Archive for novembro, 2002

  • Date: 2002.11.24 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Sensações indescritíveis

    Eu sempre tive trabalho em descrever o que me agrada. Declarar o que me incomoda é fácil, como acredito que seja fácil pra qualquer um criticar e reclamar. Para mim o problema aumenta quanto mais fundo a coisa me toca. A coisa vai tomando uma forma nebulosa, que não consigo segurar com as mãos, e como qualquer névoa, toma conta de tudo. Mais ou menos como um perfume muito delicado e gostoso que toma conta de um ambiente, sutilmente, e que as pessoas ao passar sentem mais como um bem-estar e uma leveza que um perfume. E, ao sair, soltassem um “ahhhh!” suave e um leve sorriso.

    Este ahhh! e este leve sorriso foi o que eu levei comigo, debaixo de chuva, à pé, do Maracanã até em casa. Foi uma noite perfeita, e mesmo a chuva suave, que iniciou assim que pusemos os pés fora do estádio e parou assim que atinginos a portaria de meu prédio, parecia uma benevolência de Deus, a nos dar banho para que não chegássemos em casa de uma experiência tão bela cheirando a suor e a maconha. Suor e maconha — e PMs — foi o que não faltou lá dentro daquele estádio. Os PMs olhavam a gente meio envergonhados, tadinhos, como se soubessem que não cabiam ali, ou como se nossa alegria provocasse neles pejo. Ah, nem os PMs, nem as pessoas que gritavam e bebiam demais, nem os doidões que acabaram desmaiando por causa do calor de tanta gente junta, nada desagradável tinha substância lá dentro. Apenas três seres tinham substância dentro daquele estádio: Geddy Lee, Neil Peart e Alex Lifeson. Mais ainda que eles, a música era o que tinha substãncia, tanta que era quase possível tirar fatias dela do ar.

    Eu nunca vi três pessoas construírem alvoradas e dragões e buracos negros e florestas e universos paralelos feitos de música antes. Sorrindo, como três velhos amigos que são, e com a facilidade do mágico que tira um coelho de uma cartola. Nunca vi um homem cantar com AQUELA voz, sem falsear um tom, sem uma rouquidão, por mais de três horas. Nunca escutei sons como os tirados por AQUELE guitarrista, como se todos os instrumentos do universo estivessem sendo criados naquele instante em que tocava as cordas com os dedos. Nunca vi um baterista como AQUELE, fazendo de seu solo um balé e um concerto dentro do concerto, chegando ao extremo de me passar a impressão de que estava usando mais de dois braços. “O homem é um polvo!”, exclamei para o divertimento do rapaz ao meu lado, que sorriu e disse “boa!”

    Eu nunca recebi tantos sorrisos, nem conversei com tanta gente que nunca vira antes, como neste concerto. Pessoas de minha idade, mais jovens, mais velhas, um rapaz acompanhado de amigos e do filho, uma coisinha linda de uns nove anos de idade, mistura de metaleirinho e anjo barroco, que o pai abraçava e beijava repetidamente em alegria incontida. Meninos com cara de bons moços, abraçando suas namoradas, motoqueiros quarentões, com suas camisas Harley e as bandanas do show. Tudo na mais santa paz, coalhada de sorrisos.

    E a música? Que dizer da música do Rush? Impossível. Muito, mas muito acima das minhas parcas qualidades de escritora. Melhor que vocês não aceitem apenas minha palavra: eles avisaram que o DVD da turnê estava sendo gravado naquela noite. Esperem pelo DVD e vejam o que eu vi, e já será uma experiência maravilhosa. Porque nunca, nunca, vocês serão capazes de entender o que eu senti.

  • Date: 2002.11.23 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Aos Homens do Sul

    Já morei em toda a parte. Até fora do país. Andei por um bando de cidades, e conheci pessoas de quase todos os estados do país. Com todas estas experiências no currículo, e morando numa cidade como o Rio de Janeiro, onde se encontra gente de toda a parte, tenho de dizer uma coisa: ando edipianamente encantada com os homens do sul.

    Digo edipianamente como figura de linguagem, apenas porque sou filha de gaúcho, não porque — como se diria em Hollywood — ‘my heart belongs to Daddy’. Mas é engraçado o fato de que meu primeiro contato mais profundo com um homem pela Internet foi com um gaúcho. Depois, um outro gaúcho internauta virou um grande e querido amigo, e passamos bons momentos este inverno aqui do Rio, tomando vinho do Porto e jogando conversa fora. E hoje tenho dois tesouros guardadinhos, um lá no Paraná, outro em Santa Catarina: Paulo e Guilherme.

