Archive for the ‘espírito’ Category

  • Date: 2005.04.01 | Category: espírito | Response: 0

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  • Páscoa 2005

    Date: 2005.03.26 | Category: espírito | Response: 0

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    Páscoa 2005

    Hoje escutei várias vezes o Gospel da Shania Twain, que pede a Deus que abençoe a criança que sofre… parei para pensar que todos nós precisamos ser libertos deste nosso sofrimento, para que não façamos mais as crianças sofrerem.

    Quis fazer uma prece por todos nós. Feliz Páscoa para todos.

    Deus abençoe

    Deus abençoe a todos nós
    Que ele nos livre do abismo
    Que Ele tenha piedade do nosso egoísmo
    Que Ele resgate nosso coração da dor
    Que Ele defenda os fracos do nosso desamor
    Que Ele perdoe nossas ofensas
    Que Ele reforce nossas crenças
    Que Ele nos tome pela mão
    Que Ele faça cada homem nosso irmão

    Deus abençoe todos nós
    Que derrame sobre nós o seu Amor
    Ordenadamente sobre os mais perdidos
    Docemente sobre os mais duros
    Carinhosamente sobre os mais aflitos
    Calmamente sobre os mais nervosos
    Suavemente sobre os mais agressivos
    Alegremente sobre os mais tristes
    Grandiosamente sobre os mais humildes

    O mestre ajoelha-se diante dos discípulos
    Para que ajoelhemos todos, um diante do outro
    Para que aprendamos o que é amor
    Deus hoje é morto por nós
    Para nos dar a vida eterna
    Hoje o Altíssimo desce à Mansão dos Mortos
    Para que não tenhamos mais de morrer
    O criador tornou-se criatura
    Para reacender a centelha divina em todos nós
    Que seja feita a vontade do Senhor. Aleluia…

    God Bless The Child
    (Shania Twain)

    Hallelujah, hallelujah,
    God bless the child who suffers
    Hallelujah, hallelujah,
    God bless the young without mothers
    This child is homeless,that child’s on crack
    One plays with a gun,while the other takes a bullet in his back
    This boy’s a beggar,that girl sells her soul
    They both work the same street,
    The same hell hole

    Hallelujah, hallelujah,
    God bless the child who suffers
    Hallelujah, hallelujah,
    Let every man help his brother

    Some are born addicted and some are just thrown away
    Some have daddies who make them play games they don’t want to play
    But with hope and faith
    We must understand
    All God’s children need is love
    And us to hold their little hands

    This boy is hungry, he ain’t got enough to eat
    That girl’s cold and she ain’t got no shoes on her feet
    When a child’s spirit’s broken
    And feels all hope is gone
    God help them find the strength to carry on
    But with hope and faith
    Yea, we can understandAll God’s children need is love
    And us to hold their little hands

    Hallelujah, hallelujah
    Let us all love one another
    Hallelujah, hallelujah
    Make all our hearts blind to color
    Hallelujah, hallelujah
    God bless the child who suffers

  • Eu já volto!

    Date: 2005.02.24 | Category: Asas de Borboleta, esperança, espírito | Response: 0

    Stella, Alfredo, Aninha, amigos todos:

    Da mesma forma que há tristezas grandes demais para palavras, onde o silêncio é a única resposta, da mesma forma que há portas que se fecham que não se reabrem jamais, há alegrias que não podem ser descritas, há novos caminhos que se descortinam e mobilizam todo nosso ser por um instante.

    Não abandono o Asa, apenas a borboleta dorme um segundo, pousada sobre um livro de poesias, enquanto a Assunção corre aqui e ali na vida real, coração e mente ocupadíssimos.

    Tudo está muito bem, e vai ficar melhor!

    Beijos estalados nas bochechas dos amigos, uma risada graaannndeee e feliz, e tchau!

    Daqui a pouco volto!

  • Posts de Natal

    Date: 2004.12.24 | Category: espírito | Response: 0

    Post de Natal 1

     

    “Naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro, enquanto Quirino era governador da Síria. E todos iam se alistar, cada um na própria cidade. Também José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, desposada com ele, que estava grávida. Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para ele na sala.

    Na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias da noite montavam guarda a seu rebanho. O Anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor envolveu-os de luz; e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, disse-lhes: ‘Não temais! Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas deitado numa manjedoura’, e de repente se juntou ao anjo uma multidão do exército celeste a louvar a Deus, dizendo:

    ‘Glória a Deus no mais alto dos céus,
    e paz na terra aos homens que Ele ama!
    ’”(Lucas 2, 1-14)

     

    Post de Natal 2

     

    Natal é a época de lembrar quem a gente ama. Melhor que isso, é lembrar que a gente AMA. Que é capaz, mesmo com tanta coisa contra, mesmo com tantos desencontros.

    Por saber que sou capaz, e feliz por me saber capaz, encaro 2005 com o coração leve. E ofereço esta canção de Natal àquele que é capaz, e não sabe.

