Archive for the ‘luta’ Category

  • Pureza e Inocência

    Date: 2004.01.24 | Category: amor, Asas de Borboleta, espírito, luta | Response: 0

    Um homem maduro. Só, absolutamente só, cujo único amigo era uma planta num vaso. Um homem que sobrevivia como uma criança no corpo de um matador profissional. Uma casca de dor em torno de uma alma pura. Um corpo doído, ferido, marcado, treinado para matar. Olhos de menino em dia de Natal ao assistir Gene Kelly dançar no cinema vazio.

    Uma criança. Uma menina de 12 anos de idade. Linda como um camafeu, filha de pai traficante de cocaína e mãe alcoólatra e prostituta. Espancada. Espoliada de seus sonhos e da sua inocência. Uma mãezinha de faz de conta do irmãozinho, escapava para um mundo de faz de conta sempre que este se tornava dolorido demais. Perdida, esquecida, abandonada por tudo e por todos, fumava e balançava suas pernas penduradas no vão da escada.

    Como eles conseguiam sobreviver era um mistério. Mas sobreviviam. Até que encontram um amor. Sim, um amor. O primeiro amor de suas vidas. Um amor de duas crianças à deriva num mundo mau. Um amor desconfiado, a princípio. Mas a maldade de que estavam cercados os atira de encontro um do outro, e eles descobrem que realmente se amam.

    Mas ela tem DOZE ANOS, gritarão alguns. Ela tem milênios de anos de dor e de abuso e de desencanto, digo eu. E ele foi a única gentileza que ela jamais conheceu. E ele é só, só de enlouquecer, iletrado, simples como o camponês italiano que verdadeiramente é. E ela foi a primeira beleza verdadeira em sua vida. É um amor sem beijo, porque nenhum dos dois sabe beijar. Um amor sem sexo, porque nenhum dos dois equaciona sexo com amor.

    Ao tentar matar o policial que matou toda sua família, a pequena faz desabar sobre eles toda a ira de Hades. Ele luta por ela como um gigante, mas que homem vai ganhar sozinho de um exército? Presos num edifício, com o céu caindo por sobre suas cabeças, apenas conseguiu fazer um pequeno buraco para que ela pudesse escapar. Ela, não eles. Ela sabe e ele sabe que vai ser trucidado. Ela não quer ir, de que adianta viver num mundo seco, ainda mais árido depois de provada a doçura do amor?

    Ele fala todas as mentiras bondosas destes momentos: “vá, eu encontro você lá, juntos morremos com certeza, separados temos uma chance…” Ela sabe que é tudo mentira, mas deixa que ele a convença, porque sabe que é inútil, tão inútil. Num último momento ela faz um suave movimento para frente, lábios entreabertos que pedem “beija-me ao menos agora, esta última vez”. Ele não beija, coloca sua mão sobre a dela e faz um carinho, e aperta com força. Naquele microsegundo ela cresce, torna-se mulher, eles casam têm filhos e sentam calmamente no sofá para assistir a tevê até ficarem bem velhinhos, juntos.

    Toda uma vida vivida num microsegundo. Depois, lágrimas e um urro de dor que fez todas as almas do purgatório gemerem em simpatia. E morte e mais abandono, e mais uma vez ela está sozinha num mundo muito hostil. Mas agora ela carrega um vaso de planta e a semente de um verdadeiro amor.

    Acabei de assistir a um filme. Um filme que me colocou no chão. “O Profissional” com Jean Reno.

    Le ciel dans une chambre ( Carla Bruni)

    Quand tu es près de moi,

    Cette chambre n’a plus de parois,

    Mais des arbres oui, des arbres infinis,

    Et quand tu es tellement près de moi,

    C’est comme si ce plafond-là

    Il n’existait plus, je vois le ciel penché sur nous…

    Qui restons ainsi,

    Abandonés tout comme si,

    Il n’y avait plus rien, non plus rien d’autre au monde et

    J’entends l’harmonica… mais on dirait un orgue,

    Qui chante pour toi et pour moi,

    Là-haut dans le ciel infini,

    Et pour toi, et pour moi.

    Il cielo in una stanza (Gino Paoli)

    Quando sei qui com me

    Questa stanza non ha più pareti

    Ma alberi, alberi infiniti

    E se tu sei vicino a me

    Questo soffito, viola, no,

    Non existe più, e vedo il cielo sopra noi.

