Archive for the ‘saudade’ Category

  • Date: 2007.09.18 | Category: amor, esperança, minerin-candango, saudade | Response: 0

    Não tendo você aqui

    Não tendo você aqui, janto no sofá, sem luzes,
    Olhando a noite andar lentamente pela janela.
    Não tendo seu olhar sobre mim,
    Não tenho vontade de sorrir e a boca mantém-se cerrada.
    Sem seu ouvido atento, que adianta falar?
    Permaneço em silêncio.
    Sem sua mão para segurar,
    A minha permanece espalmada, pedinte, indigente.
    Sem seu corpo para me ninar,
    Permaneço insone até que o cansaço me feche os olhos.

    Aguardar é duro, amado, quando tudo que olho em volta
    Me lembra sua presença ou sua ausência.
    A saudade do que nunca tive virou saudade, apenas.
    Meu coração bate em tempo com as sílabas do seu nome.

    Cole Porter faz cada vez mais sentido…
    Não tendo você aqui,
    É com ele que durmo hoje à noite.

    Night and Day

    Like the beat beat beat of the tom-tom
    When the jungle shadows fall
    Like the tick tick tock of the stately clock
    As it stands against the wall

    Like the drip drip drip of the raindrops
    When the Summer shower is through
    So a voice within me keeps repeating
    You, you, you

    Night and day, you are the one
    Only you beneath the Moon or under the Sun
    Whether near to me, or far
    It’s no matter darling where you are
    I think of you
    Day and night, night and day, why is it so

    That this longing for you follows wherever I go
    In the roaring traffic’s boom
    In the silence of my lonely room
    I think of you
    Day and night, night and day

    Under the hide of me
    There’s an oh such a hungry yearning burning inside of me
    And this torment won’t be through
    Until you let me spend my life making love to you
    Day and night, night and day

  • Date: 2007.08.22 | Category: amor, minerin-candango, saudade, vida interior | Response: 0

    Acalanto à distância

    Dorme, mente cansada.
    Dorme, corpo dolorido.
    Descansa, voz triste.

    Sente na pele o beijo da asa da borboleta.
    Sente no sono a minha presença amorosa.
    Sente na alma o meu aconchego.

    Tudo que eu tenho de bom é seu.
    Presenteio sua tristeza com minha esperança.
    Hoje não me importa a pontada de saudade que sinto da sua voz.
    Não me importa que meu sono seja sonho de você.
    Não importa o desejo negado e o sentimento entalado.
    Não me importa o que eu gostaria que fosse.

    Tudo isto fica eclipsado pela tristeza que eu sinto em você,
    Tristeza que eu desejava de alguma forma diminuir.

    Dorme, querido, o colo é seu, sempre.
    Encosta confiante a cabeça pesada no meu peito…
    Dorme.

  • Fim da Missão

    Date: 2007.01.29 | Category: amor, pai, saudade | Response: 2

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    (Discurso que infelizmente tive de proferir na cerimônia de cremação de meu pai)

    Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2007.

    Amigos:

    A presença física de meu pai entre nós se encerra definitivamente hoje. O corpo dele logo estará transformado em cinzas. Ele não vai ter uma lápide em nenhum cemitério. Não vai haver restos mortais dele em lugar algum. Eu, conhecendo meu pai, acho isto muito bom. Mas a ausência de corpo não impede que seu espírito seja lembrado e, ao sentar para escrever estas palavras, o que mais me preocupava era justamente escolher, numa vida longa e cheia de acontecimentos, o que pedir a seus amigos, aqui presentes, para lembrar.

    Muitos de vocês o conheceram bem antes de eu nascer. Vocês têm lembranças de um jovem que eu não conheci, do qual escutei muitas histórias. Eu tenho as lembranças do afeto, da vida em comum, do pai. Outras pessoas aqui têm a lembrança do homem forte que ele foi ao lutar contra uma doença traiçoeira e malvada. Para alguns ele era o Gordo, para outros o Brizola, ou ainda o Mederix. No HFAG o Brig. Medeiros misteriosamente virou “Seu Roberto”…. Ele era muita coisa para muita gente, como reunir numa só lembrança todas as facetas deste homem?

