Archive for setembro, 2004

  • Caixas

    Date: 2004.09.30 | Category: amor, Asas de Borboleta, espírito, vida interior | Response: 0

    Pessoas sensíveis demais às vezes procuram proteção fechando suas almas numa caixa muito bem trancada, à qual ninguém mais tem acesso. Pode ser uma caixa rica ou pobre, forrada de jornal ou de almofadas aveludadas. Pode ser feita do mais perfumado sândalo entalhado ou do mais duro aço. Não importa, a realidade é que quem está lá dentro sofre da mais profunda solidão.

    Foi de dentro de uma caixa destas, feita de resistente jacarandá e forrada de livros, que eu vi chegar o início da minha adolescência. Eu fui uma pré-adolescente trancada dentro de mim mesma, e eu não sabia sair. Mas Deus nunca me desampara, e Ele mandou um emissário com a chave que eu tinha perdido.

    Um anjo, Stella era um anjo caído. É engraçado como este nome – Estrela – volta e meia surge importante na minha vida, geralmente quando estou chegando em alguma encruzilhada do meu caminho. Pois, “Tia Stella” era uma amiga de minha mãe formada em educação física que reunia pequenos grupos de amigas para aulas de ginástica.

    Minha mãe, sempre preocupada com minha tendência para engordar – o que para ela era a pior herança genética que havia me legado – , e diante da minha recusa categórica de ir para uma academia, convenceu-me a participar de algumas aulas da Tia Stella.

    Ela era uma mulher doce e tranquila por fora, que lutava contra seus demônios interiores. Tinha sua própria caixa, só que forrada de espinhos. Mesmo assim, teve compaixão daquela menina emudecida. Com uma mistura de carinho, paciência, exercícios físicos, palavras de incentivo, conselhos e aulas de expressão corporal, devagarinho abriu a tampa da minha caixa, estendeu a mão e me ajudou a sair.

    Não consigo lembrar de maior gesto de amor que alguém além de minha mãe tenha tido comigo. Se hoje eu escrevo, e algumas pessoas agradecem dizendo que minhas palavras as ajudam, eu tenho de responder que os agradecimentos se devem em grande parte à Stella. Fazem mais de 25 anos que não a vejo, e soube que ela perdeu algumas grandes batalhas contra aqueles demônios, mas venceu algumas também. Espero que tenha conseguido trocar o forro de espinhos de sua caixa por um suave cetim. Eu rezo por isto, porque – se minha mãe me trouxe a este mundo e me fez a pessoa que sou – a Stella me apresentou à vida e me deu as primeiras ferramentas para conquistar minha autonomia. E eu a amo muito, e sou muito agradecida, e serei para sempre.

    A minha caixa continua aqui, a tampa aberta, muitos pequenos tesouros conquistados ao longo destes 40 anos carinhosamente arrumados dentro dela. Ainda me refugio lá dentro em momentos de muita dor. Só que hoje a chave está segura bem firme na minha mão.

    Então, deixo aqui o convite para aqueles que amo e sei que têm suas caixas, alguns deles mal tendo começado as tentativas de sair delas: venham, queridos venham para fora, vale a pena. O mundo é terrivelmente belo e assustador, cheio de aventura e de frieza, de alegria mesclada com perda. Mas há muito tempo eu aprendi que não há coisa alguma tão assustadora que não possa ser enfrentada, se há uma mão estendida esperando pela nossa.

    Minha mão está aqui.

    Hide In Your Shell

    Supertramp

    Hide in your shell cos the world is out to bleed you for a ride
    What will you gain making your life a little longer?
    Heaven or Hell, was the journey cold that gave your eyes of steel?
    Shelter behind painting your mind and playing joker

    Too Frightening to listen to a stranger
    Too Beautiful to put your pride in danger
    You’re waiting for someone to understand you
    But you’ve got demons in your closet
    And you’re screaming out to stop it
    Saying life’s begun to cheat you
    Friends are out to beat you
    Grab on to what you scramble for

    Don’t let the tears linger on inside now
    Cos it’s sure time you gained control
    If I can help you, if I can help you
    If I can help you, just let me know
    Well, let me show you the nearest signpost
    To get your heart back on the road
    If I can help you, if I can help you
    If I can help you, just let me know.

    All through the night as you lie awake and hold yourself so tight
    What do you need, a second-hand-movie-star to tend you?
    I as a boy, I believed the saying the cure for pain was love
    How would it be if you could see the world through my eyes?

    Too Frightening – the fire’s getting colder
    Too Beautiful- to think you’re getting older
    You’re looking for someone to give an answer.
    But what you see is just an illusion
    You’re surrounded by confusion
    Saying life’s begun to cheat you
    Friends are out to beat you
    Grab on to what you can scramble for

    Don’t let the tears… just let me know
    I wanna know… I wanna know you…
    Well let me know you
    I wanna feel you
    I wanna touch you
    Please let me near you
    Can you hear what I’m saying?
    Well I’m hoping, I’m dreamin’, I’m prayin’
    I know what you’re thinkin’
    See what you’re seein’
    Never ever let yourself go

    Hold yourself down, hold yourself down
    Why d’ya hold yourself down?
    Why don’t you listen, you can
    Trust me,
    There’s a place I know the way to
    A place there is need to feel you
    Feel that you’re alone
    Hear me
    I know exactly what you’re feelin’
    Cos all your troubles are within you
    Please begin to see that I’m just bleeding to
    Love me, love you
    Loving is the way to
    Help me, help you –
    Why must we be so cool, oh so cool?
    Oh, we’re such damn fools…

  • Oh, boy!

