Archive for the ‘espírito’ Category

  • Torre de Pedra

    Date: 2004.06.07 | Category: amor, esperança, espírito, luta, vida interior | Response: 0

    Muitas pessoas têm medo de envelhecer – eu não tenho.
    Tenho medo de endurecer o coração junto com as juntas de meu corpo.

    Muitas pessoas têm medo da morte – eu não tenho.
    Tenho medo de perder minha alma saciando os apetites de meu corpo.

    Muitas pessoas têm medo da solidão – eu não tenho.
    Tenho medo de me juntar às pessoas apenas por apelos de meu corpo.

    Muitas pessoas têm medo da dor – eu não tenho.
    Tenho medo de viciar-me na busca do prazer de meu corpo.

    Porém…

    Há uma torre branca construída no alto de uma colina,
    cujas janelas todas olham o mar.
    Dentro desta torre há uma pequena imagem do sol,
    dentro da qual repousa a Luz Viva.
    Eu entro nesta torre e meu coração
    novamente é um coração de criança.
    Sento-me sobre seu piso de pedra,
    a alma voa e a morte não me pode tocar.
    Olho em volta e todos meus irmãos ali estão comigo.
    Sinto o perfume do incenso,
    os sentidos usufruem de uma alegria maior.

    Não há medo. Nenhum medo.
    Só amor.

  • Uma Páscoa Santa

    Date: 2004.04.10 | Category: amizade, esperança, espírito | Response: 0

    Queridos amigos,

    Espero que a Páscoa de todos tenha sido santa e pacífica, sem malhação de coisa alguma, e que a Ressureição atinja a vida de todos vocês.

    Obrigada pelos cartões e pelas mensagens diversas.

    Beijo grande em cada um

  • Silêncio

    Date: 2004.03.31 | Category: espírito, vida interior | Response: 0

    Amados, há momentos na vida da gente que até as circunstâncias externas nos obrigam a calar, em consenso com a necessidade interna de silêncio. É só silêncio mesmo, um calar profundo.

    Não se preocupem, daqui a pouco estou de volta…

  • Pureza e Inocência

    Date: 2004.01.24 | Category: amor, Asas de Borboleta, espírito, luta | Response: 0

    Um homem maduro. Só, absolutamente só, cujo único amigo era uma planta num vaso. Um homem que sobrevivia como uma criança no corpo de um matador profissional. Uma casca de dor em torno de uma alma pura. Um corpo doído, ferido, marcado, treinado para matar. Olhos de menino em dia de Natal ao assistir Gene Kelly dançar no cinema vazio.

    Uma criança. Uma menina de 12 anos de idade. Linda como um camafeu, filha de pai traficante de cocaína e mãe alcoólatra e prostituta. Espancada. Espoliada de seus sonhos e da sua inocência. Uma mãezinha de faz de conta do irmãozinho, escapava para um mundo de faz de conta sempre que este se tornava dolorido demais. Perdida, esquecida, abandonada por tudo e por todos, fumava e balançava suas pernas penduradas no vão da escada.

    Como eles conseguiam sobreviver era um mistério. Mas sobreviviam. Até que encontram um amor. Sim, um amor. O primeiro amor de suas vidas. Um amor de duas crianças à deriva num mundo mau. Um amor desconfiado, a princípio. Mas a maldade de que estavam cercados os atira de encontro um do outro, e eles descobrem que realmente se amam.

    Mas ela tem DOZE ANOS, gritarão alguns. Ela tem milênios de anos de dor e de abuso e de desencanto, digo eu. E ele foi a única gentileza que ela jamais conheceu. E ele é só, só de enlouquecer, iletrado, simples como o camponês italiano que verdadeiramente é. E ela foi a primeira beleza verdadeira em sua vida. É um amor sem beijo, porque nenhum dos dois sabe beijar. Um amor sem sexo, porque nenhum dos dois equaciona sexo com amor.