    O Paulo é mais à flor da pele, sério, ocupado, um homem envolvido totalmente com seu amor pelas letras. Envolvido e envolvente como escritor e como amigo. Paulo, é uma alegria e uma honra poder declarar escancaradamente aqui no Asa que você é uma pessoa para lá de especial! Depressivo, highstrung, ácido, mais sensível do que seria bom para você, você demonstra sempre que com tudo e apesar de tudo, você não tem medo de ser quem é. Tenho orgulho da sua amizade oferecida, tenha certeza de que ela foi aceita com gratidão e alegria.

    E o Guilherme, ah!, o Guilherme… se ele usar metade do charme que tem no tribunal, não tem juíza que dê ganho de causa para outro advogado. Alegre, boa conversa, promete ser amigo de copo, de conversas, de leituras. Já me pego procurando os e-mails dele na minha caixa postal, porque são divertidos e agradáveis desde o título até o ponto final, com direito a coisa séria no meio de tantos sorrisos. Guilherme me presenteou com muito sorrisos. Seja bem vindo, Guilherme, da espécie Quandtus queridus, em perigo de extinção. Um dia destes arrumo minhas malas e vou à boate com você em Floripa!

    Eu tenho um bom pedaço do meu coração em São Paulo — afinal, o Dennis, o Felipito, a Inês, a Larinha, o Alexandre e o Fabio arrastam meu bem-querer para lá. Tem uns pedacinhos de coração de borboleta com a Marguinha em Natal, com o Rogério em Fortaleza, com o Félix em Brasília, com o Evandro em Belo Horizonte.

    Mas hoje peço licença aos amados de todos os lugares, para fazer um carinho mais especial nestes dois homens do sul.

    Meus novos amigos, sejam bem vindos!

  • Date: 2002.11.12 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Amores de Borboleta

    SONETO DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS

    Por seres quem me foste, grave e pura

    Em tão doce surpresa conquistada

    Por seres uma branca criatura

    de uma brancura de manhã raiada.

    Por seres de uma rara formosura

    Malgrado a vida dura e atormentada

    Por seres mais que a simples aventura

    E menos que a constante namorada.

    Porque te vi nascer, de mim sozinha

    Como a noturna flor desabrochada

    A uma fala de amor, talvez perjura.

    Por não te possuir, tendo-te minha

    Por só quereres tudo, e eu dar-te nada

    Hei de lembrar-te sempre com ternura.

    (Rio, 1941)

    Vinícius de Moraes escreveu sonetos mais famosos, mais alegres, melhores que este. Mas esta manifestação de um jovem homem de 28 anos (sim, 28 anos é bem jovem) me toca no fundo do coração, porque tive amores assim. Amores de quarta-feira de cinzas, que começaram já com data para acabar. Foram vários os motivos… ele tinha compromisso com outra, era muito mais velho ou muito mais novo, simplesmente não queria o que eu queria. Então, estes amores são transformados em amizades sensuais (DETESTO o nome “amizade colorida”, como se todas as outras fossem cinza…) que depois, se tivermos sorte, viram amizades normais. Alguns destes amores se perdem no tempo, ou acabam como acaba toda a paixão… em cinzas.

    O amor deste tipo mais doce e mais doído é o da mulher mais velha pelo rapazinho. Ah, como é lindo olhar o mundo e a você mesma pelos olhos daquela pessoa tão inocente ainda, uma criança barbuda com menos cicatrizes e mais entusiasmo que você. Como a sua experiência maior se transfoma em doce contemplação daquela pessoa de alma tenrinha. Como dão um ao outro prazer e alegria, carinhos e brincadeiras. E como as pessoas jogam pedra…

    Acontece que o que as pessoas não lembram é que este é um relacionamento quase que arquetípico, e uma tradição muito, muito antiga. Sociedades da antiguidade possuíam uma bela tradição de homens e mulheres mais velhos iniciarem sexualmente os jovens que entravam na puberdade. Ensinavam-os a dar e receber prazer, a cuidar do próprio corpo e do corpo do outro. O Kama Sutra, que nossa mentalidade podre transformou em manual de sacanagem, é um dos antigos exemplos do preparo que os jovens recebiam para o matrimônio. É, para o matrimônio. NÃO É um manual de sacanagem, olha só! Quem diria, hein?

