Archive for julho, 2004

  • Resposta ao Milton

    Date: 2004.07.30 | Category: alegria, amizade, Asas de Borboleta | Response: 0

    Querido Milton,

    Seus comentários no Asa estão merecendo um post-resposta. Aqui vai!

    Primeiro, meu amigo, obrigada pelas sempre gentis palavras a respeito da qualidade dos textos. Eu ficaria envergonhada de me aproximar da Mônica Salmaso, mesmo virtualmente, e dizer “ei, veja o que eu escrevi procê”!… portanto, se você acha que vale a pena, faça-o você mesmo, meu caro amigo gaudério.

    Segundo, para aqueles que ainda não sabem, este é o FLIP-famous Milton Ribeiro, o blogueiro que beijou Mônica Salmaso e que fez Miguel Souza Tavares explodir em sonoras gargalhadas. Vão ler o blog do moço, é um primor, e tem link aí na coluna ao lado. Não vou citar todas as FLIP-façanhas dele que testemunhei, porque sei que é uma criatura modesta. Mas já estou aqui a matutar se na próxima FLIP ele usará um uniforme e um cinturão FLIP de utilidades… Santa Literatura, Milton!

    Por último, querido amigo, que bom que gostou do layout novo do Asa, mas para esclarecer uma sombra de dúvida que pairou no ar a respeito da cor azul, amo o azul por causa do céu de outono do Rio, amo o azul por causa da borboleta-azul, que um dia um amigo usou como vocativo carinhoso, amo o azul por causa do mar de Fernando de Noronha… mas só há um time gaúcho que faz meu coração bater acelerado, e o sangue — rubro — correr forte nas veias. Neste time nada há de azul, muito menos de azul-pijaminha!

    Junto com o Milton, torço pelo time mais vermelho e maravilhoso que há:Internacional Sport Clube!


  • Sementes

    Date: 2004.07.29 | Category: Asas de Borboleta, espírito, luta | Response: 0

    Do poeta Jorge de Lima, no seu livro A Túnica Inconsúltil, lanço o poema O Ventríloquo

    Debruça-te sobre tua voz para escutá-la:
    tua voz existiu antes de tua forma.
    Se o alarido do mundo não te permite entendê-la,
    vai para o deserto,
    e então a ouvirás com a inflexão inicial das palavras do Verbo
    e com a fecundidade do Gênese ante o Fiat do Pai.
    Ouve tua voz sobre a montanha para que o divino eco
    atravesse os milênios
    e reboe dentro de ti que és o templo de Deus!
    Na tua voz adulta ainda existe o acalanto de tua ama
    e o balanço de teu berço.
    Ainda há apelos que vêm da alcova de teus pais,
    ainda há os convites do instinto de tua juventude.
    Debruça-te sobre tua voz e escuta as vozes que vêm nela,
    as ressonâncias de ti próprio que nasceram contigo,
    os bramidos dos ventos nas tuas velas rôtas,
    a risada do diabo diante de teus desastres.
    Ouve tua voz sobre o dorso do mar
    onde ela flutuou no começo das coisas
    e a água a concebeu e se tornou fecunda.
    Ouve a tua voz entre as massas humanas
    que como o mar se tornarão fecundas
    e espalharão a palavra do Livro
    pelas águas e pelos continentes.

  • Casa Nova

    Date: 2004.07.28 | Category: Asas de Borboleta | Response: 0

    Queridos amigos, espero que gostem do Asa de Borboleta ano 3… foi uma caprichosa construção de meu talentoso amigo Bruno Trezena, que já tinha feito uma alteração no template do Asa, e agora preparou o Template definitivo, muito lindo e azul do jeito que gosto.

    Ele é um jovem candidato a supermegawebdesigner, e o link dele está junto do blogger, nos créditos… (o “Cuméquié?”) Quem estiver interessado em construir um blog novo, ou pensando em modificar o antigo, chamem o garoto que ele é bom.

    Eu estou feliz feito criança em dia de Natal, abrindo pacotes de presente. E vem mais coisa bonita por aí!

    Beijos de Borboleta

  • Filhos

    Date: 2004.07.23 | Category: amor, Asas de Borboleta, esperança, espírito, luta | Response: 0

    O texto, como podem ver, não é meu. Recebi de um querido amigo, por e-mail, o link para a página onde originalmente foi publicado na íntegra.

