Archive for the ‘espírito’ Category

  • A Quem Seguis?

    Date: 2017.11.24 | Category: espírito, luta, saudade, vida interior | Response: 0

    “Portanto, todos aqueles que pecaram sem Lei, sem Lei perecerão; e todos aqueles que pecaram com Lei, pela Lei serão julgados. Porque não são os que ouvem a lei que são justos perante Deus, mas os que cumprem a Lei é que serão justificados.” (Romanos 2, 12-13)

    “Eu vos exorto, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo: guardai a concórdia uns com os outros, de sorte que não haja divisões entre vós; sede estreitamente unidos no mesmo espírito e no mesmo modo de pensar. Com efeito, meus irmãos, pessoas da casa de Cloé me informaram de que existem rixas entre vós. Explico-me: cada um de vós diz: “Eu sou de Paulo!”, ou “Eu sou de Apolo!”, ou “Eu sou de Cefas!”, ou “Eu sou de Cristo!” Cristo estaria assim dividido? Paulo teria sido crucificado em vosso favor? Ou fostes batizados em nome de Paulo?” (I Cor 1, 10-13)

     

    Estou acabrunhada, triste, de coração pesado como chumbo. Tenho visto por toda parte desrespeito à fé cristã; ataques ditos ‘artísticos’; profanação de templos católicos; religiosos e leigos, homens e mulheres, presos e mortos por causa da Fé em Cristo. Tudo isso faz com que eu me entristeça, mas nem de longe com a intensidade que me entristece saber que os ataques mais peçonhentos à Igreja vêm de DENTRO dela.

    Eu nasci e cresci numa família católica, fui batizada no mesmo dia em que nasci. Minha mãe e minha tia Eloysa eram congregadas marianas (ainda guardo suas fitas azuis), e quando tinha um ano de idade, minha tia me levou para visitar as irmãs de São Vicente no Santuário de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, no Rio, onde fui consagrada à Maria. Tia Elô gostava de lembrar como fiquei comportada, imitando as freiras no ajoelhar e levantar e sentar da oração (não sei se era Missa). Sempre, aliás, gostei de ir à Missa, o ambiente da Igreja de Pedra sempre foi para mim sinônimo de paz e proteção. Me sentia bem, simplesmente, desde muito antes da Primeira Eucaristia, aos nove anos.

    Depois da primeira comunhão, meu pai espiritual me recebia, no lindo mosteiro da sua Ordem Beneditina, e lá aprendi a amar o canto gregoriano, que enchia a grande igreja, sempre na penumbra. Eu, adolescente, fiz parte do MESB – Movimento de Encontros São Bento, levada pela mão de Dom João, meu confessor e diretor espiritual do movimento. Aproveitava para chegar mais cedo nas reuniões semanais às quartas ou quintas à noite, para poder assistir às Completas, muitas vezes só eu e os monges – e me parecia que uma multidão de anjos também.

    O amor a Cristo e à sua Igreja não é uma segunda natureza para mim, mas é parte, a maior parte, da pessoa que sou. Frequentar uma outra igreja, com doutrina diferente, seria o mesmo que, sem mais nem menos, trocar de pais e decidir, num rompante, que o coreano da pastelaria da esquina agora é meu pai biológico. Ser algo diferente de católica para mim é uma impossibilidade concreta.

    Pneuma. O Espírito sopra onde quer, e eu sempre desejei que soprasse forte a meu redor, desalinhando meus cabelos e me fazendo fechar os olhos em oração. Os sinos da torre do Mosteiro da Praça Mauá batem em compasso com meu batimento cardíaco, eu respiro o farfalhar daquelas folhas de árvore sacudidas pelo vento da Baía de Guanabara. Maria, Mãe Santíssima, sempre foi o colo para onde eu partia a cada pequeno sofrimento da infância; o ombro que recebeu minhas lágrimas quando eu me despedi de minha mãe e de meu pai. A Igreja me perpassa, muitos dons eu recebi; se eu falho de tantas formas em Ser Igreja, tenho consciência que a culpa é única e exclusivamente minha.

    Mas nunca, com todos os pecados e defeitos que tenho, jamais me passou pela cabeça levantar a voz para criticar acidamente um padre, um bispo, que dirá um PAPA, como tenho visto católicos fazerem ultimamente. Toda vez que vejo um padre, vejo meu Pai João, vejo todos os Santos Padres da história da Igreja, vejo aquele que traz Cristo para entrar em minha alma na Missa. Os religiosos e religiosas têm um lugar terno no meu coração, que cresci em meio a monges. O Papa, ah, esse é Cristo Conosco, Pai de todos os Católicos, esteio da Igreja. Cada um deles a seu modo, errando ou acertando como homens, mantiveram o Corpo de Cristo vivo e crescendo por dois milênios.

