Archive for the ‘esperança’ Category

  • Luta de Vida ou Morte

    Date: 2004.05.23 | Category: amizade, amor, Asas de Borboleta, esperança, vida interior | Response: 0


    Jacob and the Angel

    Deus certa vez mandou um anjo testar Jacó, durante sua fuga. Ele estava fugindo da fúria do irmão Esaú, porque roubou a primogenitura deste, aquela que Esaú vendeu distraídamente por um prato de lentilhas. No meio da estrada o anjo esperava, e disse que Jacó dali não passava. Jacó disse que passava sim senhor.

    Ficaram lutando um com o outro por toda a noite, num eterno empate. Nem Jacó dominava o anjo, nem o anjo dominava Jacó. Ao amanhecer, o anjo sumiu e Deus apareceu e falou com Jacó. E disse que, por ter resistido, Jacó agora se chamaria Israel, e sua descendência seria o povo santo de Deus.

    Muitas vezes lutamos nas nossas longas noites escuras, enfrentando anjos, como fez Jacó, ou nossos demônios particulares. A minha própria batalha está longe de ser ganha, acho que sequer cheguei àquela parte mais escura da noite, que antecede o amanhecer. Mas persevero, porque geralmente a recompensa é grande.

    Hoje tive um relance da luta de uma pessoa de quem gosto demais e que está paralizada em seu próprio embate. Mas, felizmente, posso dizer que parece que a escuridão clareou um bocadinho, e está menos escuro que estava antes. O anjo mau que aprisionou as suas emoções está dando visíveis sinais de cansaço. Cansaço que aparece como irritação, mas não se engane, bem querer, é irritação do anjo mau, e sinal de vitória próxima.

    Os muros do labirinto estão com micro rachaduras, e já posso ver pequeninos furos na possante argamassa que antes era tão lisa e impenetrável.

    Continuo vigiando e esperando pelo amanhecer.

  • Carta para dentro do labirinto

    Date: 2004.04.15 | Category: amizade, amor, Asas de Borboleta, esperança | Response: 0


    Querido,

    Você mora num labirinto de flores e cercas-vivas, mas cercado de um alto muro de pedra. Só os pequenos animais e as flores conseguem chegar até você. Aqueles que são capazes de ser carregados na brisa, voar por sobre o muro ou rastejar por baixo dos arbustos. Você fica a sonhar cercado de verde, imerso em profundo isolamento. Você quer, diz que quer, o abraço do outro ser humano, quer um verde que não venha de uma folha, quer um azul que não venha do céu, quer um ocre que não seja o da terra sob seus pés…

    Mas onde está a saída? Você está preso, dentro desta cama verde, com este dossel azul, e estas bordas de granito. Faz o esforço para sair, mas não sabe onde está a porta para o lado de fora deste seu mundo mágico e vazio. Dentro deste mundo há a música, a beleza, a ordem… mas aqui fora há vida e aventuras. Vai ser preciso criar esta porta em algum lugar, ou criar um caminho mágico que o eleve por sobre o muro.

    O caminho que me levou até você foi o caminho das palavras e da sensibilidade, mas a sua sensibilidade sem o exercício da troca virou um bichinho arisco, e, ao menor sinal de movimento nas folhas, corre e se esconde cada vez mais fundo. Eu não tenho acesso a este nível mais profundo, pois sua muralha ainda está erguida. Eu esbarro nela toda vez que tento me aproximar. Você nem tem idéia do tamanho do meu afeto por você, eu fico daqui de longe rezando e torcendo que você ache o caminho para fora deste labirinto onde você está, mas não posso entrar para buscá-lo, senão nos perdemos os dois. E, depois do que aconteceu com Ariadne, tenho os meus receios de lançar fios de salvação.

    A preocupação com seu bem-estar é grande, como também é grande a vontade que você expanda seus caminhos. Fico meditando a respeito de como fazer para ajudar você a sair, já que não tenho as tranças compridas de Rapunzel, nem o tapete mágico de Aladin. Eu vejo as suas “tentativas destrambelhadas” de pular o muro que está começando a machucar você, e só o que posso fazer é estender a mão e esperar. Entrar não posso, esta muralha circular coberta de limo é espessa e impossível de se escalar.