    É difícil, tenho certeza que mesmo que ficássemos aqui muito mais que meia hora não conseguiríamos um denominador comum. Cada um de nós tem as suas lembranças e as impressões pessoais que ele deixou. Durante o tempo que tive para pensar desde sua morte sexta de manhã, no entanto, descobri duas coisas que são para mim muito importantes a respeito de meu pai, e que queria dividir com vocês. A primeira, a que deixou a impressão mais forte na minha alma, é que ele era um guerreiro.

    Meu pai me ensinou a vida toda a ser forte, a ser justa, a nunca abusar dos mais fracos e a sempre defender o que era certo, mesmo às custas da simpatia alheia. Esta força que foi meu exemplo veio de sua personalidade, é certo, mas veio também do fato muito especial e de que muito me orgulho: ele era um militar e era um aviador. Meu pai me ensinou a respeitar a força, e o convívio dentro da FAB me ensinou que ele e seus companheiros de farda eram pessoas especiais, feitas de estofo diferente dos “paisanos”.

    Os aviadores não têm trabalho, eles têm missões. Eles não têm colegas de trabalho, têm a turma de irmãos. Brigam juntos, voam juntos, casam juntos, criam seus filhos juntos, estão juntos com os filhos quando é hora de dizer adeus a um irmão caído.

    A força de espírito de meu pai era a comissão de frente da sua personalidade, mas ele tinha um outro lado, extremamente cativante, que ele deixava entrever àqueles que conquistavam sua confiança e amizade: meu pai era um menino gaiato, cheio de humor e de alegria, brincalhão, capaz de fazer graça dos amigos e de si. Mesmo no final de suas forças ainda achava energia para encontrar apelidos para as enfermeiras que contratamos para cuidar dele em casa.

    Ele enfrentava a vida, na maior parte do tempo, como se ela fosse uma grande traquinagem. Ele sabia encontrar o que havia de engraçado nas situações, e sua risada estrondosa, solta, de chacoalhar os ombros, ainda soa na minha memória. A força e a alegria de meu pai é o que quero deixar na memória de todos que vieram aqui se despedir dele, nesta cerimônia simples que era o que ele queria, sem honras militares, pois ele afirmava que não ia proporcionar uma festança destas a outros, quando estivesse impedido de participar dela.

    Meu pai gostava muitíssimo do filme All That Jazz, onde na cena final o personagem principal do musical dá seu adeus a todos deste mundo e parte ao encontro de uma morte linda e loira que o aguarda com um sorriso. Meu pai sempre nos disse que queria encarar a morte dele assim, então eu espero que ele tenha encontrado sua loira, e que minha mãe que o aguarda lá no céu não tenha achado muito ruim. Ele achava a cena fantástica e a música Bye Bye Love sensacional. Não foi possível tocar aqui a música que trouxemos, por razões técnicas. Quem quiser, pode buscar escutar a música e dar seus bye byes internos ao Medeiros. Bye bye, meu pai.

    Ao final, eu peço a vocês que fiquem de pé por um momento, e honrem todos os aviadores presentes escutando – e cantando, aqueles que o conhecem – o Hino do Aviador:

    Hino do Aviador

    Vamos filhos altivos dos ares
    Nosso vôo ousado alçar,
    Sobre campos cidades e mares,
    Vamos nuvens e céus enfrentar.

