Archive for setembro, 2002

  • O Melhor de Nós

    Date: 2002.09.07 | Category: amizade, amor, saudade | Response: 0

    Hoje escutei pela primeira vez todo o disco “Se eu não te amasse tanto assim”, da Ivete Sangalo, onde ela canta músicas antigas e novas, todas lindas, falando sobre amor. Por acaso, as duas primeiras músicas são de uma pessoa que tem uma ligação forte com a minha infância.

    Ser filha de milico é uma coisa engraçada. Somos todos ciganos, de tanto em tanto tempo arrumamos nossas coisas e partimos para uma cidade nova. Não conseguimos fazer amizades duradouras fora do âmbito militar, porque ficamos pouco tempo com as pessoas de fora. Mas temos sempre contato com os outros filhos de oficiais enquanto crescemos, mesmo à distância. É esquisito, você vê seus amigos muito pouco, mas sempre sabe onde e como eles estão. Talvez filhos de diplomatas tenham a mesma sensação esquisita.

    O acaso, no entanto, fez com que eu passasse sete anos seguidos da minha vida, dos sete aos treze anos, morando em Brasília. Nesta época foi que eu e meus irmãos estabelecemos contato com as pessoas que chamamos de “amigos de infância”. Alguns deles eu nunca mais vi. Outros eu encontro de uma forma bissexta, e outros estão sempre por aqui. Mas com todos eles eu tenho uma ligação forte, diferente das amizades que estabeleci com pessoas só minhas, fora do ambiente militar, depois que entrei na faculdade e me estabeleci definitivamente no Rio de Janeiro.

    Eu lembro que, quando cheguei em Brasília, em 1972, havia poucas meninas da minha idade para brincar. Meu irmão mais velho, no entanto, fazia parte de um grupo enorme de meninos, alguns deles já conhecidos, vindos do Rio como nós. Era uma matilha do barulho, sempre aprontando alguma pelas superquadras próximas. Eles faziam carrinhos de rolimã, e voavam pelas rampas de acesso aos prédios. Inventaram um jogo que lembrava de longe o baseball, jogado com pedaços de pau e um bola de tênis, que era pretexto para tantos palavrões que arruinaram para sempre um papagaio do nosso bloco. Eu fui testemunha de campeonatos e campeonatos de futebol de botão, e longas corridas de autorama no quarto do meu irmão. Eles não me deixavam participar, principalmente depois que os venci numa partida de botão. Mas eles eram fascinantes para mim – ah, se eram –, e eu os observei toda a minha infância.

    No meio desta multidão de moleques, havia um que imediata e naturalmente tomou a liderança do grupo. Ele era filho do meio da família Vianna do 302, dois andares abaixo de nós, que morávamos no 502. Lá não havia meninas, mas eu me tomei de amores pela mãe deles, que muitos anos depois tornou-se minha madrinha de crisma. Passei boas horas aprendendo crochê com a Tia Teka, escutando aquele cantadinho gostoso da Paraíba. Os meninos passavam voando para lá e para cá o dia todo. O nome daquele menino especial? Herbert.

    Ele era uma coisinha magra e cabeluda (sério!) que nunca parava quieta, e que logo inventava apelidos para todos os meninos do grupo. Meu irmão rapidamente virou Egg, depois do dia que o barbeiro exagerou no corte e revelou o oval perfeito da cabeça dele. Herbert – junto com o irmão Hermano – nos apresentou músicos como Elton John, David Bowie (como eu achava horrível a capa do disco Diamond Dogs!), Michael Hedges, Santana e tantos outros. Ele era um furacão, e quem o conheceu menino já sabia que nada menos que uma parede e tijolos seria capaz de pará-lo. Não foi uma parede de tijolos, foi a força da natureza que o fez pausar. Que pausa dolorida! Justo quando ele estava vivendo uma fase de vida tão boa, criando suas músicas e seus filhos, cercado da admiração de seus fãs e de seus pares, ao lado da mulher amada.

    Hoje eu não convivo mais com ele, tomada pelo pudor de quem não quer ver seu carinho confundido com piedade ou curiosidade barata. Falo ocasionalmente com minha madrinha, tornada mãe novamente pela força das circunstâncias. Ele é forte, e eu espero que ele desafie os deuses, como fez Prometeu, até que estes o perdoem por roubar o fogo criativo e oferecê-lo aos homens. Mas sei que vai ser uma caminhada de passo de formiguinha, com o mundo todo nas costas. Quem daquele grupo imenso de crianças pensaria que isto ia acontecer com o melhor de nós?

    Algumas tragédias simplesmente não têm explicação.

  • Enfim te vejo

    Date: 2002.09.02 | Category: amor, espírito, vida interior | Response: 0

    Tem certas coisas que só um grande poeta sabe dizer a contento… e este é um dos maiores de língua portuguesa. Espero poder recitar este poema para ELE um dia. Sem chorar.

    Volta

    (Manuel Bandeira)

    Enfim te vejo. Enfim no teu

    Repousa meu olhar cansado.

    Quanto o turvou e escureceu

    O pranto amargo que correu

    Sem apagar teu vulto amado!

    Porém já tudo se perdeu

    No olvido imenso do passado:

    Pois que és feliz, feliz sou eu.

    Enfim te vejo!

    Embora morra incontentado,

    Bendigo o amor que Deus me deu.

    Bendigo-o como um dom sagrado.

    Como o só bem que há confortado

    Um coração que a dor venceu!

    Enfim te vejo!

  • Vidas passadas

    Date: 2002.09.01 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Vejam só, esta coisa de testes na Internet até que é divertida??? Estava visitando o querido ancião Matusalém Matusca, e vi este teste das vidas passadas… e o resultado foi interessante…

    What Was Your PastLife?

  • Testando as novas asas

    Date: 2002.09.01 | Category: Asas de Borboleta | Response: 0

    Aprendi umas coisinhas durante a minha estadia no casulo. A primeira, e mais importante, veio de uma frase de um amigo querido: “Sue, não se entrega a chave do desejo a qualquer um, nem se deve implorar que alguém a pegue.” Realmente, amor é algo que só se oferece uma vez. A insistência é chata, e magoa quem oferece e quem recusa.

    A segunda é que este sentimento não vai embora. Ele está aqui para ficar.

    Terceiro, descobri a principal fonte do meu sofrimento. Eu precisei amputar algo em nascimento, o que sempre me causa um mal-estar terrível. Enquanto há um fiapo de esperança de salvação, eu preservo. O problema, neste caso, é que não existe sequer um fiapo de esperança. Então, subi o monte, levei meu filho primogênito ao altar do Senhor, e o imolei. Matei meu unicórnio.

    A melhor descoberta, a que me deu finalmente forças para sair do casulo, foi a de que, ao matar a possibilidade de realização deste sentimento, eu o introjetei, e hoje ele é parte de mim, inextricável. A única forma que eu encontrei de conviver com ele sem enlouquecer foi de tentar transmutá-lo em algo mais difuso, que hoje funciona como a pele da minha alma, recobre tudo o que eu faço, é parte de mim.

    Por enquanto, sofro ainda de uma dor difusa, um excesso de sensibilidade, como a pele nova de um corte, ou a pontada de uma nova cicatriz. Com o tempo, eu sei, a cicatriz vai doer menos, e se a tristeza permanece, permanece como algo lírico, mais uma gota de melancolia no meu olhar. Mas a possibilidade da alegria, que tinha partido, está de volta.

    Saí do casulo. Minhas asas ainda estão amarfanhadas e molhadas, mas estão ficando maiores, mais fortes, mais bonitas.

Posts recentes

Comentários

Arquivos

Categorias

Meta