Archive for the ‘Alex Cabedo’ Category

  • Veleiro de Luz

    Date: 2003.03.22 | Category: Alex Cabedo | Response: 0

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    A faxina continua. Só que agora, a lavagem da alma e da sala da borboleta está sendo feita com lágrimas. Elas não param de escorrer, e vão levando na enxurrada todos os sentimentos ruins, as coisas guardadas, as velhas dores. A alma e a sala vão ficando lavadas, limpas, renovadas. Tudo segue na enchente que Ele causou. Ah, Carneirão, porque tivestes de morrer?

    Estou tentando lidar com a situação, de verdade. Num canto da sala, no mais protegido deles, armei um pequeno memorial, onde coloquei um lindo vaso com rosas, presente do meu amigo Dennis, a foto de suas covinhas e de seu sorriso brilhante, uma miniatura de um veleiro e a oração mais bonita que encontrei. Iluminando tudo, uma lamparina cheia de óleo aromático. Assim eu pensava que poderia tê-lo perto de mim, sentir menos sua falta.

    De repente, sinto uma presença na sala, bem atrás de mim. Surpresa, mas não assustada, pois nada de mal pode me atingir aqui, eu me virei. Dei de cara com o Carneirão. Ele me fitava sério, mas com um sorriso no olhar. Ao vê-lo ali, meu coração parecia que ia arrebentar de tanta tristeza. Não sei o que eu esperava fazer, dizer, de que modo pensei que agiria ao vê-lo assim, diante de mim, cheio de luz. Certamente não esperava ficar com tanta raiva. Mas fiquei mesmo cega de raiva, e falei por entre dentes, enquanto uma única lágrima zangada me descia pelo rosto:

    – Carneiro fujão! Malvado! Que coisa feia, um homem tão educado, partir sem dizer adeus! Não teve pena de um único amigo seu!

    – Ah, Butterfly, disse ele baixinho. Justo minha borboleta de asas azuis me acusar assim? E logo agora, que venho despedir-me, quase fugido? Sabes que tenho de partir… mas mesmo assim vim dizer adeus a ti, e brigas comigo.

    O olhar dele desmanchou minha zanga. Eu já não conseguia segurar as lágrimas, que desciam ainda mais fortes. Pelo prisma do pranto, ele faiscava coberto de mil e um arco-íris, como se estivesse vestido de diamantes e sob uma forte luz. E vi que ele agora sorria, mas os olhos estavam tristes. Tentei segurar o pranto, ser mais positiva a respeito de tudo, afinal ele estava ali, e eu podia ver que estava bem. Mas só conseguia chorar e balbuciar, sentida:

    – Você vai mesmo embora…

    – Vou. Deram-me de presente este lindo veleiro, não podes vê-lo de tua janela?

    Com efeito, lá estava ele. Faiscava ainda mais que o dono, era uma jóia pendurada no pescoço do céu. Lindo, mágico. Fiquei muda de espanto a contemplar aquela beleza toda.

    – Vês, borboleta, porque não posso ficar? Consegues imaginar os oceanos que vou cruzar com esta belezura, carinho?

    – Só vejo o vazio da minha vida sem você, Carneirão…

    O olhar dele era todo censura agora. Nenhum sorriso nos olhos, a boca fechada em uma muda reprovação. De uma só vez vi o tamanho do meu egoísmo, enxerguei pelos olhos dele a injustiça que eu cometia, sem pensar. Baixei os olhos, envergonhada. Respirei fundo, enxuguei as lágrimas com as costas da mão, bastante sem jeito.

    – Desculpa, querido… não estou pensando direito… foi tudo tão de repente… Fico o tempo todo pensando que nem um único beijo ou abraço eu pude dar… eu estou entalada com o afeto que não posso mais dar a você. E você vai para longe agora.

    Finalmente, ele sorriu com os lábios e os olhos ao mesmo tempo. O efeito foi tão devastador que fechei os meus olhos, não podia suportar aquele brilho. Comecei a sentir uma leveza e uma tontura estranhas. Escutei a voz dele, de longe, dizendo que mantivesse os olhos fechados. Eu senti que ele me abraçava. Não consigo descrever a sensação daquele abraço, a não ser que parecia que todas as coisas boas do mundo tinham se enroscado em mim ao mesmo tempo. Senti um toque muito leve em minha testa.