    Como pode alguém ter a ousadia de displicentemente dizer “Sou católico pré-Concílio Vaticano II”, jogando fora – e convicto que DEUS jogou fora – toda a sucessão apostólica desde meados do século passado?! Deus então abandonou a Igreja, é isso? O Deus que mandou Francisco de Assis para reconstruir o que falhava, Catarina de Sena para trazer o Papa de volta a Roma, Pio de Pietrelcina para nos lembrar dos dons do espírito e da necessidade de obediência e oração, João Paulo II para derrubar o Muro que dividia a humanidade em duas metades que não se falavam… ESSE Deus simplesmente permitiu que a Igreja ficasse nas mãos de hereges (sim, já ouvi até mesmo São João Paulo II ser chamado de herege) por 60 anos, sem nenhum alívio?

    Hoje eu li uma outra coisa que foi como uma facada no peito. Numa postagem de um amigo no Facebook, que justamente homenageava os dons de inteligência e erudição do Papa Emérito Bento XVI, um contato seu comentou: “Esse é o meu Papa – o único”. Algumas outras pessoas concordaram enfaticamente.

    Agora Papa se escolhe; dispensam-se uns, louvam-se outros, utilizando nada mais que os gostos pessoais subjetivos e a vontade de se ter mais majestade que o Rei. E pior, com o sentimento de ser o católico mais puro e fiel da face da terra.

    Lúcifer, quando tentou roubar para si a majestade divina, pelo menos sabia que isto era um levante, uma traição, um ato de guerra.

  • Finados

    Date: 2015.11.02 | Category: espírito, mãe, pai, saudade, vida interior | Response: 0

    Hoje é dia de lembrar, e eu estou lembrando. De mãos. Mãos. Eu não sei se muitos adultos param para pensar que tudo para a criança é muito alto, muito grande, muito largo, então ela vê as coisas em pedaços. Pelo menos, assim era comigo.Uma das minhas lembranças mais antigas era de adultos conversando enquanto eu enxergava muitas pernas, minha visão passando muito pouco da altura daqueles joelhos.

    Mãos. Mãos são pequenas o suficiente para uma criança observar. Lembro das minhas queridas mãos. As mãos de minha avó, pintadinhas de idade, rezando o terço, eu deitada em seu regaço esperando o fim da reza e mais uma história de Pedro Malasartes antes de receber minha bênção e dormir. As mãos da irmã de minha avó, deformadas pelo reumatismo, mas ainda ágeis para costurar roupinhas para minhas bonecas, brincar de massinha, me chamar para enrolar rosquinhas de polvilho e fazer o doce de laranja mais gostoso que eu já provei. A eterna disponibilidade daquelas mãos.

    As mãos da minha tia acendendo a lamparina diante da imagem da virgem sobre sua cômoda. Mãos de professora, girando o mimeógrafo e deixando a casa com cheiro de álcool, datilografando e me deixando datilografar em sua máquina portátil, me interessando pelas letras antes mesmo que eu aprendesse a ler. Mãos finas e muito brancas, as mãos de professora de minha tia. As mãos tão bonitas de minha mãe, sempre de unhas pintadas e tão cheirosas que o ritual de dormir da Malu-bebê incluía cheirar seus dedos, e só os seus. Nenhum outro servia.

    As mãos de meu pai… muitos momentos eu olhei aquelas mãos fazendo coisas. O cigarro era seu eterno companheiro. Eu as observava fumando, dirigindo, escrevendo, limpando as peças de carne do churrasco, me ensinando a fazer pequenos consertos pela casa. A última coisa que ele fez em vida, na ambulância que o levou pela última vez ao hospital, foi me estender a mão e me soprar um beijo. Na minha alma ainda seguro firme na minha a mão do meu pai.

    Mãos que me guiaram pela vida, me mostrando o que fazer e o que não fazer. Me apoiaram, me ensinaram a andar, a escrever, a fazer crochê, a costurar e a cozinhar. Principalmente mãos que me amaram. Hoje é o dia de lembrar delas, de pedir a Deus que estenda suas mãos misericordiosas em direção às minhas queridas mãos, e as mantenha na graça. Que nenhuma delas se solte, Senhor.

  • A Rosa e os Espinhos

    Date: 2014.04.14 | Category: amor, espírito, vida interior | Response: 2

    Ela andara só por toda a vida. Como nunca tivera o que verdadeiramente chamar de seu e nunca realizara o destino que desejara para si, ela cobiçava. Cobiçava o destino alheio. Assim é a vida… Quando por muito tempo o caminho trilhado é só, nos parece que só resta espiar, maravilhado e faminto, aqueles caminhos que são compartilhados – daqueles que tiveram a chance do amor verde, tenro e frutificado. Companhia, por isso, parecia a ela o maior dos tesouros. Nunca lhe viera fácil companhia de qualquer tipo. Era simples saber o porquê: nunca fora mansa, não era mansa e duvidava de um dia vir a ser mansa.