    Gostaria de ter escrito sobre um filho que tive, principalmente um texto lindo assim, mas nunca tive este privilégio de gestar. Ao ler este texto, minha reação primeira foi me afogar em lágrimas, porque perder um filho, ou não ter um filho, é sempre motivo de grande dor. Mas o texto é tão simples e firme na sua esperança, que acabei chorando e sorrindo ao mesmo tempo.

    As coisas são simples assim, mesmo: ou se ama, ou não; ou se acredita que a vida é precioso dom de Deus, ou que a lei da selva prevaleça. Afinal de contas, se tudo é um acidente, que diferença faz a moral? Que diferença faz qualquer coisa?

    Não, não estou e jamais fui niilista. Muito pelo contrário, tudo e todos à minha volta são tão preciosos que eu às vezes perco o fôlego. Ou choro feito uma boba.

    Escrevi um texto no dia cinco de outubro do ano passado que tenho um filho. Escrevi com todo o coração o quanto amo este filho. Mas agora, descobri um texto de uma mãe que descreve com mais força o que é este amor, numa situação ainda mais dramática. Transcrevo então trechos do texto abaixo, e o dedico a meu filho Alex.

    Querido Vítor

    Você não sabe como ultimamente tenho me lembrado de você. Sabe porquê? Anda em voga o assunto de se permitir o aborto em caso de anencefalia, como foi o seu, lembra-se? Você não pode imaginar as barbaridades que mamãe tem escutado de pessoas grandes, não no sentido de grandes de coração, alma e inteligência, mas só por que são bem maiores do que você era quando esteve em meu ventre por nove meses, no entanto parecem não saber de nada.

    Lembra-se daquela tarde, logo depois de mamãe sair da casa do vovô Inaldo quando foi fazer a primeira ultra-sonografia, no 3° mês de gestação? Estava tão tranqüila afinal quantas e quantas ultras mamãe já havia feito quando esperava os seus irmãos, Gabriel, Marcus e Raquel. Lembro-me como se fosse hoje, deitada na cama, o médico fazendo a ultra quando, de repente, me fez aquela pergunta: – É o seu primeiro filho? Logo respondi com toda a tranqüilidade – Não. É o quarto, por quê? Vi que demorava a responder e percebi que havia algum problema com você. Indaguei novamente: – Por quê? Está tudo bem com meu filho? O que ele tem?

    A resposta foi seca e dura, como alguns médicos, ainda bem que nem todos, costumam tratar dessa forma a doença dos outros. Respondeu-me: – O seu filho tem um problema, não tem cérebro. Lembro-me de que comecei a chorar e perguntei a ele, na inocência de obter uma resposta científica: – O que vou fazer agora? E mais uma vez veio a frieza que na hora a mamãe não conseguiu captar, veio aquela resposta fria: – O seu médico sabe o que você tem que fazer! Perdoe-me, filho, por não ter dado uma resposta dura e clara ao médico naquele momento, mas a mamãe não conseguiu naquele instante captar a malícia do que ele queria dizer. Com certeza queria que eu te matasse.

    Passei a te amar mais ainda nos dias que se passaram, por que fui entendendo coisas que até então não sabia. Conversei com o obstetra e ele então me explicou como seria essa “gestação especial”. Enquanto estivesse comigo, dentro de mim, você estaria seguro, tranqüilo. Hoje entendo por que você não precisava de uma nova contribuição da mamãe para “ser”, você já existia, já era um ser humano existente, já era meu filho. Você só precisava crescer, suas próximas fases seriam de autocrescimento, de desenvolver o que você já “era”. Nos próximos meses a única coisa que mamãe teria de fazer e que você precisava como qualquer criança era de nutrição, oxigênio e o tempo. O seu tempo.

    Você sabe o quanto foi difícil, saber que não te teria nos meus braços por muito tempo depois que você nascesse. Mas logo resolvi a questão, perguntei ao médico qual o máximo de tempo que poderia ter você em mim, e ele respondeu de 38 a 40 semanas. Logo eu tinha pelo menos 38 semanas para estar muito perto de você, te amando. Lembra-se dos beijinhos que o papai, o Gabriel, o Marcos e a Rachel davam na minha barriga para você? Lembra-se de nós todos rezando todas as noites pedindo para você ficar “bom do dodói”, pois era assim que eu explicava para os seus irmãos o seu problema. E foi assim que os dias se passaram e no lugar da tristeza, entrou a alegria de ter você perto de nós, pelo tempo que Deus quisesse e fomos muito felizes.

