Archive for the ‘mãe’ Category

  • Finados

    Date: 2015.11.02 | Category: espírito, mãe, pai, saudade, vida interior | Response: 0

    Hoje é dia de lembrar, e eu estou lembrando. De mãos. Mãos. Eu não sei se muitos adultos param para pensar que tudo para a criança é muito alto, muito grande, muito largo, então ela vê as coisas em pedaços. Pelo menos, assim era comigo.Uma das minhas lembranças mais antigas era de adultos conversando enquanto eu enxergava muitas pernas, minha visão passando muito pouco da altura daqueles joelhos.

    Mãos. Mãos são pequenas o suficiente para uma criança observar. Lembro das minhas queridas mãos. As mãos de minha avó, pintadinhas de idade, rezando o terço, eu deitada em seu regaço esperando o fim da reza e mais uma história de Pedro Malasartes antes de receber minha bênção e dormir. As mãos da irmã de minha avó, deformadas pelo reumatismo, mas ainda ágeis para costurar roupinhas para minhas bonecas, brincar de massinha, me chamar para enrolar rosquinhas de polvilho e fazer o doce de laranja mais gostoso que eu já provei. A eterna disponibilidade daquelas mãos.

    As mãos da minha tia acendendo a lamparina diante da imagem da virgem sobre sua cômoda. Mãos de professora, girando o mimeógrafo e deixando a casa com cheiro de álcool, datilografando e me deixando datilografar em sua máquina portátil, me interessando pelas letras antes mesmo que eu aprendesse a ler. Mãos finas e muito brancas, as mãos de professora de minha tia. As mãos tão bonitas de minha mãe, sempre de unhas pintadas e tão cheirosas que o ritual de dormir da Malu-bebê incluía cheirar seus dedos, e só os seus. Nenhum outro servia.

    As mãos de meu pai… muitos momentos eu olhei aquelas mãos fazendo coisas. O cigarro era seu eterno companheiro. Eu as observava fumando, dirigindo, escrevendo, limpando as peças de carne do churrasco, me ensinando a fazer pequenos consertos pela casa. A última coisa que ele fez em vida, na ambulância que o levou pela última vez ao hospital, foi me estender a mão e me soprar um beijo. Na minha alma ainda seguro firme na minha a mão do meu pai.

    Mãos que me guiaram pela vida, me mostrando o que fazer e o que não fazer. Me apoiaram, me ensinaram a andar, a escrever, a fazer crochê, a costurar e a cozinhar. Principalmente mãos que me amaram. Hoje é o dia de lembrar delas, de pedir a Deus que estenda suas mãos misericordiosas em direção às minhas queridas mãos, e as mantenha na graça. Que nenhuma delas se solte, Senhor.

  • Alegria Profunda

    Date: 2010.10.10 | Category: alegria, amor, mãe, pai | Response: 3

    Tem uns dias já que eu tenho pensado e falado muito dos meus pais. Tanto um quanto o outro foi embora deste mundo confuso, minha mãe há quase 25 anos, meu pai há quase quatro. Aqui no blog já falei deles umas tantas vezes, sempre com muito carinho, orgulho e saudade. Acho que falta, a esta mistura, falar deles também com alegria e gratidão. Mas é difícil encontrar as palavras certas…

    Afinal de contas, como se agradece aos pais aquele olhar rápido, mas cheio de orgulho, que nos dá esta força interna para resistir às trombadas da vida? Como eu digo a minha mãe que AQUELE colo, NAQUELE momento, me sustenta até hoje?  Como eu digo a meu pai que só a presença dele me tornava capaz de enfretar e matar qualquer dragão? Que apenas pensar nele ainda me dá esta força? Mesmo que estivessem aqui, acho que eles ficariam surpresos e até meio encabulados, nem se lembrariam destes momentos que me marcaram, porque o amor e a aceitação deles era um pano de fundo em que nenhum de nós prestava muita atenção, apenas estava lá.