    Ao tentar matar o policial que matou toda sua família, a pequena faz desabar sobre eles toda a ira de Hades. Ele luta por ela como um gigante, mas que homem vai ganhar sozinho de um exército? Presos num edifício, com o céu caindo por sobre suas cabeças, apenas conseguiu fazer um pequeno buraco para que ela pudesse escapar. Ela, não eles. Ela sabe e ele sabe que vai ser trucidado. Ela não quer ir, de que adianta viver num mundo seco, ainda mais árido depois de provada a doçura do amor?

    Ele fala todas as mentiras bondosas destes momentos: “vá, eu encontro você lá, juntos morremos com certeza, separados temos uma chance…” Ela sabe que é tudo mentira, mas deixa que ele a convença, porque sabe que é inútil, tão inútil. Num último momento ela faz um suave movimento para frente, lábios entreabertos que pedem “beija-me ao menos agora, esta última vez”. Ele não beija, coloca sua mão sobre a dela e faz um carinho, e aperta com força. Naquele microsegundo ela cresce, torna-se mulher, eles casam têm filhos e sentam calmamente no sofá para assistir a tevê até ficarem bem velhinhos, juntos.

    Toda uma vida vivida num microsegundo. Depois, lágrimas e um urro de dor que fez todas as almas do purgatório gemerem em simpatia. E morte e mais abandono, e mais uma vez ela está sozinha num mundo muito hostil. Mas agora ela carrega um vaso de planta e a semente de um verdadeiro amor.

    Acabei de assistir a um filme. Um filme que me colocou no chão. “O Profissional” com Jean Reno.

    Le ciel dans une chambre ( Carla Bruni)

    Quand tu es près de moi,

    Cette chambre n’a plus de parois,

    Mais des arbres oui, des arbres infinis,

    Et quand tu es tellement près de moi,

    C’est comme si ce plafond-là

    Il n’existait plus, je vois le ciel penché sur nous…

    Qui restons ainsi,

    Abandonés tout comme si,

    Il n’y avait plus rien, non plus rien d’autre au monde et

    J’entends l’harmonica… mais on dirait un orgue,

    Qui chante pour toi et pour moi,

    Là-haut dans le ciel infini,

    Et pour toi, et pour moi.

    Il cielo in una stanza (Gino Paoli)

    Quando sei qui com me

    Questa stanza non ha più pareti

    Ma alberi, alberi infiniti

    E se tu sei vicino a me

    Questo soffito, viola, no,

    Non existe più, e vedo il cielo sopra noi.

    Che restiamo Qui, abandonatti come se

    Non ci fosse più niente, più niente al mondo.

    Suona larmonica, mi sembre un organo

    Che canta per te e per me

    Su nell’immensità del cielo

    E per te e per me.

    O céu no quarto (Assunção Medeiros)

    Quando estás comigo aqui

    O quarto não tem paredes

    Mas árvores, árvores infinitas

    E se estás bem junto a mim

    Este teto some, não,

    Não existe mais, e vejo o céu sobre nós

    Que pousamos aqui, abandonados assim

    Como se não houvesse alguém mais no mundo.

    Soa uma harmônica, me lembra um órgão

    Que canta por ti e por mim

    Sobre a imensidão do céu

    E por ti e por mim.

  • Natal

    Date: 2003.12.24 | Category: amor, Asas de Borboleta, espírito, vida interior | Response: 0



    Little Drummer Boy

    Pequeno Deus recém-nascido, que posso eu dar a você? Salvador de todos nós, mesmo do mais abjeto, do mais sozinho, do mais doído, do mais viciado, Rei excelso, eu que sou tão pequenina, que posso dar a você? O que se oferece ao aniversariante mais importante de todos, quando nosso sorriso secou, nossa esperança desapareceu, nossa alegria fugiu e tudo o que fazemos e pensamos e sentimos parece errado, errado…

    Há apenas uma coisa. Dentro do peito, faz ta-dum, ta-dum, ta-dum, ta-dum… pa rum pum pum pum.

    Come, they told me

    pa rum pum pum pum

    A new born King to see,

    pa rum pum pum pum

    Our finest gifts we bring

    pa rum pum pum pum

    To lay before the King

    pa rum pum pum pum

    rum pum pum pum

    rum pum pum pum

    So to honor Him

    pa rum pum pum pum,

    when we come.

