Archive for the ‘vida interior’ Category

  • Trajetos

    Date: 2016.12.12 | Category: Asas de Borboleta, Olhares, vida interior | Response: 0

    Desperto. Antes mesmo de abrir os olhos, sinto o peso do gato na perna. Como durmo de lado, geralmente virada para o lado direito, ao abrir os olhos vejo a janela do quarto e a estante logo abaixo dela, que guarda meu CD player e meus CDs. Passeio os olhos sonados pelas lombadas das capas, pensando se vale a pena colocar um para tocar, mas as playlists no computador me tornaram preguiçosa.

    Viro de costas e o gato já sai correndo do quarto, prevendo a refeição que virá. Aos pés da cama, o armário, marfim e azul. Gosto deste tom de azul, um pouco mais acinzentado que o azul céu, mas claro o suficiente para ser repousante. Espreguiço e alongo, coisa que nunca mais deixei de fazer desde a terapia com RPG. É um ritual gostoso, meio felino, este de esticar.

    Levanto. Ao lado da cama a bancada do computador e, perto da porta, meu oratório. Faço minhas orações da manhã, geralmente breves, porque há miados insistentes vindos da sala. A caminho do banheiro para outro ritual matinal, saúdo silenciosamente as fotos de família e os livros da estante do corredor. Da porta do banheiro, vejo os quatro gatos espalhados pelas cadeiras da sala, esperando atentos. Lavo o rosto e termino de despertar. Hora do café.

    Faço o trajeto do corredor até a cozinha com escolta felina, dezesseis patinhas seguindo meus pés. Chego à pia e eles se posicionam: uma no banco, outra na prateleira, os dois machos na porta da sala. No caminho, claro, de quem quer colocar a mesa do café. Antes de tentar, desisto, e dou aos gatos o desjejum primeiro. Depois de quinze minutos de atividade frenética, posso finalmente sentir o prazer do cheiro de café sendo coado, arrumar a mesa e tomar uma caneca fumegante.

    Geralmente não compro pão de manhã, sempre tenho algum estoque congelado. Isso me dá tempo de contemplar, sentada à mesa, a vista que tenho da janela, misto de bonita, com um pedaço enorme de céu e as árvores, e feia, suja pelos postes, fios e prédios de arquitetura duvidosa. O sol da manhã carioca costuma ser forte, e o céu muito azul, as tempestades são vespertinas.  A passarada da Floresta da Tijuca sempre visita – as maritacas passam em bando aos gritos, os bem-te-vis discutem a relação nos fios de alta-tensão. Um deles, gorducho e folgado, gosta de pousar no meu aparelho de ar-condicionado e provocar os gatos; se eu levanto e me aproximo, voa rápido dali.

    Depois determinar a segunda caneca de café, é hora de colocar a vida para rodar. Recolho a louça do café até a pia, arrumo o que tenho de arrumar, limpo o que tenho de limpar, sento ao computador para trabalhar.  A minha rua geralmente não me dá bom dia, só um boa tarde meio ofendido pela falta de atenção matutina. Mas é uma rua que eu gosto, muito arborizada, antiga, às vezes o paralelepípedo aponta debaixo de um buraco no asfalto. É uma rua que mostra as gerações todas da Tijuca, com casas centenárias e prédios recém-construídos.

    Descendo a rua em direção à rua principal, cumprimento sempre com o olhar a Casa de Maria Thereza. Esta, ao menos, é a informação em relevo (enquanto escrevo, não consigo lembrar se baixo ou alto), logo abaixo do beiral do telhado, junto com o ano 1914. A casa tem uma fachada estreita, mas como os terrenos na minha rua são fundos, pode parecer menor do que realmente é. É linda como uma casa de contos de fada, branca, varanda com pilares de pedra, as telhas antigas com múltiplas cores, um arbusto profusamente florido tombando por cima do muro alto, concessão da modernidade. Eu sempre me pergunto se aquela mensagem na alvenaria é uma homenagem de um marido amoroso, de um amante, de um filho saudoso, ou se havia ali algum tipo de lar assistencial num passado remoto. Namoro a casa e sigo adiante, porque a vida não espera a gente contemplar.

    Chega o fim da rua, que é uma pequena amostra do que é morar no Rio. De um lado, o comerciante português e sua delicatessen. Do outro, o coreano com sua lanchonete. Em frente, do outro lado da rua principal, o clube judaico. Uns passos adiante, a imensa igreja do tempo do império. Ao lado do marco histórico, a saída (porque saída, se vou entrar? me pergunto sempre) do metrô.

