Archive for the ‘saudade’ Category

  • Noturnos

    Date: 2003.10.26 | Category: amizade, espírito, saudade, vida interior | Response: 0



    © 2003 – Ana Pinto
    http://www.thousandimages.com

    Às vezes coisas boas nos remetem a coisas ruins. A presença de amigos queridos, que vêm de longe comemorar a vida e a amizade conosco, pode remeter à lembrança daqueles que ficaram pelo caminho, sem atender à mão estendida da amizade. Alguns lembramos com um alívio cansado, felizes de vê-los pelas costas. Mas outros causam um melancolia dolorida, sentimos a perda eternamente.

    Na minha vida, deste grupo de pessoas, graças a Deus pequeno, fazem parte aquelas que me deram afeto genuíno, mas não conseguiram enxergar minha alma, a não ser de forma distorcida. Pessoas para quem a minha presença significava um paradoxo e um conflito, ao invés de um prazer e uma alegria. Uma delas, em especial, tocou fundo em meu coração, e sua falta se faz sentir forte. Mas esta pessoa tão querida, faz um certo tempo, quis resolver o paradoxo da Sue calando a Sue, ou transformando a Sue em outra pessoa. Não posso deixar de ser quem sou, ou calar o que penso. Nem mesmo por um menino gigante de fala mansa de quem tanto gosto.

    Mesmo assim, depois de passar um dia adorável com pessoas ainda mais adoráveis, eu me pergunto se algum dia vou conseguir ajudar meu gentil gigante a resolver o paradoxo da Sue. E se vamos um dia poder concretizar o abraço tantas vezes prometido. Mas pelo jeito que as coisas estão, meu gentil menino de fala mansa vai passar a ser apenas um gentil e melancólico noturno, tocando gentil, suave e triste nas noites de lua cheia. Enchendo meu coração de saudade de uma amizade que não sei se jamais foi real.

    A vida tem destas coisas… ela nem sempre é gentil.

  • Assunção de Maria

    Date: 2003.08.18 | Category: amor, espírito, mãe, saudade, vida interior | Response: 0

    Meu nome não é Assunção Maria por acaso. Há 97 anos atrás nascia minha avó, em 15 de agosto. Os pais calabreses não poderiam dar outro nome além de Assunta Maria. Maria elevada aos Céus. Muitos anos depois, 59 para ser exata, minha mãe — que também se chamava Maria, só que Maria Helena — quis homenagear as duas Assuntas, e me deu este nome.

    Fui consagrada à Nossa Senhora muito cedo. Desde muito pequena soube que tinha uma mãe na terra e uma no céu. Minha mãe costumava ninar os filhos cantando cânticos à Maria, um deles sempre me traz lágrimas de amor e saudade aos olhos… era assim…

    “Mãezinha do Céu, eu não sei rezar
    Eu só sei dizer quero te amar
    Azul é seu manto, branco é seu véu
    Maria eu quero te ver lá no Céu…”

    Este dia 15 estava muito triste, por vários motivos, inclusive pelo fato de que é o primeiro aniversário de minha avó que não posso ligar para cumprimentá-la. Mas não esqueci da Assunta calabresa, como nunca me esqueço da Assunta de Nazaré. Peço a Deus que estejam juntas na glória celeste, junto da outra Maria amada, que não é Assunta, mas é Helena.

    Minha Senhora e minha Mãe, Rainha do Céu, cuida destas mulheres que eu amo e que rogo estejam a seu lado, e me leve para junto delas quando for minha hora de partir.

  • Carta ao senhor do meu sentimento

    Date: 2002.09.07 | Category: amor, saudade, vida interior | Response: 0

    Caríssimo…

    Meu maior medo nesta vida é não dizer a tempo tudo que me permita abrir as asas de borboleta do meu coração e voar como todo ser humano nasceu para voar. Sabe lá quando um ultraleve desgovernado, uma bala perdida, um carro em alta velocidade ou outro desastre qualquer emudeçam para sempre minha voz?

    Em meio às mil e uma ternurinhas que minha fantasia planejara oferecer a ti, das mil e uma noites de conversa ao pé do ouvido imaginadas, diante da realidade nua e crua da não-retribuição do meu amor – que continua impávido e intransigente, recusando-se a morrer – tenho de fazer uso de um talento maior que o meu, buscar o consolo em uma dor maior que a minha. Como a ave busca as correntes de ar quente para voar mais alto e mais longe.