    Só que, nestes tempos de pais que jogam os filhos pela janela e filhos que matam pais a porretadas, eu me vejo como alguém que ganhou uma loteria existencial, que tirou a sorte grande, e nem sabia. Porque para mim, até pouco tempo atrás, este tesouro que herdei de meus pais era apenas a vida normal de uma família… família é assim mesmo, não é?

    Não, infelizmente não é. Hoje eu velo com alegria profunda, veneração e até um pouco de espanto esta maravilha que Deus me deu… um pai amigo, valente e sorridente, uma mãe amorosa e atenta, todos dois com o riso solto e o carinho fácil. Nossa! Eu mereço mesmo isso? Como faço para agradecer?  As palavras, mesmo que eu escrevesse aqui por horas e horas mais, não seriam suficientes nem capazes de passar a vocês o que eu sinto por meus pais. Mas o pessoal do Secret Garden conseguiu, nesta música.

    Neste Domingo branco e quieto, no sossego do meu quarto, eu queria dar a meus pais este presente.  Porque eles realmente me sustentam e me elevam, hoje e sempre.

    When I am down and, oh my soul, so weary;
    When troubles come and my heart burdened be;
    Then I am still and wait here in the silence,
    Until you come and sit awhile with me.

    You raise me up so I can stand on mountains;
    You raise me up to walk on stormy seas;
    I am strong when I am on your shoulders;
    You raise me up to more than I can be.

    You raise me up so I can stand on mountains;
    You raise me up to walk on stormy seas;
    I am strong when I am on your shoulders;
    You raise me up to more than I can be.

    There is no life, no life without its hunger;
    Each restless heart beats so imperfectly;
    But when you come and I am filled with wonder,
    Sometimes I think I glimpse eternity.

    You raise me up so I can stand on mountains;
    You raise me up to walk on stormy seas;
    I am strong when I am on your shoulders;
    You raise me up to more than I can be.

    You raise me up so I can stand on mountains;
    You raise me up to walk on stormy seas;
    I am strong when I am on your shoulders;
    You raise me up to more than I can be.

  • Presente de Aniversário

    Date: 2007.12.14 | Category: amor, mãe, saudade | Response: 1

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    Minha Mami chegou outro 14 de dezembro… seu aniversário de nascimento. Esse vai ser sempre um dia lindo, mesmo que esteja chovendo cântaros de água como hoje. Mesmo que tudo que eu possa fazer é pensar em como sinto a falta da minha patinha dos olhos verdes de folha nova. Mas que interessam meus problemas, minha tristeza? Você está junto do seu marido lindo agora, e este é o seu maior presente. Eu então respiro fundo e adiciono o meu “assim seja” à sua felicidade.

    Eu te amo Mami. Feliz niver, dá um beijo no Papi por mim.

  • Date: 2007.02.10 | Category: mãe, pai, vida interior | Response: 1

    Eu me lembro…

    Uma certa vez, na longínqua década de 70, minha mãe me advertiu, escondendo um sorriso, ao ouvir meu comentário sobre como Tarcísio Meira era lindo: “Psiu, filha, não fala isto não, eu também acho, mas seu pai morre de ciúmes do Tarcísio Meira…”.

    Em 2006, numa rara oportunidade em que assistia à novela das oito com minha família, tive a chance de provocar meu pai com a coisa do ciúme; ele respondeu com outro sorriso meio escondido: “Ora, é claro que não vou admitir que se fale que outro homem é bonito na minha casa, imagina!”.

    Em muitos finais de semana, também na longínqua década de 70, meus pais namoravam num exercício de gastronomia afetiva que sempre me enterneceu… Eles colocavam suas músicas no som da sala – canções que iam de Maria Creusa e Roberto Carlos até cantores diversos da Motown, passando necessariamente por Frank Sinatra, Charles Aznavour e Elvis – e cada um preparava um prato do almoço, com seu copo de cerveja à mão, que bebericavam e que provavam um nos lábios do outro, nas bitoquinhas que trocavam quando achavam que não estávamos olhando. Nestes dias, o almoço sempre saía mais tarde, mas mais gostoso.