    Desde cedo só, testando forças e resistências sem apoio e sem ajuda, percorrera a maior parte do caminho em companhia apenas do vento e de seus pensamentos. Aprendera a solidão e a solidão a fortalecera, pois as dificuldades da vida, quando acompanhadas da solidão, quebram ou fortalecem. Ela certamente se fortalecera, e não só isso. Ela se mantivera isolada, indomada e altiva, cavalo selvagem e livre que não aceita arreio, com o temperamento afogueado e guerreiro como o dos melhores puro-sangue. O fogo e a força a mantinham trilhando, confiante, os caminhos difíceis demais para os mais fracos.

    Mas era preciosa a companhia. Ela a queria. A cada sinal da possibilidade de encontro – que ela sempre desejara livre, forte, afogueado e intenso como ela – ela parava. Muitas e muitas vezes ela se perguntara se era Ele quem chegava, aquele que andaria parelho com nela no seu passo veloz, sem tentar frear a velocidade ou fugir do desafio. Aquele que ela sabia ser tão forte quanto ela (ou mais, mais forte, desejava ela), mas que não utilizasse esta força para coagir ou impedir. Este seria o amor que a impeliria a enfrentar caminhos ainda mais únicos, mais difíceis e ermos, mais cheios de realização pessoal. Era Ele quem traria, por contraste e complemento, aquilo de melhor que ela era.

    Sempre, no entanto, a miragem se desfazia em algum momento, e ela via que, em vez dEle, havia um potro jovem pedindo proteção, um manso jumento que não tinha a menor idéia do que fazer com ela além de admirá-la, às vezes até um pangaré que à distância parecia mais do que era.Ela suspirava e olhava em volta, perguntando ao vento onde Ele estava, antes de partir mais uma vez num caminho só. O vento jamais lhe respondera.

    Tudo isso a tornara arisca. Exposta a muitos perigos sozinha, algumas vezes tomada de assalto e largada na beira da estrada quebrada e ferida, ela se erguia, uma vez e mais uma vez e mais uma outra ainda, para com um suspiro cansado voltar a carregar seus tesouros e suas chagas na esperança de poder depositá-los um dia, aliviada, aos pés dEle. Como ela percebia intensa a cura de saber que a grande distância que a levaria até Ele seria a mesma, até menor que o caminho que Ele percorrera. Que felicidade seria passear pela primeira vez nos amplos salões de uma vida que não foi projetada a dois, mas que foi preparada para este encontro. Óleos perfumados, presentes mútuos, jardins murados e alcovas secretas, tudo há muito guardado para este momento. Ela cobiçava, andava e meio impaciente esperava.

    Aos poucos a impaciência virava serenidade, a cobiça virava contemplação, e ela percebia que não, apesar de ser preciosa, a companhia não era a coisa mais preciosa que havia. Havia algo maior.

    Dentro de seu coração sem porteira e sem barreira, dentro de sua alma sem casca e sem proteção, lá no interior de sua morada havia um anjo com espada flamejante protegendo a entrada de um jardim vazio a não ser por um único banco de pedra; pairando sobre este jardim havia um coração em fogo coroado de espinhos que gotejava lentamente um sangue rubro e vivo, que regava uma única rosa rubra e viva que crescia por trás do banco, no meio de um imenso arbusto de espinhos. Ela senta no banco de pedra, finalmente entronizada em si mesma e n’Aquele que realmente importava mais que sua altivez, que sua força, que sua liberdade. Vagarosamente o arbusto de espinhos cresce e toma conta de todo o jardim, dificultando até mesmo a visão do anjo lá fora.

    Ao deitar no banco de pedra surpreendentemente confortável e acolhedor, e adormecer junto à sua rosa rubra, presente do grande coração de seu Mestre e verdadeiro amor de sua vida, ela suspira baixinho: Senhor, fico convosco; se Ele ainda vem, então que me busque aqui.