    E desce depressa, que o tempo não para nem espera.

  • Finados

    Date: 2015.11.02 | Category: espírito, mãe, pai, saudade, vida interior | Response: 0

    Hoje é dia de lembrar, e eu estou lembrando. De mãos. Mãos. Eu não sei se muitos adultos param para pensar que tudo para a criança é muito alto, muito grande, muito largo, então ela vê as coisas em pedaços. Pelo menos, assim era comigo.Uma das minhas lembranças mais antigas era de adultos conversando enquanto eu enxergava muitas pernas, minha visão passando muito pouco da altura daqueles joelhos.

    Mãos. Mãos são pequenas o suficiente para uma criança observar. Lembro das minhas queridas mãos. As mãos de minha avó, pintadinhas de idade, rezando o terço, eu deitada em seu regaço esperando o fim da reza e mais uma história de Pedro Malasartes antes de receber minha bênção e dormir. As mãos da irmã de minha avó, deformadas pelo reumatismo, mas ainda ágeis para costurar roupinhas para minhas bonecas, brincar de massinha, me chamar para enrolar rosquinhas de polvilho e fazer o doce de laranja mais gostoso que eu já provei. A eterna disponibilidade daquelas mãos.

    As mãos da minha tia acendendo a lamparina diante da imagem da virgem sobre sua cômoda. Mãos de professora, girando o mimeógrafo e deixando a casa com cheiro de álcool, datilografando e me deixando datilografar em sua máquina portátil, me interessando pelas letras antes mesmo que eu aprendesse a ler. Mãos finas e muito brancas, as mãos de professora de minha tia. As mãos tão bonitas de minha mãe, sempre de unhas pintadas e tão cheirosas que o ritual de dormir da Malu-bebê incluía cheirar seus dedos, e só os seus. Nenhum outro servia.

    As mãos de meu pai… muitos momentos eu olhei aquelas mãos fazendo coisas. O cigarro era seu eterno companheiro. Eu as observava fumando, dirigindo, escrevendo, limpando as peças de carne do churrasco, me ensinando a fazer pequenos consertos pela casa. A última coisa que ele fez em vida, na ambulância que o levou pela última vez ao hospital, foi me estender a mão e me soprar um beijo. Na minha alma ainda seguro firme na minha a mão do meu pai.

    Mãos que me guiaram pela vida, me mostrando o que fazer e o que não fazer. Me apoiaram, me ensinaram a andar, a escrever, a fazer crochê, a costurar e a cozinhar. Principalmente mãos que me amaram. Hoje é o dia de lembrar delas, de pedir a Deus que estenda suas mãos misericordiosas em direção às minhas queridas mãos, e as mantenha na graça. Que nenhuma delas se solte, Senhor.

  • A Caminho de Casa

    Date: 2014.04.26 | Category: contos, plantas, vida interior | Response: 0

    Ele pegava o metrô para o trabalho todos os dias. Sempre pelo mesmo caminho, ida e volta, passando por aquela figueira imensa, barbuda e sombria, a um quarteirão de casa. Era, para ele, um eterno desagrado aquela árvore; na ida o símbolo do desencanto com o trabalho que não gostava, na volta o marco do cansaço, o ponto onde ele sempre suspirava e pensava “mais um quarteirão e estou em casa”.

    Era uma árvore centenária e mal-humorada, se é que árvores têm humor. Sombria, escura, parecia saída de um pântano de filme de terror, as grossas raízes tomando conta da calçada, as folhas verde-escuras tapando o sol acima, as folhas amarelas e caídas atrapalhando o passo abaixo. Todo dia, duas vezes por dia, ele a olhava descontente, quase tão soturno quanto ela, e se cruzavam com um grunhido e um farfalhar de asas – porque os pássaros da região pareciam não compartilhar da má impressão que ele tinha daquela árvore, e nela construíam ninhos, tranquilas e satisfeitas. Mas, para que haja uma história é preciso que algo aconteça, e aconteceu.

    O Rio tem as suas tempestades, e naquele dia teve uma delas — das grandes, cheias de ventos, raios e inundações. A esposa já ligara durante a tarde, avisando que tomasse cuidado na volta, as ruas estavam alagadas. Ele saiu do escritório no Centro, antevendo a corrida de obstáculos habitual dos cariocas nos dias de chuva: pulando poças e disputando marquises enquanto duelavam com seus guarda-chuvas. Sem muitos problemas chegou no metrô, e suportou conformado o empurra-empurra da hora do rush. Um assento finalmente vagou para ele na última estação antes da sua, mas ele o ignorou – o curto tempo que sentaria só teria o efeito de amaciar o corpo e tornar a corrida até em casa mais sacrificada no meio da chuva.

