Archive for junho, 2003

  • Coisas

    Date: 2003.06.29 | Category: Uncategorized | Response: 0

    1. Sorrir e chorar não devem ser associados diretamente à alegria e à tristeza. A não ser que queira-se viver em um nível eternamente superficial de sentir

    2. Doçura, suavidade, amor, alegria, carinho, irritação, cólera, indignação e até mesmo fúria são facetas de minha personalidade. Não queiram reduzir-me a uma delas, correndo o risco de rapidamente se decepcionarem comigo. E a culpa é de quem o fizer

    3. Só tem uma regra que sigo à risca, e tenho seguido todos os dias de minha vida: sou verdadeira. Aquilo que falo, aquilo que escrevo, aquilo que faço representa integralmente aquilo que sinto naquele instante. Acreditem, ninguém sofre mais com isto que eu. A alternativa, no entanto, para mim é por demais intragável. Não sei mentir, não gosto de mentiras e não pretendo aprender com esta idade

    4. Nestes últimos meses, tenho tentado controlar minha intensidade. Tem sido difícil e doloroso, e muitas vezes falho. Mas como qualquer condicionamento físico, este condicionamento emocional está me deixando mais ágil e mais forte

    5. Tenho tido pouco o que falar que não seja intensamente pessoal. Em respeito às pessoas que me rodeiam e que são parte de minha história, que podem ficar assustadas com minha facilidade em desnudar a alma, tenho me calado. O silêncio está se acumulando dentro de mim, e se transformando, talvez em literatura. Vamos ver

    6. Aos queridos amigos e amigas leitores do Asa, pessoas que entraram em contato comigo depois de ler minhas palavras, meu afeto por vocês só faz crescer. Não tenho estado muito presente, porque estou interiorizada demais para escrever. Acho que vai mudar logo. Esperem um pouco, e recebam todo meu carinho, mesmo que silencioso.

  • Date: 2003.06.24 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Nunca estamos protegidos dele: nem sabedoria nem experiência nos defendem de seu assédio: baixamos as pontes, jogamos as tranças, e nos deixamos conquistar.

    O amor é um salto sem rede, e ela, mulher mimada, cheia de agrados e dengues, tudo o que queria era transbordar: saiu de seu sossego, cheia de alegria para o receber. Estendeu o tapete vermelho, escancarou as janelas, correu ao encontro do inesperado milagre com mesuras e presentes feito os reis orientais: o amor retomara a sua vida, e tudo o que ela queria era alegrar também quem lhe trazia tudo aquilo.

    Pediu aos deuses que lhe ensinassem como fazer alguém feliz novamente, dedicou seus amores para que o outro se sentisse bem, cumpriu todos os trabalhos necessários para que a pessoa amada se aninhasse com ela e com ela voasse.

    Foi outra vez menina, outra vez inocente, outra vez infinitamente forte e vulnerável.

    E se esse alguém a quisesse matar, naqueles dias ela teria ido feliz, criança levando a bandeja onde deitaria, depois de o ver sorrir, a sua própria cabeça cortada.

    (Lya Luft, Secreta Mirada, p. 97)

  • Date: 2003.06.17 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Nasceu!!!

    http://www.ceudosviolentos.blogger.com.br

    Aos meus previsíveis detratores

    Sou, assumidamente: arrogante, pedante, frustrado, reacionário, radical, generalista, conservador, preconceituoso, antipático, inapto, um engodo, inflexível, mascarado, neoliberal, fascista, orgulhoso de uma cultura que evidentemente não tenho, financiado por multinacionais americanas, direitista execrável, admirador do Olavo de Carvalho, filho do Francis, neto do Nelson Rodrigues, primo do Roberto Campos, amigo de infância do Merquior, esquerdista enrustido, hidrófobo, recalcado, psicótico, xenófobo, péssimo escritor, racista, machista, católico praticante, assaltante de bancos, sexista, carola, cínico, sarcástico, mordaz, dono da verdade, estreito, chato, repetitivo, entediante, intolerante, fresco, mal humorado, falso e de poucos amigos.

    Finalmente, depois de longa espera, surge o blog do chato mais simpático do mundo! e já começou bem, leiam com atenção a genealogia do moço autor.

    Agora Gustavo, é colocar o capacete e esperar as pedradas!

    Difícil vai ser pensar num banner à sua altura!

    Bem vindo ao mundo dos blogs, meu amigo!

  • Date: 2003.06.13 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Canção da mirada secreta – Lia Luft

    Foram-se os amores que tive

    ou me tiveram. Partiram

    num cortejo silencioso e iluminado.