    Daqui do alto, te digo: tudo o que faço, tu fazes comigo. Tudo o que penso, comento contigo em meu coração. Tudo o que vejo de belo, envio como um postal mental para ti. Tua presença é tão forte, tão intensa, que quase consigo me enganar e achar que tu estás mesmo aqui.

    Recebe esta canção como um beijo.

    Se eu não te amasse tanto assim

    (Herbert Vianna / Paulo Sérgio Valle)

    Meu coração, sem direção

    Voando só por voar

    Sem saber onde chegar

    Sonhando em te encontrar

    E as estrelas

    Que hoje eu descobri no seu olhar

    As estrelas vão me guiar

    Se eu não te amasse tanto assim

    Talvez perdesse os sonhos

    Dentro de mim

    E vivesse na escuridão

    Se eu não te amasse tanto assim

    Talvez não visse flores por onde eu vim

    Dentro do meu coração

    Hoje eu sei, eu te amei

    No vento de um temporal

    Mas fui mais, muito além

    Do tempo do vendaval

    Nos desejos, num beijo

    Que eu jamais provei igual

    E as estrelas dão um sinal

  • O Melhor de Nós

    Date: 2002.09.07 | Category: amizade, amor, saudade | Response: 0

    Hoje escutei pela primeira vez todo o disco “Se eu não te amasse tanto assim”, da Ivete Sangalo, onde ela canta músicas antigas e novas, todas lindas, falando sobre amor. Por acaso, as duas primeiras músicas são de uma pessoa que tem uma ligação forte com a minha infância.

    Ser filha de milico é uma coisa engraçada. Somos todos ciganos, de tanto em tanto tempo arrumamos nossas coisas e partimos para uma cidade nova. Não conseguimos fazer amizades duradouras fora do âmbito militar, porque ficamos pouco tempo com as pessoas de fora. Mas temos sempre contato com os outros filhos de oficiais enquanto crescemos, mesmo à distância. É esquisito, você vê seus amigos muito pouco, mas sempre sabe onde e como eles estão. Talvez filhos de diplomatas tenham a mesma sensação esquisita.

    O acaso, no entanto, fez com que eu passasse sete anos seguidos da minha vida, dos sete aos treze anos, morando em Brasília. Nesta época foi que eu e meus irmãos estabelecemos contato com as pessoas que chamamos de “amigos de infância”. Alguns deles eu nunca mais vi. Outros eu encontro de uma forma bissexta, e outros estão sempre por aqui. Mas com todos eles eu tenho uma ligação forte, diferente das amizades que estabeleci com pessoas só minhas, fora do ambiente militar, depois que entrei na faculdade e me estabeleci definitivamente no Rio de Janeiro.

    Eu lembro que, quando cheguei em Brasília, em 1972, havia poucas meninas da minha idade para brincar. Meu irmão mais velho, no entanto, fazia parte de um grupo enorme de meninos, alguns deles já conhecidos, vindos do Rio como nós. Era uma matilha do barulho, sempre aprontando alguma pelas superquadras próximas. Eles faziam carrinhos de rolimã, e voavam pelas rampas de acesso aos prédios. Inventaram um jogo que lembrava de longe o baseball, jogado com pedaços de pau e um bola de tênis, que era pretexto para tantos palavrões que arruinaram para sempre um papagaio do nosso bloco. Eu fui testemunha de campeonatos e campeonatos de futebol de botão, e longas corridas de autorama no quarto do meu irmão. Eles não me deixavam participar, principalmente depois que os venci numa partida de botão. Mas eles eram fascinantes para mim – ah, se eram –, e eu os observei toda a minha infância.

    No meio desta multidão de moleques, havia um que imediata e naturalmente tomou a liderança do grupo. Ele era filho do meio da família Vianna do 302, dois andares abaixo de nós, que morávamos no 502. Lá não havia meninas, mas eu me tomei de amores pela mãe deles, que muitos anos depois tornou-se minha madrinha de crisma. Passei boas horas aprendendo crochê com a Tia Teka, escutando aquele cantadinho gostoso da Paraíba. Os meninos passavam voando para lá e para cá o dia todo. O nome daquele menino especial? Herbert.