    Lembra-se filho quando mensalmente mamãe ia ao médico, para acompanhar a sua gestação e eu escutava o seu coração batendo forte dentro de mim? (140 batidas/minutos). E o quanto era bom saber que você estava ali. Não podia eu dizer que você era uma parte minha, pois desde a concepção você já existia com um código geneticamente diferenciado, original em relação ao meu. Como podem algumas pessoas dispor do que não lhes pertence?

    E o tempo foi passando não é, filho, e aquele ser pequeno que existia em mim, já estava grande e pronto para nascer. Lembra-se que mamãe também sofreu muito quando estava chegando o dia do parto? É que eu sabia que o tempo de ficarmos juntos agora se tornava mais curto, não ficaríamos mais tão próximos como estávamos. Você tinha que nascer e seguir o seu caminho, o caminho que Deus-Pai havia traçado para você desde toda a eternidade. Nunca chorei de revolta, você sabe disso. Chorava de saudade, a mesma saudade que a mãe sente quando o filho se casa e vai embora, era a saudade natural de rompermos os laços com os filhos, às vezes mais cedo, outras mais tarde. Mas, nós seres humanos não somos, por mais que estejamos tentando ser, “Aquele que é”. Somente Deus é Aquele que é – só Ele pode dar o ser a outros e somente Ele pode tirar a existência desse ser, fazendo sua história mais curta ou mais longa, mas todos fazemos história e ninguém tem o direito de interromper a história de vida de outra pessoa.

    Você fez a sua história de Vida, fez a nossa história de vida, você até hoje é lembrado pelos seus irmãos. Sabia que muitas vezes a Raquel com apenas três aninhos, me perguntava quem tomava conta de você no céu? E aquela outra vez que estávamos eu e seus irmãos esperando em frente ao prédio onde morávamos a Kombi Escolar do seu Júlio, dias depois que você faleceu e o Gabriel com apenas quatro aninhos estava perto de mim, junto com a Raquel e o Marcos. De repente surge um senhor e me pergunta: – São seus filhos? – Sim, respondi. E ele novamente perguntou: – Você tem três filhos?: – São todos seus? – Sim respondi, tenho três filhos. O senhor foi embora, afinal era só curiosidade. Mas o seu irmão Gabriel olhou para mim e disse: – Por que você mentiu para ele? Na hora não entendi o que o seu irmão tão pequeno queria dizer e resolvi perguntar por que eu havia mentido para aquele senhor. Foi quando ele disse com toda a naturalidade e sentimento de família: – Você não tem três filhos, você tem quatro, por acaso esqueceu do Vitor que está no Céu?

    Confesso que fiquei desconcertada naquele momento, pois é evidente que não havia esquecido você, afinal tinha poucos dias que você havia nos deixado. Tentei explicar a ele por que havia dado aquela resposta ao senhor, por que havia dito três ao invés de quatro, expliquei-lhe que a mamãe não havia mentido, apenas se reservado, afinal se dissesse quatro filhos, ele perguntaria onde ele estava e eu teria que falar toda a história para alguém que não conhecia. E assim expliquei ao Gabriel que às vezes devemos manter nossa privacidade. Mas ao mesmo tempo, depois daquele questionamento aprendi uma lição. Aprendi que seus irmãos tinham em você alguém muito presente, alguém que fazia parte daquela família, mesmo não estando ali entre nós e passei a dar a resposta que ele queria quando me perguntavam quantos filhos eu tinha. Dizia: – Tenho quatro, um faleceu. Hoje eu digo: – Tenho seis, um faleceu, pois após você vieram a Catarina e a Maria Teresa. Pronto estava resolvido o que incomodava o seu irmão. E ele, seu irmão, estava certo com apenas quatro anos de idade, porque você Vitor não era alguém que tinha passado pelas nossas vidas, você fazia parte dela, você era um pedaço de nossa história e eu não tinha que te esconder. Mas você sabe que nenhum de nós jamais te esqueceu.