    A solidão me ensina

    a não acreditar na morte

    nem demais na vida: cultivo

    segredos num jardim

    onde estamos eu, os sonhos idos,

    os velhos amores e os seus recados,

    e os olhos deles que ainda brilham

    como pedras de cor entre as raízes

    Se eu parasse para pensar em cada amor que já veio e já foi nesta minha vida, acho que chegaria à conclusão que cada um deles, do seu jeito, veio e me deixou um cristal. Um, o cristal lilás que representa a atividade mental, o aprendizado; outro, o cristal amarelo da energia; outro, o cristal branco da purificação. São realmente como pedras coloridas entre as raízes, pavimentando o caminho que percorro na vida.

    Cada amor destes me sustenta de um jeito. O dia dos namorados serviu para que eu relembrasse cada um deles, com amorosa gratidão. Esse mosaico que vocês montam para mim é precioso. Amigos, amantes, parentes, pessoas que amei de longe, pessoas que amei bem de perto. Eu os amo de volta, e sempre amarei. Sigamos adiante.

    O que será que a curva da estrada nos trará?

  • Date: 2003.06.12 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Mini-conto do Dia dos Namorados

    Ela tinha um amor, mas nunca se encontravam. Ela então construía belíssimas moradas com fiapos para tentar capturar este amor que lhe fugia. Como uma tecelã de sonhos, entretecia os fiapos de realidade e os restos de ilusão, criando nestes ninhos de espera texturas e visões que não existiam antes. Mas ela não sabia que tecer sonhos era tão perigoso, e um dia perdeu-se em um deles. A última notícia que tiveram dela era que tinha estabelecido residência no sonho-do-minuto-antes-de-acordar. Seu amor, infelizmente, permanecia no sono profundo e sem sonhos onde ela o deixara.

  • Date: 2003.06.10 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Tenho escrito coisas tristes, e talvez pareça aos meus amigos que fazem a gentileza de ler o Asa que só têm acontecido coisas ruins comigo ultimamente. Nada mais longe da verdade. Para ser sincera, mesmo as coisas mais doídas têm servido para tanto aprendizado e autoconhecimento, que só posso chamá-las de boas.

    Mas me aconteceu uma coisa verdadeiramente BOA, sem uma mancha de tristeza. Fui apresentada ao blog de uma criatura extraordinária, que tem tido a paciência e a bondade de se corresponder comigo. Tem sido um amigo e um orientador, daquele melhor tipo, o que nos torna um pouquinho mais seguros de nós mesmos. Estou falando do Ruy Maia Freitas, do excelente blog Despoina Damale, que está à esquerda, nos links da borboleta.

    Li no blog do Ruy que ele vai ficar “de molho” uns dias por causa de uma pequena (ele espera e eu também) cirurgia. Ruy, todos os meus votos de pronto restabelecimento. Volte logo, e volte bem, pois não acredito ser a única pessoa que PRECISA de você.

    Minhas orações estão contigo.

  • Date: 2003.06.10 | Category: Uncategorized | Response: 0

    Adoro ganhar presentes. Gosto muito mesmo! Não importa o valor, nem o tamanho do presente, e ele é ainda mais prezado quando é inesperado. Pois eu ganhei esta linda borboleta faiscante, de um rapaz com os olhos mais doces que já vi. E que sorriso bonito, ainda mais bonito por ser raro. Obrigada, meu querido. É um privilégio e uma honra poder conviver com você, Alberto, e chamá-lo de aluno, apesar de saber que aprendo muito mais com vocês que vocês comigo.

  • Date: 2003.06.09 | Category: vida interior | Response: 0

    Os Homens – Cora Coralina

    Em água e vinho se definem os homens.

    Homem água. É aquele fácil e comunicativo.

    Corrente, abordável, servidor e humano.

    Aberto a um pedido, a um favor,

    ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.

    Dá o que tem

    — boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.

    Não espera restituição nem recompensa.

    É como água corrente e ofertante,

    encontradiça nos descampados de uma viagem.

    Despoluída, límpida e mansa.

    Serve a animais e a vegetais.

    Vai levada a engenhos domésticos em regueiras, represas e açudes.

    Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra preço.

    conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus

    que assim a fez, servindo sempre

    e à sua semelhança fez certos homens que encontramos na vida

    — os Bons da Terra — Mansos de Coração.

    Água pura da humanidade.

    Há também, lado-a-lado, o homem-vinho.

    Fechado nos seus valores inegáveis e nobreza reconhecida.

    Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em todos os sentidos.

    Resguardados seus méritos indiscutíveis.

    Oferecido em pequenos cálices de cristal a amigos

    e visitantes excelsos, privilegiados.

    Não abordável, nem fácil sua confiança.

    Correto. Lacrado.