    D’Astro-Rei desafiamos nos cimos,
    Bandeirantes audazes do azul.
    Às estrelas, de noite, subimos,
    Para orar ao Cruzeiro do Sul

    Contacto! Companheiros!
    Ao vento, sombranceiros,
    Lancemos o roncar
    Da hélice a girar

    Contacto! Companheiros!
    Ao vento, sombranceiros,
    Lancemos o roncar
    Da hélice a girar

    Mas se explode o corisco no espaço
    Ou a metralha, na guerra, rugir
    Cavaleiros do século do aço
    Não nos faz o perigo fugir

    Não importa a tocaia da morte
    Pois que à Pátria, dos céus no altar
    Sempre erguemos de ânimo forte
    O holocausto da vida, a voar

    Contacto! Companheiros!
    Ao vento, sombranceiros,
    Lancemos o roncar
    Da hélice a girar

    Contacto! Companheiros!
    Ao vento, sombranceiros,
    Lancemos o roncar
    Da hélice a girar

    Obrigada.

  • Mais um Adeus

    Date: 2004.10.11 | Category: amor, Asas de Borboleta, espírito, saudade, vida interior | Response: 0

    Recife, inverno de 1985. A mocinha que eu fui ficou sabendo que um dos escritores que adorava estaria numa livraria o Shopping Recife autografando seus livros. Entusiasmada mas tímida, pegou dois deles e levou dentro da bolsa. Não sabia se teria coragem de se aproximar de tão exaltada figura e pedir o carinho de ter uma dedicatória pessoal para provar que ele era de fato seu amigo querido. Não estranhem ela nunca o ter visto antes, o amor através dos livros que os escritores e seus leitores trocam é forte e verdadeiro. Tanto quanto o leitor precisa da visão especial do escritor para conhecer melhor o mundo, o escritor precisa daqueles corações e daquelas mentes vibrando em harmonia com ele e dizendo, “Sim, é isso mesmo! Como não percebi antes?”

    A Sue-mocinha então selecionou os dois livros deste amigo, e foi para o shopping, ainda sem saber se teria coragem de se aproximar dele. Vai que a imensa simpatia e doçura presente nos livros se mostrasse apenas construção do talento dele de escritor, e o homem não fosse da mesma estatura?

    O Shopping. Lá estava ele. De longe percebeu um homem maduro, mais velho um pouco que seu pai, mas ainda bonitão. Parecia simpático. Foi-se aproximando devagarinho, e teve a grata surpresa de ser acolhida com um enorme sorriso. O grande escritor não se esquivou de mineiramente trocar um dedinho de prosa com a menina, e ainda escreveu uma dedicatória que fez o coração dela inchar de alegria: “A Sue esta lembrança afetuosa com um abraço amigo do Fernando Sabino – Recife, 19/06/85”

    O livro, Faca de Dois Gumes, foi relido aquela noite com uma nova emoção. Agora ela sabia um pouquinho mais deste livro, sabia que ele tinha sido escrito por um homem bom, com entusiasmo de menino e modos de cavalheiro. Ela já tinha vontade de escrever bem como ele. Agora passou a ter vontade de ser uma pessoa assim.

    Quase 20 anos depois, o telejornal anuncia que o meu amigo morreu aos 81 anos, depois de dois anos de luta contra um câncer. Será que alguém vai entender as lágrimas que me escorrem dos olhos enquanto escrevo isto? Será que vocês vão entender que Fernando Sabino – e Manoel Bandeira, e Carlos Drummond e Clarice Lispector e tantos outros – é parte da minha alma?

    Hoje o mineirinho contador de causo morreu. Esse mundo ficou um pouquinho mais vazio e mais triste. E o outro mundo ficou um pouquinho mais alegre. Diz o noticiário…

    Velório de Sabino é no S. João Batista
    O Globo
    GloboNews TV

    RIO – O corpo do escritor Fernando Sabino está sendo velado no cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul, onde será enterrado nesta terça-feira, às 11h. Alguns amigos como o cartunista e escritor Ziraldo e o jornalista Wilson Figueiredo estão no local. Sabino sofria de um câncer no fígado há dois anos e, segundo amigos, passou os últimos dois dias sedado. A pedido do escritor, seu túmulo terá a inscrição “nasci homem, morri menino”.