    Dizem os frios cientistas da modernidade que o homem alcança seu pico sexual aos 18 anos, enquanto que a mulher aos 35. Isso deve ter alguma razão, biológica, cultural, emocional, sei lá. O que sei é que tive namorados mais velhos, da minha idade, um pouco mais novos, e em nenhum destes relacionamentos eu encontrei a doçura do homem mais jovem. Eu dei de lembrar hoje de todos os homens que amei, não foram tantos, alguns foram breves, mas todos eles me tornaram a mulher que sou hoje; e se meu querido amigo Alex Cabedo diz em seu artigo no site Outonos que os homens não querem saber destas coisas, e que sonham com sua virgem pura e intocada, bem, as mulheres que forem sinceras, mesmo que apenas consigo mesmas, vão concordar que o olhar de adoração e a resistência sexual de um rapazinho faz maravilhas. Mas é para durar pouco.

    Nunca vi um relacionamento de pessoas de idades muito diferentes dar completamente certo. Eu acho mesmo que um dos pontos cruciais de um relacionamento é o compartilhar de visão de mundo. Casais devem caminhar juntos para o mesmo lugar. A chance disto acontecer com pessoas de idades muito diferentes é mínima. E se acontece da mulher ser a parte mais velha do relacionamento, então a coisa piora. O pobre rapazinho vira gigolô, aproveitador de mulheres, ou simplesmente objeto de troça dos amigos. A mulher vira uma louca obcecada por sexo, que não consegue uma pessoa da sua idade e abusa de meninos. Não, não dura. E não é para durar. É como o verão, quente, sensual, e efêmero. Existe mesmo um filme, o Verão de 42, que mostra o impacto de um romance destes na vida de um menino. Impacto bom. Necessário, até. Mas não é para ser compromisso de vida.

    Portanto, digo aos jovens que cruzaram minha vida: vocês encheram minha alma de doçura e alegria, e partiram em paz para os braços de suas futuras companheiras, espero que sabendo um pouco mais o que significa o encontro amoroso e respeitoso entre macho e fêmea. Eu nunca os esquecerei, guardo comigo lembranças maravilhosas. Faria tudo de novo.

    Mas ainda aguardo, só, Aquele que Virá.

  • Date: 2002.11.09 | Category: Asas de Borboleta | Response: 0

    Eu sou uma borboleta outonal. Por vários motivos. Um deles, talvez o mais importante de todos, é que tenho a noção exata do preço a pagar por ser quem sou. Cedo ou tarde, a questão é que esta lição eu já aprendi. Saber que não se pode ter certas coisas, e que não se pode pagar certos preços, é uma lição que bota você com os dois pés na maturidade. Não há jovem que entenda isso.

    Quando eu era jovenzinha, achava que o mundo era limitado apenas pelo que me era permitido ou não por meus pais. Como todo jovem, achava que eles eram a única barreira entre a Sue e a liberdade ampla, geral e irrestrita. E muitas vezes me impacientava com eles, como um cão que joga seu peso todo na correia, na tentativa de se ver livre dela. Hoje eu sei que a “correia” era para a minha proteção, tanto quanto para a proteção dos outros. Esta lição fica clara quando lemos os jornais hoje, e vemos uma jovenzinha que, para se livrar da correia, arrancou fora a mão que a segurava. E será devidamente tratada como uma “cachorra louca”, Deus tenha pena de sua alma doente.

    A questão é… limites não existem só de sacanagem. Se esta menina estivesse dentro dos limites de um ser humano saudável, jamais premeditaria um crime tão bárbaro, que vai de encontro a tudo que torna o homem HUMANO. Os limites existem para que não nos machuquemos demais, para que não corramos riscos que não podemos enfrentar, para que não destruamos barbaramente o corpo ou o coração de outro ser.

    Eu hoje, então, aceito com mais prudência meus limites, e os testo com menos frequência e mais cuidado do que quando tinha 19 anos. Quase 20 anos depois, descobri que certas experiências DÓEM, e que certas dores são inúteis, não levam a lugar algum, a não ser ao divã do analista. Às vezes, terrivelmente, a lugares mais tenebrosos, como ao suicídio ou ao assassinato. Ou, ainda pior, à destruição de outrem. ESSE é um preço que não posso pagar, e não quero.

    Vivo minha vida tentando derramar à minha volta as delicadezas que acho tornam nossa estadia neste planeta mais suportável. Já perdi as esperanças de ter estas delicadezas retornadas, não é por isto que as pratico. Elas são parte de quem eu sou, minha identidade, e não abro mão delas. Mas o caso é que — nesta época de poucas delicadezas — ser uma pessoa que as pratica sinaliza coisas engraçadas às outras pessoas.