    Minha mãe era constantemente pinicada pelas amigas, devido ao costume que ela tinha de se referir a meu pai como “meu marido lindo”. Em vez de ficar aborrecida com as piadas das amigas, ela dava de ombros casualmente e dizia que “ele era lindo mesmo…”.

    Meu pai era um homem das antigas, sempre exigiu decoro e boas maneiras de nós, sempre reforçou os valores de família e de comportamento cristão, mas nunca foi maldoso com ninguém, nem preconceituoso. Ele me contava das peripécias de solteiro, quando passeava com seu irmão mais velho pelos spots noturnos mais… eh… alternativos de Porto Alegre. Ele contava que, recém-casado, passeava pela Rua da Praia com minha mãe quando encontrou um destes velhos amigos, um negão imenso e de aparência assustadora que era leão de chácara de uma casa de má reputação. O negão o saudou carinhosamente com um “Oi, Betinho”, para susto de minha mãe. Papai se divertia com o susto da noivinha inexperiente, mesmo muitos anos depois da morte dela.

    No final de sua vida, depois de vir morar com as filhas, meu pai continuou a dar mostras de ser uma pessoa acolhedora com todos que freqüentavam nossa casa, apesar de sua formação tradicional. Conheceu muitos amigos nossos, e ficou especialmente próximo de um que tinha um namorado firme. Os dois rapazes vinham visitar-nos regularmente, quase sempre juntos, mas quando este meu amigo chegava à nossa casa desacompanhado, papai perguntava com uma carinha marota onde estava “seu fiel escudeiro”, e dava uma piscadinha no final.

    Minha mãe era uma pessoa tão carinhosa, distribuía afeto e cuidado com tanta generosidade, que nos colocava em situações inusitadas. Ela faleceu na madrugada de 13 para 14 de maio de 1986, o que fez com que meu pai voltasse para casa durante a noite e não permanecer com ela no hospital até de manhã, como estava sendo o costume. Cedinho, quando levantamos, antes de meu pai descer as escadas para tomarmos o café, encontrei a equipe de taifeiros da casa oficial que morávamos toda perfilada, e o copeiro-chefe, Seu Everaldo, perguntou, em tom cauteloso: “Sue, como está Dona Maria Helena?” Quando eu respondi que agora ela estava bem, nos braços da Virgem Maria, toda a equipe – composta de homens barbudos, maduros, pais de família – começou a chorar copiosamente, o que tornou necessário que eu e minha irmã adolescente ficássemos algum tempo a consolar todos eles. A cena mais tocante foi ver o cozinheiro – um tipo grandalhão que era apelidado de “vaqueirão” e que usava como multiprocessador uma peixeira imensa – chorando, inconsolável, abraçado com o filtro. Muito mais gente que apenas eu e meus irmãos ficou órfã naquele dia…

    Meu pai era um chefe rigoroso, da mesma forma que era um pai rigoroso. Exigia muito de todos nós. Entretanto, nos dois lados de sua vida, ele nunca pediu nada que não estivesse preparado para dar em troca, e nunca pedia que fizéssemos algo que ele também não fizesse. Era justo, carinhoso, e conquistava a lealdade dos filhos e dos subordinados igualmente. Igualmente estava preparado para lutar por ambos.

    Quando morreu, deixou um legado de respeito por onde passou, e fiquei feliz de escutar de um ex-subordinado seu de muitos anos atrás que ele era “uma referência” até hoje. Realmente, nunca vi meu pai cometer uma injustiça com subordinados, e toda vez que discutimos era apenas porque ele não conseguia entender com muita clareza esta mistura de doçura saturnina que eu sou.

    Tive pais assim: amorosos, rigorosos, alegres, felizes, amigos um do outro e de nós, severos na cobrança da retidão de comportamento, rápidos em ajudar a quem quer que pedisse sua ajuda para uma causa justa. Eles não estão mais aqui, presentes em corpo. Estão presentes, no entanto, em cada pensamento meu, em cada objeto de minha casa, em cada história relembrada.