    Aliviado descobriu que já não chovia na sua vizinhança, o vento havia levado as nuvens pesadas para o outro lado do morro (sempre há um morro à vista nesta cidade, pensou ele meio sem saber porquê). Fechou o guarda-chuva e observou da saída da estação se seria um trajeto penoso, se valia a pena fumar um cigarro e esperar os outros passageiros dispersarem. Com um olhar rápido percebeu que a água do chão já secava, aumentando a umidade do ar e a sensação de calor. Decidiu guardar o cigarro para fumar na janela de casa.

    No caminho de volta, a surpresa: uma equipe do Departamento de Parques e Jardins trabalhava diligentemente para remover a figueira, que caíra durante a tempestade. Ele parou um instante para olhar os trabalhos, sem saber se a árvore caíra pela força da chuva e do vento ou apenas por puro cansaço de viver. Talvez, ele pensou com um riso curto, ela tenha se suicidado por pura maldade, apenas para derrubar espetacularmente os três postes que ele via no chão, até que o riso se transformou em gemido, ao pensar nos lances de escada que teria de subir se o prédio estivesse sem luz.

    Desistiu de olhar os funcionários da prefeitura recortarem o tronco caído da árvore morta e terminou o trajeto até sua casa, tornado um pouco mais longo e difícil pelas escadas que foi realmente obrigado a subir. Escutou o relato da esposa, irritada pelas quase 12 horas sem energia, desistiu totalmente do cigarro (estava mesmo tentando parar) e tomou seu banho à luz de velas antes de deitar. Tanto melhor a falta de luz, pois assim ele dormia mais tempo sem assistir aos noticiários deprimentes da TV.

    Dormir cedo fez com quem ele acordasse antes do despertador e da esposa, coisa rara para quem se arrastava a contragosto para fora da cama toda manhã. Resolveu que o cigarro adiado de ontem podia ser fumado esta manhã, antes que a mulher acordasse para reclamar do cheiro. Pegou o maço, o isqueiro, o cinzeiro e apoiou os cotovelos no peitoril da janela da cozinha. Foi aí que ele viu o buraco.

    A paisagem da janela estava drasticamente alterada pela ausência daquela árvore. Inesperadamente, sentiu aquele vazio dentro do peito também. Sozinho e de cigarro na mão, enfrentou a realidade que as coisas MORREM mesmo, quando chega a hora, mesmo figueiras centenárias. E a morte é uma coisa boa, que tem o seu papel. Tudo o que vive mais que deveria — e isto às vezes acontece — se transforma em fonte de aborrecimento e desgosto. A figueira partira e sua partida abrira um pedaço de céu que não existia antes na sua janela.

    Terminou o cigarro e acendeu mais um, recebendo da esposa já desperta uma caneca de café forte e quente, e um resmungado “mas você não tinha parado de fumar?” Ele sorriu e disse “verdade” enquanto apagava o cigarro. Talvez fosse mesmo o último, subir as escadas ontem o deixou totalmente sem ar. Voltou a olhar a janela, enquanto tomava a bebida fumegante da caneca. Escutava atrás de si as idas e vindas da mulher arrumando a mesa do café da manhã; sorvia sua bebida e olhava para fora, pensando no buraco de céu onde antes havia uma figueira. A mulher, já tomando seu próprio café sentada à mesa, avisou que ele estava se atrasando para o trabalho.

    Pousou a caneca na pia.

    Saiu da cozinha traçando uma linha reta até o telefone.

    Discou o número que sabia de cor, depois de tanto tempo.

    O sinal de chamada tocou uma vez, tocou duas.

    “Alô. Escritório de advocacia, bom dia.”

    “Maurício, sou eu.”

    “Fala rapaz! Não vem trabalhar hoje?”

    “Não vou trabalhar mais. Eu me demito.”

    “Ahn!?”

    “_”

    Ao sentar diante da esposa de queixo caído, pensou na modernidade e como era anticlimático não colocar com firmeza o telefone no gancho… Aquele CLICK fazia falta. Nem tudo precisava morrer, afinal… Com um sorriso maroto e aliviado, pediu à mulher estupefata:

    – Me passa a manteiga, por favor.