    Little Baby

    pa rum pum pum pum

    I am a poor boy too,

    pa rum pum pum pum

    I have no gift to bring

    pa rum pum pum pum

    That’s fit to give a King

    pa rum pum pum pum

    rum pum pum pum

    rum pum pum pum

    Shall I play for you

    pa rum pum pum

    on my drum?

    Mary nodded

    pa rum pum pum pum

    The ox and lamb kept time

    pa rum pum pum pum

    I played my drum for Him

    pa rum pum pum pum

    I played my best for Him

    pa rum pum pum pum

    rum pum pum pum

    rum pum pum pum

    Then He smiled at me

    pa rum pum pum pum

    me and my drum.

    Aceita, Pequenino Jesus, este tamborzinho velho, magoado, amassado, mas que ainda é capaz de tocar uma música que O faça sorrir…

    Feliz Aniversário, meu Senhor.

  • Pelo visto ainda não acabou

    Date: 2003.12.23 | Category: Asas de Borboleta, espírito, saudade | Response: 0

    Este ano foi um ano de morte. Sem nenhuma figura de linguagem. Mas eu não esperava passar dia 24 de dezembro no cemitério. Infelizmente, parece que vou.

    Aos que me detestam, aos que me desejaram tanto mal, um Feliz Natal. Podem celebrar à vontade, ao menos alguém fica feliz. Beijei a lona. Estou no chão. Podem pisotear à vontade, que não fico pior que estou. Já não sinto mais nada. Aproveitem.

    Tio, decanse em paz.

  • Date: 2003.11.17 | Category: espírito, luta, vida interior | Response: 0

    Quando perderes o gosto humilde da tristeza…

    Manuel Bandeira

    Quando perderes o gosto humilde da tristeza,

    Quando, nas horas melancólicas do dia,

    Não ouvires mais os lábios da sombra

    Murmurarem ao teu ouvido

    As palavras de voluptuosa beleza

    Ou de casta sabedoria;

    Quando a tua tristeza não for mais que amargura,

    Quando perderes todo estímulo e toda crença,

    – A fé no bem e na virtude,

    A confiança nos teus amigos e na tua amante,

    Quando o próprio dia se te mudar em noite escura

    De desconsolação e malquerença;

    Quando, na agonia de tudo o que passa

    Ante os olhos imóveis do infinito,

    Na dor de ver murcharem as rosas,

    E como as rosas tudo que é belo e frágil,

    Não sentires em teu ânimo aflito

    Crescer a ânsia de vida como uma divina graça;

    Quando tiveres inveja, quando o ciúme

    Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;

    Quando em teus olhos áridos

    Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas

    Em que se amorteceu o pecaminoso lume

    De tua inquieta mocidade:

    Então, sorri pela última vez, tristemente,

    A tudo o que outrora

    Amaste. Sorri tristemente…

    Sorri mansamente… em um sorriso pálido… pálido

    Como o beijo religioso que puseste

    Na fronte morta de tua mãe… sobre sua fronte morta…

  • Homem de Preto

    Date: 2003.11.15 | Category: amizade, amor, espírito, luta, saudade | Response: 0

    Ela chegou sozinha. Entrou em silêncio. Sentou-se no canto mais escuro da grande igreja barroca. As lágrimas, teimosas e fartas, escorriam sem parar e sem que ela fizesse qualquer movimento para estancá-las. Um soluço esporádico incomodava os espantados vizinhos de banco.

    A maior parte do tempo ela mantinha os olhos baixos, as lágrimas regando e enchendo lentamente o côncavo de suas mãos pousadas sobre suas coxas. Ouvia sem escutar o movimento e a missa solene que prosseguia. Os momentos em que tinha de ficar em pé eram os mais difíceis, pois então não havia como não ver o vulto de preto estendido descalço no chão, em frente ao altar.