    O que eu digo é que este menino tocou fundo meu coração, e agora o Asa está de luto. Não quero falar mais, deixo com vocês Fernando Sabino…

    A Última Crônica – Fernando Sabino

    A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

    A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

    Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

    Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

    A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

    São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.

    A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

    Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

    Texto extraído do livro “A Companheira de Viagem”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.

  • O que é que se diz?

    Date: 2004.09.08 | Category: amizade, amor, Asas de Borboleta, saudade | Response: 0

    Ah, é duro quando uma pessoa que amamos parte antes de nós, quando parte cedo demais. Não há muitas palavras que consolem, pois neste caso só mesmo o tempo cura a ferida. Mas, para ti, poeta, quis deixar como um acalanto as palavras de outro poeta, que conviveu por muito tempo de perto com a indesejada das gentes.

    Para Rogério Simões, Manuel Bandeira. Com um beijo meu.

    OVALLE

    Estavas bem mudado
    Como se tivesses posto aquelas barbas brancas
    Para entrar com maior decôro a Eternidade.
    Nada de nós te interesava agora
    Calavas sereno e grave
    Como no fundo foste sempre
    Sob as fantasias verbais enormes
    Que faziam teus amigos rir e
    Punham bondade no coração dos maus.

    O padre orava:
    – “O côro dos anjos te receba…”
    Pensei comigo:
    Cantando Estrela brilhante
    Lá do alto mar!…

    Levamos-te cansado ao teu último endereço
    Vi com prazer
    Que um dia afinal seremos vizinhos
    Conversaremos longamente
    De sepultura a sepultura
    No silêncio das madrugadas
    Quando o orvalho pingar sem ruído
    E o luar for uma coisa só.

    (Ah, Alex, para ti, amigo querido, saudades da sua butterfly…)

  • Dia das Mães

    Date: 2004.05.09 | Category: amor, mãe, pai, saudade, vida interior | Response: 0

    Este é um ano em que não tenho muito o que falar no dia das mães. Eu sinto que já disse muito, e muitas vezes, o que minha mãe significa – no presente, não no passado, apesar de morta há quase 18 anos – para mim. Ela sempre foi meu norte, e de muitas maneiras continua sendo. Portanto, para honrá-la, agradá-la e presenteá-la neste dia das mães, vou fazer do dia das mães o dia do meu pai.

    Mãe, já fiz o manjar branco que ele gosta, mas ele não quer me deixar fazer o almoço, quer ele mesmo fazer o talharim ao alho e óleo – eu prometo que não deixo ele lavar um único garfo, apesar dele ser teimoso e ativo. Eu comprei um presente que sei que ele vai gostar: um DVD da Natalie Cole. Eu lembro, mãe, de como você contava da emoção que foi escutar o Nat King Cole ao vivo aqui no Rio, na década de 50, e ele gosta da filha quase tanto quanto do pai…

    Tudo, mãe, que eu puder fazer por este meu querido “gatoso” (ihhh, ele ficou tão zangado quando eu contei que gatoso não era gato + gostoso e sim gato + idoso, mãe… hehe) eu farei. Eu bem sei que nada a faria mais feliz.

    Feliz dia das Mães, dona Maria Helena… um beijo e uma prece da sua filha, sempre.

  • Luto

    Date: 2004.02.06 | Category: amizade, amor, esperança, saudade | Response: 0

    Este blog e a sua autora estão profundamente tristes de participar aos leitores o falecimento do pai de um grande amigo. Visito o blog deste amigo todos os dias, algumas vezes mais de uma vez por dia, apesar de saber que ele tem postado pouco e de maneira irregular.

    Hoje, há uma tarja preta lá. A noite desceu novamente. Mas a paz volta, Dennito, e eu não gostaria de privar seu pai mais tempo da companheira de tantos anos. Ele não quis ficar sem ela, e eu não o culpo.

    Todos aqueles que gostam de você estão sofrendo junto. Mas eu insisto, querido, que falta pouco para o amanhecer.