    O Fabio Danesi Rossi disse-o bem em seu blog, quando falou que homens que chamam mulheres de senhora e lhes abrem a porta e lhes dão passagem são imediatamente taxados de “otários”. Amigo Fabio, não se iluda, as mulheres educadas e delicadas padecem sina semelhante. Muitas vezes, por exemplo, a mania que tenho de chamar todo mundo de ‘amor’ ou ‘querido’ me causa dores de cabeça. Seja por causa de atenções masculinas não desejadas, seja por fúria feminina menos solicitada ainda. Outras vezes, a atenção cuidadosa dada a um amante é tida como ‘sufocante’ ou ‘dependente’… eu, justo eu, que já abri e abro todos os dias mão de coisas que me são tão caras… Abri mão DELE, veja só… e fiz das proverbiais tripas coração para que meu sofrimento não o incomodasse.

    Pois que seja. Àqueles que sentem um frio na barriga cada vez que eu me aproximo, que pensam ‘lá vem ela novamente’; àqueles que acham que podem abusar de um coração porque ele está de portas abertas; àqueles que não dão valor aos pequenos cuidados, por serem tantos, eu digo uma coisa: eu NÃO VOU me modificar, eu NÃO VOU sair do país, como o Fabio declara ter intenção de fazer, eu sequer pretendo mudar de vizinhaça; eu NÃO VOU deixar de ser quem eu sou, porque vocês estão incomodados ou escondem o sorriso irônico do aproveitador barato. Esqueçam. Mudem vocês de país, porque este é o MEU LAR, minhas raízes aqui estão fundas, e daqui só saio de cabeça erguida, por alguma aventura maior num outro lugar.

    Jovenzinhos, aqueles meus amigos que me emocionam tanto, olhem bem nos olhos de sua borboleta e prometam: não comprometam seu eu por pessoa alguma, não se sintam estranhos, não se sintam menores, só porque alguma pessoinha resolveu alardear aos quatro cantos isto a seu respeito. Sejam como são, exatamente, respeitem suas naturezas, e a natureza daqueles à sua volta. Se houver alguma situação em que encontrem naturezas imcompatíveis, retirem-se mansamente, sem briga. Não se pode proibir uma ave de voar, nem pedir a um peixe que more na floresta. A natureza humana é tão diversa quantos as espécies animais, e muitas vezes nos deparamos com limitações que nos incomodam.

    Aceitem suas limitações com tolerância, sempre tentando expandir seus limites aos poucos, sem forçar a musculatura da alma. Uma entorse destas dói bem mais que um estiramento muscular, acreditem, e leva bem mais tempo para sarar. Amem-se, e aprendam a amar a diversidade humana, e usar da mesma tolerância que tiveram com seus próprios limites em relação aos limites alheios. Não existe outra maneira de resolver os problemas sérios que nos afligem hoje, a não ser com muita tolerância, amor e delicadezas.

  • Date: 2002.11.06 | Category: Uncategorized | Response: 0

    http://www.olhandodeperto.bio.br

    Ah, mas como as borboletas são lindas! Agradeço as informações que descobri no site Olhando de Perto. É um site muito interessante para aqueles que gostam de vida pequenina. Desde insetos minúsculos até as vistosas borboletas multicoloridas.

    Olhar de perto pode ser bom e pode ser ruim. Eu tenho como marca da minha personalidade olhar bem de perto as pessoas, quando gosto delas. Chegar bem perto, acalentar, abraçar, fazer cafuné, enfim, mostrar pelo tato, pelo brilho dos olhos, pelo calor da voz, que aquela pessoa é QUERIDA. Entretanto, eu padeço de excesso de empatia, e acabo sorrindo e sofrendo com a pessoa que amo, como se a alegria e o sofrimento fosse meu.

    Quando o caso é de alegria, e um amigo meu divide uma felicidade comigo, ai, que festa!! O coração pula e batuca entusiasmado, minha boca parece se rasgar em sorrisos. A alegria de um amigo é como um vinho para a alma. Inebria meu coração de felicidade.

    O problema é quando testemunho a dor de um amigo. A dor me rasga o coração junto, e a impotência no minorar desta dor causa um desconforto a mais. Ultimamente, para meu desespero, parece que todas as pessoas que amo estão sofrendo.

    ELE, o homem que foi, está sofrendo. Não me diz porque, e eu não quero perguntar. Tenho medo da resposta, que me mandaria de volta para aquele redemoinho de dor aguda do qual acabei de sair. Não, não quero entrar de volta naquela Iron Maiden de pregos afiados. ELE se cala e eu me calo também. Mas eu SINTO o sofrimento dele e sofro junto. Inescapável.