    Amo muito você. Feliz Natal.

     

    Have Yourself A Merry Little Christmas

    Have yourself a merry little Christmas,
    Let your heart be light
    From now on,
    our troubles will be out of sight

    Have yourself a merry little Christmas,
    Make the Yule-tide gay,
    From now on,
    our troubles will be miles away.

    Here we are as in olden days,
    Happy golden days of yore.
    Faithful friends who are dear to us
    Gather near to us once more.

    Through the years
    We all will be together,
    If the Fates allow
    Hang a shining star upon the highest bough.
    And have yourself A merry little Christmas now.

  • Gentileza

    Date: 2004.10.28 | Category: amizade, esperança, espírito | Response: 0

    O Rio de Janeiro tem muitas caras. Geralmente as que aparecem na mídia são a da criminalidade e da sensualidade exacerbada. Mas o Rio também tem sua suavidade escondida, às vezes o meio do lixo.

    Era assim com o Profeta Gentileza, cujo nome de batismo era José da Trino, mas que foi rebatizado na tristeza, na loucura e no fogo: o incêndio do circo norte-americano em Niterói, no dia 17 de dezembro de 1961, no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas. Dizem que entre estas pessoas estava a família de José. O que aconteceu neste incêncio transformou a vida deste homem, e poderia ter transformado de muitas formas. Mas a dor e a loucura, em vez de virar violência e amargor, virou… Gentileza.

    Este homem, até sua morte em 1996, percorria as ruas do Centro do Rio e as barcas Rio-Niterói, dizendo palavras de gentileza e escrevendo mensagens nas pilastras dos muitos viadutos. Poucas palavras restaram, porque algum prefeito pouco gentil achou que pintar os viadutos de cinza-tristeza era melhor que preservar as palavras de José. Mas parece que o espírito do Profeta paira ainda sobre o Rio, e afeta ainda algumas pessoas.

    Este recente carioca aquijá se confessou afetado. E resolveu aderir à pequena e silenciosa campanha que eu trouxe do blog da Carol, Eu acredito em você. Pois está lançada a campanha faz um tempo, pelo Profeta Gentileza, e as crianças (Carol tem 16 anos) e as borboletas – e agora um escritor! – já aderiram.

    Tomara que espalhe.

  • Mais um Adeus

    Date: 2004.10.11 | Category: amor, Asas de Borboleta, espírito, saudade, vida interior | Response: 0

    Recife, inverno de 1985. A mocinha que eu fui ficou sabendo que um dos escritores que adorava estaria numa livraria o Shopping Recife autografando seus livros. Entusiasmada mas tímida, pegou dois deles e levou dentro da bolsa. Não sabia se teria coragem de se aproximar de tão exaltada figura e pedir o carinho de ter uma dedicatória pessoal para provar que ele era de fato seu amigo querido. Não estranhem ela nunca o ter visto antes, o amor através dos livros que os escritores e seus leitores trocam é forte e verdadeiro. Tanto quanto o leitor precisa da visão especial do escritor para conhecer melhor o mundo, o escritor precisa daqueles corações e daquelas mentes vibrando em harmonia com ele e dizendo, “Sim, é isso mesmo! Como não percebi antes?”

    A Sue-mocinha então selecionou os dois livros deste amigo, e foi para o shopping, ainda sem saber se teria coragem de se aproximar dele. Vai que a imensa simpatia e doçura presente nos livros se mostrasse apenas construção do talento dele de escritor, e o homem não fosse da mesma estatura?

    O Shopping. Lá estava ele. De longe percebeu um homem maduro, mais velho um pouco que seu pai, mas ainda bonitão. Parecia simpático. Foi-se aproximando devagarinho, e teve a grata surpresa de ser acolhida com um enorme sorriso. O grande escritor não se esquivou de mineiramente trocar um dedinho de prosa com a menina, e ainda escreveu uma dedicatória que fez o coração dela inchar de alegria: “A Sue esta lembrança afetuosa com um abraço amigo do Fernando Sabino – Recife, 19/06/85”

    O livro, Faca de Dois Gumes, foi relido aquela noite com uma nova emoção. Agora ela sabia um pouquinho mais deste livro, sabia que ele tinha sido escrito por um homem bom, com entusiasmo de menino e modos de cavalheiro. Ela já tinha vontade de escrever bem como ele. Agora passou a ter vontade de ser uma pessoa assim.

    Quase 20 anos depois, o telejornal anuncia que o meu amigo morreu aos 81 anos, depois de dois anos de luta contra um câncer. Será que alguém vai entender as lágrimas que me escorrem dos olhos enquanto escrevo isto? Será que vocês vão entender que Fernando Sabino – e Manoel Bandeira, e Carlos Drummond e Clarice Lispector e tantos outros – é parte da minha alma?