    Date: 2004.09.19 | Category: amizade, Asas de Borboleta | Response: 0

    Bom, muita gente melhor que eu já falou bastante do livro, inclusive o próprio autor. Mas é necessário que eu faça algum tipo de homenagem a este talentoso amigo.

    Fabio, lá vai: um conto de presente

    FDR chega ao Paraíso

    Finalmente, depois de uma longa vida de sucessos e de negar com veemência, durante toda ela, a existência de qualquer coisa remotamente parecida com Deus, Fabio Danesi morre. Ainda meio desorientado e sem consciência completa de sua situação, por estar dormindo ao falecer, Danesi chega aos Portais do Paraíso. Na entrada, um coro de anjos, São Pedro e Fred Astaire o aguardam.

    – Benvindo, Filho! São Pedro sorri, bondosamente.
    – Welcome, my boy! Fred Astaire sorri, alegre.
    – Aleluia! Cantam os anjos.

    Fabio observa aquilo por um instante. Coçando a cabeça, diz para si mesmo:

    – Eu bem que pensei que não devia ter tomado tanto vinho hoje à noite, que sonho esquisito!

    – Não, não, não é sonho my dear chap. Você morreu e está no Paraíso. Vamos entrar, Deus decretou feriado e tem uma festa à sua espera. Fred Astaire estende a mão num cumprimento.

    – Deus? Estou ficando gagá, só pode ser. Deus não existe. Nossa, o que tinha naquele vinho!? Responde Danesi, apertando a mão do dançarino, mesmo achando tudo aquilo alucinação, pois ele é um cavalheiro.

    – Ah, sim. Sobre este probleminha, senhor Rossi – retruca São Pedro. O Senhor Todo Poderoso não só existe, como é um grande fã seu. Ele o está aguardando, quer discutir alguns pontos de sua obra.

    Fabio apenas levanta as sobrancelhas, incrédulo.

    – Discutir MINHA obra com Deus? E que tal se eu quiser discutir com Deus a obra DELE? partindo, é claro, do princípio que o tal Ele exista.

    – Bem, old fellow, este é um assunto meio espinhoso. Deus é um artista, ele não tem muita simpatia por críticos. Qual o autor que tem, não é verdade?

    – Nenhum que eu conheça, Mr. Astaire. Nem mesmo eu, para falar a verdade.

    – Fred, m’boy, e eu espero que me permita chamá-lo Fabio? Oh, claro, meu caro. O Senhor não que r criticar sua obra, apenas conversar sobre ela.

    – Ora, porque não? Tudo neste sonho está tão estranho, não me espanta ter Fred Astaire me chamando de Fabio e Deus querendo conversar sobre minha obra. O escritor sorri seu sorriso doce de menino, que faz com que os anjos soltem arpejos de felicidade

    – Caro Fabio, encare se quiser como um sonho. Depois de algumas semanas aqui, você vai começar a se acostumar com a idéia. Agora, shall we? As celebrações estão esperando apenas por você para começar. Astaire sorri de volta e indica os Portais do Paraíso, abertos e iluminados por uma luz intensa.

    – Hummm… férias no paraíso, eh? Isso dava um conto interessante. Fred, por acaso tem com você papel e caneta?

    São Pedro sorri, benevolente.
    Fred Astaire sorri, divertido.
    Aleluia! Cantam os anjos.

  • Reforma

    Date: 2004.09.10 | Category: alegria, amizade, Asas de Borboleta, esperança | Response: 0


    Ruins

    Primeiro vem o quebra-quebra. Devagarinho as paredes vão-se abrindo em janelas e da escuridão faz-se a luz. Mas a luz nos mostra que há centenas de pequenos defeitos a ser corrigidos, milhares de mínimas falhas para consertar. Pega o formão, respira fundo, bate-bate, fura-fura, derruba, joga fora o entulho.
    Depois do sofrimento começa a construção. Às vezes a construção é lenta, parece que nunca vai acabar. Faz a argamassa, espalha em cada tijolo, monta o complexo quebra-cabeça, deixa secar. Enche os buracos, alisa a massa, faz a parede crescer. Dá forma ao conteúdo novo, faz um novo espaço nascer.

    De repente, surpresos, nos pegamos colorindo uma vida que estava cinza, ordem e beleza brotando do caos, olhamos em volta perplexos e nos perguntamos: “Mas fui EU que fiz tudo isto?”

    Para Maurício, com um beijo.

  • O que é que se diz?

