de sua vida de mãos dadas com você, não te deixou sozinho nem um instante. O dia seguinte, ainda sem saber que você já era mais um anjo no céu, seu pai não me dava a notícia, pois o médico, havia pedido para que retardasse a mesma. E eu inocente via o seu pai chorar no quarto e brigava com ele para que fosse ver como você estava passando, ele simplesmente levantava da cadeira chorando, sem nada me dizer.

    A notícia de sua morte me foi dada por um grande amigo nosso, sacerdote. Amigo de todas as horas difíceis de nossa vida, aquela pessoa que quando morrer, mesmo sem ser conhecida por todos, a Terra ficará diminuída porque a humanidade toda sentirá o peso de sua partida, assim como foi com Madre Teresa de Calcutá, assim como será com João Paulo II. São seres tão especiais que a morte deles nos diminui um pouco e nos faz refletir o quanto temos de trabalhar e fazer pela humanidade. Mas até nisso Deus pensou em mim, em quem me daria a notícia que iria doer tanto. Chorei muito, como nunca havia chorado antes na vida, era uma dor que não passava, parecia roer os meus ossos, o meu coração parecia que estava sendo arrancado do meu peito. Lembro-me e jamais esquecerei que num segundo fui inundada por uma paz interior, que jamais havia sentido antes, era um carinho de Deus pelo dever cumprido, quase um “consumatum est”. Havíamos cumprido a nossa função de deixarmos você fazer a sua história e parte de nossa história.

    E algumas horas depois recebi autorização do médico para numa cadeira de rodas, descer até a capela do hospital para dar o meu beijo em você, aquele que eu tanto esperava. Peguei-te nos meus braços e olhei com detalhes para você já de toquinha na cabeça. Era lindo demais. Seu nariz, sua boquinha, seus olhos, suas orelhinhas, suas mãos tão pequenas e delicadas, sua unha tão pequenina, era perfeito. É um momento que jamais vou esquecer. Dei-te um beijo suave na testa enquanto a lágrima corria, como corre agora, neste momento em que relembro o passado, e vejo de uma forma viva e clara o seu rosto sereno, angelical, porque você já estava no céu. Essa certeza eu tinha, pois você havia recebido o sacramento do Batismo antes de morrer. E não demorei muito ali porque todo o meu amor e carinho de mãe e de ser humano eu tinha te dado enquanto você esteve vivo no meu ventre, fazendo-me te amar a cada dia e respeitar você.

    Vítor, meu filho, como você nos ensinou durante os nove meses que sofrimento não mata, mas ensina e faz crescer, nos torna mais gente e humano. Como sou grata a você por ter tido a chance de viver essa história, de ser forte porque você estava comigo. E como todo cidadão que nasce, também perante a sociedade que cobra atitudes tão contraditórias, você teve sua certidão de nascimento e certidão de óbito, porque respirou 40 minutos após nascer. E porque fez parte da história não só da nossa família, mas de toda a humanidade, você ganhou até um poema do vovô Inaldo, poema este publicado no livro de Outonos, em 2001 intitulado Elegia para o neto efêmero – Vítor Alonso Guimarães, poema suave e profundo como sua história de vida.

    Sabe Vítor, li certa vez em um livro, em que um pai escrevia cartas para uma filha portadora da síndrome de Down, uma coisa muito bonita. Ele dizia que “Umas almas encarnam em corpos defeituosos que têm de viver com problemas mais ou menos visíveis e algumas até se alojam em seres com cérebros malformados, que limitam, como montanhas intransponíveis, os seus meios de expressão. Mas estas últimas são tão perfeitas quanto as outras almas, e o seu Anjo da Guarda recebeu uma missão mais importante do que a dos anjos restantes: não só deve tutelá-las constantemente, mas também proceder inicialmente a uma seleção dos pais que hão de ser, dia após dia, seus colaboradores para ajudar esse filho a realizar ações prejudicadas pela sua incapacidade”. E é assim que me sinto com relação a você, uma privilegiada por ter sido escolhida para ser mãe de uma criança como você, que mesmo que vivendo tão pouco ensinou tanto para mim, para seu pai e seus irmãos.