    Meu pai, minha mãe, não se preocupem. Eu lembro. Eu nunca vou me esquecer.

  • Presentes especiais

    Date: 2004.08.30 | Category: amizade, amor, Asas de Borboleta, espírito, mãe, vida interior | Response: 1

    Existem alguns presentes que a gente não esquece nunca na vida. Meu primeiro presente assim foi uma passagem de avião.

    Antes que alguém estranhe, uma explicação. Já falei aqui, em vários posts, que perdi minha mãe para o câncer aos 21 anos de idade, depois de cinco anos de muita luta. O que não lembro se já mencionei aqui é que ela passou seus últimos dois anos de vida em Recife, e eu longe dela aqui no Rio. Quando ela entrou no que os médicos chamam de ‘estado terminal’ – quando sua alma começou a se preparar para abandonar seu corpo cansado – ela ficava uma semana de cada mês comigo aqui em casa, para as sessões de quimioterapia. Foi o período em que ficamos mais juntas, eu dormia no quarto com ela, conversávamos feito duas amigas adolescentes, até dormir.

    Mas a última semana de vida ela passou no hospital em Recife onde finalmente descansou. Logo que baixou hospital, meu pai ligou para o Rio e avisou a mim e a meu irmão que ela estava com pneumonia. Para alguém no estado em que ela estava, isto era a última chamada do vôo, e eu sabia. Implorei para meu pai que me mandasse buscar. Eu PRECISAVA estar com ela. Meu pai, provavelmente querendo me poupar, pediu que eu aguardasse notícias. Meu irmão assistia a tudo calado. Quando me viu desligar o telefone e soluçar, ele perguntou se papai ia mandar a passagem. Disse que não e comecei a ligar para os parentes próximos. Ele saiu sem falar mais nada.

    Dois ou três telefonemas depois, volta ele. Com aquela passagem de que falei no início deste texto, comprada com seu salário. Meio envergonhado, pois meu irmão é muito reservado, ele me põe a passagem na mão e diz: “vai, Sue, eu não tenho coragem, mas eu sei o quanto é importante para você.” Importante? Dezoito anos depois, ainda tenho guardado num lugar bem protegido o canhoto do bilhete. Foi a coisa mais bonita que meu irmão podia ter feito, por mim e por ela.

    Muitos anos passaram, e eu tive de substituir de muitas formas em casa a mãe que partira, e isto foi um impedimento concreto de seguir muitos sonhos. Não é uma reclamação, pois se a opção fosse novamente colocada à minha frente, novamente faria tudo o que fiz. Mas é uma constatação realista. Uma das coisas que ficou guardada na gaveta era meu gosto e alegria em escrever. Fiquei muda, por 15 anos. Até que recebi meu segundo presente inesquecível. E este, a pessoa que deu sequer sabe que me deu um presente mais precioso que todas as barras de ouro do mundo. Ele me deu minha voz de volta, com um gesto simples, mas eloquente, de enviar meu primeiro texto para publicação virtual. Um escritor por quem eu tinha o maior respeito e admiração considerou um texto meu bom o suficiente para ser publicado, me tirou de um casulo de anos e me deu incentivo para abrir estas Asas de Borboleta. Alexandre, você nem sabe, mas você me devolveu minha vida, que estava perdida de mim. Este é o segundo presente que jamais vou esquecer. Obrigada.

    O terceiro presente inesquecível foi um xale. Um agradecimento pela amizade, pela lealdade, pela empatia. Um dos gestos mais bonitos que me fizeram, mas não quero falar dele, me dá vontade de chorar.