    Che restiamo Qui, abandonatti come se

    Non ci fosse più niente, più niente al mondo.

    Suona larmonica, mi sembre un organo

    Che canta per te e per me

    Su nell’immensità del cielo

    E per te e per me.

    O céu no quarto (Assunção Medeiros)

    Quando estás comigo aqui

    O quarto não tem paredes

    Mas árvores, árvores infinitas

    E se estás bem junto a mim

    Este teto some, não,

    Não existe mais, e vejo o céu sobre nós

    Que pousamos aqui, abandonados assim

    Como se não houvesse alguém mais no mundo.

    Soa uma harmônica, me lembra um órgão

    Que canta por ti e por mim

    Sobre a imensidão do céu

    E por ti e por mim.

  • Terminado 2003

    Date: 2003.12.15 | Category: amor, Asas de Borboleta, luta | Response: 0

    O ano que começou tão sombrio, e foi se ensombrecendo cada dia ao longo do percurso, está finalmente chegando ao fim. Muitas vezes eu achei que não ia aguentar. Que a pressão, o sofrimento, as perdas e os desencontros seriam grandes demais para mim. Mas passou. Está passando, e 2004 se apresenta um ano de muito trabalho e muito menos sombrio que 2003.

    Hoje parto com meu amigo Luis Ene para ir ao encontro de nossos amigos em Goiânia. A partir de hoje, me considero renascida de um modo muito particular. Renascida para a serenidade de meus estudos, renascida para a caminhada que é minha. Renascida para os interesses que são meus, as coisas que são importantes para mim, as pessoas que efetivamente me enxergam, que me valorizam com meus defeitos e qualidades.

    Ainda deixo um beijo antes do Natal, mas não procurem por mim em lugar algum deste louco mundo virtual. O mundo real me chama, sorrindo. Mansamente, como a viola pantaneira de Almir Sater, eu parto a seu encontro.

    Tocando em Frente

    Almir Sater

    Ando devagar porque já tive pressa

    e levo esse sorriso, porque já chorei demais

    Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe

    eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei

    Conhecer as manhas e as manhãs,

    o sabor das massas e das maçãs,

    é preciso o amor pra poder pulsar,

    é preciso paz pra poder sorrir,

    é preciso a chuva para florir.

    Penso que cumprir a vida seja simplesmente

    compreender a marcha, e ir tocando em frente

    como um velho boiadeiro levando a boiada,

    eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou,

    de estrada eu sou

    Todo mundo ama, um dia todo mundo chora,

    Um dia a gente chega, no outro vai embora

    Cada um de nós compõe a sua história,

    e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz,

    e ser feliz

    Ando devagar porque já tive pressa

    e levo esse sorriso porque já chorei demais

    Cada um de nós compõe a sua história,

    e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz, e ser feliz.

  • Date: 2003.11.17 | Category: espírito, luta, vida interior | Response: 0

    Quando perderes o gosto humilde da tristeza…

    Manuel Bandeira

    Quando perderes o gosto humilde da tristeza,

    Quando, nas horas melancólicas do dia,

    Não ouvires mais os lábios da sombra

    Murmurarem ao teu ouvido

    As palavras de voluptuosa beleza

    Ou de casta sabedoria;

    Quando a tua tristeza não for mais que amargura,

    Quando perderes todo estímulo e toda crença,

    – A fé no bem e na virtude,

    A confiança nos teus amigos e na tua amante,

    Quando o próprio dia se te mudar em noite escura

    De desconsolação e malquerença;

    Quando, na agonia de tudo o que passa

    Ante os olhos imóveis do infinito,

    Na dor de ver murcharem as rosas,

    E como as rosas tudo que é belo e frágil,

    Não sentires em teu ânimo aflito

    Crescer a ânsia de vida como uma divina graça;

    Quando tiveres inveja, quando o ciúme

    Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;

    Quando em teus olhos áridos

    Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas

    Em que se amorteceu o pecaminoso lume

    De tua inquieta mocidade:

    Então, sorri pela última vez, tristemente,

    A tudo o que outrora

    Amaste. Sorri tristemente…

    Sorri mansamente… em um sorriso pálido… pálido

    Como o beijo religioso que puseste

    Na fronte morta de tua mãe… sobre sua fronte morta…

  • Homem de Preto

    Date: 2003.11.15 | Category: amizade, amor, espírito, luta, saudade | Response: 0

    Ela chegou sozinha. Entrou em silêncio. Sentou-se no canto mais escuro da grande igreja barroca. As lágrimas, teimosas e fartas, escorriam sem parar e sem que ela fizesse qualquer movimento para estancá-las. Um soluço esporádico incomodava os espantados vizinhos de banco.