    Você é importante para mim, e nunca tive pudor de expressar isto. A mão está estendida, sempre esteve. Estou aqui, sem nenhuma intenção belicosa, qual um bichinho a mostrar a barriga. Como todo bicho sabe, este é o maior gesto de submissão que se pode fazer. Se você morder, eu sangro. Os animais geralmente respeitam este gesto de submissão e cessam qualquer briga. Pena que os seres humanos não são mais regidos pelo instinto, e podem muito bem morder a garganta oferecida. Já aconteceu comigo algumas vezes. Não é seu caso, de forma alguma, mas como os muros são geralmente construídos de medo, tentei mostrar que não há nada que você possa temer em mim. Não há MESMO.

    Não é também cobrança alguma, nem estou exigindo que você me abra as portas do seu coração; apenas manifesto o sentimento de cuidado e reverência com que tratarei seu gesto, porventura ele aconteça. Seus sentimentos íntimos são tesouros de sensibilidade que vislumbro por entre suas palavras escritas e alguns pequenos gestos inconscientes. Vê-los diretamente, expostos como as jóias que são, diante de meus olhos, seria realmente especial e algo muito valorizado por mim.

    Quem sabe um dia, conversando, descubramos qual a palavra mágica que cria o portão do seu mundo para o meu.

  • Uma Páscoa Santa

    Date: 2004.04.10 | Category: amizade, esperança, espírito | Response: 0

    Queridos amigos,

    Espero que a Páscoa de todos tenha sido santa e pacífica, sem malhação de coisa alguma, e que a Ressureição atinja a vida de todos vocês.

    Obrigada pelos cartões e pelas mensagens diversas.

    Beijo grande em cada um

  • Luto

    Date: 2004.02.06 | Category: amizade, amor, esperança, saudade | Response: 0

    Este blog e a sua autora estão profundamente tristes de participar aos leitores o falecimento do pai de um grande amigo. Visito o blog deste amigo todos os dias, algumas vezes mais de uma vez por dia, apesar de saber que ele tem postado pouco e de maneira irregular.

    Hoje, há uma tarja preta lá. A noite desceu novamente. Mas a paz volta, Dennito, e eu não gostaria de privar seu pai mais tempo da companheira de tantos anos. Ele não quis ficar sem ela, e eu não o culpo.

    Todos aqueles que gostam de você estão sofrendo junto. Mas eu insisto, querido, que falta pouco para o amanhecer.

    Força. Amo você.

  • Mea Culpa

    Date: 2004.02.04 | Category: amizade, amor, esperança | Response: 0




    No Nevoeiro


    © 2004 – Rui Vale de Sousa

    Deus do Céu, esta eu não podia ter feito. Mas eu fiz. Eu esqueci o aniversário de uma das pessoas que mais me importam no mundo. Eu ESQUECI, Dennito! Dormi tarde dia 01, acordei cedo dia 02, peguei ônibus para o Rio, cheguei no meio da tarde já brigando com o banco, voei para a reunião de coordenação na faculdade, cheguei em casa às dez da noite, e simplesmente esqueci!

    Lembrei deste aniversário especial o mês de janeiro inteiro, virou fevereiro e ele voou da minha cabeça! Que posso fazer para compensar esta falha, querido? Pago uma prenda? Faço penitência (não ria, amiga do Renan! É sério isto aqui!)? Me jogo do décimo andar? Como diria o menino especial, bosta frita! Desculpa, desculpa, desculpa!

    Meu amigo, há muitos presentes que gostaria de dar, e estão acima das minhas possibilidades. Queria transformar este nevoeiro que o cerca em um dia de sol de primavera. Não posso, não posso, Dennito, mas queria. Queria transformar cada morte em nascimento, queria – com minha presença ou com minha ausência, o que te fizesse mais bem – adoçar sua vida e acalmar seu coração. Está tudo fora de minhas mãos, Dennis, não depende de mim, e esta é a dor mais doída de todas.

    Mesmo assim, vou desejar com FORÇA, feliz aniversário, meu amigo. Há de ser feliz, há de ser feliz, este ano que inicia. E no próximo dia dois de fevereiro o nevoeiro há de ter-se dissipado.

    Todo o amor, da sua amiga de sempre

  • Solitude…

    Date: 2003.11.19 | Category: amor, Asas de Borboleta, esperança, vida interior | Response: 0

    Muitas vezes descubro que o que outra pessoa escreveu é mais capaz de descrever o que eu estou sentindo do que eu mesma poderia. Não tenho problema nenhum em reconhecer que há pessoas mais capazes que eu. Isto significa que há muito ainda a aprender e crescer. Nestes últimos dias, tenho aprendido muitas coisas novas, algumas dolorosas, outras muito, muito boas.