    Hoje o mineirinho contador de causo morreu. Esse mundo ficou um pouquinho mais vazio e mais triste. E o outro mundo ficou um pouquinho mais alegre. Diz o noticiário…

    Velório de Sabino é no S. João Batista
    O Globo
    GloboNews TV

    RIO – O corpo do escritor Fernando Sabino está sendo velado no cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul, onde será enterrado nesta terça-feira, às 11h. Alguns amigos como o cartunista e escritor Ziraldo e o jornalista Wilson Figueiredo estão no local. Sabino sofria de um câncer no fígado há dois anos e, segundo amigos, passou os últimos dois dias sedado. A pedido do escritor, seu túmulo terá a inscrição “nasci homem, morri menino”.

    O que eu digo é que este menino tocou fundo meu coração, e agora o Asa está de luto. Não quero falar mais, deixo com vocês Fernando Sabino…

    A Última Crônica – Fernando Sabino

    A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

    A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

    Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

    Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

    A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

    São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.

    A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

    Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

    Texto extraído do livro “A Companheira de Viagem”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.

  • Caixas

    Date: 2004.09.30 | Category: amor, Asas de Borboleta, espírito, vida interior | Response: 0

    Pessoas sensíveis demais às vezes procuram proteção fechando suas almas numa caixa muito bem trancada, à qual ninguém mais tem acesso. Pode ser uma caixa rica ou pobre, forrada de jornal ou de almofadas aveludadas. Pode ser feita do mais perfumado sândalo entalhado ou do mais duro aço. Não importa, a realidade é que quem está lá dentro sofre da mais profunda solidão.

    Foi de dentro de uma caixa destas, feita de resistente jacarandá e forrada de livros, que eu vi chegar o início da minha adolescência. Eu fui uma pré-adolescente trancada dentro de mim mesma, e eu não sabia sair. Mas Deus nunca me desampara, e Ele mandou um emissário com a chave que eu tinha perdido.

    Um anjo, Stella era um anjo caído. É engraçado como este nome – Estrela – volta e meia surge importante na minha vida, geralmente quando estou chegando em alguma encruzilhada do meu caminho. Pois, “Tia Stella” era uma amiga de minha mãe formada em educação física que reunia pequenos grupos de amigas para aulas de ginástica.

    Minha mãe, sempre preocupada com minha tendência para engordar – o que para ela era a pior herança genética que havia me legado – , e diante da minha recusa categórica de ir para uma academia, convenceu-me a participar de algumas aulas da Tia Stella.

    Ela era uma mulher doce e tranquila por fora, que lutava contra seus demônios interiores. Tinha sua própria caixa, só que forrada de espinhos. Mesmo assim, teve compaixão daquela menina emudecida. Com uma mistura de carinho, paciência, exercícios físicos, palavras de incentivo, conselhos e aulas de expressão corporal, devagarinho abriu a tampa da minha caixa, estendeu a mão e me ajudou a sair.

    Não consigo lembrar de maior gesto de amor que alguém além de minha mãe tenha tido comigo. Se hoje eu escrevo, e algumas pessoas agradecem dizendo que minhas palavras as ajudam, eu tenho de responder que os agradecimentos se devem em grande parte à Stella. Fazem mais de 25 anos que não a vejo, e soube que ela perdeu algumas grandes batalhas contra aqueles demônios, mas venceu algumas também. Espero que tenha conseguido trocar o forro de espinhos de sua caixa por um suave cetim. Eu rezo por isto, porque – se minha mãe me trouxe a este mundo e me fez a pessoa que sou – a Stella me apresentou à vida e me deu as primeiras ferramentas para conquistar minha autonomia. E eu a amo muito, e sou muito agradecida, e serei para sempre.

    A minha caixa continua aqui, a tampa aberta, muitos pequenos tesouros conquistados ao longo destes 40 anos carinhosamente arrumados dentro dela. Ainda me refugio lá dentro em momentos de muita dor. Só que hoje a chave está segura bem firme na minha mão.

    Então, deixo aqui o convite para aqueles que amo e sei que têm suas caixas, alguns deles mal tendo começado as tentativas de sair delas: venham, queridos venham para fora, vale a pena. O mundo é terrivelmente belo e assustador, cheio de aventura e de frieza, de alegria mesclada com perda. Mas há muito tempo eu aprendi que não há coisa alguma tão assustadora que não possa ser enfrentada, se há uma mão estendida esperando pela nossa.

    Minha mão está aqui.

    Hide In Your Shell

    Supertramp

    Hide in your shell cos the world is out to bleed you for a ride
    What will you gain making your life a little longer?
    Heaven or Hell, was the journey cold that gave your eyes of steel?
    Shelter behind painting your mind and playing joker

    Too Frightening to listen to a stranger
    Too Beautiful to put your pride in danger
    You’re waiting for someone to understand you
    But you’ve got demons in your closet
    And you’re screaming out to stop it
    Saying life’s begun to cheat you
    Friends are out to beat you
    Grab on to what you scramble for

    Don’t let the tears linger on inside now
    Cos it’s sure time you gained control
    If I can help you, if I can help you
    If I can help you, just let me know
    Well, let me show you the nearest signpost
    To get your heart back on the road
    If I can help you, if I can help you
    If I can help you, just let me know.