    Força. Amo você.

  • Pelo visto ainda não acabou

    Date: 2003.12.23 | Category: Asas de Borboleta, espírito, saudade | Response: 0

    Este ano foi um ano de morte. Sem nenhuma figura de linguagem. Mas eu não esperava passar dia 24 de dezembro no cemitério. Infelizmente, parece que vou.

    Aos que me detestam, aos que me desejaram tanto mal, um Feliz Natal. Podem celebrar à vontade, ao menos alguém fica feliz. Beijei a lona. Estou no chão. Podem pisotear à vontade, que não fico pior que estou. Já não sinto mais nada. Aproveitem.

    Tio, decanse em paz.

  • Homem de Preto

    Date: 2003.11.15 | Category: amizade, amor, espírito, luta, saudade | Response: 0

    Ela chegou sozinha. Entrou em silêncio. Sentou-se no canto mais escuro da grande igreja barroca. As lágrimas, teimosas e fartas, escorriam sem parar e sem que ela fizesse qualquer movimento para estancá-las. Um soluço esporádico incomodava os espantados vizinhos de banco.

    A maior parte do tempo ela mantinha os olhos baixos, as lágrimas regando e enchendo lentamente o côncavo de suas mãos pousadas sobre suas coxas. Ouvia sem escutar o movimento e a missa solene que prosseguia. Os momentos em que tinha de ficar em pé eram os mais difíceis, pois então não havia como não ver o vulto de preto estendido descalço no chão, em frente ao altar.

    Aquele vulto de negro tinha sido parte de sua vida desde o berço, quando ele visitara a casa de sua avó e abençoara o bebê que ela fora. Maiorzinha, levada pela mão da tia, ia visitar aquele grande homem sorridente, sempre de preto. Ela menina ia ficando mais e mais intimidada quando seus olhos iniciavam a viagem do chão até seu rosto. Desde os sapatos pretos reluzentes, passando pelo hábito preto e grosso – com aquele aventalzinho engraçado na frente onde ele escondia as mãos – até chegar ao rosto. Aí, todo sentimento de intimidação sumia, porque a criança pequena que ela era encontrava o brilho alegre do olhar daquele homem, que parecia dizer “sou criança também, mas não conte a eles!”. Ela não conseguia evitar de abrir um largo sorriso.

    Ao longo dos anos foi sempre assim, ela aprendia rapidamente a interpretar os diferentes brilhos do olhar daquele homem de preto. Depois que ficou maior, e fez sua primeira comunhão em Brasília, esperava aflita as oportunidades de pegar um avião para o Rio de Janeiro, onde seu amigo a esperava. Eles chamavam aquelas visitas de “confissão”, mas ela via aquilo apenas como matar as saudades de seu amigo – muitas vezes, durante diversas fases de sua vida, o único amigo verdadeiro.

    No meio das conversas, períodos longos de silêncio, sentados num canto do jardim, escutando o distante rugido do centro da cidade e o silêncio reinante naquele recanto. Uma vez, um sabiá pousou na frente deles e os três ficaram a se fitar, imóveis, até que o pássaro cansou da brincadeira e levou seu peito vermelho para longe dali, mas não sem antes deixar uma estranha alegria no peito da menina.

    Na adolescência, a natural atitude de desafio da idade se desmanchava por completo na presença do homem de preto. O sorriso compreensivo, a voz pausada e modulada, aquele olhar penetrante onde sempre pairava uma alegria, aquilo tudo a acalmava. Ele, ao contrário dos pais, escutava atento e com a maior seriedade o que ela lhe dizia. Concordando ou não, nunca fazia com que ela se sentisse tola ou incapaz.

    Quando a mãe da jovem adoeceu, seu homem de preto redobrou suas atenções, ligando toda a semana e insistindo que ela se juntasse ao grupo jovem que ele orientava. Ela foi, apenas para estar com seu amigo, nada tinha em comum com a maioria daqueles adolescentes que cantavam tão alto e batucavam seus violões na missa. Ela tinha crescido escutando a voz de seu amigo no canto gregoriano, sob a sombra cheia de contemplação daquele Mosteiro.