  • A Rosa e os Espinhos

    Date: 2014.04.14 | Category: amor, espírito, vida interior | Response: 2

    Ela andara só por toda a vida. Como nunca tivera o que verdadeiramente chamar de seu e nunca realizara o destino que desejara para si, ela cobiçava. Cobiçava o destino alheio. Assim é a vida… Quando por muito tempo o caminho trilhado é só, nos parece que só resta espiar, maravilhado e faminto, aqueles caminhos que são compartilhados – daqueles que tiveram a chance do amor verde, tenro e frutificado. Companhia, por isso, parecia a ela o maior dos tesouros. Nunca lhe viera fácil companhia de qualquer tipo. Era simples saber o porquê: nunca fora mansa, não era mansa e duvidava de um dia vir a ser mansa.

    Desde cedo só, testando forças e resistências sem apoio e sem ajuda, percorrera a maior parte do caminho em companhia apenas do vento e de seus pensamentos. Aprendera a solidão e a solidão a fortalecera, pois as dificuldades da vida, quando acompanhadas da solidão, quebram ou fortalecem. Ela certamente se fortalecera, e não só isso. Ela se mantivera isolada, indomada e altiva, cavalo selvagem e livre que não aceita arreio, com o temperamento afogueado e guerreiro como o dos melhores puro-sangue. O fogo e a força a mantinham trilhando, confiante, os caminhos difíceis demais para os mais fracos.

    Mas era preciosa a companhia. Ela a queria. A cada sinal da possibilidade de encontro – que ela sempre desejara livre, forte, afogueado e intenso como ela – ela parava. Muitas e muitas vezes ela se perguntara se era Ele quem chegava, aquele que andaria parelho com nela no seu passo veloz, sem tentar frear a velocidade ou fugir do desafio. Aquele que ela sabia ser tão forte quanto ela (ou mais, mais forte, desejava ela), mas que não utilizasse esta força para coagir ou impedir. Este seria o amor que a impeliria a enfrentar caminhos ainda mais únicos, mais difíceis e ermos, mais cheios de realização pessoal. Era Ele quem traria, por contraste e complemento, aquilo de melhor que ela era.

    Sempre, no entanto, a miragem se desfazia em algum momento, e ela via que, em vez dEle, havia um potro jovem pedindo proteção, um manso jumento que não tinha a menor idéia do que fazer com ela além de admirá-la, às vezes até um pangaré que à distância parecia mais do que era.Ela suspirava e olhava em volta, perguntando ao vento onde Ele estava, antes de partir mais uma vez num caminho só. O vento jamais lhe respondera.

    Tudo isso a tornara arisca. Exposta a muitos perigos sozinha, algumas vezes tomada de assalto e largada na beira da estrada quebrada e ferida, ela se erguia, uma vez e mais uma vez e mais uma outra ainda, para com um suspiro cansado voltar a carregar seus tesouros e suas chagas na esperança de poder depositá-los um dia, aliviada, aos pés dEle. Como ela percebia intensa a cura de saber que a grande distância que a levaria até Ele seria a mesma, até menor que o caminho que Ele percorrera. Que felicidade seria passear pela primeira vez nos amplos salões de uma vida que não foi projetada a dois, mas que foi preparada para este encontro. Óleos perfumados, presentes mútuos, jardins murados e alcovas secretas, tudo há muito guardado para este momento. Ela cobiçava, andava e meio impaciente esperava.

    Aos poucos a impaciência virava serenidade, a cobiça virava contemplação, e ela percebia que não, apesar de ser preciosa, a companhia não era a coisa mais preciosa que havia. Havia algo maior.

    Dentro de seu coração sem porteira e sem barreira, dentro de sua alma sem casca e sem proteção, lá no interior de sua morada havia um anjo com espada flamejante protegendo a entrada de um jardim vazio a não ser por um único banco de pedra; pairando sobre este jardim havia um coração em fogo coroado de espinhos que gotejava lentamente um sangue rubro e vivo, que regava uma única rosa rubra e viva que crescia por trás do banco, no meio de um imenso arbusto de espinhos. Ela senta no banco de pedra, finalmente entronizada em si mesma e n’Aquele que realmente importava mais que sua altivez, que sua força, que sua liberdade. Vagarosamente o arbusto de espinhos cresce e toma conta de todo o jardim, dificultando até mesmo a visão do anjo lá fora.

    Ao deitar no banco de pedra surpreendentemente confortável e acolhedor, e adormecer junto à sua rosa rubra, presente do grande coração de seu Mestre e verdadeiro amor de sua vida, ela suspira baixinho: Senhor, fico convosco; se Ele ainda vem, então que me busque aqui.