  • O que importa

    Date: 2010.04.23 | Category: amizade, Asas de Borboleta, beleza, espírito, saudade, vida interior | Response: 3

    Recebi um comment especial, infelizmente o WordPress ou a Sonia (a comentarista em questão) não vincularam o texto a um post, pelo menos eu não achei o link. O melhor mesmo, então, é simplesmente citar o comentário aqui:

    Olá,
    Faz uns meses que adicionei seu blog nos meus favoritos, pois havia gostado imensamente das suas mensagens, pois me identifico muitíssimo com elas. Perdi meu pai, também com o tal tumor, e dias depois, minha mãe teve um derrame, vindo falecer no ano seguinte.Eu nunca sofri tanto em toda a minha vida. Acompanhei meu pai no hospital e depois minha mãe que morava com a minha irmã.
    Neste momento, estava eu olhando meus favoritos, onde tem muitas opões, de repente vi o seu blog, e entrei, e chorei novamente.
    Gostaria de parabenizá-la pela maneira poética e ao mesmo tempo objetiva que escreves, e por toda força que teve e tem.
    Um beijo carinhoso, de uma desconhecida que se sente ligada à você.

    Sonia, querida desconhecida, você entendeu errado, a força não é minha… É você que me dá esta força, quando me escreve, é um aluno que me diz que eu fiz diferença na vida dele, é um amigo que me abraça, é um estranho que me sorri. Eu simplesmente abro as asas e deixo o vento me levar.

    Obrigada por existir, obrigada por escrever. Sinto muito que você tenha passado por estas perdas tão próximas uma da outra, imagino o quanto foi duro. Minha mãe morreu 20 anos antes do meu pai, os dois devido a complicações causadas por tumores. Nas duas ocasiões lá estava eu ao lado deles, tentando engolir o medo e a tristeza para ajuda-los a nascer para a vida eterna. Acho que fui mais bem sucedida da segunda vez,  era tão jovem durante a doença da minha mãe…

    Como já disse tão bem o Dennis D. na ocasião do falecimento do meu pai, os buracos da alma ficam. Quanto a isso nada há para ser feito. É bom saber, no entanto, que há esta irmandade e esta humanidade à nossa volta que também sofre, que também sente. Se a minha dor ajuda a confortar a sua, saiba que a sua também ajuda a confortar a minha. Saiba com toda a segurança que estamos, sim, ligadas, e que isto é muito bom.

    Bem vinda ao meu coração 🙂

  • Sete anos de que mesmo?

    Date: 2010.03.17 | Category: Alex Cabedo, amizade, Asas de Borboleta, espírito, saudade, vida interior | Response: 2

    alex sete anos

    “A morte não nos persegue: apenas espera, pois nós é que corremos para o colo dela. Talvez o melhor de tudo é que ela nos lembra da nossa transcendência. Somos mais que corpo e sangue e compromissos, susto e ansiedade: somos mistério, o que nos torna maiores do que pensamos ser.
    E o amor, quando se aproxima desse território do estranho, tem de se curvar: com dor, com terror, com enorme ansiedade dá um salto irrevogável para essa prova maior. E então começa a ser ternura; e então se aproxima, muito vagamente, de alguma coisa chamada permanência.” (Lya Luft em Secreta Mirada)

    Se eu soubesse em janeiro de 2003 o que aconteceria em 16 de março, quase certamente teria dado um jeito de partir para Barcelona e apertar forte um amigo querido nos braços, antes que este partisse. Se eu soubesse em abril de 2003 o que sei hoje talvez não tivesse sofrido tanto… mas não, mesmo a cada experiência aprofundada o peso da partida é quase mais do que podemos suportar. A cada março passo por minha Quaresma Particular, me despeço novamente de ausências antigas e algumas vezes, dolorosamente, como neste ano de 2010, faço despedidas novas.

    No dia sete deste mês, para minha profunda tristeza e consternação, perdi meu confessor e grande amigo, D.Tadeu Lopes, OSB, reitor do Colégio São Bento aqui no Rio. Meu amigo há quase trinta anos, meu confessor desde a morte de meu primeiro orientador espiritual, D. João Evangelista Enout, OSB, falecido a treze de março de 1993, uma sexta feira de inundação no Rio. Perdi repentinamente estes dois grandes amigos em março, como perdi repentinamente o muito querido Alex Cabedo no março de sete anos atrás.

    Perdi?

    Eu me pergunto o que foi que eu perdi deles, se a cada dia que passa a voz pausada e serena de um, o olhar amoroso e acolhedor de outro, a escrita e a inteligência do terceiro, estão presentes e firmes à minha volta, crescem mesmo, e se modificam à medida em que moldam meu próprio espírito e a maneira como convivo com o mundo material que se apresenta no meu hoje. Aliás, relendo a sentença anterior, percebo encantada que não sei determinar a qual deles pertence a voz, o olhar, a inteligência, porque fui sobremaneira afortunada de encontrar tudo isso nos três…

    Meus amados quaresmeiros me guiam nesta dolorida viagem de transmutação da perda em asas de borboleta, e se existem hoje pessoas que encontram a doçura que precisam em meu colo, voz ou olhar, que saibam com toda a certeza que meu coração é adoçado por eles.