    Quando eu já considerava que tinha esgotado minha quota de presentes inesquecíveis, quando eu estava fundo num buraco de tristeza, pensando até mesmo em calar novamente minha voz, que não é alta nem é bela como a de outros escritores, mas é fonte direta de força, de felicidade para mim, num mundo onde é raro encontrar fontes destas duas coisas, outro milagre aconteceu. Uma cadeia de pequenos acontecimentos me levou delicadamente pela mão até um blog que pertence a uma pessoa que entende das pequenas coisas que eu entendo: lealdade familiar; caminho diário de trabalho e de luta; vitória conquistada devagarinho, centímetro a centímetro, no meio de muito sofrimento; um coração cheio de amor e de dor. Um poeta.

    Eis que um outro horizonte se abre onde não parecia haver mais nada, e o novo me devolve o antigo, e agora minha vontade é escrever, e produzir, e deixar estar. Levar esta voz até onde ela conseguir alcançar, para me sentir viva outra vez. Rogério, apesar de seu lindo presente estar escrito em meu coração, eu achei que ele se perderia na janela de comentários, e deveria estar aqui. Obrigada, poeta, pela ajuda que você nem sabe que deu. É sempre assim.

    ASA DE BORBOLETA

    Queria dedicar-te um canto
    Nesta terna e longa viagem
    Através da poesia.
    Queria dar-te uma flor
    Que jamais seque algum dia.
    Pois ser feliz é esquecer…
    A amargura do momento
    E só assim a vida é sublime
    Bonita ao mesmo tempo
    Como este mar
    Que nos separa
    Nesta noite amena e calma
    Silêncio! Que o meu luar
    Vai beijar a tua alma.

    Rogério Simões

  • Dia das Mães

    Date: 2004.05.09 | Category: amor, mãe, pai, saudade, vida interior | Response: 0

    Este é um ano em que não tenho muito o que falar no dia das mães. Eu sinto que já disse muito, e muitas vezes, o que minha mãe significa – no presente, não no passado, apesar de morta há quase 18 anos – para mim. Ela sempre foi meu norte, e de muitas maneiras continua sendo. Portanto, para honrá-la, agradá-la e presenteá-la neste dia das mães, vou fazer do dia das mães o dia do meu pai.

    Mãe, já fiz o manjar branco que ele gosta, mas ele não quer me deixar fazer o almoço, quer ele mesmo fazer o talharim ao alho e óleo – eu prometo que não deixo ele lavar um único garfo, apesar dele ser teimoso e ativo. Eu comprei um presente que sei que ele vai gostar: um DVD da Natalie Cole. Eu lembro, mãe, de como você contava da emoção que foi escutar o Nat King Cole ao vivo aqui no Rio, na década de 50, e ele gosta da filha quase tanto quanto do pai…

    Tudo, mãe, que eu puder fazer por este meu querido “gatoso” (ihhh, ele ficou tão zangado quando eu contei que gatoso não era gato + gostoso e sim gato + idoso, mãe… hehe) eu farei. Eu bem sei que nada a faria mais feliz.

    Feliz dia das Mães, dona Maria Helena… um beijo e uma prece da sua filha, sempre.

  • Date: 2004.03.23 | Category: amor, mãe, vida interior | Response: 0

    Sonho

    Mãe, você sabe o quanto é raro que você me visite em sonhos. Nestes dezoito anos que está longe, quatro ou cinco vezes eu tive a alegria deste encontro. Foi uma agradável e significativa surpresa que você viesse me visitar justo agora. Para meu espanto, estavam todos lá: seus amigos, meus “tios” e “tias” da infância, reunidos em algo que pareceria uma cerimônia de adeus, se ao menos não fosse tão alegre.

    Pois cá estava eu, organizando tudo – e não é sempre essa minha função, mãe? – e nada da esperada doentinha chegar. Porque no sonho você vinha do hospital, mãezinha, e eu sabia que era apenas uma breve visita. Ainda assim, o clima de alegria e expectativa permanecia. Eis que chega papai, da mesma forma que chegava em minha memória de seus longos vôos – apenas sem macacão de vôo, usando roupas civis. Chega esbaforido, depois que todos estão devidamente instalados. Em pé junto a ele, observo você chegar.