    Tem lugar marcado na sociedade humana.

    Rigoroso.

    Não se deixa conduzir — conduz.

    Não improvisa — estuda, comprova.

    Não aceita que o golpeiam,

    defende-se antecipadamente.

    Metódico, estudioso, ciente.

    Há de permeio o homem vinagre,

    uma réstia deles,

    mas com esses não vamos perder espaço.

    Há lugar na vida para todos.

    Em qual dos grupos se julga situado você, leitor amigo?

    Eu li este poema da velha poetisa goiana Cora Coralina com o coração batendo forte pelo reconhecimento, quase podendo escutar a voz tremida da anciã a declamá-lo. As velhas senhoras da minha família têm esta força da poetisa, força que vem da terra e do conhecimento das coisas da vida. Eu vi minha avó e minha tia-avó, bugras velhas lá das bandas de Mato Grosso, cheias desta sabedoria do mato e das coisas que crescem. Nenhuma sapiência de livro, mal sabiam ler o livro de orações e o de histórias da carochinha, de noite, antes de eu pedir minha bênção e ir dormir. Mas aquela voz, cheia de ressonância, como que vindo das profundezas do passado, esta voz eu conheço, e é a mesma voz que me chega de Goiás.

    Vó Coralina, eu sempre tentei com todas as minhas forças ser mulher-água. Mulher-fonte, que traz aos outros a força de que necessitam, sempre foi de servir que veio a minha força. Mas mansa, Vó, mansa eu não sou não. Que serei eu então?

    Mulher-vinho eu certamente não sou, com estas porteiras da alma escancaradas, que deixam entrar qualquer viajante que passe por perto. Não sou nobre, sou simples e campesina, de pé no chão e de fala simples.

    Vinagre? Azedei, Vó Cora? Acho que não, temo que sim, luto contra. Às vezes acho que perdi a batalha, mas basta um olhar doce da minha gata, um sorriso de criança pequena, uma flor bonita, e minha alegria de viver explode incontida.

    Acho, Vó, que sou mulher-sangue, parindo minha alma todos os dias ao acordar, e recolhendo os cacos dela à noite, como uma Pietá a sustentar o filho morto nos braços. Mulher-sangue, suor e lágrimas.

  • Date: 2003.06.07 | Category: Uncategorized | Response: 0

    O ruim de quando as pessoas partem para o infinito antes de nós, é que ficamos sem aquela parte — às vezes importante — do nosso coração, e não podemos jamais recuperá-la.

    Perdi um bocado da alegria de estar na Internet com a partida do meu Carneirão. Ele era uma pessoa que invariavelmente me fazia sorrir, e trazia um comic relief para a feiúra que nos circundava. Trazia para mim, lá de longe, de Barcelona, um olhar de admiração pela minha feminilidade que me fazia muito bem. E uma amizade alegre e sem desarmonia. Hoje me bateu uma saudade imensa do meu Carneirão, uma vontade meio maluca de escrever um e-mail para ele. Escrevo aqui, Alex amado. Aguardo resposta em meus sonhos…

    A morte de minha mãe me tirou o colo. Com ninguém mais fui capaz de simplesmente recostar a cabeça e me deixar amar sem sobressalto. O amor que recebemos de uma mãe é um amor sem medo. Todos os outros que tive sempre tiveram a sua parcela de inquietação, de ansiedade. Eles estão aqui mas podem acabar, são mais frágeis. Mãe, estou cuidando de todos como prometi, mas às vezes precisava tanto ser apenas sua criança novamente… manda para sua filha a sua bênção, querida…

    A morte de meu confessor, D. João, me tirou a tranquilidade. Quando ele era vivo, eu sabia que qualquer dúvida que me assolasse, fosse ela espiritual ou intelectual, eu podia procurar aquele homem culto, sábio e que me amava e queria verdadeiramente meu bem. Eu sabia que ele tentaria sempre me esclarecer sem me abafar, sempre me ensinar sem me manipular, sempre me guiar sem me empurrar. Paizinho João, quando vou à missa no mosteiro, escuto clara e forte a sua voz, no Canto Gregoriano. Fala comigo no meu coração, aguça meu olhar e minha intuição. Fortalece meu espírito, meu pai amado.

    Os meus mortos, os meus mortos. Como eles são parte de mim, como têm estado presentes! A todos eles, peço que me firmem nesta vida, que me apóiem nas missões que ainda tenho que cumprir, e que preparem minha chegada à Morada Eterna. Meus amores, ajudem sua Borboleta exilada aqui neste lugar por vezes tão penoso. Mandem daí a alegria interior que eu preciso. Há muito ainda o que fazer antes de me juntar a vocês. Quisera fosse logo….

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