    Tenho um amigo que sofre porque recebeu ataques por pensar diferente de pessoas que ele considerava amigas. Sofre por diversas outras perdas além deste desapontamento. E lá vai a Sue, doendo do lado. Sem conseguir consolar.

    Outro amigo, meu Doce, sofre por um amor que não pode expressar, entalado porque foi devolvido pelo remetente, e faz cara e voz de brabo enquanto o coração dele fica ganindo do lado do meu, feito cachorrinho recém-desmamado. E o coração da velha borboleta sangra, sangra.

    Pessoas de minha família sofrem. Pela velhice que chega, por aqueles balanços de vida que parecem ser a atividade constante das pessoas que passam de uma determinada idade. Pelos fracassos, que parecem maiores do que realmente foram, pelos sucessos, que hoje parecem menores. E eu com a cabeça estourando de dor, sem poder fazer com que estes se enxerguem como eu os enxergo.

    Ai, Pai do Céu, tem horas que este impulso que colocastes no meu coração na direção do outro, este ímpeto de curar os que amo, parece que isto é um fardo pesado demais para carregar. Não é à toa que minha coluna está tão doente. Pai, Tu mandastes Simão para ajudar Teu Filho a segurar a cruz, e a mim parece que mandastes mil cruzes, sem nenhum Simão. Eu repetidamente me espanto com a confiança que depositas em mim, que sou tão imperfeita, meu Pai… Dá-me a força de que necessito para retirar todas estas cruzes do caminho daqueles que amo, ou então mostra a eles o que é necessário para conviver com elas. Antes que eu me destrua de dor impotente.

    Nos últimos dias, olhar de perto tem sido a maior das torturas. Que venham então as eternas confortadoras, as borboletas. E mais um agradecimento ao site que me proporcionou imagens tão belas.

  • Date: 2002.11.06 | Category: Uncategorized | Response: 0


  • Date: 2002.11.03 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Honrando os Mortos

    Este final de semana foi especial… foi o “feriado” (!!!) de Finados, e um bando de gente passou nos cemitérios para levar flores frescas para as covas de seus entes queridos que já partiram daqui. Visita concluída, mais um ano passará — na maioria das vezes — antes que estes mortos sejam lembrados novamente.

    Eu nunca vou a cemitérios, a não ser na ocasião dolorosa da partida de alguém que estimo. Tenho uma maneira diferente, e mais constante, de honrar meus mortos. Eu converso com eles. Lembro de tudo que me porporcionaram. Eu os reverencio e os amo. Meus mortos não estão em uma cova, virando pó. Estão no meu coração e na minha lembrança, sempre.

    Minha mãe, eu lembro, sinto ainda como você cheirava bem, escuto a sua voz macia; Vó Calita, eu era pequenina, mas lembro da sensação gostosa de deitar a cabeça no seu colo, ouvir uma história da carochinha e receber minha bênção antes de dormir; Madrinha, eu não esqueci da sua devoção ao rosário, de como eu acordava — quando dormia com você em sua cama — com a luz de seu abajur e o sussurrar das suas orações; Vó Assunta, recém-partida, não esqueço o frescor de pêssego de sua pele, e de sua inerente elegância; mulheres da minha família, eu sinto a falta de cada uma, mas também sinto cada uma dentro de mim, percebo em mim a influência de cada uma de vocês. Paz na sua jornada, preparem a minha chegada.

    Vô Pedro, com tenho saudades dos passeios que dávamos, da sua paciência em identificar pacientemente todas as espécies de árvores pelas quais passávamos; Tio Paulo, como meu peito aperta de saudade quando lembro do seu sorriso generoso, do seu olhar brilhante, do abraço apertado; Irmãozinho Pedro Paulo, levado tão pequenino, antes que eu pudesse conhecê-lo, tenho por você um amor forte, sempre conversamos quando eu era criança, lembra?, você era meu confidente em tudo, eu sabia que você estava sempre junto de mim, espero que esteja hoje bem próximo à nossa mãe, atenuando a saudade que sei que ela sente dos filhos; Vô Emílio, que eu também não conheci, mas que mamãe dizia que seria meu favorito, abençôa sua neta. Homens de minha família, guardem a casa de nossos ancentrais, protejam a filha da vossa semente, dêem a ela força e sabedoria para viver com retidão e honradez.

    Meus amados, todo dia para mim é Finados, porque vocês não estão aqui. Olhem por mim.

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