    E eis que chegou o grande dia. Era o dia de você nascer, mamãe e papai foram juntos para o hospital às 21:00 horas. Enquanto esperávamos os médicos chorávamos muito os dois, porque sabíamos que estava próximo a nossa separação. Mas você, já sabia que mamãe havia preparado o melhor para você durante os nove meses em que estivemos juntos, escolheu todos os médicos que iriam te dar todo o carinho que você precisaria e que eu não poderia dar naquele momento. Conversei com Dr. Dernival para que batizasse você ainda na sala de parto, eu queria te dar tudo que uma mãe quer para um filho, a Eternidade. Um pouco antes de entrar no Centro Cirúrgico ele ainda me perguntou: – Como ele se chamará? – Vítor, respondi com firmeza, vindo depois, a saber, que o seu nome significava “aquele que venceu” e você venceu mesmo!

    Chorei muito quando recebi a notícia no dia seguinte pela manhã, pois você havia nascido às 23:50 hs e eu estava sedada, mas lembro-me que mesmo sonolenta perguntei ao Dr. Fernando (seu neonatologista), pessoa tão especial e humana, como você estava e apaguei ouvindo ao longe a resposta que você não estava muito bem. Doce Dr. Fernando quis poupar-me, você já havia morrido e ele havia ficado os 40 minutos de sua vida de mãos dadas com você, não te deixou sozinho nem um instante. O dia seguinte, ainda sem saber que você já era mais um anjo no céu, seu pai não me dava a notícia, pois o médico, havia pedido para que retardasse a mesma. E eu inocente via o seu pai chorar no quarto e brigava com ele para que fosse ver como você estava passando, ele simplesmente levantava da cadeira chorando, sem nada me dizer.

    A notícia de sua morte me foi dada por um grande amigo nosso, sacerdote. Amigo de todas as horas difíceis de nossa vida, aquela pessoa que quando morrer, mesmo sem ser conhecida por todos, a Terra ficará diminuída porque a humanidade toda sentirá o peso de sua partida, assim como foi com Madre Teresa de Calcutá, assim como será com João Paulo II. São seres tão especiais que a morte deles nos diminui um pouco e nos faz refletir o quanto temos de trabalhar e fazer pela humanidade. Mas até nisso Deus pensou em mim, em quem me daria a notícia que iria doer tanto. Chorei muito, como nunca havia chorado antes na vida, era uma dor que não passava, parecia roer os meus ossos, o meu coração parecia que estava sendo arrancado do meu peito. Lembro-me e jamais esquecerei que num segundo fui inundada por uma paz interior, que jamais havia sentido antes, era um carinho de Deus pelo dever cumprido, quase um “consumatum est”. Havíamos cumprido a nossa função de deixarmos você fazer a sua história e parte de nossa história.

    E algumas horas depois recebi autorização do médico para numa cadeira de rodas, descer até a capela do hospital para dar o meu beijo em você, aquele que eu tanto esperava. Peguei-te nos meus braços e olhei com detalhes para você já de toquinha na cabeça. Era lindo demais. Seu nariz, sua boquinha, seus olhos, suas orelhinhas, suas mãos tão pequenas e delicadas, sua unha tão pequenina, era perfeito. É um momento que jamais vou esquecer. Dei-te um beijo suave na testa enquanto a lágrima corria, como corre agora, neste momento em que relembro o passado, e vejo de uma forma viva e clara o seu rosto sereno, angelical, porque você já estava no céu. Essa certeza eu tinha, pois você havia recebido o sacramento do Batismo antes de morrer. E não demorei muito ali porque todo o meu amor e carinho de mãe e de ser humano eu tinha te dado enquanto você esteve vivo no meu ventre, fazendo-me te amar a cada dia e respeitar você.

    Vítor, meu filho, como você nos ensinou durante os nove meses que sofrimento não mata, mas ensina e faz crescer, nos torna mais gente e humano. Como sou grata a você por ter tido a chance de viver essa história, de ser forte porque você estava comigo. E como todo cidadão que nasce, também perante a sociedade que cobra atitudes tão contraditórias, você teve sua certidão de nascimento e certidão de óbito, porque respirou 40 minutos após nascer. E porque fez parte da história não só da nossa família, mas de toda a humanidade, você ganhou até um poema do vovô Inaldo, poema este publicado no livro de Outonos, em 2001 intitulado Elegia para o neto efêmero – Vítor Alonso Guimarães, poema suave e profundo como sua história de vida.