    Date: 2004.09.08 | Category: amizade, amor, Asas de Borboleta, saudade | Response: 0

    Ah, é duro quando uma pessoa que amamos parte antes de nós, quando parte cedo demais. Não há muitas palavras que consolem, pois neste caso só mesmo o tempo cura a ferida. Mas, para ti, poeta, quis deixar como um acalanto as palavras de outro poeta, que conviveu por muito tempo de perto com a indesejada das gentes.

    Para Rogério Simões, Manuel Bandeira. Com um beijo meu.

    OVALLE

    Estavas bem mudado
    Como se tivesses posto aquelas barbas brancas
    Para entrar com maior decôro a Eternidade.
    Nada de nós te interesava agora
    Calavas sereno e grave
    Como no fundo foste sempre
    Sob as fantasias verbais enormes
    Que faziam teus amigos rir e
    Punham bondade no coração dos maus.

    O padre orava:
    – “O côro dos anjos te receba…”
    Pensei comigo:
    Cantando Estrela brilhante
    Lá do alto mar!…

    Levamos-te cansado ao teu último endereço
    Vi com prazer
    Que um dia afinal seremos vizinhos
    Conversaremos longamente
    De sepultura a sepultura
    No silêncio das madrugadas
    Quando o orvalho pingar sem ruído
    E o luar for uma coisa só.

    (Ah, Alex, para ti, amigo querido, saudades da sua butterfly…)

  • Fim de sonho, Início de Realização

    Date: 2004.09.04 | Category: alegria, amizade, encantamento, esperança | Response: 0

    Foram quatro dias da mais profunda felicidade. Acabou dia 02 de setembro de 2004 um projeto que veio do fundo do meu coração, fruto de muito trabalho duro, resultado dos esforços conjuntos de membros de um grupo que se organizou em torno de uma paixão comum, e que depois deste simpósio posso com firmeza chamar de grandes amigos. Foi mais do que bom. Foi um sonho. Um sonho que se tornou realidade na minha frente. Mais importante, percebi que não era um sonho só nosso, destas pessoas do Brathair.

    Foi gratificante ver a seriedade de todos, desde o aluno mais novinho da graduação até o professor doutor mais graduado. Foi emocionante sentir a felicidade de todos, dezenas de alunos vieram me abraçar no último dia e dizer o quanto estavam tristes de ter acabado. Eu também estou triste que acabou. Eu nunca senti tanta irmandade numa atividade acadêmica antes. Todas as palestras lotadas, pessoas tomando nota, gravando, fazendo perguntas. Nunca vi tantos olhos brilhando juntos.

    Nunca vi monitoras fazerem ‘claque’ para uma professora de outra universidade que elas tinham acabado de conhecer, com direito a cartaz escrito “Sue, você é gente paca!” (Risos) Alguém aí já viu garotas escreverem isto de uma professora que estava fazendo elas trabalharem feito doidas? Que meninas especiais, estas monitoras… Uma delas chegou a dizer que vai se formar na UFRJ e depois se matricular no curso de secretariado executivo da minha universidade, só para ser minha aluna de inglês… menina danada, só para me fazer chorar…

    Agora, é fortalecer e construir sobre o sonho e a felicidade de todos, estabelecer uma base de estudos medievais forte neste país, descobrir de onde vimos e para onde podemos ir. Com a alma cantando, as verdes colinas de Erin combinadas com as verdes matas da Terra de Santa Cruz. Eu já falei demais, como sempre, mas agora passo a palavra a Amergin, irmão de Evir, os primeiros príncipes Milesianos a colonizar a Irlanda, muitos séculos antes de Cristo. Estes foram os primeiros versos feitos na Irlanda, esta terra de guerreiros e poetas… vieram do livro Leabhar Gabhála, ou Livro das invasões.

    The Mystery (translated by Douglas Hyde)

    I am the wind which breathes upon the sea,
    I am the wave of the ocean,
    I am the murmur of the billows,
    I am the ox of the seven combats,
    I am the vulture upon the rocks,
    I am a beam of the sun,
    I am the fairest of plants,
    I am a wild boar in valour
    I am a salmon in the water,
    I am a lake in the plain,
    I am a word of science,
    I am the point of the lance in battle,
    I am the god who created in the head the fire.
    Who is it who throws light into the meeting on the mountain?
    Who announces the ages of the moons?
    Who teaches the place where couches the sun?
    (If not I)

    O Mistério (tradução para o português por Assunção Medeiros)

    Eu sou o vento que sopra aragem sobre o mar,
    Eu sou a onda do oceano,
    Eu sou o murmúrio das vagas,
    Eu sou o touro dos sete combates,
    Eu sou o corvo sobre as pedras,
    Eu sou um raio de sol,
    Eu sou a mais bela das plantas,
    Eu sou um javali selvagem em valor,
    Eu sou o salmão na água,
    Eu sou um lago na planície,
    Eu sou uma palavra de ciência,
    Eu sou a ponta da lança em batalha,
    Eu sou o deus que criou na cabeça de fogo.
    Quem é aquele que joga luz no encontro nas montanhas?
    Quem anuncia as eras das luas?
    Quem ensina o lugar de descanso do sol?
    (A não ser eu)

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