    Ele era uma coisinha magra e cabeluda (sério!) que nunca parava quieta, e que logo inventava apelidos para todos os meninos do grupo. Meu irmão rapidamente virou Egg, depois do dia que o barbeiro exagerou no corte e revelou o oval perfeito da cabeça dele. Herbert – junto com o irmão Hermano – nos apresentou músicos como Elton John, David Bowie (como eu achava horrível a capa do disco Diamond Dogs!), Michael Hedges, Santana e tantos outros. Ele era um furacão, e quem o conheceu menino já sabia que nada menos que uma parede e tijolos seria capaz de pará-lo. Não foi uma parede de tijolos, foi a força da natureza que o fez pausar. Que pausa dolorida! Justo quando ele estava vivendo uma fase de vida tão boa, criando suas músicas e seus filhos, cercado da admiração de seus fãs e de seus pares, ao lado da mulher amada.

    Hoje eu não convivo mais com ele, tomada pelo pudor de quem não quer ver seu carinho confundido com piedade ou curiosidade barata. Falo ocasionalmente com minha madrinha, tornada mãe novamente pela força das circunstâncias. Ele é forte, e eu espero que ele desafie os deuses, como fez Prometeu, até que estes o perdoem por roubar o fogo criativo e oferecê-lo aos homens. Mas sei que vai ser uma caminhada de passo de formiguinha, com o mundo todo nas costas. Quem daquele grupo imenso de crianças pensaria que isto ia acontecer com o melhor de nós?

    Algumas tragédias simplesmente não têm explicação.

  • Dentro do Casulo

    Date: 2002.08.29 | Category: amor, Asas de Borboleta, saudade, vida interior | Response: 0

    O casulo é escuro. Dentro dele, a sensação não é tanto claustrofóbica quando de torpor. Não se tem o desejo de se mexer, de sair. Desta vez, o casulo é um deserto escuro, onde estou completamente só. Nem as lembranças estão aqui, só minha alma e a escuridão, o silêncio.

    Estou em uma espécie de estase. Sinto a dor e a desolação, mas isso não me impulsiona a fazer coisa alguma. Sinto a dor e observo a dor de uma certa distância; a não ser nos momentos que a alma do casulo faz contato com a mente e o coração. Aí, são espasmos de dor muito forte, que me prostram também fisicamente.

    O mais engraçado é que a vida continua. Business as usual. Ninguém à minha volta percebeu o casulo, a não ser minha irmã, que reclamou que eu estou calada demais, quase uma autista. Acho que ela está mais certa que imagina.

  • Entrando no Casulo

    Date: 2002.08.29 | Category: amor, Asas de Borboleta, saudade, vida interior | Response: 0

    Hoje a borboleta levou-me a passear. Fomos até a Floresta da Tijuca, estava fazendo um dia privilegiado de sol e céu muito azul, e os cariocas exerceram sua eterna preferência pelo mar. Eu e minha alada amiga fomos ao encontro das nossas pedras. Estávamos sós, eu e ela, numa paz de cigarra cantando ao longe, de riacho escorrendo pelo morro…

    As asas dela faiscavam no sol, ficavam quase prateadas, ela estava linda, linda. Eu, pobre de mim, passando pela maior ressaca da minha vida, amassada e arrebentada como sapato tirado de boca de cachorro. Passei os últimos três dias em luto fechado, porque meu coração foi desenganado pelos médicos. “Amor impossível”, foi o diagnóstico. Morte cerebral do sentimento em pouco tempo.

    Lá estava eu, no meu lugar favorito entre todos, só com minha borboleta, deveria estar feliz, mas estava encafifada com a ironia profunda de certos desenlaces. Encostada na base de uma mangueira anciã, me quedei a ouvir o canto do riacho. O riacho, que tantas vezes ouvira cantar alegremente enquanto voava por cima das pedras, gemia lentamente. Pus-me a gemer também, e as lágrimas correram mais velozes que as águas aos meus pés.

    A borboleta elevou-se no ar e começou a dançar ao sol. Ela virava aqui e ali como uma pipa, rebrilhando com seus reflexos prateados. Logo, milhares de borboletas se juntaram a ela. Borboletas de todas as cores, de todos os tamanhos, dançavam numa nuvem multicolorida acima da copa da mangueira.

    Lembrei-me do discman na bolsa. Lembrei-me também que estava lá dentro o Requiem de Mozart, que tem sido meu companheiro incansável nestes últimos dias. Coloquei os fones de ouvido e comecei a tocar no random. As borboletas pareciam escutar a música também. A dança delas ficou ainda mais etérea ao som de Mozart.

    “Rex tremendae majestatis,

    Qui salvandos salvas gratis,

    Salva me, fons pietatis”

    Ah, amigas… a borboletas são as melhores amigas de quem sofre, porque a tragédia de uma beleza tão intensa e tão duramente conquistada ser tão efêmera parte seus corações desde seu nascimento. O casulo… sim, amigas, o casulo… mais um… sim… sim.