    Sabe Vítor, li certa vez em um livro, em que um pai escrevia cartas para uma filha portadora da síndrome de Down, uma coisa muito bonita. Ele dizia que “Umas almas encarnam em corpos defeituosos que têm de viver com problemas mais ou menos visíveis e algumas até se alojam em seres com cérebros malformados, que limitam, como montanhas intransponíveis, os seus meios de expressão. Mas estas últimas são tão perfeitas quanto as outras almas, e o seu Anjo da Guarda recebeu uma missão mais importante do que a dos anjos restantes: não só deve tutelá-las constantemente, mas também proceder inicialmente a uma seleção dos pais que hão de ser, dia após dia, seus colaboradores para ajudar esse filho a realizar ações prejudicadas pela sua incapacidade”. E é assim que me sinto com relação a você, uma privilegiada por ter sido escolhida para ser mãe de uma criança como você, que mesmo que vivendo tão pouco ensinou tanto para mim, para seu pai e seus irmãos.

    Não gosto quando me chamam de heroína por ter levado a sua gestação até o fim, as mães que assim procedem não são heroínas, são só mães. A cada dia a ciência avança, descobre novidades, e aquilo que há alguns anos era perigo de vida para as mães, hoje são facilmente resolvidos face aos avanços de conhecimento gerais, científicos e tecnológicos. Acho que haverá um dia em que casos como o seu exigirão lutar pela vida e não pela morte. Os médicos falam que embora muito se saiba hoje sobre o cérebro, muito mais ainda tem que se saber, ainda há muito por descobrir.

    Enganam-se aqueles que acham que nascido o feto, completo e perfeito tudo deu certo. O homem nunca está terminado, nesse momento deverá começar uma nova luta mais difícil e sofrida do que a de uma gravidez como da mamãe. É a tarefa de fazer este ser pequenino que nasceu, transformar-se num homem de verdade, num ser capaz de contribuir para uma sociedade justa, em defesa da vida, em defesa da verdade. E com certeza enquanto os homens julgarem-se no direito de dizer quem deve morrer, quem deve viver e quando isso se dará estaremos longe de sermos uma sociedade justa e muito menos humana.

    Querido Vítor, acho que está na hora de terminarmos esta nossa conversa, afinal, você conhece a mamãe, ela fala demais. Meu anjinho, não se preocupe com as notícias que te dei, assim como existem pessoas fracas, intransigentes, existem pessoas cheias de amor de Deus no coração e essas pessoas estão sempre juntas para defender e esclarecer aos que se acham donos do bem e do mal, o quanto vocês seres tão pequeninos são seres humanos únicos e irrepetíveis. Você sim, não tem mais o que aprender, já conheceu todos os mistérios de Deus, já entendeu o porquê de sua história, por ter sido curta e ao mesmo tempo tão grandiosa.

    E não se preocupe com as lágrimas que mamãe e papai derramaram, consolei-me quando li em um livro de Antônio Orozco, OS TRÊS SÓIS: a Sagrada Família – Editora Quadrante, que dizia: “às vezes, encontramo-nos mergulhados num mar de lágrimas… E o mar absorve-as, sem que consigam enchê-lo. Parece que se perdem inúteis, estéreis, estúpidas. Mas não. Todas as lágrimas vão parar no coração de Deus-Pai…”.

    Um beijo da mamãe.
    Ana Lúcia

  • Profundo Amor

    Date: 2004.07.18 | Category: alegria, amor, animais | Response: 0

    Só olhar teu corpo largado sobre a cama , e já me enche o desejo de te tocar, mas o repouso absoluto e entregue, a respiração lenta e solta dos inocentes, faz com que eu não ouse perturbar tamanha tranquilidade com meu toque. Prefiro esperar que tu me procures, com um leve despertar, que encoste teu corpo quente e macio no meu. O suspiro profundo com que retornas ao teu mundo de sonhos – o que será que sonhas?- assegura meu coração incrédulo que teu lugar é aqui.

    Não cesso de maravilhar com o fato de que tu me escolheste, ó ser de intensa beleza e dignidade. Não sei que bem fiz para merecer teu amor. Não é o amor fácil e risonho dos felizes; teu amor por mim é feito de olhares furtivos que só tu e eu entendemos. Teus gestos de afeto são contidos como os de todos que já sofreram.