    Alex, então, é o milagre da amizade que se aprofunda depois da perda, que se desmembra em novas amizades e descobertas, que cresce e se desenvolve como sua filha o faz diante de mim. Quantas e quantas vezes, amigo querido, agradeci a imensa generosidade dos presentes com os quais me regala, como já agradeci por Cristina e Carmem e Paula e Carolina… e qual minha alegria de ver que há mais pessoas a descobrir e conhecer, que existem mais presentes seus a serem abertos em futuras datas especiais… bendita Internet!

    Quantas vezes, em meu coração, trocamos sorrisos e abraços que só nós sabemos, quantos sorrisos enigmáticos deixaram as pessoas à minha volta intrigadas… não posso, não seria justo falar em perda quando falo de Alex, porque meu conhecimento dele e meu relacionamento com ele só foi acrescido depois de sua partida.

    Posso falar – isso sim – de um renascimento constante destes três dentro da Secreta Morada (com trocadilho, obrigada, Lya! Obrigada Helô Capel, pelo maravilhoso presente do livro!) do meu coração. E o outono brota e se transforma numa perfumada primavera, em busca da Páscoa.

    E a Páscoa vem, ela vem!

    Feliz Aniversário, Alex, Dom João. Vá em paz, querido Dom Tadeu.

  • Beautiful

    Date: 2009.10.10 | Category: Asas de Borboleta, espírito, luta, vida interior | Response: 1

    Tantas e tantas vezes já expliquei aqui o porquê do meu blog chamar Asa de Borboleta e algumas vezes eu mesma me esqueço… A asa da borboleta é o símbolo da sua coragem de Ser, mesmo quando tudo à sua volta parece não querer que ela seja. É o resultado glorioso da metamorfose daquela que se arrasta vagarosamente de barriga no chão, mas decide que PRECISA voar. É fruto de dor, de sofrimento, de um tempo ENORME dentro de um casulo, solitária, com os movimentos restritos. No fim, o tempo de voar é tão curto… mas o vôo é uma sinfonia de louvor Àquele que criou o céu e as flores.

    Pois então… há muita gente, muita mesmo, que pensa que tudo isso é uma besteira sem fim. Pessoas que pensam que o que vale é o dinheiro e o sucesso que você acumula, a sua capacidade de passar por cima do que for – mesmo de outras pessoas – para conseguir o que quer. Estas pessoas, e eu já encontrei algumas delas na Net e pessoalmente, pensam que eu sou uma velha imbecil. Retardada, foi uma das expressões utilizadas. Nos últimos meses estive tão fraca que cheguei a acreditar nelas, a pensar que nada mais tinha para escrever aqui que não fosse triste, velho e imbecil.

    Bem, meus ídolos velhotes, barrigudinhos, carecas, grisalhos e LINDOS do Marillion escreveram há algum tempo uma música que fala maravilhosamente sobre tudo isso, é uma música com Asas de Borboleta. Deixo com vocês a apresentação ao vivo tirada do You Tube com muito amor e com o desejo que vocês que estão por aí lendo o Asa e sentem como eu sinto saibam que são BELOS.

    Aos materialistas, mercantilistas, interesseiros e maus-caráter em geral, bem (tampem os olhinhos das criancinhas, por favor) VÃO À MERDA.

    Estou voltando.

    Beautiful
    music: Marillion
    lyrics: Steve Hogarth & John Helmer

    Everybody knows we live in a world
    Where we give bad names to beautiful things
    Everybody knows we live in a world
    Where we don’t give beautiful things a second glance
    Heaven only knows we live in a world
    Where what we call beautiful is just something on sale
    People laughing behind their hands
    While the fragile and sensitive are given no chance

    And the leaves turn from red to brown
    To be trodden down, to be trodden down
    And the leaves turn from red to brown
    Fall to the ground, fall to the ground

    We don’t have to live in a world
    Where we give bad names to beautiful things
    We should live in a beautiful world
    We should give beautiful a second chance

    And the leaves fall from red to brown
    To be trodden down, to be trodden down
    And the leaves turn green to red to brown
    Fall to the ground and get kicked around

    (Are you) strong enough to be…
    Have you the faith to be…
    (Are you) sad enough to be…
    Honest enough to stay…

    Don’t have to be the same…
    Don’t have to be this way
    C’mon and sign your name
    (Are) you wild enough to remain beautiful?
    Beautiful, beautiful, beautiful.