    Devo ter me perdido no desfrute daquele abraço porque, quando dei por mim, já não havia outra pessoa na sala, e pela janela podia ver o veleiro se afastando e lentamente virando uma estrela um pouco mais brilhante que o resto.

    Olhei em volta, desnorteada, e percebi que o pequeno memorial estava diferente. No lugar das rosas naturais e do veleiro de madeira, agora havia flores e barco de um cristal tão branco, tão delicado, que não me atrevi a tocar. Junto ao vaso, um bilhete com uma letra que eu não conhecia, mas sabia a quem pertencia. A mensagem era curta:

    “Seja feliz, Borboleta amada. Beijos, Alex.”

  • Luto

    Date: 2003.03.18 | Category: Alex Cabedo | Response: 0

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    É duro quando morre um amigo. Ficamos sem saber o que fazer, como expressar, que vínculo declarar com esta pessoa, para que quem está à nossa volta entenda o tamanho da nossa perda. Afinal, dizem alguns olhares, não é família, porque está assim? É pior, para pessoas que não têm esta convivência na Net, quando é um “amigo virtual”. Os amigos não internautas olham para você com uma cara estranha, ao vê-la chorar por uma pessoa que “você nunca viu”. Esta frase me deixa triste e zangada, como se amizade e sentimento estivessem vinculados à visão apenas. Cegos por acaso não podem ter amigos, é isso?

    Mas não estou escrevendo para discutir se amigos virtuais são amigos de verdade, nem em que nível. Estou aqui para declarar que o MUNDO TODO perdeu uma pessoa especial. Eu, que tive um contato pequenino demais com este homem, digo que ele vai me fazer falta o resto dos meus dias. Que Alex Cabedo é o meu futuro do pretérito. Que linda história seria, que coisa especial se construiria, se Deus houvesse permitido que o oceano que estava entre nós se desvanecesse, e de repente nos encontrássemos juntos, no mesmo lugar, olhando juntos para a lua.

    Porque o Alex me dava vontade de olhar a lua. De falar bobagens ao pé do ouvido. De fazer ternurinhas e delicadezas. Perdê-lo antes que estas coisas pudessem se realizar, ah, é uma dor tão funda… Que viagem maravilhosa seria…

    Eu não vou deixar de sorrir, Alex, porque sei que você não gostaria. Sei que você ficaria bravo comigo de me encolher num canto escuro e chorar, como fiz hoje. Não, você não ia gostar nada. Você gostava de conversar, de rir, de namorar, de velejar, de estar com os filhos (Ah, seus filhos, Alex! Não posso pensar muito neles agora…), de ser feliz. E eu vou buscar a felicidade, quase como uma homenagem à você. Mas nunca mais vou poder olhar a lua do mesmo jeito. O mar que temos agora pelo meio, querido, é ao mesmo tempo mais difícil e mais fácil de cruzar. Ainda estaremos juntos.

    Sei que as pessoas não entendem. Ninguém entende. Mas nós nos entendíamos, Alex, sem olhares e sem toques, sem que fosse preciso sequer dizer muito. E pensar que você foi o leitor que primeiro manifestou agrado pelo Asa… e sempre manifestou um agrado por mim que me trazia estrelas aos olhos. Pedindo sua licença, querido, vou terminar este texto com palavras suas, para que as pessoas entendam um pouco mais. Descanse em paz

    Querida Sue, borboleta das asas azuis.

    Não dá para explicar o que me passou aqui dentro com as tuas Palavras, porque

    “Elas possuem a capacidade de em poucos minutos cruzar mares,
    saltar montanhas, atravessar desertos, intocáveis.”

    Que posso eu acrescentar? Que muitas vezes te escuto e sinto o arrepio da intimidade prestes a revelar-se? E que vejo a doçura do teu génio escorrer pelas entrelinhas, como se cada fala tua fosse um favo carregado de mel? E que, ainda por cima, tenho muita vontade de te ver e descobrir o som do teu sorriso? Tudo isso é certo, tudo isso é pouco.

    O real é a espera, a saudade daquilo que nunca tivémos. Um sobressalto feito promessa de beijo. Um mesmo raio de lua que nos faz divagar juntos, ainda que com tanto mar pelo meio.

    Um beijo grande.
    Alex

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