    A maior parte do tempo ela mantinha os olhos baixos, as lágrimas regando e enchendo lentamente o côncavo de suas mãos pousadas sobre suas coxas. Ouvia sem escutar o movimento e a missa solene que prosseguia. Os momentos em que tinha de ficar em pé eram os mais difíceis, pois então não havia como não ver o vulto de preto estendido descalço no chão, em frente ao altar.

    Aquele vulto de negro tinha sido parte de sua vida desde o berço, quando ele visitara a casa de sua avó e abençoara o bebê que ela fora. Maiorzinha, levada pela mão da tia, ia visitar aquele grande homem sorridente, sempre de preto. Ela menina ia ficando mais e mais intimidada quando seus olhos iniciavam a viagem do chão até seu rosto. Desde os sapatos pretos reluzentes, passando pelo hábito preto e grosso – com aquele aventalzinho engraçado na frente onde ele escondia as mãos – até chegar ao rosto. Aí, todo sentimento de intimidação sumia, porque a criança pequena que ela era encontrava o brilho alegre do olhar daquele homem, que parecia dizer “sou criança também, mas não conte a eles!”. Ela não conseguia evitar de abrir um largo sorriso.

    Ao longo dos anos foi sempre assim, ela aprendia rapidamente a interpretar os diferentes brilhos do olhar daquele homem de preto. Depois que ficou maior, e fez sua primeira comunhão em Brasília, esperava aflita as oportunidades de pegar um avião para o Rio de Janeiro, onde seu amigo a esperava. Eles chamavam aquelas visitas de “confissão”, mas ela via aquilo apenas como matar as saudades de seu amigo – muitas vezes, durante diversas fases de sua vida, o único amigo verdadeiro.

    No meio das conversas, períodos longos de silêncio, sentados num canto do jardim, escutando o distante rugido do centro da cidade e o silêncio reinante naquele recanto. Uma vez, um sabiá pousou na frente deles e os três ficaram a se fitar, imóveis, até que o pássaro cansou da brincadeira e levou seu peito vermelho para longe dali, mas não sem antes deixar uma estranha alegria no peito da menina.

    Na adolescência, a natural atitude de desafio da idade se desmanchava por completo na presença do homem de preto. O sorriso compreensivo, a voz pausada e modulada, aquele olhar penetrante onde sempre pairava uma alegria, aquilo tudo a acalmava. Ele, ao contrário dos pais, escutava atento e com a maior seriedade o que ela lhe dizia. Concordando ou não, nunca fazia com que ela se sentisse tola ou incapaz.

    Quando a mãe da jovem adoeceu, seu homem de preto redobrou suas atenções, ligando toda a semana e insistindo que ela se juntasse ao grupo jovem que ele orientava. Ela foi, apenas para estar com seu amigo, nada tinha em comum com a maioria daqueles adolescentes que cantavam tão alto e batucavam seus violões na missa. Ela tinha crescido escutando a voz de seu amigo no canto gregoriano, sob a sombra cheia de contemplação daquele Mosteiro.

    Morre-lhe a mãe, e a saúde de seu já idoso amigo começa a fraquejar. Pouco a pouco, ele enfraquece diante dos seus olhos, mas tamanha era a força daquele espírito que ela não percebeu nada além do olhar cada dia mais arguto em desvendar seus pensamentos e humores, e a palavra cada dia mais caridosa.

    Agora ela estava ali, e seu amigo, seu homem de preto, repousava no chão de pedra da igreja onde eles sempre se encontravam. As mãos não mais escondidas no bolso do hábito, mas recolhidas dentro das mangas. O capuz que ela sempre vira pender sobre os ombros, pela primeira vez cobria sua cabeça. Os pés, ela os via pela primeira vez sem seus sapatos pretos sempre bem engraxados. Ela nunca o vira tão quieto e tranquilo, parecia dormitar, mas ela sabia que aquele era o sono eterno, merecido depois de uma longa vida de estudo, trabalho e problemas de saúde.