    Morre-lhe a mãe, e a saúde de seu já idoso amigo começa a fraquejar. Pouco a pouco, ele enfraquece diante dos seus olhos, mas tamanha era a força daquele espírito que ela não percebeu nada além do olhar cada dia mais arguto em desvendar seus pensamentos e humores, e a palavra cada dia mais caridosa.

    Agora ela estava ali, e seu amigo, seu homem de preto, repousava no chão de pedra da igreja onde eles sempre se encontravam. As mãos não mais escondidas no bolso do hábito, mas recolhidas dentro das mangas. O capuz que ela sempre vira pender sobre os ombros, pela primeira vez cobria sua cabeça. Os pés, ela os via pela primeira vez sem seus sapatos pretos sempre bem engraxados. Ela nunca o vira tão quieto e tranquilo, parecia dormitar, mas ela sabia que aquele era o sono eterno, merecido depois de uma longa vida de estudo, trabalho e problemas de saúde.

    Seu irmãos de hábito se arrumaram em torno dele, e ela sente dor aguda da separação iminente. Sendo mulher, jamais poderá visitá-lo no claustro onde ele dormirá. Não sendo parente, não poderá jamais convencer àquelas pessoas espantadas de vê-la chorar tanto a morte de um padre que aquele monge era seu pai. Não sendo da ordem beneditina, não poderia jamais compartilhar com ele esta irmandade especial advinda de ser filha de São Bento. Ele ia ser radical e definitivamente separado dela.

    Eles o levaram em procissão e ela seguia, tornada apática pelo tamanho do seu sofrimento. Seguia mais ou menos no meio da multidão que acorrera ao velório e ao enterro, multidão que era para ela nova fonte de dor, pois nem mesmo a exclusividade de saber que ele era especial ela tinha.

    Colocado suavemente dentro de sua última morada, a fila dos amigos que iam prestar os últimos respeitos se forma, e cada um recebe uma pedrinha, que deposita sobre o caixão agora fechado. Ela quase guardou aquela pedra na bolsa, mas afinal queria que ele tivesse contato, por ínfimo que fosse, com algo que pertencera a ela, nem que fosse por alguns instantes. Jogou a sua pedrinha também.

    Ao deixar o claustro, grossas lágrimas de chuva começaram a cair do céu de março, pois aquele dia o Rio de Janeiro chorou copiosamente a morte de um filho ilustre. Vagarosamente ela desce a ladeira no meio da chuva, indiferente, mas pára um instante para olhar para trás. Aquela imensa construção de pedra sempre o abrigara. Agora, misteriosamente, toda a construção sorria o seu sorriso, e todas as vidraças brilhavam com a luz do seu olhar. Pois ele virara o Mosteiro, e o Mosteiro virara João.

  • Todos os Santos e Finados

    Date: 2003.11.02 | Category: amor, esperança, espírito, saudade | Response: 0

    Queridos amigos, este final de semana é dedicado a todos os que partiram. O dia de finados, hoje, é precedido do Dia da Todos os Santos. Acho que pouca gente pára um instante para questionar o porque destas datas adjacentes. Eu parei, e obtive do meu coração a seguinte resposta: honre e cultive a amizade de todos os santos, aqueles que agradaram mais a Deus, que conhecem os caminhos mais rápidos para o Coração de Jesus; peça pelas suas almas, para que alcancem a salvação.

    Os santos mostram caminhos de salvação. As almas nos lembram que a vida passa depressa. Eles estão a nos esperar. Vamos ao encontro deles, ou caímos no abismo? A hora de escolher é agora, amigos queridos.

    Oferecendo a vocês a doce imagem que está postada na EWTN, desejo um dia de paz e reflexão para todos, com menos lágrimas de saudade e mais esperança…

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