    Entretanto, nunca duvido da grandeza de teu amor. Sempre é com o coração transbordante que vejo a tua alegria com qualquer retorno meu à casa, uma explosão de felicidade que tem tão pouco em comum com o restante de teus gestos reservados. É com crescente gratidão que vejo você lentamente adoçar o temperamento, percebo que não és mais a criatura arredia que entrou na minha vida.

    O meu amor por ti é tão grande que me custa lembrar que não consegues receber bem manifestações por demais efusivas de afeto; que contigo a sutileza e a delicadeza são ingredientes importantes da convivência diária. No entanto, é justamente esta contenção que me ensinas, gata amada, me ensinas a ser leve e delicada no trato, a entender naturezas diferentes da minha, a cuidar de não passar dos limites do outro. Ser tua tem sido um aprendizado de afeto.

    É espantoso para mim escutar pessoas em toda a parte que gatos são animais pouco afetuosos e distantes. Os tolos que falam tal coisa provavelmente nunca viram com o eles podem, num piscar de olhos, sair de uma posição estática e cheia de fleuma e zunir pela casa como bólidos; parar tão abruptamente quanto começaram, porque PRECISAM pentear aquela areazinha exata do pêlo que estava fora do lugar; e, de queda, se você deixar, lambem seu pêlo também.

    Quem não tem gato não sabe. Eles são barômetros de sentimentos. Quem tem um gato em casa e o observa com cuidado, aprenderá logo a detectar a situação emocional do ambiente pelo comportamento de seu felino. Ao observar minha linda Pompom ficar cada dia mais tranquila e feliz, só posso levantar os olhos para o Céu, sorrir e dizer: obrigada.

  • Que nome tem isso?

    Date: 2004.07.17 | Category: alegria, Asas de Borboleta, encantamento | Response: 0

    Eu pensei muito antes de escrever este texto. Primeiro, porque não sabia que título dar a ele. Pensei em chamá-lo de “Música e Magia”, mas além da irritante obviedade, este pobre título não é descritivo o suficiente para a experiência que foi escutar pela primeira vez aquela voz. Na verdade, “voz” também não preenche totalmente de som e significado o inprint que a presença daquela artista fez em minha alma. É… presença talvez seja a melhor palavra.

    A música era boa, a voz perfeita, o violão excepcional, mas, mais que um concerto de alto gabarito técnico, o show de Monica Salmaso e Paulo Bellinati foi a expressão musical de toda uma felicidade que nós sentíamos de estar ali. Não apenas nosso pequeno grupo – que compartilhava do exíguo espaço dentro do café Paraty com centenas de outras pessoas, por obra, graça e bendito oportunismo do já lendário Milton Ribeiro -, também havia uma pequena multidão de ouvintes embevecidos, parados, em pé, no meio da rua.

    Era tanta a concentração, e o respeitoso silêncio era tanto, que em determinada parte do show a cantora, encantada, virou-se para o lado de fora do café e comentou: “Vocês estão tão bonitinhos com suas carinhas aí na janela…”

    Estava tudo mais que bonitinho, estava lindo. Paulo Bellinati tirava sons inacreditavelmente puros de seu violão. Monica esbanjava capacidade vocal e afetiva em iguais proporções. Findo o concerto, continuado o afeto, distribuído equitativamente entre todos os que permaneciam no estabelecimento. Quase ninguém, na verdade, havia saído – não só por falta de vontade, ma por uma certa dificuldade em fazê-lo, devido ao aguaceiro que caía.

    Recebi, eu também, o beijo e o carinhoso abraço que deixou o amigo Milton em estado de graça. Recebi bem mais: da insistência de Milton, recebi o presente de um beleza inesperada; da voz e do violão, recebi o enlevo e a maravilha que só vêm da verdadeira arte; observando o brilho intenso nos olhares de meus amigos, reaprendi a força da experiência compartilhada.

    Ganhei, então, o presente maior dos laços de amizade reforçados pela lembrança comum, o carinho aprofundado pela nova memória que construímos juntos. Foi assim durante todo o evento. Hoje, Paraty já distante, a FLIP mais que encerrada em 2004,  tenho a um click de distância vozes amigas que, ao serem lidas, trazem consigo um leve dedilhado de violão e um cristalino vocalize que ressoa dentro do coração.