  • Uma pedra no meio do caminho

    Date: 2010.09.11 | Category: alegria, amizade, Asas de Borboleta, esperança, vida interior | Response: 4

    Photobucket

    Um belo dia (estava bonito mesmo, aquele dia) eu ganhei uma pedra. É, uma pedra, esta que está na foto acima. Um presente fora do comum, porque não foi atirado na minha direção com intenção de ferir, nem de quebrar qualquer coisa que eu possua. Foi um presente diferente mesmo, que marcou um dia diferente.

    Guardei esta pedra por alguns anos – é, já passaram anos desde então, que coisa! – e faz um tempo eu a tirei de junto de minhas plantas, onde ela mora, e fiquei a contemplá-la. Lembrei da frase que escutei de meu amigo, quando recebi o presente. Uma frase simples que em mim se transformou numa meditaçào um pouco mais complicada.

    Vocês vejam, nestes anos que se passaram, enquanto meu presente dormia na prateleira, eu lutei muitas lutas. MInha vida modificou um bocado, e em parte por isso tenho postado tão pouco. Nada disso meu amigo sabia, nem eu, quando me presenteou. Ele simplesmente viu, numa pedra largada na beira de um rio, algo que ninguém tinha visto, me mostrou e me presenteou com a visão. Durante algum tempo eu a perdi, esta bonita visão. Outro dia ela me bateu forte, e eu entendi que muito da dureza porque passamos é para conquistar esta beleza, e que nada é apenas o que parece ser. Com a volta da visão, voltou a alegria.

    Sabem o que meu amigo me disse, quando me presenteou com uma pedra? “toma uma borboleta para você.”

    Pois aqui está a borboleta, querido, como eu a vejo agora. Espero que goste.

    Photobucket

  • O que importa

    Date: 2010.04.23 | Category: amizade, Asas de Borboleta, beleza, espírito, saudade, vida interior | Response: 3

    Recebi um comment especial, infelizmente o WordPress ou a Sonia (a comentarista em questão) não vincularam o texto a um post, pelo menos eu não achei o link. O melhor mesmo, então, é simplesmente citar o comentário aqui:

    Olá,
    Faz uns meses que adicionei seu blog nos meus favoritos, pois havia gostado imensamente das suas mensagens, pois me identifico muitíssimo com elas. Perdi meu pai, também com o tal tumor, e dias depois, minha mãe teve um derrame, vindo falecer no ano seguinte.Eu nunca sofri tanto em toda a minha vida. Acompanhei meu pai no hospital e depois minha mãe que morava com a minha irmã.
    Neste momento, estava eu olhando meus favoritos, onde tem muitas opões, de repente vi o seu blog, e entrei, e chorei novamente.
    Gostaria de parabenizá-la pela maneira poética e ao mesmo tempo objetiva que escreves, e por toda força que teve e tem.
    Um beijo carinhoso, de uma desconhecida que se sente ligada à você.

    Sonia, querida desconhecida, você entendeu errado, a força não é minha… É você que me dá esta força, quando me escreve, é um aluno que me diz que eu fiz diferença na vida dele, é um amigo que me abraça, é um estranho que me sorri. Eu simplesmente abro as asas e deixo o vento me levar.

    Obrigada por existir, obrigada por escrever. Sinto muito que você tenha passado por estas perdas tão próximas uma da outra, imagino o quanto foi duro. Minha mãe morreu 20 anos antes do meu pai, os dois devido a complicações causadas por tumores. Nas duas ocasiões lá estava eu ao lado deles, tentando engolir o medo e a tristeza para ajuda-los a nascer para a vida eterna. Acho que fui mais bem sucedida da segunda vez,  era tão jovem durante a doença da minha mãe…

    Como já disse tão bem o Dennis D. na ocasião do falecimento do meu pai, os buracos da alma ficam. Quanto a isso nada há para ser feito. É bom saber, no entanto, que há esta irmandade e esta humanidade à nossa volta que também sofre, que também sente. Se a minha dor ajuda a confortar a sua, saiba que a sua também ajuda a confortar a minha. Saiba com toda a segurança que estamos, sim, ligadas, e que isto é muito bom.

    Bem vinda ao meu coração 🙂

  • Dama das Rosas

    Date: 2010.03.25 | Category: amizade, dama rosas homenagem, vida interior | Response: 0

    sete anos

    Minha Quaresma não estaria completa sem isto…

    Sempre rezando por sua alma e pela felicidade de seu filho, querida Dama.  Que seu descanso eterno seja sempre em verdes campos repletos de doces cascatas.

    Manda um beijo de Páscoa para meus pais…

  • Sete anos de que mesmo?