    Não gosto quando me chamam de heroína por ter levado a sua gestação até o fim, as mães que assim procedem não são heroínas, são só mães. A cada dia a ciência avança, descobre novidades, e aquilo que há alguns anos era perigo de vida para as mães, hoje são facilmente resolvidos face aos avanços de conhecimento gerais, científicos e tecnológicos. Acho que haverá um dia em que casos como o seu exigirão lutar pela vida e não pela morte. Os médicos falam que embora muito se saiba hoje sobre o cérebro, muito mais ainda tem que se saber, ainda há muito por descobrir.

    Enganam-se aqueles que acham que nascido o feto, completo e perfeito tudo deu certo. O homem nunca está terminado, nesse momento deverá começar uma nova luta mais difícil e sofrida do que a de uma gravidez como da mamãe. É a tarefa de fazer este ser pequenino que nasceu, transformar-se num homem de verdade, num ser capaz de contribuir para uma sociedade justa, em defesa da vida, em defesa da verdade. E com certeza enquanto os homens julgarem-se no direito de dizer quem deve morrer, quem deve viver e quando isso se dará estaremos longe de sermos uma sociedade justa e muito menos humana.

    Querido Vítor, acho que está na hora de terminarmos esta nossa conversa, afinal, você conhece a mamãe, ela fala demais. Meu anjinho, não se preocupe com as notícias que te dei, assim como existem pessoas fracas, intransigentes, existem pessoas cheias de amor de Deus no coração e essas pessoas estão sempre juntas para defender e esclarecer aos que se acham donos do bem e do mal, o quanto vocês seres tão pequeninos são seres humanos únicos e irrepetíveis. Você sim, não tem mais o que aprender, já conheceu todos os mistérios de Deus, já entendeu o porquê de sua história, por ter sido curta e ao mesmo tempo tão grandiosa.

    E não se preocupe com as lágrimas que mamãe e papai derramaram, consolei-me quando li em um livro de Antônio Orozco, OS TRÊS SÓIS: a Sagrada Família – Editora Quadrante, que dizia: “às vezes, encontramo-nos mergulhados num mar de lágrimas… E o mar absorve-as, sem que consigam enchê-lo. Parece que se perdem inúteis, estéreis, estúpidas. Mas não. Todas as lágrimas vão parar no coração de Deus-Pai…”.

    Um beijo da mamãe.
    Ana Lúcia

  • Torre de Pedra

    Date: 2004.06.07 | Category: amor, esperança, espírito, luta, vida interior | Response: 0

    Muitas pessoas têm medo de envelhecer – eu não tenho.
    Tenho medo de endurecer o coração junto com as juntas de meu corpo.

    Muitas pessoas têm medo da morte – eu não tenho.
    Tenho medo de perder minha alma saciando os apetites de meu corpo.

    Muitas pessoas têm medo da solidão – eu não tenho.
    Tenho medo de me juntar às pessoas apenas por apelos de meu corpo.

    Muitas pessoas têm medo da dor – eu não tenho.
    Tenho medo de viciar-me na busca do prazer de meu corpo.

    Porém…

    Há uma torre branca construída no alto de uma colina,
    cujas janelas todas olham o mar.
    Dentro desta torre há uma pequena imagem do sol,
    dentro da qual repousa a Luz Viva.
    Eu entro nesta torre e meu coração
    novamente é um coração de criança.
    Sento-me sobre seu piso de pedra,
    a alma voa e a morte não me pode tocar.
    Olho em volta e todos meus irmãos ali estão comigo.
    Sinto o perfume do incenso,
    os sentidos usufruem de uma alegria maior.

    Não há medo. Nenhum medo.
    Só amor.

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