    Seu irmãos de hábito se arrumaram em torno dele, e ela sente dor aguda da separação iminente. Sendo mulher, jamais poderá visitá-lo no claustro onde ele dormirá. Não sendo parente, não poderá jamais convencer àquelas pessoas espantadas de vê-la chorar tanto a morte de um padre que aquele monge era seu pai. Não sendo da ordem beneditina, não poderia jamais compartilhar com ele esta irmandade especial advinda de ser filha de São Bento. Ele ia ser radical e definitivamente separado dela.

    Eles o levaram em procissão e ela seguia, tornada apática pelo tamanho do seu sofrimento. Seguia mais ou menos no meio da multidão que acorrera ao velório e ao enterro, multidão que era para ela nova fonte de dor, pois nem mesmo a exclusividade de saber que ele era especial ela tinha.

    Colocado suavemente dentro de sua última morada, a fila dos amigos que iam prestar os últimos respeitos se forma, e cada um recebe uma pedrinha, que deposita sobre o caixão agora fechado. Ela quase guardou aquela pedra na bolsa, mas afinal queria que ele tivesse contato, por ínfimo que fosse, com algo que pertencera a ela, nem que fosse por alguns instantes. Jogou a sua pedrinha também.

    Ao deixar o claustro, grossas lágrimas de chuva começaram a cair do céu de março, pois aquele dia o Rio de Janeiro chorou copiosamente a morte de um filho ilustre. Vagarosamente ela desce a ladeira no meio da chuva, indiferente, mas pára um instante para olhar para trás. Aquela imensa construção de pedra sempre o abrigara. Agora, misteriosamente, toda a construção sorria o seu sorriso, e todas as vidraças brilhavam com a luz do seu olhar. Pois ele virara o Mosteiro, e o Mosteiro virara João.

  • A Caridade e o Afeto – Entre Dois Amores

    Date: 2003.11.14 | Category: amor, animais, luta | Response: 0

    Aconteceu uma coisa engraçada com o último post. Enquanto que algumas amigas deixaram adoráveis comentários a respeito dele, alguns amigos foram do indiferente às vias de fato, pedindo inclusive que eu o retirasse. Sim, reparem bem, amigas de um lado, amigos de outro. Um deles cogitou que isto fosse “rabugice masculina”. Talvez, talvez. Mas acho que é mais complicado que isto.

    O maior senso de estranhamento que senti dos meninos em relação ao post – onde presto uma homenagem ao bonito e forte sentimento de amor que liga um ser humano e um animal – foi que o post tratou um “mero” animal com emoção que deveria ser direcionada apenas ou principalmente aos humanos. A expressão mero animal é toda minha. Nenhum dos amigos que criticou o post a usou. Usaram outras: “sentimentalóide”, “Pollyana”, “parece um texto da Xuxa” (e eu nem sabia que a Xuxa sabia escrever!). Um amigo formalizou as objeções dele, dizendo que sente antipatia de militantes de “direitos dos animais”.

    Enquanto falo tudo isto, quero declarar que não me incomodou nem ofendeu um átomo que seja a posição que qualquer amigo meu, mesmo as que foram mais vociferantes. Muito pelo contrário, acho bom que as pessoas sejam específicas a respeito de qualquer objeção que fazem ao que eu escrevo, pois me permite olhar o meu texto com outros olhos, e aprendo muito.

    O fato é que a coisa fica resumida deste jeito: quem entendeu que o post era simplesmente a expressão da minha tristeza e zanga com os maus tratos a animais – e acha isto uma coisa positiva – gostou do post; quem achou que animais não merecem uma emoção deste tamanho; ou que um boi, um mosquito, um gato ou um cachorro são basicamente animais e matar um ou outro acaba dando no mesmo; ou ainda que eu devia me preocupar mais com os maus tratos a seres humanos que com animais, bem, estes não gostaram do texto. E todos eles têm direito à sua opinião.

    E eu tenho direito de expressar a minha, sobre a qual meditei longamente durante a noite, antes de escrever isto. Piegas, sentimentalóide, pollyanística o quanto for, ela é a expressão do que penso e sinto, e acho que tenho de explicá-la melhor.