    Date: 2010.03.17 | Category: Alex Cabedo, amizade, Asas de Borboleta, espírito, saudade, vida interior | Response: 2

    alex sete anos

    “A morte não nos persegue: apenas espera, pois nós é que corremos para o colo dela. Talvez o melhor de tudo é que ela nos lembra da nossa transcendência. Somos mais que corpo e sangue e compromissos, susto e ansiedade: somos mistério, o que nos torna maiores do que pensamos ser.
    E o amor, quando se aproxima desse território do estranho, tem de se curvar: com dor, com terror, com enorme ansiedade dá um salto irrevogável para essa prova maior. E então começa a ser ternura; e então se aproxima, muito vagamente, de alguma coisa chamada permanência.” (Lya Luft em Secreta Mirada)

    Se eu soubesse em janeiro de 2003 o que aconteceria em 16 de março, quase certamente teria dado um jeito de partir para Barcelona e apertar forte um amigo querido nos braços, antes que este partisse. Se eu soubesse em abril de 2003 o que sei hoje talvez não tivesse sofrido tanto… mas não, mesmo a cada experiência aprofundada o peso da partida é quase mais do que podemos suportar. A cada março passo por minha Quaresma Particular, me despeço novamente de ausências antigas e algumas vezes, dolorosamente, como neste ano de 2010, faço despedidas novas.

    No dia sete deste mês, para minha profunda tristeza e consternação, perdi meu confessor e grande amigo, D.Tadeu Lopes, OSB, reitor do Colégio São Bento aqui no Rio. Meu amigo há quase trinta anos, meu confessor desde a morte de meu primeiro orientador espiritual, D. João Evangelista Enout, OSB, falecido a treze de março de 1993, uma sexta feira de inundação no Rio. Perdi repentinamente estes dois grandes amigos em março, como perdi repentinamente o muito querido Alex Cabedo no março de sete anos atrás.

    Perdi?

    Eu me pergunto o que foi que eu perdi deles, se a cada dia que passa a voz pausada e serena de um, o olhar amoroso e acolhedor de outro, a escrita e a inteligência do terceiro, estão presentes e firmes à minha volta, crescem mesmo, e se modificam à medida em que moldam meu próprio espírito e a maneira como convivo com o mundo material que se apresenta no meu hoje. Aliás, relendo a sentença anterior, percebo encantada que não sei determinar a qual deles pertence a voz, o olhar, a inteligência, porque fui sobremaneira afortunada de encontrar tudo isso nos três…

    Meus amados quaresmeiros me guiam nesta dolorida viagem de transmutação da perda em asas de borboleta, e se existem hoje pessoas que encontram a doçura que precisam em meu colo, voz ou olhar, que saibam com toda a certeza que meu coração é adoçado por eles.

    Alex, então, é o milagre da amizade que se aprofunda depois da perda, que se desmembra em novas amizades e descobertas, que cresce e se desenvolve como sua filha o faz diante de mim. Quantas e quantas vezes, amigo querido, agradeci a imensa generosidade dos presentes com os quais me regala, como já agradeci por Cristina e Carmem e Paula e Carolina… e qual minha alegria de ver que há mais pessoas a descobrir e conhecer, que existem mais presentes seus a serem abertos em futuras datas especiais… bendita Internet!

    Quantas vezes, em meu coração, trocamos sorrisos e abraços que só nós sabemos, quantos sorrisos enigmáticos deixaram as pessoas à minha volta intrigadas… não posso, não seria justo falar em perda quando falo de Alex, porque meu conhecimento dele e meu relacionamento com ele só foi acrescido depois de sua partida.

    Posso falar – isso sim – de um renascimento constante destes três dentro da Secreta Morada (com trocadilho, obrigada, Lya! Obrigada Helô Capel, pelo maravilhoso presente do livro!) do meu coração. E o outono brota e se transforma numa perfumada primavera, em busca da Páscoa.

    E a Páscoa vem, ela vem!

    Feliz Aniversário, Alex, Dom João. Vá em paz, querido Dom Tadeu.

  • Beautiful

    Date: 2009.10.10 | Category: Asas de Borboleta, espírito, luta, vida interior | Response: 1

    Tantas e tantas vezes já expliquei aqui o porquê do meu blog chamar Asa de Borboleta e algumas vezes eu mesma me esqueço… A asa da borboleta é o símbolo da sua coragem de Ser, mesmo quando tudo à sua volta parece não querer que ela seja. É o resultado glorioso da metamorfose daquela que se arrasta vagarosamente de barriga no chão, mas decide que PRECISA voar. É fruto de dor, de sofrimento, de um tempo ENORME dentro de um casulo, solitária, com os movimentos restritos. No fim, o tempo de voar é tão curto… mas o vôo é uma sinfonia de louvor Àquele que criou o céu e as flores.