    All through the night as you lie awake and hold yourself so tight
    What do you need, a second-hand-movie-star to tend you?
    I as a boy, I believed the saying the cure for pain was love
    How would it be if you could see the world through my eyes?

    Too Frightening – the fire’s getting colder
    Too Beautiful- to think you’re getting older
    You’re looking for someone to give an answer.
    But what you see is just an illusion
    You’re surrounded by confusion
    Saying life’s begun to cheat you
    Friends are out to beat you
    Grab on to what you can scramble for

    Don’t let the tears… just let me know
    I wanna know… I wanna know you…
    Well let me know you
    I wanna feel you
    I wanna touch you
    Please let me near you
    Can you hear what I’m saying?
    Well I’m hoping, I’m dreamin’, I’m prayin’
    I know what you’re thinkin’
    See what you’re seein’
    Never ever let yourself go

    Hold yourself down, hold yourself down
    Why d’ya hold yourself down?
    Why don’t you listen, you can
    Trust me,
    There’s a place I know the way to
    A place there is need to feel you
    Feel that you’re alone
    Hear me
    I know exactly what you’re feelin’
    Cos all your troubles are within you
    Please begin to see that I’m just bleeding to
    Love me, love you
    Loving is the way to
    Help me, help you –
    Why must we be so cool, oh so cool?
    Oh, we’re such damn fools…

  • Presentes especiais

    Date: 2004.08.30 | Category: amizade, amor, Asas de Borboleta, espírito, mãe, vida interior | Response: 1

    Existem alguns presentes que a gente não esquece nunca na vida. Meu primeiro presente assim foi uma passagem de avião.

    Antes que alguém estranhe, uma explicação. Já falei aqui, em vários posts, que perdi minha mãe para o câncer aos 21 anos de idade, depois de cinco anos de muita luta. O que não lembro se já mencionei aqui é que ela passou seus últimos dois anos de vida em Recife, e eu longe dela aqui no Rio. Quando ela entrou no que os médicos chamam de ‘estado terminal’ – quando sua alma começou a se preparar para abandonar seu corpo cansado – ela ficava uma semana de cada mês comigo aqui em casa, para as sessões de quimioterapia. Foi o período em que ficamos mais juntas, eu dormia no quarto com ela, conversávamos feito duas amigas adolescentes, até dormir.

    Mas a última semana de vida ela passou no hospital em Recife onde finalmente descansou. Logo que baixou hospital, meu pai ligou para o Rio e avisou a mim e a meu irmão que ela estava com pneumonia. Para alguém no estado em que ela estava, isto era a última chamada do vôo, e eu sabia. Implorei para meu pai que me mandasse buscar. Eu PRECISAVA estar com ela. Meu pai, provavelmente querendo me poupar, pediu que eu aguardasse notícias. Meu irmão assistia a tudo calado. Quando me viu desligar o telefone e soluçar, ele perguntou se papai ia mandar a passagem. Disse que não e comecei a ligar para os parentes próximos. Ele saiu sem falar mais nada.

    Dois ou três telefonemas depois, volta ele. Com aquela passagem de que falei no início deste texto, comprada com seu salário. Meio envergonhado, pois meu irmão é muito reservado, ele me põe a passagem na mão e diz: “vai, Sue, eu não tenho coragem, mas eu sei o quanto é importante para você.” Importante? Dezoito anos depois, ainda tenho guardado num lugar bem protegido o canhoto do bilhete. Foi a coisa mais bonita que meu irmão podia ter feito, por mim e por ela.

    Muitos anos passaram, e eu tive de substituir de muitas formas em casa a mãe que partira, e isto foi um impedimento concreto de seguir muitos sonhos. Não é uma reclamação, pois se a opção fosse novamente colocada à minha frente, novamente faria tudo o que fiz. Mas é uma constatação realista. Uma das coisas que ficou guardada na gaveta era meu gosto e alegria em escrever. Fiquei muda, por 15 anos. Até que recebi meu segundo presente inesquecível. E este, a pessoa que deu sequer sabe que me deu um presente mais precioso que todas as barras de ouro do mundo. Ele me deu minha voz de volta, com um gesto simples, mas eloquente, de enviar meu primeiro texto para publicação virtual. Um escritor por quem eu tinha o maior respeito e admiração considerou um texto meu bom o suficiente para ser publicado, me tirou de um casulo de anos e me deu incentivo para abrir estas Asas de Borboleta. Alexandre, você nem sabe, mas você me devolveu minha vida, que estava perdida de mim. Este é o segundo presente que jamais vou esquecer. Obrigada.

    O terceiro presente inesquecível foi um xale. Um agradecimento pela amizade, pela lealdade, pela empatia. Um dos gestos mais bonitos que me fizeram, mas não quero falar dele, me dá vontade de chorar.