    Aquele vulto de negro tinha sido parte de sua vida desde o berço, quando ele visitara a casa de sua avó e abençoara o bebê que ela fora. Maiorzinha, levada pela mão da tia, ia visitar aquele grande homem sorridente, sempre de preto. Ela menina ia ficando mais e mais intimidada quando seus olhos iniciavam a viagem do chão até seu rosto. Desde os sapatos pretos reluzentes, passando pelo hábito preto e grosso – com aquele aventalzinho engraçado na frente onde ele escondia as mãos – até chegar ao rosto. Aí, todo sentimento de intimidação sumia, porque a criança pequena que ela era encontrava o brilho alegre do olhar daquele homem, que parecia dizer “sou criança também, mas não conte a eles!”. Ela não conseguia evitar de abrir um largo sorriso.

    Ao longo dos anos foi sempre assim, ela aprendia rapidamente a interpretar os diferentes brilhos do olhar daquele homem de preto. Depois que ficou maior, e fez sua primeira comunhão em Brasília, esperava aflita as oportunidades de pegar um avião para o Rio de Janeiro, onde seu amigo a esperava. Eles chamavam aquelas visitas de “confissão”, mas ela via aquilo apenas como matar as saudades de seu amigo – muitas vezes, durante diversas fases de sua vida, o único amigo verdadeiro.

    No meio das conversas, períodos longos de silêncio, sentados num canto do jardim, escutando o distante rugido do centro da cidade e o silêncio reinante naquele recanto. Uma vez, um sabiá pousou na frente deles e os três ficaram a se fitar, imóveis, até que o pássaro cansou da brincadeira e levou seu peito vermelho para longe dali, mas não sem antes deixar uma estranha alegria no peito da menina.

    Na adolescência, a natural atitude de desafio da idade se desmanchava por completo na presença do homem de preto. O sorriso compreensivo, a voz pausada e modulada, aquele olhar penetrante onde sempre pairava uma alegria, aquilo tudo a acalmava. Ele, ao contrário dos pais, escutava atento e com a maior seriedade o que ela lhe dizia. Concordando ou não, nunca fazia com que ela se sentisse tola ou incapaz.

    Quando a mãe da jovem adoeceu, seu homem de preto redobrou suas atenções, ligando toda a semana e insistindo que ela se juntasse ao grupo jovem que ele orientava. Ela foi, apenas para estar com seu amigo, nada tinha em comum com a maioria daqueles adolescentes que cantavam tão alto e batucavam seus violões na missa. Ela tinha crescido escutando a voz de seu amigo no canto gregoriano, sob a sombra cheia de contemplação daquele Mosteiro.

    Morre-lhe a mãe, e a saúde de seu já idoso amigo começa a fraquejar. Pouco a pouco, ele enfraquece diante dos seus olhos, mas tamanha era a força daquele espírito que ela não percebeu nada além do olhar cada dia mais arguto em desvendar seus pensamentos e humores, e a palavra cada dia mais caridosa.

    Agora ela estava ali, e seu amigo, seu homem de preto, repousava no chão de pedra da igreja onde eles sempre se encontravam. As mãos não mais escondidas no bolso do hábito, mas recolhidas dentro das mangas. O capuz que ela sempre vira pender sobre os ombros, pela primeira vez cobria sua cabeça. Os pés, ela os via pela primeira vez sem seus sapatos pretos sempre bem engraxados. Ela nunca o vira tão quieto e tranquilo, parecia dormitar, mas ela sabia que aquele era o sono eterno, merecido depois de uma longa vida de estudo, trabalho e problemas de saúde.

    Seu irmãos de hábito se arrumaram em torno dele, e ela sente dor aguda da separação iminente. Sendo mulher, jamais poderá visitá-lo no claustro onde ele dormirá. Não sendo parente, não poderá jamais convencer àquelas pessoas espantadas de vê-la chorar tanto a morte de um padre que aquele monge era seu pai. Não sendo da ordem beneditina, não poderia jamais compartilhar com ele esta irmandade especial advinda de ser filha de São Bento. Ele ia ser radical e definitivamente separado dela.

    Eles o levaram em procissão e ela seguia, tornada apática pelo tamanho do seu sofrimento. Seguia mais ou menos no meio da multidão que acorrera ao velório e ao enterro, multidão que era para ela nova fonte de dor, pois nem mesmo a exclusividade de saber que ele era especial ela tinha.