    And the leaves turn from red to brown
    To be trodden down, trodden down
    And we all fall green to red to brown
    Fall to the ground
    We can turn it around

    (Are you) strong enough to be…
    Why don’t you stand up and say…
    Give yourself a break
    They’ll laugh at you anyway
    So why don’t you stand up and be
    Beautiful, beautiful!

    Black, white, red, gold, and brown (whatever!)
    We’re stuck in this world
    Nowhere to go
    Turn it around
    What are you so afraid of?
    Show us what you’re made of
    Be yourself and be beautiful
    Beautiful

    Essa eu TENHO de traduzir, pedindo desculpas pelo post longo.

    Belo
    música: Marillion
    letras: Steve Hogarth & John Helmer

    Todos sabemos que vivemos num mundo
    Que dá nomes feios a coisas belas
    Todos sabemos que vivemos num mundo
    Onde não damos a coisas belas um segundo olhar
    Deus sabe que vivemos em um mundo
    Onde o que chamamos de belo é o que está à venda
    Pessoas escondem o sorriso com a mão
    Enquanto o frágil e sensível não têm vez

    E as folhas passam de vermelhas a marrons
    Para serem pisoteadas, para serem pisoteadas
    E as folhas passam de vermelhas a marrons
    Caem ao chão, caem ao chão

    Não temos de viver em um mundo
    Que dá nomes feios a coisas belas
    Deveríamos viver em um mundo belo
    Deveríamos dar ao belo uma segunda chance

    E as folhas passam de vermelhas a marrons
    Para serem pisoteadas, para serem pisoteadas
    E as folhas passam de verdes a vermelhas, a marrons
    Caem ao chão e são chutadas em qualquer direção

    Você é forte o suficiente para ser…
    Tem fé suficiente para ser…
    É triste o suficiente para ser…
    Honesto o suficiente para permanecer…

    Não precisa ser mais do mesmo…
    Não precisa ser assim
    Vamos, assine embaixo
    Você é selvagem o suficiente para permanecer belo?
    Belo, belo, belo…

    E as folhas passam de vermelhas a marrons
    Para serem pisoteadas, para serem pisoteadas
    E todos nós passamos de verdes a vermelhos a marrons
    Caimos ao chão,
    Nós podemos mudar isso

    Você é forte o suficiente para ser…
    Porque não se levanta e diz…
    Pegue leve com você
    Eles vão rir de você de qualquer jeito
    Então porque você não se levanta e seja
    Belo! Belo!

    Negro, branco, vermelho, dourado ou marrom
    Estamos presos a este mundo
    Nenhum outro lugar para ir
    Vamos mudar
    De que você tem medo?
    Mostre-nos do que é feito
    Seja você mesmo e seja Belo
    Belo

  • Sensibilidade, ou Filtros

    Date: 2009.08.12 | Category: Asas de Borboleta, espírito, luta, vida interior | Response: 1

    (inspirado por Rogério Prado Macedo

    – obrigada, sem medo, amigo querido)

    Love Hurts by Nazareth

    Love hurts, Love scars
    Love wounds and mars
    Any heart not tough
    Or strong enough
    To take a lot of pain
    Take a lot of pain
    Love is like a cloud
    Holds a lot of rain
    Love hurts, (Ooooo), love hurts

    I’m young, I know
    But even so
    I know a thing or two
    I learned from you
    I really learned a lot
    Really learned a lot
    Love is like a flame
    It burns you when it’s hot
    Love hurts, (Ooooo), love hurts

    Some fools think of happiness,
    Blissfulness, togetherness
    Some fools, fool themselves, I guess
    They’re not fooling me
    I know it isn’t true
    I know it isn’t true
    Love is just a lie
    Made to make you blue
    Love hurts, (Ooooo) love hurts (Ooooo), Love hurts

    I know it isn’t true
    I know it isn’t true
    Love is just a lie
    Made to make you blue
    Love hurts, (Ooooo) love hurts (Ooooo), Love hurts (Ooooo)

    Aquilo que eu mais desejo é sempre o que me faz sofrer mais.
    Disso é feito o Rock, disso é Feito o Blues:
    A alma se arrebenta em canção.
    A guitarra corta a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz do vocalista rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Love Hurts by Cher
    (assista no YouTube, usando o link acima; permissão de embedding não foi concedida)

    Love hurts, Love scars
    Love wounds and mars
    Any heart not tough
    Or strong enough
    T’take a lot of pain
    Take a lot of pain
    Love is like a cloud
    And it holds a lot of rain
    Love hurts, (Ooooo), love hurts

    You’re young, I know
    Baby, even so
    I know a thing or two
    Ooo honey, I’ve learned from you
    And I really learned a lot
    I really learned a lot
    Love is like a stove and
    It burns you when it’s hot
    Love hurts, (Ooooo), love hurts