    Quando eu já considerava que tinha esgotado minha quota de presentes inesquecíveis, quando eu estava fundo num buraco de tristeza, pensando até mesmo em calar novamente minha voz, que não é alta nem é bela como a de outros escritores, mas é fonte direta de força, de felicidade para mim, num mundo onde é raro encontrar fontes destas duas coisas, outro milagre aconteceu. Uma cadeia de pequenos acontecimentos me levou delicadamente pela mão até um blog que pertence a uma pessoa que entende das pequenas coisas que eu entendo: lealdade familiar; caminho diário de trabalho e de luta; vitória conquistada devagarinho, centímetro a centímetro, no meio de muito sofrimento; um coração cheio de amor e de dor. Um poeta.

    Eis que um outro horizonte se abre onde não parecia haver mais nada, e o novo me devolve o antigo, e agora minha vontade é escrever, e produzir, e deixar estar. Levar esta voz até onde ela conseguir alcançar, para me sentir viva outra vez. Rogério, apesar de seu lindo presente estar escrito em meu coração, eu achei que ele se perderia na janela de comentários, e deveria estar aqui. Obrigada, poeta, pela ajuda que você nem sabe que deu. É sempre assim.

    ASA DE BORBOLETA

    Queria dedicar-te um canto
    Nesta terna e longa viagem
    Através da poesia.
    Queria dar-te uma flor
    Que jamais seque algum dia.
    Pois ser feliz é esquecer…
    A amargura do momento
    E só assim a vida é sublime
    Bonita ao mesmo tempo
    Como este mar
    Que nos separa
    Nesta noite amena e calma
    Silêncio! Que o meu luar
    Vai beijar a tua alma.

    Rogério Simões

  • Sementes

    Date: 2004.07.29 | Category: Asas de Borboleta, espírito, luta | Response: 0

    Do poeta Jorge de Lima, no seu livro A Túnica Inconsúltil, lanço o poema O Ventríloquo

    Debruça-te sobre tua voz para escutá-la:
    tua voz existiu antes de tua forma.
    Se o alarido do mundo não te permite entendê-la,
    vai para o deserto,
    e então a ouvirás com a inflexão inicial das palavras do Verbo
    e com a fecundidade do Gênese ante o Fiat do Pai.
    Ouve tua voz sobre a montanha para que o divino eco
    atravesse os milênios
    e reboe dentro de ti que és o templo de Deus!
    Na tua voz adulta ainda existe o acalanto de tua ama
    e o balanço de teu berço.
    Ainda há apelos que vêm da alcova de teus pais,
    ainda há os convites do instinto de tua juventude.
    Debruça-te sobre tua voz e escuta as vozes que vêm nela,
    as ressonâncias de ti próprio que nasceram contigo,
    os bramidos dos ventos nas tuas velas rôtas,
    a risada do diabo diante de teus desastres.
    Ouve tua voz sobre o dorso do mar
    onde ela flutuou no começo das coisas
    e a água a concebeu e se tornou fecunda.
    Ouve a tua voz entre as massas humanas
    que como o mar se tornarão fecundas
    e espalharão a palavra do Livro
    pelas águas e pelos continentes.

  • Filhos

    Date: 2004.07.23 | Category: amor, Asas de Borboleta, esperança, espírito, luta | Response: 0

    O texto, como podem ver, não é meu. Recebi de um querido amigo, por e-mail, o link para a página onde originalmente foi publicado na íntegra.

    Gostaria de ter escrito sobre um filho que tive, principalmente um texto lindo assim, mas nunca tive este privilégio de gestar. Ao ler este texto, minha reação primeira foi me afogar em lágrimas, porque perder um filho, ou não ter um filho, é sempre motivo de grande dor. Mas o texto é tão simples e firme na sua esperança, que acabei chorando e sorrindo ao mesmo tempo.

    As coisas são simples assim, mesmo: ou se ama, ou não; ou se acredita que a vida é precioso dom de Deus, ou que a lei da selva prevaleça. Afinal de contas, se tudo é um acidente, que diferença faz a moral? Que diferença faz qualquer coisa?

    Não, não estou e jamais fui niilista. Muito pelo contrário, tudo e todos à minha volta são tão preciosos que eu às vezes perco o fôlego. Ou choro feito uma boba.

    Escrevi um texto no dia cinco de outubro do ano passado que tenho um filho. Escrevi com todo o coração o quanto amo este filho. Mas agora, descobri um texto de uma mãe que descreve com mais força o que é este amor, numa situação ainda mais dramática. Transcrevo então trechos do texto abaixo, e o dedico a meu filho Alex.

    Querido Vítor

    Você não sabe como ultimamente tenho me lembrado de você. Sabe porquê? Anda em voga o assunto de se permitir o aborto em caso de anencefalia, como foi o seu, lembra-se? Você não pode imaginar as barbaridades que mamãe tem escutado de pessoas grandes, não no sentido de grandes de coração, alma e inteligência, mas só por que são bem maiores do que você era quando esteve em meu ventre por nove meses, no entanto parecem não saber de nada.