    Pois então… há muita gente, muita mesmo, que pensa que tudo isso é uma besteira sem fim. Pessoas que pensam que o que vale é o dinheiro e o sucesso que você acumula, a sua capacidade de passar por cima do que for – mesmo de outras pessoas – para conseguir o que quer. Estas pessoas, e eu já encontrei algumas delas na Net e pessoalmente, pensam que eu sou uma velha imbecil. Retardada, foi uma das expressões utilizadas. Nos últimos meses estive tão fraca que cheguei a acreditar nelas, a pensar que nada mais tinha para escrever aqui que não fosse triste, velho e imbecil.

    Bem, meus ídolos velhotes, barrigudinhos, carecas, grisalhos e LINDOS do Marillion escreveram há algum tempo uma música que fala maravilhosamente sobre tudo isso, é uma música com Asas de Borboleta. Deixo com vocês a apresentação ao vivo tirada do You Tube com muito amor e com o desejo que vocês que estão por aí lendo o Asa e sentem como eu sinto saibam que são BELOS.

    Aos materialistas, mercantilistas, interesseiros e maus-caráter em geral, bem (tampem os olhinhos das criancinhas, por favor) VÃO À MERDA.

    Estou voltando.

    Beautiful
    music: Marillion
    lyrics: Steve Hogarth & John Helmer

    Everybody knows we live in a world
    Where we give bad names to beautiful things
    Everybody knows we live in a world
    Where we don’t give beautiful things a second glance
    Heaven only knows we live in a world
    Where what we call beautiful is just something on sale
    People laughing behind their hands
    While the fragile and sensitive are given no chance

    And the leaves turn from red to brown
    To be trodden down, to be trodden down
    And the leaves turn from red to brown
    Fall to the ground, fall to the ground

    We don’t have to live in a world
    Where we give bad names to beautiful things
    We should live in a beautiful world
    We should give beautiful a second chance

    And the leaves fall from red to brown
    To be trodden down, to be trodden down
    And the leaves turn green to red to brown
    Fall to the ground and get kicked around

    (Are you) strong enough to be…
    Have you the faith to be…
    (Are you) sad enough to be…
    Honest enough to stay…

    Don’t have to be the same…
    Don’t have to be this way
    C’mon and sign your name
    (Are) you wild enough to remain beautiful?
    Beautiful, beautiful, beautiful.

    And the leaves turn from red to brown
    To be trodden down, trodden down
    And we all fall green to red to brown
    Fall to the ground
    We can turn it around

    (Are you) strong enough to be…
    Why don’t you stand up and say…
    Give yourself a break
    They’ll laugh at you anyway
    So why don’t you stand up and be
    Beautiful, beautiful!

    Black, white, red, gold, and brown (whatever!)
    We’re stuck in this world
    Nowhere to go
    Turn it around
    What are you so afraid of?
    Show us what you’re made of
    Be yourself and be beautiful
    Beautiful

    Essa eu TENHO de traduzir, pedindo desculpas pelo post longo.

    Belo
    música: Marillion
    letras: Steve Hogarth & John Helmer

    Todos sabemos que vivemos num mundo
    Que dá nomes feios a coisas belas
    Todos sabemos que vivemos num mundo
    Onde não damos a coisas belas um segundo olhar
    Deus sabe que vivemos em um mundo
    Onde o que chamamos de belo é o que está à venda
    Pessoas escondem o sorriso com a mão
    Enquanto o frágil e sensível não têm vez

    E as folhas passam de vermelhas a marrons
    Para serem pisoteadas, para serem pisoteadas
    E as folhas passam de vermelhas a marrons
    Caem ao chão, caem ao chão

    Não temos de viver em um mundo
    Que dá nomes feios a coisas belas
    Deveríamos viver em um mundo belo
    Deveríamos dar ao belo uma segunda chance

    E as folhas passam de vermelhas a marrons
    Para serem pisoteadas, para serem pisoteadas
    E as folhas passam de verdes a vermelhas, a marrons
    Caem ao chão e são chutadas em qualquer direção

    Você é forte o suficiente para ser…
    Tem fé suficiente para ser…
    É triste o suficiente para ser…
    Honesto o suficiente para permanecer…

    Não precisa ser mais do mesmo…
    Não precisa ser assim
    Vamos, assine embaixo
    Você é selvagem o suficiente para permanecer belo?
    Belo, belo, belo…

    E as folhas passam de vermelhas a marrons
    Para serem pisoteadas, para serem pisoteadas
    E todos nós passamos de verdes a vermelhos a marrons
    Caimos ao chão,
    Nós podemos mudar isso

    Você é forte o suficiente para ser…
    Porque não se levanta e diz…
    Pegue leve com você
    Eles vão rir de você de qualquer jeito
    Então porque você não se levanta e seja
    Belo! Belo!