    Eu já verbalizei neste blog diversas vezes e de diversas formas a minha religiosidade. E a religião cristã que abraço o tempo todo fala da igualdade e irmandade dos homens, todos filhos de um mesmo Deus. A Caridade com o próximo é a virtude mais forte que um ser humano pode ter. E eu abraço esta doutrina da caridade. Mas, e os animais? Têm mais valor que um ser humano? Não. Mil vezes não. No entanto… deixem-me colocar aqui uma pequena citação da MARAVILHOSA biografia de São Francisco de Assis escrita por G. K. Chesterton, recentemente traduzida e publicada pela Ediouro:

    “Ele [o santo] não chamava a natureza de mãe; chamava um burrico específico de irmão ou uma pomba de irmã. Se chamasse uma garça de tia ou um elefante de tio, como possivelmente o faria, ainda assim estaria indicando que eles eram criaturas específicas às quais o Criador atribuíra um lugar particular, não meras expressões da energia evolutiva das coisas. É nisso que seu misticismo se aproxima tanto do senso comum da criança. Uma criança não tem dificuldades para entender que Deus fez o cão e o gato, mesmo que saiba que a criação de cães e gatos a partir do nada é um processo misterioso que está além de sua imaginação. Mas nenhuma criança entenderia qual a intenção de se misturar o cão, o gato, e tudo o mais para formar um monstro com inúmeras pernas e dar e ele o nome de natureza. A criança se recusaria terminantemente a entender um animal assim. São Francisco era um místico, mas acreditava no misticismo, não na mistificação. Como místico, era inimigo mortal de todos os místicos que diluíam as extremidades das coisas e as faziam desaparecer no seu ambiente. Era um místico da luz do dia e da escuridão, mas não um místico das coisas indefinidas. Era exatamente o oposto do visionário oriental que só é místico porque é cético demais para ser materialista.” (págs. 98/99)

    Pois então. Eu chorei, e chorei MESMO, a morte do Yahoo, amigo do Mau – graças a Deus rápida e acidental, não fruto de maldade de terceiros -, que brinca tão lindo na foto com uma plantinha. Um gato tão parecido com minha gatinha Pompom. Como chorei a morte do cãozinho Buggie, que pertenceu à minha mãe e, depois da sua morte, a mim. Um cão que cuidei por 16 anos com muito afeto, e que deixou um oco no meu coração quando partiu. E acho monstruoso que alguém possa chutar um animal a ponto de afundar seu maxilar, como já me contaram, simplesmente porque não vê o sofrimento que causa, não enxerga.

    Eu olho um menino de rua e não enxergo nem um problema nem uma ameaça, enxergo um menino. Eu olho um cão ou gato de rua e não enxergo um foco de zoonose, mas uma chaga na nossa condição humana. AQUELE cão, AQUELE gato, eles são nossa responsabilidade, e, se estão na rua, a culpa e a vergonha são nossas. Chutar, queimar, esfaquear ou envenenar só aumenta a chaga na nossa condição humana. E não venham me dizer que não. O homem é, sim, senhor da criação. Mas o que falar de um dono que flagela sua posse até a morte? E não, isso não é militância ecológica. É a expressão da minha consciência cristã.

    Sei que o homem vem antes do animal, como a Caridade vem antes do afeto, mas confesso que – estando numa situação onde tivesse de escolher entre salvar a vida de minha gata Pompom e de Fernandinho Beira-Mar (ou mesmo de uma menina loira e linda como a menina Von Richtoffen, que tão docemente planejou o assassinato dos pais à pauladas) – pedia perdão a Deus e fazia a escolha do coração. E que Ele me perdoe se eu estiver errada.

  • Para Yahoo, revisto e ampliado

    Date: 2003.11.12 | Category: amizade, amor, animais, luta | Response: 0



    Fotos do Mau – Clique nas fotos para ver mais

    Não, este felino não é meu… nem sequer conheço seu dono. Foi um destes acidentes, sabe quando estamos no blog de uma amiga e vemos o comentário de uma pessoa nova, ficamos curiosos para saber quem é aquela pessoa e vamos investigar os links? Pois foi assim.

    Descobri que ele é uma pessoa que gosta de músicas parecidas com as que gosto – jazz, progressivo, instrumental – e que ama gatos como eu amo. E, por uma infelicidade, perdeu seu amigo cedo demais. Eu não sei do que o gatinho Yahoo morreu, mas quando um gato de apenas três anos com aparência tão saudável morre, geralmente significa algum tipo de maldade humana.