    Lembra-se daquela tarde, logo depois de mamãe sair da casa do vovô Inaldo quando foi fazer a primeira ultra-sonografia, no 3° mês de gestação? Estava tão tranqüila afinal quantas e quantas ultras mamãe já havia feito quando esperava os seus irmãos, Gabriel, Marcus e Raquel. Lembro-me como se fosse hoje, deitada na cama, o médico fazendo a ultra quando, de repente, me fez aquela pergunta: – É o seu primeiro filho? Logo respondi com toda a tranqüilidade – Não. É o quarto, por quê? Vi que demorava a responder e percebi que havia algum problema com você. Indaguei novamente: – Por quê? Está tudo bem com meu filho? O que ele tem?

    A resposta foi seca e dura, como alguns médicos, ainda bem que nem todos, costumam tratar dessa forma a doença dos outros. Respondeu-me: – O seu filho tem um problema, não tem cérebro. Lembro-me de que comecei a chorar e perguntei a ele, na inocência de obter uma resposta científica: – O que vou fazer agora? E mais uma vez veio a frieza que na hora a mamãe não conseguiu captar, veio aquela resposta fria: – O seu médico sabe o que você tem que fazer! Perdoe-me, filho, por não ter dado uma resposta dura e clara ao médico naquele momento, mas a mamãe não conseguiu naquele instante captar a malícia do que ele queria dizer. Com certeza queria que eu te matasse.

    Passei a te amar mais ainda nos dias que se passaram, por que fui entendendo coisas que até então não sabia. Conversei com o obstetra e ele então me explicou como seria essa “gestação especial”. Enquanto estivesse comigo, dentro de mim, você estaria seguro, tranqüilo. Hoje entendo por que você não precisava de uma nova contribuição da mamãe para “ser”, você já existia, já era um ser humano existente, já era meu filho. Você só precisava crescer, suas próximas fases seriam de autocrescimento, de desenvolver o que você já “era”. Nos próximos meses a única coisa que mamãe teria de fazer e que você precisava como qualquer criança era de nutrição, oxigênio e o tempo. O seu tempo.

    Você sabe o quanto foi difícil, saber que não te teria nos meus braços por muito tempo depois que você nascesse. Mas logo resolvi a questão, perguntei ao médico qual o máximo de tempo que poderia ter você em mim, e ele respondeu de 38 a 40 semanas. Logo eu tinha pelo menos 38 semanas para estar muito perto de você, te amando. Lembra-se dos beijinhos que o papai, o Gabriel, o Marcos e a Rachel davam na minha barriga para você? Lembra-se de nós todos rezando todas as noites pedindo para você ficar “bom do dodói”, pois era assim que eu explicava para os seus irmãos o seu problema. E foi assim que os dias se passaram e no lugar da tristeza, entrou a alegria de ter você perto de nós, pelo tempo que Deus quisesse e fomos muito felizes.

    Lembra-se filho quando mensalmente mamãe ia ao médico, para acompanhar a sua gestação e eu escutava o seu coração batendo forte dentro de mim? (140 batidas/minutos). E o quanto era bom saber que você estava ali. Não podia eu dizer que você era uma parte minha, pois desde a concepção você já existia com um código geneticamente diferenciado, original em relação ao meu. Como podem algumas pessoas dispor do que não lhes pertence?

    E o tempo foi passando não é, filho, e aquele ser pequeno que existia em mim, já estava grande e pronto para nascer. Lembra-se que mamãe também sofreu muito quando estava chegando o dia do parto? É que eu sabia que o tempo de ficarmos juntos agora se tornava mais curto, não ficaríamos mais tão próximos como estávamos. Você tinha que nascer e seguir o seu caminho, o caminho que Deus-Pai havia traçado para você desde toda a eternidade. Nunca chorei de revolta, você sabe disso. Chorava de saudade, a mesma saudade que a mãe sente quando o filho se casa e vai embora, era a saudade natural de rompermos os laços com os filhos, às vezes mais cedo, outras mais tarde. Mas, nós seres humanos não somos, por mais que estejamos tentando ser, “Aquele que é”. Somente Deus é Aquele que é – só Ele pode dar o ser a outros e somente Ele pode tirar a existência desse ser, fazendo sua história mais curta ou mais longa, mas todos fazemos história e ninguém tem o direito de interromper a história de vida de outra pessoa.