    Mami, você estava tão frágil naquela maca, e ao mesmo tempo tão radiante, como se seu fraco corpo físico fosse o alabastro que deixava transparecer a luz da sua alma. Era tão você na explosão mais gentil-alegre da sua personalidade… brincando alegremente com um enfermeiro que a acompanhava – que jocosamente recomendava juízo e a deixava a meus cuidados.

    Ah, o beijo cheio de amor que vi você trocar em meu sonho com papai, que visivelmente segurava o choro. Aquele seu olhar amoroso-que-nos-derretia-por-dentro, na sua versão especial, reservada apenas para o homem de sua vida, que eu reconheci por ter surpreendido fugir de seus olhos algumas vezes durante minha infância. A saudade palpável entre vocês. Mãe, este encontro de vocês dois me encheu o coração de presságios.

    No entanto, se isto significa que você está mais próxima dele ou ele mais próximo de você, não importa. Importa para mim agora que eu sei – com a certeza da alegria profunda que pairava por todo o sonho – que juntos vocês ficarão. No Amor e na Luz. Obrigada, Mami, por vir me prestar socorro neste momento. Obrigada por este consolo.

  • A visita

    Date: 2003.11.02 | Category: amor, Asas de Borboleta, esperança, espírito, mãe, vida interior | Response: 0

    Adormeci no meio da tarde e tive um sonho. No sonho, subia as escadas para a varanda de uma destas grandes casas de fazenda, como uma das antigas fazendas de café do século dezenove. Grande, espalhando-se para a direita e para esquerda. Dois andares, alva, janelas e portas pintadas de azul fechado, com molduras de pedra. Piso e teto de tábua corrida. Nada me é familiar, mas tudo me é familiar. A varanda está vazia, mas a própria casa parece me convidar para entrar. Não sinto confusão nem medo, mas uma certa expectativa.

    Logo defronte à porta de entrada, um corredor que de tão longo parece se estender até o infinito, com portas a intervalos regulares dos dois lados. A casa é muito antiga, mas não passa a impressão de velhice, muito pelo contrário, toda ela parece pulsar viva. A sala principal, à minha esquerda, está na penumbra. Uma luz bonita filtra pelas cortinas leves. Vejo duas grandes arcas encostadas nas paredes, com imensos jarros de louça repletos de flores do campo, um sobre cada arca. Surpreendo-me com os dois conjuntos modernos de sofá, de algodão cru e parecendo ser muito macios e confortáveis. A sala é imensa, e vejo que à minha direita existe uma sala de jantar igualmente grande, com duas imensas mesas de jacarandá. Encostadas na parede, ladeando uma porta, duas grandes cristaleiras repletas de louça.

    Meio incerta sobre o que fazer, caminho devagarinho até a primeira cristaleira para observar os conjuntos de porcelana. A casa é toda muito linda e acolhedora, mas até agora não vi ninguém. Até que ouço uma voz…

    – Oi, filha…

    Dei um pulo. Ela estava na entrada da sala de jantar, sorrindo. Como sempre, sorrindo.

    – Mãe?!?

    Ela me deu aquele sorriso que reservava só para mim, aquele que ela dava quando estava muito satisfeita comigo. Ela estava diferente, especialmente do tempo que mais lembro, o tempo da doença. Ela estava… melhor. Era minha mãe, mas era minha mãe como ela devia ser, sem uma certa tensão que lhe fazia ranger os dentes, sem os medos que lhe toldavam os olhos, sem doença, sem seio amputado, com uma pele linda de pêssego e os olhos verdes cor de folha nova. Magra, com o corpo parecido com o que vi em sua foto de casamento, e um rosto sem marcas, sem idade determinada. Ao lado dela, quieto a me observar, sentado tranqüilamente, o Buggie, cãozinho que ela ganhou de presente de uma amiga. Também sem os sinais de doença e velhice, sem a cegueira.

    – Mãe…

    – Sim, filha. Que bom que você veio visitar.

    – Eu estou dormindo, não estou?

    – Está.