    Me emocionei muito com a linda homenagem que está no link da foto do Yahoo. Eu não entendo porque as pessoas são tão más com os gatos. São bichos limpos, afetuosos, inteligentes e elegantes. Ágeis e belos, enchem uma casa de alegria. Esta lenda de que não têm afeto pelo dono é a maior besteira do mundo. Minha gatinha veio me seguindo, miando de dar dó, até eu tomar uma providência e parar para falar com ela. Ela estava abortando sozinha no meio da rua, e com as vias respiratórias cheias de muco por causa de uma rinotraqueíte. Naquele mesmo dia eu a levei ao veterinário, e bastou eu ficar acariciando seu pêlo para que ela permitisse que o médico aplicasse três injeções nela. Até hoje é assim, basta que eu converse com ela que qualquer veterinário pode trabalhar tranquilo. Ela me ama tanto quanto eu a amo.

    Animais, nas vidas de quem os têm, são membros da família. Acho positivo para a humanidade que seja assim. Longe vai a época que a vida humana tinha tão pouco valor e se perdia com tanta facilidade quanto hoje se mata um mosquito ou barata. Nesta época, é claro, a vida dos animais tinha ainda menos valor que o parco valor dado à vida humana. Mas a humanidade caminha, e caminha na direção de ser cada dia mais humana, no sentido moral e metafísico. Com a humanização do homem, humaniza-se também a postura dele em relação aos animais. Eu só posso encarar a maldade do homem com animais, e mais especificamente com os gatos, como sinal de profunda inveja da beleza, da inocência e da alegria. Como uma profunda falha do desenvolvimento humano.

    Algumas pessoas podem objetar que eu, como muitos, como carne de diversos tipos de animal. Verdade. Mas não gosto de pensar no sofrimento de um animal sendo sacrificado. Espero que algum dia o corpo material não precise desta proteína sempre duramente conquistada. Mas ainda preciso de carne. Muitos, no entanto, passam muito mal com ela… é um problema moral interesante, mas não é o objetivo deste post.

    Certamente quando morrermos, Deus não nos cobrará o animal morto para nosso alimento da mesma forma que certamente cobrará maus tratos a animais de estimação sob nossa responsabilidade. Veja, não é uma questão acadêmica. Da mesma forma que Ele vai nos perguntar “Dia tal na hora tal no lugar tal havia uma pessoa debaixo da marquise. Porque você fingiu que não viu?” Ele também poderá nos perguntar “e o que foi feito daquela ninhada de gatinhos que você abandonou amarrada dentro de um saco plástico, para morrer sufocada?” Qual a resposta que esta pessoa dará?

    Hoje, através do Yahoo, quero homenagear todos os gatos do mundo. Animais que foram os últimos a se juntar a nós como companheiros de viagem, e ainda mantém o charme da independência. Espero que mais pessoas passem a apreciar gatos, e que eu veja menos e menos população animal na rua e menos e menos crueldade que leve à morte de animais tão bonitos. Para aqueles que já morreram devido à crueldade e selvageria do homem, peço a guarda de São Francisco de Assis.

    Para o Yahoo, especificamente, peço desculpas por ter perturbado seu descanso com este post longo demais. Mas pelo que seu amigo Mau conta, você era um gato filósofo, que entenderá muito bem minhas motivações. Um beijinho, Yahoo. Descanse em paz.

  • Lamento

    Date: 2003.09.25 | Category: amor, Asas de Borboleta, espírito, luta | Response: 0


    Pelo amigo que mergulha fundo nas águas da tristeza… eu choro.
    Pela amiga que esconde até de si um amor impossível… eu choro.
    Pelo amigo que está distante de mim… eu choro.
    Por um amor que foi desperdiçado… eu choro.
    Pela amiga que levanta, só, sua espada contra muitos… eu choro.
    Pelo desejo despertado que não pode ser saciado… eu choro.
    Pela mão estendida que não foi aceita… eu choro.
    Pelos alunos que jogam fora chances de aprendizado… eu choro.
    Por Rosa… Por ROSA!… eu choro…

  • Date: 2003.09.24 | Category: luta | Response: 0

    Porque é que as pessoas vão às ruas vestidas de branco, falando de “PAZ”? Ninguém quer paz. As pessoas que saem às ruas querem desabafar alguma perda pessoal, passear, namorar, aproveitar o dia ou apenas tentar ver algum famoso, mas não pensam nem agem como se quisessem paz.