    Você fez a sua história de Vida, fez a nossa história de vida, você até hoje é lembrado pelos seus irmãos. Sabia que muitas vezes a Raquel com apenas três aninhos, me perguntava quem tomava conta de você no céu? E aquela outra vez que estávamos eu e seus irmãos esperando em frente ao prédio onde morávamos a Kombi Escolar do seu Júlio, dias depois que você faleceu e o Gabriel com apenas quatro aninhos estava perto de mim, junto com a Raquel e o Marcos. De repente surge um senhor e me pergunta: – São seus filhos? – Sim, respondi. E ele novamente perguntou: – Você tem três filhos?: – São todos seus? – Sim respondi, tenho três filhos. O senhor foi embora, afinal era só curiosidade. Mas o seu irmão Gabriel olhou para mim e disse: – Por que você mentiu para ele? Na hora não entendi o que o seu irmão tão pequeno queria dizer e resolvi perguntar por que eu havia mentido para aquele senhor. Foi quando ele disse com toda a naturalidade e sentimento de família: – Você não tem três filhos, você tem quatro, por acaso esqueceu do Vitor que está no Céu?

    Confesso que fiquei desconcertada naquele momento, pois é evidente que não havia esquecido você, afinal tinha poucos dias que você havia nos deixado. Tentei explicar a ele por que havia dado aquela resposta ao senhor, por que havia dito três ao invés de quatro, expliquei-lhe que a mamãe não havia mentido, apenas se reservado, afinal se dissesse quatro filhos, ele perguntaria onde ele estava e eu teria que falar toda a história para alguém que não conhecia. E assim expliquei ao Gabriel que às vezes devemos manter nossa privacidade. Mas ao mesmo tempo, depois daquele questionamento aprendi uma lição. Aprendi que seus irmãos tinham em você alguém muito presente, alguém que fazia parte daquela família, mesmo não estando ali entre nós e passei a dar a resposta que ele queria quando me perguntavam quantos filhos eu tinha. Dizia: – Tenho quatro, um faleceu. Hoje eu digo: – Tenho seis, um faleceu, pois após você vieram a Catarina e a Maria Teresa. Pronto estava resolvido o que incomodava o seu irmão. E ele, seu irmão, estava certo com apenas quatro anos de idade, porque você Vitor não era alguém que tinha passado pelas nossas vidas, você fazia parte dela, você era um pedaço de nossa história e eu não tinha que te esconder. Mas você sabe que nenhum de nós jamais te esqueceu.

    E eis que chegou o grande dia. Era o dia de você nascer, mamãe e papai foram juntos para o hospital às 21:00 horas. Enquanto esperávamos os médicos chorávamos muito os dois, porque sabíamos que estava próximo a nossa separação. Mas você, já sabia que mamãe havia preparado o melhor para você durante os nove meses em que estivemos juntos, escolheu todos os médicos que iriam te dar todo o carinho que você precisaria e que eu não poderia dar naquele momento. Conversei com Dr. Dernival para que batizasse você ainda na sala de parto, eu queria te dar tudo que uma mãe quer para um filho, a Eternidade. Um pouco antes de entrar no Centro Cirúrgico ele ainda me perguntou: – Como ele se chamará? – Vítor, respondi com firmeza, vindo depois, a saber, que o seu nome significava “aquele que venceu” e você venceu mesmo!

    Chorei muito quando recebi a notícia no dia seguinte pela manhã, pois você havia nascido às 23:50 hs e eu estava sedada, mas lembro-me que mesmo sonolenta perguntei ao Dr. Fernando (seu neonatologista), pessoa tão especial e humana, como você estava e apaguei ouvindo ao longe a resposta que você não estava muito bem. Doce Dr. Fernando quis poupar-me, você já havia morrido e ele havia ficado os 40 minutos de sua vida de mãos dadas com você, não te deixou sozinho nem um instante. O dia seguinte, ainda sem saber que você já era mais um anjo no céu, seu pai não me dava a notícia, pois o médico, havia pedido para que retardasse a mesma. E eu inocente via o seu pai chorar no quarto e brigava com ele para que fosse ver como você estava passando, ele simplesmente levantava da cadeira chorando, sem nada me dizer.

    A notícia de sua morte me foi dada por um grande amigo nosso, sacerdote. Amigo de todas as horas difíceis de nossa vida, aquela pessoa que quando morrer, mesmo sem ser conhecida por todos, a Terra ficará diminuída porque a humanidade toda sentirá o peso de sua partida, assim como foi com Madre Teresa de Calcutá, assim como será com João Paulo II. São seres tão especiais que a morte deles nos diminui um pouco e nos faz refletir o quanto temos de trabalhar e fazer pela humanidade. Mas até nisso Deus pensou em mim, em quem me daria a notícia que iria doer tanto. Chorei muito, como nunca havia chorado antes na vida, era uma dor que não passava, parecia roer os meus ossos, o meu coração parecia que estava sendo arrancado do meu peito. Lembro-me e jamais esquecerei que num segundo fui inundada por uma paz interior, que jamais havia sentido antes, era um carinho de Deus pelo dever cumprido, quase um “consumatum est”. Havíamos cumprido a nossa função de deixarmos você fazer a sua história e parte de nossa história.