  • Convivendo com a dor

    Date: 2002.08.28 | Category: amor, saudade, vida interior | Response: 0

    Eu preciso encontrar um livro de etiqueta muito especial. Não é um livro de etiqueta comum, que ensine como agir em situações normais, do dia-a-dia. Nada de “o que levar para a dona da casa no dia da festa”. Não, o livro de etiqueta que eu procuro deveria se chamar algo assim: “Como manter as boas maneiras em situações insustentáveis”.

    O índice seria assim:

    Capítulo 1 : Amando sem ser amado – que vestir?

    Capítulo 2 : Ele(a) não responde aos e-mails – devo ligar?

    Capítulo 3 : Esperar – uma arte

    Capítulo 4 : Maquiagem que não borra – saiba fazer

    Capítulo 5 : Morto por dentro? Aja normalmente

    Capítulo 6 : Roupas – cores que disfarçam abatimento

    Capítulo 7 : Conversando coerentemente com as pessoas

    Capítulo 8 : O desafio da hora de dormir

    Capítulo 9 : Levantando da cama de manhã

    Capítulo 10 : Você lhe ofereceu seu maior tesouro e ele(a) recusou. E agora?

    Se alguém aí conhece um livro assim, eu estou precisando de uma cópia. Com urgência.

  • Anjos 02

    Date: 2002.08.19 | Category: amor, espírito, mãe, saudade, vida interior | Response: 0

    Ultimamente tenho dado para pensar em crianças. Todas elas. As menorezinhas então me deixam hipnotizada, acho que existem algumas mães nervosas andando por aí, achando que sou uma daquelas mulheres seqüestradoras de bebês. Mas não, as crianças me fascinam porque a criança que eu esperava ter está murchando dentro de mim, à medida que o tempo passa e ela não vem.

    Quantas amigas e amigos, sabedores da minha paixão pela maternidade, me aconselhavam a “produção independente”. O que faço eu com o olhar questionador do meu filho, pensava eu então, como respondo a ele quando ele perguntar onde está o pai? “Filho, eu o roubei de seu pai, e roubei seu pai de você”? Não posso, nunca pude, imaginar tamanho egocentrismo que me fizesse privar propositadamente um filho meu de seu pai.

    Meu filho, pobre anjo, ainda espera para nascer, cada vez com menos esperança. A necessidade que tenho dele virou um hiato na alma, e dentro deste nasce uma moita que está vagarosamente se enchendo de pequenos espinhos. Dentro desta moita, uma única rosa brilha perfeita. Quando penso em meu nenê, sinto uma fome e um aperto que fazem estes espinhos me comerem a carne… Meu pequenino, minha rosa, vagarosamente se afasta de mim, como a pressentir que esta mãezinha não vai recebê-lo em seu ventre, e transformá-lo de apenas possibilidade em criança concreta.

    E mulheres abortam seus filhos!!! Passo momentos agridoces imaginando a curva da bochecha, o formato do nariz, a cor dos olhos de uma criança que jamais existiu, sem conseguir atinar como uma mulher arranca de dentro de si uma criança pulsando de vida, para jogá-la na lata do lixo… Essa criatura que é dela, carne produzida de sua carne, com seus olhos, ou os olhos de sua tia Maria, ou o bom humor de seu primo José… Porque é que as crianças hoje são consideradas “problema” e as mães tentam se livrar delas como da peste, em vez de imaginarem que coisas boas e belas de si e de sua família serão perpetuadas naquele corpinho? Quantas coisas também podem ser melhoradas e consertadas numa próxima geração!

    Um dia, ouvi uma canção. Não esperava por ela, não estava preparada. Meus joelhos tremeram, minha cabeça tombou e caí num choro convulso. Uma outra mulher, talentosa, linda – que sei não ter filhos como eu, pois a conheço pessoalmente – falava da minha dor como se fosse a dela, cantava um anjinho morto, como meu quase-bebê… Ninava esta criança morta com sua voz cristalina… Annie, ah! Annie, você assim acaba comigo, eu pensava enquanto chorava. Mas não conseguia parar de ouvir. Uma, duas, vinte e cinco vezes seguidas eu ouvi esta canção. Ela mesma foi a doçura que afastou o amargor.

    Esta é a canção que uso para dizer a meu filho: Dorme, querido, mamãe está aqui.

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