    Some fools dream of happiness,
    Of blissfulness, togetherness
    Oh, some fools, they fool themselves, I guess
    They’re not fooling me
    And I know it isn’t true
    Yeah, I know it isn’t true
    Love is just a lie and it’s
    Made to make you blue
    Love hurts, (Ooooo) love hurts
    (Ooooo), Love hurts

    And I know it isn’t true
    Oh, I know it isn’t true
    Love is just a lie and it’s
    Made to make you blue
    Love hurts, (Ooooo) love hurts (Ooooo), Love hurts, (Ooooo), Love hurts

    A espera dos primeiros compassos… silêncio cheio de expectativa.
    O piano despeja nos ouvidos pequenos sons que rodam, rodam.
    A banda faz o colchão onde repousa a melodia.
    A guitarra corta a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Começamos quase tudo com grande expectativa.
    Lentamente a ciranda da vida nos roda-roda.
    Os desejos nos acalentam num colchão de passividade.
    A realidade corta a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    A juventude é a surpresa, a novidade.
    Lentamente a rotina da vida roda, roda.
    A maturidade pisa no freio, desejosa de repouso
    A tristeza corta a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Na infância corri veloz em direção à descoberta.
    A adolescência trouxe responsabilidade.
    A idade adulta buscou alegria e a paz
    Na maturidade, a perda corta essa paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Não importa o que eu faça ou diga, no final é tudo sempre igual:
    A guitarra geme como alma penada, rasga a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Desculpem a longa ausência. É, tô mal….

  • Coração Constelação

    Date: 2009.03.16 | Category: Alex Cabedo, amizade, amor, esperança, espírito | Response: 0

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    Pensando, pensando… em como há seis anos atrás, na madrugada do dia 15 para o dia 16 de março nasceu uma estrela linda, linda, que brilha rubra até hoje. Estrela mansa, estrela sorriso, estrela amiga, benfazeja.

    Brilha sempre, amigo estrela de coração constelação. Teu caminho de luz já está traçado. Nunca deixe de brilhar para que possamos usar teu brilho como guia na nossa jornada. Um dia chegaremos até você, e que lindo dia este vai ser!

    Te amo, agora como antes e para sempre.

    Beijo da tua Butterfly

  • Oração para Enrico

    Date: 2008.09.14 | Category: amizade, amor, esperança, espírito, vida interior | Response: 0

    Como eu estava dizendo, há pessoas que amo muito e que estão longe demais de mim. Uma família pernambucana muito especial, que eu amo muitíssimo e há muito tempo, está em Palmas, lá em cima no limite entre o Centro-Oeste e o Norte do meu país. A família é composta de papai, mamãe e um filhinho lindo chamado Enrico. Enrico tem cinco anos, e fez neste mês de setembro, na sua escola, uma tarefa especial.

    A tarefa era meditar sobre o amor com sua família, pensar e compor sua oração particular sobre o amor. Depois de composta, Enrico devia ilustrá-la. A mamãe de Enrico compartilhou comigo esta linda oração e eu a quis compartilhar com vocês. O resultado está abaixo, na ilustração. Para quem tem dificuldade em ler letrinha de criança, transcrevo a oração de Enrico:

    Papai do Céu tem um coração que é verdadeiro e que deu para mim e para todas as pessoas que eu conheço e amo.

    Papai do Céu, eu te amo muito por ter dado coração verdadeiro.

    E é verdade, pelo menos no caso do Enrico. Deus deu a ele – e é tão visível já tão cedo – um coração cheio de amor verdadeiro. Ele tem a força da mãe e a gentileza do pai, com uma sensibilidade e esperteza que são só suas, para sustentar este coração verdadeiro. Enrico me fez meditar sobre o coração verdadeiro, e eu quis de minha parte fazer também uma oração, dedicada a ele. Vamos lá:

    Querido Jesus,

    Sei que foi o Teu Coração Verdadeiro que me pôs em contato com Enrico e o deu a mim como sobrinho querido. Peço agora, movida pelo mais puro amor de que sou capaz, que proteja sob Teu manto este pequeno e lindo Coração Verdadeiro que criaste à Tua imagem e semelhança.

    Sei também, Mestre amado, que corações verdadeiros muitas vezes vêm a este mundo para realizar as tarefas mais difíceis e penosas, aquelas que só mesmo quem muito ama é capaz de realizar. Como foi Tu mesmo que nos ensinastes, Jesus, que não há amor maior que dar a vida por um amigo, peço para mim o peso e a dificuldade que possas ter reservado para este menino. Gostaria, se fosse de Tua vontade, que o mantivesses feliz, puro, inocente e verdadeiro, um verdadeiro consolo e fonte de alegria para outros corações verdadeiros aqui embaixo.