    Colocado suavemente dentro de sua última morada, a fila dos amigos que iam prestar os últimos respeitos se forma, e cada um recebe uma pedrinha, que deposita sobre o caixão agora fechado. Ela quase guardou aquela pedra na bolsa, mas afinal queria que ele tivesse contato, por ínfimo que fosse, com algo que pertencera a ela, nem que fosse por alguns instantes. Jogou a sua pedrinha também.

    Ao deixar o claustro, grossas lágrimas de chuva começaram a cair do céu de março, pois aquele dia o Rio de Janeiro chorou copiosamente a morte de um filho ilustre. Vagarosamente ela desce a ladeira no meio da chuva, indiferente, mas pára um instante para olhar para trás. Aquela imensa construção de pedra sempre o abrigara. Agora, misteriosamente, toda a construção sorria o seu sorriso, e todas as vidraças brilhavam com a luz do seu olhar. Pois ele virara o Mosteiro, e o Mosteiro virara João.

  • Todos os Santos e Finados

    Date: 2003.11.02 | Category: amor, esperança, espírito, saudade | Response: 0

    Queridos amigos, este final de semana é dedicado a todos os que partiram. O dia de finados, hoje, é precedido do Dia da Todos os Santos. Acho que pouca gente pára um instante para questionar o porque destas datas adjacentes. Eu parei, e obtive do meu coração a seguinte resposta: honre e cultive a amizade de todos os santos, aqueles que agradaram mais a Deus, que conhecem os caminhos mais rápidos para o Coração de Jesus; peça pelas suas almas, para que alcancem a salvação.

    Os santos mostram caminhos de salvação. As almas nos lembram que a vida passa depressa. Eles estão a nos esperar. Vamos ao encontro deles, ou caímos no abismo? A hora de escolher é agora, amigos queridos.

    Oferecendo a vocês a doce imagem que está postada na EWTN, desejo um dia de paz e reflexão para todos, com menos lágrimas de saudade e mais esperança…

  • A visita

    Date: 2003.11.02 | Category: amor, Asas de Borboleta, esperança, espírito, mãe, vida interior | Response: 0

    Adormeci no meio da tarde e tive um sonho. No sonho, subia as escadas para a varanda de uma destas grandes casas de fazenda, como uma das antigas fazendas de café do século dezenove. Grande, espalhando-se para a direita e para esquerda. Dois andares, alva, janelas e portas pintadas de azul fechado, com molduras de pedra. Piso e teto de tábua corrida. Nada me é familiar, mas tudo me é familiar. A varanda está vazia, mas a própria casa parece me convidar para entrar. Não sinto confusão nem medo, mas uma certa expectativa.

    Logo defronte à porta de entrada, um corredor que de tão longo parece se estender até o infinito, com portas a intervalos regulares dos dois lados. A casa é muito antiga, mas não passa a impressão de velhice, muito pelo contrário, toda ela parece pulsar viva. A sala principal, à minha esquerda, está na penumbra. Uma luz bonita filtra pelas cortinas leves. Vejo duas grandes arcas encostadas nas paredes, com imensos jarros de louça repletos de flores do campo, um sobre cada arca. Surpreendo-me com os dois conjuntos modernos de sofá, de algodão cru e parecendo ser muito macios e confortáveis. A sala é imensa, e vejo que à minha direita existe uma sala de jantar igualmente grande, com duas imensas mesas de jacarandá. Encostadas na parede, ladeando uma porta, duas grandes cristaleiras repletas de louça.

    Meio incerta sobre o que fazer, caminho devagarinho até a primeira cristaleira para observar os conjuntos de porcelana. A casa é toda muito linda e acolhedora, mas até agora não vi ninguém. Até que ouço uma voz…

    – Oi, filha…

    Dei um pulo. Ela estava na entrada da sala de jantar, sorrindo. Como sempre, sorrindo.

    – Mãe?!?