    Uma destas coisas muito, muito boas é que possuo amigos maravilhosos e um destes amigos me deu de presente este texto de Geraldo Eustáquio. Não podia caber melhor na situação em que me encontro e na minha proposta de vida. Agradeço ao autor e à querida amiga Atena que me presentearam com beleza e tranquilidade. E lembro sempre que um amigo querido diz que a Caridade primeira é para si.

    Amar o que eu sou

    todo indivisível que constitui o ser

    e o acontecer no meu corpo

    no espaço e no tempo.

    Amar as coisas que eu faço

    e o modo como eu as faço.

    Amar minhas limitações

    como amo minhas possibilidades

    e nos meus acertos e erros

    amar o meu projeto

    que vai se transformando em obra

    no trabalho da construção de mim mesmo.

    Amar-me como eu estou aqui e agora

    vivendo a vida simplesmente

    naturalmente

    com o ar que eu respiro

    o chão que eu piso

    as estrelas que sonho.

    Às vezes gostar de mim é um desafio

    uma prova de fogo

    que revela se eu realmente me amo

    ou apenas finjo amar-me.

    Gostar de mim na perda

    quando a vida me fecha uma porta

    sem nenhum aviso ou explicação.

    Gostar de mim quando me comparo com os outros

    quando me avalio pelos padrões estabelecidos

    de sucesso, beleza, inteligência, poder,

    deixando de amar o que eu sou

    em nome daquilo que me falta

    ou daquilo que me sobra

    em relação ao meu semelhante.

    Gostar de mim quando erro

    quando fracasso

    quando não dou conta

    quando não faço bem feito

    e ainda encontro quem me critique

    ou zombe de mim por eu ter sido

    apenas o que eu sou:

    limitado, vulnerável, imperfeito, humano.

    Gostar de mim no fundo do poço,

    cabeça a mil,

    coração a zero,

    e ainda assim

    ser capaz de ouvir e respeitar

    as referências de meu próprio corpo

    como um amigo fiel, atento e carinhoso.

    Estar comigo e me fazer companhia

    quando mais ninguém parece estar disposto

    a me acolher e me aceitar.

    Estar do meu lado

    ainda que todos permaneçam contra mim…

  • Todos os Santos e Finados

    Date: 2003.11.02 | Category: amor, esperança, espírito, saudade | Response: 0

    Queridos amigos, este final de semana é dedicado a todos os que partiram. O dia de finados, hoje, é precedido do Dia da Todos os Santos. Acho que pouca gente pára um instante para questionar o porque destas datas adjacentes. Eu parei, e obtive do meu coração a seguinte resposta: honre e cultive a amizade de todos os santos, aqueles que agradaram mais a Deus, que conhecem os caminhos mais rápidos para o Coração de Jesus; peça pelas suas almas, para que alcancem a salvação.

    Os santos mostram caminhos de salvação. As almas nos lembram que a vida passa depressa. Eles estão a nos esperar. Vamos ao encontro deles, ou caímos no abismo? A hora de escolher é agora, amigos queridos.

    Oferecendo a vocês a doce imagem que está postada na EWTN, desejo um dia de paz e reflexão para todos, com menos lágrimas de saudade e mais esperança…

  • A visita

    Date: 2003.11.02 | Category: amor, Asas de Borboleta, esperança, espírito, mãe, vida interior | Response: 0

    Adormeci no meio da tarde e tive um sonho. No sonho, subia as escadas para a varanda de uma destas grandes casas de fazenda, como uma das antigas fazendas de café do século dezenove. Grande, espalhando-se para a direita e para esquerda. Dois andares, alva, janelas e portas pintadas de azul fechado, com molduras de pedra. Piso e teto de tábua corrida. Nada me é familiar, mas tudo me é familiar. A varanda está vazia, mas a própria casa parece me convidar para entrar. Não sinto confusão nem medo, mas uma certa expectativa.