    É em Teu Sagrado Nome que eu peço, Senhor, e desde já agradeço a Tua bondade e misericórdia.

    Assim seja.

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  • Meditações

    Date: 2008.02.17 | Category: espírito | Response: 0

    Eu fiquei com uma frase do post anterior perturbando, depois que o publiquei. É verdade que meus textos só são o que se chama de literários por acaso, porque o objetivo deste blog NÃO É nem nunca foi fazer literatura. Já disse que este blog é meu coração, um farol que chama para perto de mim pessoas que sentem parecido, ou que precisam de alguma forma do tipo de visão de vida que tenho.

    Mas não é só por isso que me incomoda a idéia de considerarem meu blog “literário”, e eu descobri o que era relendo as crônicas do Nelson Rodrigues em seu livro “O Reacionário”. Não sou “inteligentíssima”, sou uma mulher de meia idade que sente e gosta de descrever e meditar sobre seus sentimentos em texto. Poderia falar horas sobre as muitas mensagens que esta crônica especificamente deixou para eu refletir, mas basta uma por hoje: não me considero nem madura o suficiente nem com texto o suficiente para me aventurar na literatura, pelo menos não ainda.

    Prezo demais os escritores e suas obras para fazer isto de me comparar e eles ou me sentir parte de seu mundo, a não ser da forma mais periférica. INFELIZMENTE, há gente que não respeita os autores desta forma, como o próprio dramaturgo nos conta. Deixo este trechinho para a meditação de vocês, tenham todos uma bom início de semana, finalmente sem o tal horário de verão.

    “Hoje, o sujeito vai ver uma peça e tem vontade de pedir como o Hélio Pellegrino: – ‘Seja burro, meu amigo, seja burro!’. Não falo por ouvir dizer. Nos últimos tempos, tenho sofrido, na carne e na alma, experiências trágicas. As minhas peças Viúva porém honesta, Os sete gatinhos (a última virgem) e por fim O beijo no asfalto foram encenadas e todas por diretores inteligentíssimos.

    Notem: – inteligentíssimos. E foi o mal, o grande mal. E há uma coincidência: – todos diretores paulistas. Por isso quero crer que, hoje, o teatro mais inteligente do Brasil é o de São Paulo. Há, nos palcos de lá, uma rapaziada feroz que reescreve qualquer texto. Que faça isso comigo, vá lá. Quem sou eu, senão um autor modesto, de uma bem-intencionada mediocridade? Portanto, é talvez justo que um diretor paulista sapateie em cima dos meus textos como uma bailarina espanhola. Mas ele fará o mesmo com Sófocles, Shakespeare, Ibsen, etc. etc.

    (…)Em suma: – querem assassinar a palavra, e a pauladas, como se ela fosse uma gata prenha. Portanto não existe mais um único e escasso grego, não existe mais um único e escasso Shakespeare, não existe mais ninguém. Quem existe é a rapaziada de São Paulo. Vamos admitir que o teatro existe desde que se esboçou o primeiro gesto humano ou o homem disse a sua primeira palavra. Portanto, é essa tradição de 1 milhão de anos que os diretores paulistanos estão liquidando. é como se alguém afastasse com o lado do pé uma barata seca.

    Se o jovem diretor não fosse inteligente, preservaria o texto, e seria fidelíssimo ao texto. E então o público veria O beijo no asfalto, e veria Nelson Rodrigues. Desgraçadamente, estamos diante da inteligência. De intérpretes inteligentíssimos. De contra-regras inteligentíssimos. De bilheteiros inteligentíssimos. Todos estão autorizados a improvisar. Por enquanto, sou eu. Mas quando for um Shakespeare? Façam idéia de um Otelo em arrancos triunfais de cachorro atropelado; e vociferando: – ‘Vou-te às fuças!’. Mas esta paródia já fazia Dercy, há trinta anos, com seu maravilhoso histrionismo.

    E cabe uma dúvida: – querem acabar com a palavra. Mas acabar com o que não existe? o teatro brasileiro não chegou à sua palavra, não inventou a sua língua. Está certo que o francês faça algo parecido. Já realizou infinitas variações com a sua música verbal. A prosa francesa pensa pelos seus autores e faz os seus autores. Escrevendo aqui, na pobre língua que não temos, Valéry seria talvez nosso J.G. de Araújo Jorge. Primeiro, vamos fazer a nossa Palavra para assassiná-la, depois, com rútilas patadas.” (crônica publicada no jornal O Globo em 17/01/1970, republicada em O Reacionário, páginas 125/126, Ed. Companhia das Letras, 2002, São Paulo)

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