    Ela me deu aquele sorriso que reservava só para mim, aquele que ela dava quando estava muito satisfeita comigo. Ela estava diferente, especialmente do tempo que mais lembro, o tempo da doença. Ela estava… melhor. Era minha mãe, mas era minha mãe como ela devia ser, sem uma certa tensão que lhe fazia ranger os dentes, sem os medos que lhe toldavam os olhos, sem doença, sem seio amputado, com uma pele linda de pêssego e os olhos verdes cor de folha nova. Magra, com o corpo parecido com o que vi em sua foto de casamento, e um rosto sem marcas, sem idade determinada. Ao lado dela, quieto a me observar, sentado tranqüilamente, o Buggie, cãozinho que ela ganhou de presente de uma amiga. Também sem os sinais de doença e velhice, sem a cegueira.

    – Mãe…

    – Sim, filha. Que bom que você veio visitar.

    – Eu estou dormindo, não estou?

    – Está.

    – Mãe, como você está linda!

    Ela sorriu e me abraçou. Eu não sentia a vontade de chorar que sinto quando lembro de seu abraço acordada, porque não era uma lembrança saudosa, estava mesmo entre os braços de minha mãe. Quase protestei quando ela soltou do abraço e pegou minha mão.

    – Seus avós vão ficar tristes de saber que você veio quando eles não estavam.

    – Mãe, que lugar bonito!

    – É nossa casa, Assunção Maria.

    – Nossa casa?

    – Sim, estamos aqui, todos nós. Suas tias e tios, seus avós e bisavós, todos nós. Seu irmãozinho também está aqui.

    – Pedro Paulo está aqui?!?

    – Sim, está.

    – Posso vê-lo, mãe?

    – Não, filha. Você só vai poder conhecer seus parentes que morreram antes de você nascer quando vier de vez para cá. Filha, não deixe de vir!

    – Mãe, algum parente nosso que eu conheço não conseguiu vir?

    Os olhos dela encheram de lágrimas, mas ela não falou nada. Cheia de culpa por ter entristecido minha mãe, mudei de assunto:

    – Mãe, o Buggie! Ele está aqui também!

    – Ah, filha, você sabe o quanto eu amo o Buggie e o quanto ele me ama. Ele me achou aqui.

    – Posso pegar ele no colo?

    – Pode.

    Buggie nunca gostou muito de colo, era um yorkshire terrier muito peludo e morria de calor, mas sempre foi um cavalheiro e não se incomodou que eu o apertasse um pouco. A mãe foi andando em direção à sala de estar e eu a acompanhei com Buggie nos braços. Ela sentou em um dos sofás e eu sentei pertinho. Coloquei o Buggie no chão, e ele deitou naquela sua pose característica, as patas traseiras esticadas para longe do corpo, a barriga toda encostada no chão de madeira lustrada. Mamãe sorriu, perguntou:

    – Quer cafuné?

    Ela não precisou perguntar duas vezes, deitei imediatamente a cabeça em seu regaço, e ela acariciou meus cabelos. Ela cheirava ao seu perfume favorito, Fleur de Rocaille… o toque, o cheiro, tudo tão familiar…

    – Mãe, não quero ir embora…

    – Filha, você não pode ficar. Não é ainda sua hora de vir.

    – Mãe, está tudo tão penoso… as coisas parecem ficar cada dia mais difíceis. Aqui sinto tanta paz…

    – Assunção Maria, você sabe que ainda tem muito o que fazer. Agradeça a Deus por esta visita, e por saber que estamos aqui à sua espera, filha. Traga seus irmãos e seu pai para cá.

    – Como, mãe?

    – Reze, filha. Agora sossega, aproveita o cafuné…

    Eu me acomodei melhor e ela continuou a acariciar meus cabelos, e a cantarolar baixinho as canções que cantava para me ninar em criança. Eu fui ficando sonolenta, mas briguei com o sono, porque não queria partir. Eu sabia que, se adormecesse, ia acordar longe dali. No entanto, a voz suave da minha mãe foi me embalando, os olhos foram pesando e fechando… antes de adormecer completamente, escutei baixinho a frase que ela disse para mim no hospital, um pouco antes de morrer…

    – Filha, você é tão linda….

    TRRIMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!

    Acordei num pulo, sobressaltada. Era o telefone. E era engano.

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