    Logo defronte à porta de entrada, um corredor que de tão longo parece se estender até o infinito, com portas a intervalos regulares dos dois lados. A casa é muito antiga, mas não passa a impressão de velhice, muito pelo contrário, toda ela parece pulsar viva. A sala principal, à minha esquerda, está na penumbra. Uma luz bonita filtra pelas cortinas leves. Vejo duas grandes arcas encostadas nas paredes, com imensos jarros de louça repletos de flores do campo, um sobre cada arca. Surpreendo-me com os dois conjuntos modernos de sofá, de algodão cru e parecendo ser muito macios e confortáveis. A sala é imensa, e vejo que à minha direita existe uma sala de jantar igualmente grande, com duas imensas mesas de jacarandá. Encostadas na parede, ladeando uma porta, duas grandes cristaleiras repletas de louça.

    Meio incerta sobre o que fazer, caminho devagarinho até a primeira cristaleira para observar os conjuntos de porcelana. A casa é toda muito linda e acolhedora, mas até agora não vi ninguém. Até que ouço uma voz…

    – Oi, filha…

    Dei um pulo. Ela estava na entrada da sala de jantar, sorrindo. Como sempre, sorrindo.

    – Mãe?!?

    Ela me deu aquele sorriso que reservava só para mim, aquele que ela dava quando estava muito satisfeita comigo. Ela estava diferente, especialmente do tempo que mais lembro, o tempo da doença. Ela estava… melhor. Era minha mãe, mas era minha mãe como ela devia ser, sem uma certa tensão que lhe fazia ranger os dentes, sem os medos que lhe toldavam os olhos, sem doença, sem seio amputado, com uma pele linda de pêssego e os olhos verdes cor de folha nova. Magra, com o corpo parecido com o que vi em sua foto de casamento, e um rosto sem marcas, sem idade determinada. Ao lado dela, quieto a me observar, sentado tranqüilamente, o Buggie, cãozinho que ela ganhou de presente de uma amiga. Também sem os sinais de doença e velhice, sem a cegueira.

    – Mãe…

    – Sim, filha. Que bom que você veio visitar.

    – Eu estou dormindo, não estou?

    – Está.

    – Mãe, como você está linda!

    Ela sorriu e me abraçou. Eu não sentia a vontade de chorar que sinto quando lembro de seu abraço acordada, porque não era uma lembrança saudosa, estava mesmo entre os braços de minha mãe. Quase protestei quando ela soltou do abraço e pegou minha mão.

    – Seus avós vão ficar tristes de saber que você veio quando eles não estavam.

    – Mãe, que lugar bonito!

    – É nossa casa, Assunção Maria.

    – Nossa casa?

    – Sim, estamos aqui, todos nós. Suas tias e tios, seus avós e bisavós, todos nós. Seu irmãozinho também está aqui.

    – Pedro Paulo está aqui?!?

    – Sim, está.

    – Posso vê-lo, mãe?

    – Não, filha. Você só vai poder conhecer seus parentes que morreram antes de você nascer quando vier de vez para cá. Filha, não deixe de vir!

    – Mãe, algum parente nosso que eu conheço não conseguiu vir?

    Os olhos dela encheram de lágrimas, mas ela não falou nada. Cheia de culpa por ter entristecido minha mãe, mudei de assunto:

    – Mãe, o Buggie! Ele está aqui também!

    – Ah, filha, você sabe o quanto eu amo o Buggie e o quanto ele me ama. Ele me achou aqui.

    – Posso pegar ele no colo?

    – Pode.

    Buggie nunca gostou muito de colo, era um yorkshire terrier muito peludo e morria de calor, mas sempre foi um cavalheiro e não se incomodou que eu o apertasse um pouco. A mãe foi andando em direção à sala de estar e eu a acompanhei com Buggie nos braços. Ela sentou em um dos sofás e eu sentei pertinho. Coloquei o Buggie no chão, e ele deitou naquela sua pose característica, as patas traseiras esticadas para longe do corpo, a barriga toda encostada no chão de madeira lustrada. Mamãe sorriu, perguntou:

    – Quer cafuné?

    Ela não precisou perguntar duas vezes, deitei imediatamente a cabeça em seu regaço, e ela acariciou meus cabelos. Ela cheirava ao seu perfume favorito, Fleur de Rocaille… o toque, o cheiro, tudo tão familiar…

    – Mãe, não quero ir embora…

    – Filha, você não pode ficar. Não é ainda sua hora de vir.

    – Mãe, está tudo tão penoso… as coisas parecem ficar cada dia mais difíceis. Aqui sinto tanta paz…

    – Assunção Maria, você sabe que ainda tem muito o que fazer. Agradeça a Deus por esta visita, e por saber que estamos aqui à sua espera, filha. Traga seus irmãos e seu pai para cá.