    – Mãe, como você está linda!

    Ela sorriu e me abraçou. Eu não sentia a vontade de chorar que sinto quando lembro de seu abraço acordada, porque não era uma lembrança saudosa, estava mesmo entre os braços de minha mãe. Quase protestei quando ela soltou do abraço e pegou minha mão.

    – Seus avós vão ficar tristes de saber que você veio quando eles não estavam.

    – Mãe, que lugar bonito!

    – É nossa casa, Assunção Maria.

    – Nossa casa?

    – Sim, estamos aqui, todos nós. Suas tias e tios, seus avós e bisavós, todos nós. Seu irmãozinho também está aqui.

    – Pedro Paulo está aqui?!?

    – Sim, está.

    – Posso vê-lo, mãe?

    – Não, filha. Você só vai poder conhecer seus parentes que morreram antes de você nascer quando vier de vez para cá. Filha, não deixe de vir!

    – Mãe, algum parente nosso que eu conheço não conseguiu vir?

    Os olhos dela encheram de lágrimas, mas ela não falou nada. Cheia de culpa por ter entristecido minha mãe, mudei de assunto:

    – Mãe, o Buggie! Ele está aqui também!

    – Ah, filha, você sabe o quanto eu amo o Buggie e o quanto ele me ama. Ele me achou aqui.

    – Posso pegar ele no colo?

    – Pode.

    Buggie nunca gostou muito de colo, era um yorkshire terrier muito peludo e morria de calor, mas sempre foi um cavalheiro e não se incomodou que eu o apertasse um pouco. A mãe foi andando em direção à sala de estar e eu a acompanhei com Buggie nos braços. Ela sentou em um dos sofás e eu sentei pertinho. Coloquei o Buggie no chão, e ele deitou naquela sua pose característica, as patas traseiras esticadas para longe do corpo, a barriga toda encostada no chão de madeira lustrada. Mamãe sorriu, perguntou:

    – Quer cafuné?

    Ela não precisou perguntar duas vezes, deitei imediatamente a cabeça em seu regaço, e ela acariciou meus cabelos. Ela cheirava ao seu perfume favorito, Fleur de Rocaille… o toque, o cheiro, tudo tão familiar…

    – Mãe, não quero ir embora…

    – Filha, você não pode ficar. Não é ainda sua hora de vir.

    – Mãe, está tudo tão penoso… as coisas parecem ficar cada dia mais difíceis. Aqui sinto tanta paz…

    – Assunção Maria, você sabe que ainda tem muito o que fazer. Agradeça a Deus por esta visita, e por saber que estamos aqui à sua espera, filha. Traga seus irmãos e seu pai para cá.

    – Como, mãe?

    – Reze, filha. Agora sossega, aproveita o cafuné…

    Eu me acomodei melhor e ela continuou a acariciar meus cabelos, e a cantarolar baixinho as canções que cantava para me ninar em criança. Eu fui ficando sonolenta, mas briguei com o sono, porque não queria partir. Eu sabia que, se adormecesse, ia acordar longe dali. No entanto, a voz suave da minha mãe foi me embalando, os olhos foram pesando e fechando… antes de adormecer completamente, escutei baixinho a frase que ela disse para mim no hospital, um pouco antes de morrer…

    – Filha, você é tão linda….

    TRRIMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!

    Acordei num pulo, sobressaltada. Era o telefone. E era engano.

  • Assunção de Maria

    Date: 2003.08.18 | Category: amor, espírito, mãe, saudade, vida interior | Response: 0

    Meu nome não é Assunção Maria por acaso. Há 97 anos atrás nascia minha avó, em 15 de agosto. Os pais calabreses não poderiam dar outro nome além de Assunta Maria. Maria elevada aos Céus. Muitos anos depois, 59 para ser exata, minha mãe — que também se chamava Maria, só que Maria Helena — quis homenagear as duas Assuntas, e me deu este nome.