    Querem um exemplo? Este sábado, com continuação na segunda-feira, houve uma cena — das muitas que têm sido transmitidas pela Rede Globo na novela do doente e misógino Manoel Carlos — onde uma esposa é espancada brutalmente com uma raquete de tênis. Como a esposa é a belíssima atriz Helena Ranaldi, ela não vai parar no hospital, nem fica desfigurada ou com lesão permanente na coluna vertebral, apesar de ter apanhado nas costas.

    Entretanto, fica o exemplo. Fica a mensagem subliminar que espancamentos não têm consequências físicas. Que abusos deste tipo são suportáveis ou suportados em silêncio. E que maridos podem bater em suas mulheres, já que este personagem tem feito isto repetida e publicamente, sem que nenhuma pessoa da novela dê um pio a respeito. Sem que haja também um pio de protesto das senhoras donas de casa que assistem à novela.

    Pois eis que esta manhã minha faxineira chega em minha casa abatida com a morte de sua amiga Rosa. Como morreu Rosa? Estraçalhada pelo marido ciumento, de quem tentava se separar, e com quem voltara a morar sob ameaças, por puro medo. Morreu recebendo machadadas na cabeça, enquanto seu filho dormia. O “marido” está foragido, e coube ao menino ir à delegacia anunciar o assassinato de sua mãe… cometido por seu pai.

    Meus leitores dirão que estas coisas acontecem todos os dias, que a intenção deste autor nojento — é, Manoel Carlos, você é NOJENTO — é justamente denunciar espancamentos de mulheres. Se isto é verdade, e estas cenas não são a versão global do que fez Gugu Liberato em busca de Ibope, respondam queridos leitores a estas perguntas:

    1. Porque é que as cenas de espancamento são tão explícitas e repetidas, e porque a punição deste homem ainda não ocorreu?

    2. Porque é que a atriz não mostra sinais visíveis de espancamento, se o objetivo é chocar a sociedade para que ela se mobilize?

    3. Porque é que o senhor Manoel Carlos, autor, e senhor Ricardo Waddington, diretor da novela e marido da atriz que recebe os espancamentos em cena, não estão recebendo o mesmo tratamento que o senhor Gugu Liberato, por incitar crimes?

    Qualquer autor de fábulas poderia explicar a esta anta que escreve novelas que a impunidade é estímulo para prática do crime, e um texto com intenções moralistas ou de protesto deveria mostrar quase que imediatamente algum personagem — mesmo que não a pobre esposa espancada — tomando providências legais para a proteção da vítima.

    Mesmo achando que o senhor Gugu Liberato passou de todos os limites do razoável ao “simular” uma entrevista com criminosos, o autor e o diretor desta novela têm repetidamente ido além, mostrando atitudes criminosas sem qualquer consequência. Estes, sim, incitam ao crime contra a mulher, e não acho que tenha sido mera coincidência que Rosa tenha tido seus miolos espalhados pela sua cama apenas um dia depois destas imagens chocantes. E, por favor, não vamos usar o argumento gasto de que é ficção. Qualquer ator de novelas sabe que, no imaginário popular, a fronteira entre a realidade e a ficção desaparece.

    O que Manoel Carlos escreve é criminoso, o que o senhor Ricardo Waddington produz em vídeo é mais criminoso ainda. Vamos aproveitar o que acontece com o senhor Liberato para pensar com mais cuidado na influência maléfica que o sensacionalismo e a busca pela audiência têm tido na televisão e na sociedade brasileira.

    Hoje, o sangue de Rosa mancha a mão de três homens. Que ela descanse em paz, pobrezinha, e que estes três homens recebam o castigo que merecem.

    CHEGA!!!

  • Declaração de Amor aos Carneiros Pretos

    Date: 2002.09.25 | Category: amizade, amor, luta, Uncategorized | Response: 0

    Queridos amigos, cada vez mais queridos:

    Estas senhoras, supostamente chamadas de Acelina Maria Nóbrega Moreira e Silmara Adib Lins, saídas sabe Deus de que bordel baixo da periferia de São Paulo, desenvolveram uma obssessão sexual — primeiramente pelo Dennis, depois pelo Alex, e finalmente por MIM (!?!?) — e não querem, apesar de pedidos educados e não tão educados que já foram feitos, deixar ninguém para lá. O tal deus que estas criaturas adoram deve ser um chifrudo qualquer, que as incendiou com uma sexualidade doentia, que as faz buscar o sexo virtual do tipo mais grosseiro nos chats da UOL, a pretexto de levar “salvação” para lá. Tenho recebido via e-mail todo o tipo de história a respeito destas senhoras, que me arrepiam os cabelos! E elas preferem os homens com mais de quarenta e os com menos de 25 anos…