    Negro, branco, vermelho, dourado ou marrom
    Estamos presos a este mundo
    Nenhum outro lugar para ir
    Vamos mudar
    De que você tem medo?
    Mostre-nos do que é feito
    Seja você mesmo e seja Belo
    Belo

  • Sensibilidade, ou Filtros

    Date: 2009.08.12 | Category: Asas de Borboleta, espírito, luta, vida interior | Response: 1

    (inspirado por Rogério Prado Macedo

    – obrigada, sem medo, amigo querido)

    Love Hurts by Nazareth

    Love hurts, Love scars
    Love wounds and mars
    Any heart not tough
    Or strong enough
    To take a lot of pain
    Take a lot of pain
    Love is like a cloud
    Holds a lot of rain
    Love hurts, (Ooooo), love hurts

    I’m young, I know
    But even so
    I know a thing or two
    I learned from you
    I really learned a lot
    Really learned a lot
    Love is like a flame
    It burns you when it’s hot
    Love hurts, (Ooooo), love hurts

    Some fools think of happiness,
    Blissfulness, togetherness
    Some fools, fool themselves, I guess
    They’re not fooling me
    I know it isn’t true
    I know it isn’t true
    Love is just a lie
    Made to make you blue
    Love hurts, (Ooooo) love hurts (Ooooo), Love hurts

    I know it isn’t true
    I know it isn’t true
    Love is just a lie
    Made to make you blue
    Love hurts, (Ooooo) love hurts (Ooooo), Love hurts (Ooooo)

    Aquilo que eu mais desejo é sempre o que me faz sofrer mais.
    Disso é feito o Rock, disso é Feito o Blues:
    A alma se arrebenta em canção.
    A guitarra corta a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz do vocalista rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Love Hurts by Cher
    (assista no YouTube, usando o link acima; permissão de embedding não foi concedida)

    Love hurts, Love scars
    Love wounds and mars
    Any heart not tough
    Or strong enough
    T’take a lot of pain
    Take a lot of pain
    Love is like a cloud
    And it holds a lot of rain
    Love hurts, (Ooooo), love hurts

    You’re young, I know
    Baby, even so
    I know a thing or two
    Ooo honey, I’ve learned from you
    And I really learned a lot
    I really learned a lot
    Love is like a stove and
    It burns you when it’s hot
    Love hurts, (Ooooo), love hurts

    Some fools dream of happiness,
    Of blissfulness, togetherness
    Oh, some fools, they fool themselves, I guess
    They’re not fooling me
    And I know it isn’t true
    Yeah, I know it isn’t true
    Love is just a lie and it’s
    Made to make you blue
    Love hurts, (Ooooo) love hurts
    (Ooooo), Love hurts

    And I know it isn’t true
    Oh, I know it isn’t true
    Love is just a lie and it’s
    Made to make you blue
    Love hurts, (Ooooo) love hurts (Ooooo), Love hurts, (Ooooo), Love hurts

    A espera dos primeiros compassos… silêncio cheio de expectativa.
    O piano despeja nos ouvidos pequenos sons que rodam, rodam.
    A banda faz o colchão onde repousa a melodia.
    A guitarra corta a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Começamos quase tudo com grande expectativa.
    Lentamente a ciranda da vida nos roda-roda.
    Os desejos nos acalentam num colchão de passividade.
    A realidade corta a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    A juventude é a surpresa, a novidade.
    Lentamente a rotina da vida roda, roda.
    A maturidade pisa no freio, desejosa de repouso
    A tristeza corta a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Na infância corri veloz em direção à descoberta.
    A adolescência trouxe responsabilidade.
    A idade adulta buscou alegria e a paz
    Na maturidade, a perda corta essa paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Não importa o que eu faça ou diga, no final é tudo sempre igual:
    A guitarra geme como alma penada, rasga a paz como uma moto-serra.
    O coro sustenta, a voz da cantora rasga. Love hurts.
    Uhhhh, Love hurts.

    Desculpem a longa ausência. É, tô mal….

Tópicos recentes

Comentários

Arquivos

Categorias

Meta