    Fui consagrada à Nossa Senhora muito cedo. Desde muito pequena soube que tinha uma mãe na terra e uma no céu. Minha mãe costumava ninar os filhos cantando cânticos à Maria, um deles sempre me traz lágrimas de amor e saudade aos olhos… era assim…

    “Mãezinha do Céu, eu não sei rezar
    Eu só sei dizer quero te amar
    Azul é seu manto, branco é seu véu
    Maria eu quero te ver lá no Céu…”

    Este dia 15 estava muito triste, por vários motivos, inclusive pelo fato de que é o primeiro aniversário de minha avó que não posso ligar para cumprimentá-la. Mas não esqueci da Assunta calabresa, como nunca me esqueço da Assunta de Nazaré. Peço a Deus que estejam juntas na glória celeste, junto da outra Maria amada, que não é Assunta, mas é Helena.

    Minha Senhora e minha Mãe, Rainha do Céu, cuida destas mulheres que eu amo e que rogo estejam a seu lado, e me leve para junto delas quando for minha hora de partir.

  • Anjos 02

    Date: 2002.08.19 | Category: amor, espírito, mãe, saudade, vida interior | Response: 0

    Ultimamente tenho dado para pensar em crianças. Todas elas. As menorezinhas então me deixam hipnotizada, acho que existem algumas mães nervosas andando por aí, achando que sou uma daquelas mulheres seqüestradoras de bebês. Mas não, as crianças me fascinam porque a criança que eu esperava ter está murchando dentro de mim, à medida que o tempo passa e ela não vem.

    Quantas amigas e amigos, sabedores da minha paixão pela maternidade, me aconselhavam a “produção independente”. O que faço eu com o olhar questionador do meu filho, pensava eu então, como respondo a ele quando ele perguntar onde está o pai? “Filho, eu o roubei de seu pai, e roubei seu pai de você”? Não posso, nunca pude, imaginar tamanho egocentrismo que me fizesse privar propositadamente um filho meu de seu pai.

    Meu filho, pobre anjo, ainda espera para nascer, cada vez com menos esperança. A necessidade que tenho dele virou um hiato na alma, e dentro deste nasce uma moita que está vagarosamente se enchendo de pequenos espinhos. Dentro desta moita, uma única rosa brilha perfeita. Quando penso em meu nenê, sinto uma fome e um aperto que fazem estes espinhos me comerem a carne… Meu pequenino, minha rosa, vagarosamente se afasta de mim, como a pressentir que esta mãezinha não vai recebê-lo em seu ventre, e transformá-lo de apenas possibilidade em criança concreta.

    E mulheres abortam seus filhos!!! Passo momentos agridoces imaginando a curva da bochecha, o formato do nariz, a cor dos olhos de uma criança que jamais existiu, sem conseguir atinar como uma mulher arranca de dentro de si uma criança pulsando de vida, para jogá-la na lata do lixo… Essa criatura que é dela, carne produzida de sua carne, com seus olhos, ou os olhos de sua tia Maria, ou o bom humor de seu primo José… Porque é que as crianças hoje são consideradas “problema” e as mães tentam se livrar delas como da peste, em vez de imaginarem que coisas boas e belas de si e de sua família serão perpetuadas naquele corpinho? Quantas coisas também podem ser melhoradas e consertadas numa próxima geração!

    Um dia, ouvi uma canção. Não esperava por ela, não estava preparada. Meus joelhos tremeram, minha cabeça tombou e caí num choro convulso. Uma outra mulher, talentosa, linda – que sei não ter filhos como eu, pois a conheço pessoalmente – falava da minha dor como se fosse a dela, cantava um anjinho morto, como meu quase-bebê… Ninava esta criança morta com sua voz cristalina… Annie, ah! Annie, você assim acaba comigo, eu pensava enquanto chorava. Mas não conseguia parar de ouvir. Uma, duas, vinte e cinco vezes seguidas eu ouvi esta canção. Ela mesma foi a doçura que afastou o amargor.

    Esta é a canção que uso para dizer a meu filho: Dorme, querido, mamãe está aqui.

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