    O ataque destes seres abissais, no entanto, acabou por ser uma bênção disfarçada. Nunca me sinto mais feliz ou amada que quando meus amigos se levantam indignados para fazer minha defesa. O carinho de vocês, meninos, é fonte de alegria e felicidade inesgotável. Cada comment, cada post, cada indignada defesa do Alex, cada fina ironia do Alexandre, cada palavra de apoio do Dennis (com DOIS ENES!) e do Matusca, cada carinhoso comment do Félix, me fazem sorrir e agradecer ao MEU Deus por ter colocado pessoas do quilate de vocês no meu caminho. E de ter feito um contraponto tal — mostrando toda a baixeza do mundo presente nestas mulheres ditas “religiosas” — para que eu saiba exatamente o valor de cada um. Eu sei quem sou. Sei quem elas são, mas descubro cada dia mais maravilhada que pessoas encantadoras VOCÊS são.

    AMO AMO AMO AMO AMO AMO AMO MUITO VOCÊS!!

    Beijos em cada um da sua Butterfly

    Sue

    Meus amigos do Asa de Borboleta, dêem uma olhada no tamanho da baixaria, no blog Carneiro Preto!

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  • Delicadezas

    Date: 2002.09.17 | Category: alegria, Asas de Borboleta, espírito, luta, vida interior | Response: 0

    Hoje foi um dia de pensar em delicadezas… sensações que eu guardo dentro de mim desde muito menina, ou mais recentes. O sentimento de segurança, de “agora posso dormir”, quando eu ouvia o “shhk-shkk” que as coxas da minha mãe faziam, roçando uma na outra, quando vestidas com meias de seda, voltando de uma festa. A gargalhada do meu pai. O cheiro do churrasco que ele fazia. Passear de carro deitada no banco de trás, vendo as nuvens passarem rápido.

    O bolo de queijo da minha tia. Brincar com filhotinhos de cães e gatos. Deitar no colo da minha mãe. Ver um botão de rosa abrir nas roseiras da minha avó. Ouvir os contos de fada que ela me contava antes de dormir. Brincar de boneca. A delícia de pentearem meus cabelos. Fazer e receber cafuné. Ficar quietinha, escutando meu coração bater. Ler. Desenhar. Ouvir música. A primeira mordida em um fofo pudim de claras. Canções de ninar. Andar de mãos dadas.

    Beijo na testa, beijo na ponta do nariz, beijo na bochecha, beijo. Sentar sozinha na praia, à tardinha, e escutar as ondas. Ganhar um presente que eu queria muito. Café da manhã na cama, no dia do meu aniversário. Ajudar a mãe a bater o bolo, e poder lamber a colher de pau depois. Brincar de massa de modelar. Enrolar brigadeiro.

    O primeiro beijo do amado. O olhar especial, que ele reserva só para mim. Falar coisinhas sexy e amorosas ao telefone. Receber flores. Tomar sorvete no mesmo pote, revezando a colher. Usar lingerie de seda e renda. Estrear uma roupa nova. Esperar por uma festa. Salto alto. Dançar agarradinho.

    Sensação de dever cumprido. Gavetas arrumadas. Sachês perfumados. Banheiro recém lavado. Lençóis recém trocados. Cheiro de lavanda. Passar hidratante no corpo. Deitar em uma cama macia, depois de um longo dia de trabalho. Um banho de hidromassagem. Cabelos sedosos e limpinhos, roçando o pescoço e as costas. Fazer a manicure.

    São sensações e lembranças que me mantém inteira, quando pessoas à minha volta querem me desestruturar e convencer que – ao invés possuir asas de borboleta – devo tornar-me cinza e sem graça, cheia de regras e de “não podes”, sem gozar a vida, os amigos, as coisas belas. Para estas pessoas, isto é coisa de cadelas doentes. Para mim, é coisa de gente feliz. E, quanto mais eu vivo, quanto mais o tempo passa, mais preciosas estas pequenas delicadezas se tornam, mais inteira eu fico, e mais convencida: minha vocação é ser e fazer feliz.

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