    E algumas horas depois recebi autorização do médico para numa cadeira de rodas, descer até a capela do hospital para dar o meu beijo em você, aquele que eu tanto esperava. Peguei-te nos meus braços e olhei com detalhes para você já de toquinha na cabeça. Era lindo demais. Seu nariz, sua boquinha, seus olhos, suas orelhinhas, suas mãos tão pequenas e delicadas, sua unha tão pequenina, era perfeito. É um momento que jamais vou esquecer. Dei-te um beijo suave na testa enquanto a lágrima corria, como corre agora, neste momento em que relembro o passado, e vejo de uma forma viva e clara o seu rosto sereno, angelical, porque você já estava no céu. Essa certeza eu tinha, pois você havia recebido o sacramento do Batismo antes de morrer. E não demorei muito ali porque todo o meu amor e carinho de mãe e de ser humano eu tinha te dado enquanto você esteve vivo no meu ventre, fazendo-me te amar a cada dia e respeitar você.

    Vítor, meu filho, como você nos ensinou durante os nove meses que sofrimento não mata, mas ensina e faz crescer, nos torna mais gente e humano. Como sou grata a você por ter tido a chance de viver essa história, de ser forte porque você estava comigo. E como todo cidadão que nasce, também perante a sociedade que cobra atitudes tão contraditórias, você teve sua certidão de nascimento e certidão de óbito, porque respirou 40 minutos após nascer. E porque fez parte da história não só da nossa família, mas de toda a humanidade, você ganhou até um poema do vovô Inaldo, poema este publicado no livro de Outonos, em 2001 intitulado Elegia para o neto efêmero – Vítor Alonso Guimarães, poema suave e profundo como sua história de vida.

    Sabe Vítor, li certa vez em um livro, em que um pai escrevia cartas para uma filha portadora da síndrome de Down, uma coisa muito bonita. Ele dizia que “Umas almas encarnam em corpos defeituosos que têm de viver com problemas mais ou menos visíveis e algumas até se alojam em seres com cérebros malformados, que limitam, como montanhas intransponíveis, os seus meios de expressão. Mas estas últimas são tão perfeitas quanto as outras almas, e o seu Anjo da Guarda recebeu uma missão mais importante do que a dos anjos restantes: não só deve tutelá-las constantemente, mas também proceder inicialmente a uma seleção dos pais que hão de ser, dia após dia, seus colaboradores para ajudar esse filho a realizar ações prejudicadas pela sua incapacidade”. E é assim que me sinto com relação a você, uma privilegiada por ter sido escolhida para ser mãe de uma criança como você, que mesmo que vivendo tão pouco ensinou tanto para mim, para seu pai e seus irmãos.

    Não gosto quando me chamam de heroína por ter levado a sua gestação até o fim, as mães que assim procedem não são heroínas, são só mães. A cada dia a ciência avança, descobre novidades, e aquilo que há alguns anos era perigo de vida para as mães, hoje são facilmente resolvidos face aos avanços de conhecimento gerais, científicos e tecnológicos. Acho que haverá um dia em que casos como o seu exigirão lutar pela vida e não pela morte. Os médicos falam que embora muito se saiba hoje sobre o cérebro, muito mais ainda tem que se saber, ainda há muito por descobrir.

    Enganam-se aqueles que acham que nascido o feto, completo e perfeito tudo deu certo. O homem nunca está terminado, nesse momento deverá começar uma nova luta mais difícil e sofrida do que a de uma gravidez como da mamãe. É a tarefa de fazer este ser pequenino que nasceu, transformar-se num homem de verdade, num ser capaz de contribuir para uma sociedade justa, em defesa da vida, em defesa da verdade. E com certeza enquanto os homens julgarem-se no direito de dizer quem deve morrer, quem deve viver e quando isso se dará estaremos longe de sermos uma sociedade justa e muito menos humana.

    Querido Vítor, acho que está na hora de terminarmos esta nossa conversa, afinal, você conhece a mamãe, ela fala demais. Meu anjinho, não se preocupe com as notícias que te dei, assim como existem pessoas fracas, intransigentes, existem pessoas cheias de amor de Deus no coração e essas pessoas estão sempre juntas para defender e esclarecer aos que se acham donos do bem e do mal, o quanto vocês seres tão pequeninos são seres humanos únicos e irrepetíveis. Você sim, não tem mais o que aprender, já conheceu todos os mistérios de Deus, já entendeu o porquê de sua história, por ter sido curta e ao mesmo tempo tão grandiosa.

    E não se preocupe com as lágrimas que mamãe e papai derramaram, consolei-me quando li em um livro de Antônio Orozco, OS TRÊS SÓIS: a Sagrada Família – Editora Quadrante, que dizia: “às vezes, encontramo-nos mergulhados num mar de lágrimas… E o mar absorve-as, sem que consigam enchê-lo. Parece que se perdem inúteis, estéreis, estúpidas. Mas não. Todas as lágrimas vão parar no coração de Deus-Pai…”.

    Um beijo da mamãe.
    Ana Lúcia

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