  • Seixos

    Date: 2004.07.12 | Category: alegria, amizade, encantamento | Response: 0

    Ficou a lembrança dos seixos que forram as ruas por onde caminhei: arredondados ou chatos, sempre irregulares; alguns escorregadios, outros pontiagudos; limpos ou cobertos de lodo. Juntos ou afastados, sob meus pés, davam a sensação que era uma cabra montesa escolhendo com cuidado o caminho a seguir, desejosa de manter o equilíbrio e a dignidade da locomoção. Porque o pavimento de Paraty é um desafio para qualquer um que ache que é algo banal andar em linha reta.

    Nestas ruas anguladas, cobertas de antigos seixos e lajotas de pedra, rolava a água da chuva para o meio da passagem, e nas margens dos riachos e lagoinhas improvisados rolavam seixos humanos. Também estes tinham múltiplas formas… arredondados ou chatos, jovens e velhos, educados ou intrometidos, famosos e desconhecidos, elite vestida para a festa ou hippies vendendo seu artesanato espalhado no chão. Era uma babel de sons e cores e caras e jeitos, num murmurar constante de tantos modelos diferentes de seres humanos que chegava a confundir os olhos. Então, o escritor português aparece aos olhos da minha lembrança miscigenado com o povo moreno à sua volta, e o escritor greco-americano aparece mesclado com o negro bonito que passou logo ali.

    Paraty semana passada era feita de seixos, de gente e de letras. Eu me pergunto qual foi o impacto disto neste lugar, bem queria saber o que pensam as pedras e as gentes de Paraty, tendo visto passar esta multidão esquisita, esta centopéia carregada livros debaixo dos múltiplos braços. Queria saber do manso cavalo o que ele acha das senhoras inglesas – de curtos cabelos brancos, pesados óculos de aros escuros, que passam por ele com andar apressado – enquanto ele desfila sua tranquilidade herbívora e arrasta atrás de si os turistas na charrete preta.

    Queria descobrir quais foram os sentimentos desta cidade em que cheguei pela primeira vez e que me acolheu tão bem, neste abraço monárquico e colonial, no aconchego do antigo. Queria mesmo saber se a cidade gostou de ver aquelas alvas e barulhentas naves estelares pousadas ao lado de seu centro histórico… será que gostaram de ver os escritores tanto quanto pareceram gostar de ver os VIPs da mídia que entravam nas filas para assistir às palestras? Já que estou a perguntar coisas, quantos dos nativos de Paraty assistiram às palestras?

    Foram quatro dias de intenso movimento, e eu imagino a cidade agora, em clima de fim de festa, os convidados tendo partido e deixado a arrumação por fazer. Que será que pensam os moradores agora, têm saudades de nós? Em Paraty a chuva caiu, o sol veio e foi, o vento trouxe o calor e o levou embora, mas lá nada consegui descobrir dos enigmáticos seixos que marcham por suas ruas.

    Agora, de volta ao abraço cosmopolita e indiferente do Rio de Janeiro, carregada de adjetivos e metáforas a respeito da coisas que vi e vivi, procuro as respostas dentro de mim.

  • Volta

    Date: 2004.07.11 | Category: alegria, amizade, Asas de Borboleta | Response: 0

    Já com saudade eu volto. Chego com um suspiro cansado. O silêncio não é mais pleno de paz e tranquilidade, mas rico em expectativa de ser quebrado. Muito eu pensei, li, conversei, andei. Agora está na hora de voltar à casa, começar de novo.

    É bom estar entre amigos, e estar entre amigos que amam os livros é ainda melhor. Estar entre amigos que amam os livros e amam escrever é uma alegria imensa. Quando, ainda por cima, estes amigos também sabem o que é escrever um texto e lançá-lo ao mar eletrônico dentro desta garrafa de náufrago que chamamos “blog”, aí é como estar entre irmãos que há muito não se encontram. Cada palavra enche o coração de uma alegria que é tão grande que chega a doer.

    Quando, juntos, podemos escutar as palavras de pessoas que amam o que amamos e já estão um passo além, publicando seus livros e encantando pessoas de toda a parte, aí é mesmo uma festa. A Festa Literária Internacional de Paraty. Sim, estava muito, muito bom.

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