    – Como, mãe?

    – Reze, filha. Agora sossega, aproveita o cafuné…

    Eu me acomodei melhor e ela continuou a acariciar meus cabelos, e a cantarolar baixinho as canções que cantava para me ninar em criança. Eu fui ficando sonolenta, mas briguei com o sono, porque não queria partir. Eu sabia que, se adormecesse, ia acordar longe dali. No entanto, a voz suave da minha mãe foi me embalando, os olhos foram pesando e fechando… antes de adormecer completamente, escutei baixinho a frase que ela disse para mim no hospital, um pouco antes de morrer…

    – Filha, você é tão linda….

    TRRIMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!

    Acordei num pulo, sobressaltada. Era o telefone. E era engano.

  • Date: 2003.10.19 | Category: esperança | Response: 0

    © 2003 – Zacarias Pereira Da Mata

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    A pedidos, deleto a Tristeza e deixo apenas a Esperança

  • Braços abertos, mãos espalmadas

    Date: 2003.09.30 | Category: alegria, amor, esperança, espírito, vida interior | Response: 0

    O amor… o amor. Pobre sentimento confundido diariamente, e tantas vezes esquecido em sua verdadeira forma. Trocado pela posse, pelo desejo, pela necessidade. As pessoas querem envolver e apertar umas às outras entre os braços, e nunca deixar o outro se afastar. E o aconchego do abraço vira a prisão do ciúme.

    Para mim, amor é braços abertos. O abraço deve ser sempre pronto, mas leve e facilmente desarmado. O amado vem, se aproxima, confiante da acolhida, e se afasta confiante que sua pequena investigação solitária não vai ser confundida com rejeição. Se afasta como o cãozinho feliz de ter a guia solta, mas sem jamais pensar em abandonar o dono de seu coração.

    Muita gente, gente demais, acha que amor é um domínio que se tem sobre o outro, ou um direito de determinar a extensão da liberdade do outro. Muita gente se ilude quando pensa que pode controlar as atitudes ou os sentimentos de outrem. Maridos, mulheres, namorados e namoradas que brincam de detetive na vida do amado. Gavetas reviradas, carteiras revistadas, relatórios detalhados das atividades.

    Pais que querem impor planos de vida aos filhos, planos que eles jamais perguntaram se era da concordância de seus rebentos. Quantos pais ficam a falar, olhando para o berço do inocente: “Este vai ser (….) como o pai!” Quantas vidas envenenadas pela discórdia causada pela arrogância de um pai ou uma mãe em querer determinar a vocação do próprio filho. Ou mesmo negar a visível e patente vocação, por contrariar sonhos dos quais o filho jamais tomou parte.

    Domingo, 21 de setembro, estava eu a tomar parte da celebração da Missa. Depois da comunhão, os habituais avisos comunitários. Mas estes não eram habituais. O sacerdote chamou ao microfone um rapaz, que havia pertencido ao grupo jovem daquela paróquia e agora se apresentava diante deles como um seminarista, que em pouco mais de 300 dias seria ordenado padre, depois de muitos anos de estudo e dedicação.

    Como aquele rapaz exalava satisfação e vitória. Como era lindo o seu sorriso ao falar dos religiosos que o haviam auxiliado no caminho da realização de sua vocação. E que olhar melancólico ao dizer à congregação: “Tive de ultrapassar muitos obstáculos, um deles minha mãe a falar, ‘Mas meu filho, eu não o criei para isto, e meus netos, não vai me dar netos?’ Queridos amigos”, continuava o rapaz “vocês acham que sacerdotes nascem prontos, que caem do céu, que vêm de Marte, que brotam da terra? Sacerdotes vêm das famílias.”

    Que difícil deixar os que amamos partirem para levar suas próprias vidas, que medo que temos de ficarmos sós… mas se há amor, há também como condição de felicidade a felicidade do outro, e só de braços abertos e mãos espalmadas, libertando quem amamos para fazer o que acham melhor, temos alguma chance de vê-los novamente, olhos brilhantes, ombros empinados, sorriso no rosto.

    A congregação aplaudiu de pé aquele rapaz vitorioso, e eu não pude evitar de olhar através das lágrimas, um pouco acima e além, um certo alguém de braços abertos e mãos espalmadas, a nos fitar da sua cruz.

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