Archive for outubro, 2004

  • Gentileza

    Date: 2004.10.28 | Category: amizade, esperança, espírito | Response: 0

    O Rio de Janeiro tem muitas caras. Geralmente as que aparecem na mídia são a da criminalidade e da sensualidade exacerbada. Mas o Rio também tem sua suavidade escondida, às vezes o meio do lixo.

    Era assim com o Profeta Gentileza, cujo nome de batismo era José da Trino, mas que foi rebatizado na tristeza, na loucura e no fogo: o incêndio do circo norte-americano em Niterói, no dia 17 de dezembro de 1961, no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas. Dizem que entre estas pessoas estava a família de José. O que aconteceu neste incêncio transformou a vida deste homem, e poderia ter transformado de muitas formas. Mas a dor e a loucura, em vez de virar violência e amargor, virou… Gentileza.

    Este homem, até sua morte em 1996, percorria as ruas do Centro do Rio e as barcas Rio-Niterói, dizendo palavras de gentileza e escrevendo mensagens nas pilastras dos muitos viadutos. Poucas palavras restaram, porque algum prefeito pouco gentil achou que pintar os viadutos de cinza-tristeza era melhor que preservar as palavras de José. Mas parece que o espírito do Profeta paira ainda sobre o Rio, e afeta ainda algumas pessoas.

    Este recente carioca aquijá se confessou afetado. E resolveu aderir à pequena e silenciosa campanha que eu trouxe do blog da Carol, Eu acredito em você. Pois está lançada a campanha faz um tempo, pelo Profeta Gentileza, e as crianças (Carol tem 16 anos) e as borboletas – e agora um escritor! – já aderiram.

    Tomara que espalhe.

  • Ouvidos atentos, braços abertos

    Date: 2004.10.27 | Category: amizade, amor, esperança, vida interior | Response: 0

    Escrevi para um amigo, ele me deu as costas. Falei com uma amiga, ela me deu conselhos. A rejeição foi o chute no estômago no lutador caído. E de que adiantam conselhos quando se está assim? As palavras não entram, não conseguem atravessar a eterna discussão entre a mente e o coração: “Não pode!” “Mas eu quero!” “Não pode!” “Mas eu quero!!” A dor era a mesma, e também a confusão. Que fazer, que fazer, com quem falar? Paro, ando, escrevo, choro, peço colo a meu pai, me deixo atropelar por um caminhão?

    Aí, duas coisas aconteceram. Escutei sua voz. Cansada, tensa, aborrecida. Mas era você. Eu não estava muda, e você não estava surdo. A certeza de que o dolorido passa consolou, ou ao menos mandou a enxaqueca embora. Conversamos, desenhamos, a sensação de estranheza, de que o mundo tinha acabado, foi sumindo durante a noite.

    A segunda coisa foram os braços abertos do amigo. Acolheu (era só o que eu queria!) o que o outro amigo não quis nem ver. Escutou sem julgar, falou palavras de carinho, falou a principal: eu ENTENDO. Não eu TE entendo, mas eu entendo. Entendendo, ele me ajudou a desenrolar. Desenrolando o fio deste novelo emaranhado, descobri a Eternidade.

    Amor não acaba, amor é eterno. Esta certeza que é seu chão há de ser meu teto.

  • História sem Título

    Date: 2004.10.24 | Category: amor, Asas de Borboleta, contos | Response: 0

    “…so good on paper… so romantic… so bewildering…”

    No quarto ela arrumou as malas. Malas leves, o que ela levava com ela de mais precioso não pesava muito. O gosto do primeiro beijo na estação do metrô; o som da primeira vez que ele gemera seu nome; a textura da pele dele na sua mão; o cheiro de homem limpo nas suas narinas. Além disso, algumas roupas, as fantasias que vestira para fazê-lo feliz.

    “…I know nothing stays the same…”

    Saía sem deixar muitas pistas, não sobrara muito de concreto, o principal estava no coração. Deixou no travesseiro alguns fios de cabelo. No chão, ao pé da cama, um chinelo virado. Na maçaneta, um sutiã. Na pia do banheiro, um montinho de pasta de dente. Na sala, alguns CDs fora da caixa, com uma risada… ela sabia que ele ficava maluco com desordem. Mas, quem sabe desta vez, ele sorriria também, entendendo que ela precisava deixar alguma marca que estivera ali, mesmo sabendo que eram marcas fáceis de apagar.

    “…Down comes the rain, and washed the spider out…”

    Na cozinha, um copo na bancada, com um dedo de água dentro. O avental esticado em cima da pia, para lembrar as tantas vezes que ele a abraçara por trás enquanto cozinhava. Uma colher de pau largada sobre o fogão. No ímã da geladeira, em forma de borboleta, um bilhete preso que diz apenas: “fui”.

    “… I believe in love, now who knows where or when, but it’s coming around again…”

    Parada no umbral da porta aberta, ela olhou longamente para dentro do que fora o seu refúgio nestes anos em que ela amara com o desprendimento que só os amores impossíveis têm. E descobriu, não muito surpresa, que a dor da amputação daquele amor não era menor por desejar sinceramente que ele fosse feliz sem ela.

    “…itsy-bitsy spider climbs up the water sprout”

    Antes de fechar a porta pela última vez, considerou a possibilidade de tirar aquela música do repeat e desligar o som. Ele sempre era tão preocupado com curto-circuitos. Considerou a possibilidade por apenas alguns segundos, depois deu de ombros. Ele chegaria logo com sua nova menina. Seria uma maneira de quebrar o gelo, explicar porque ele deixava Carly Simon tocando num apartamento vazio. Como a concordar com ela, Carly canta naquele momento…

    “Don’t mind if I fall apart, there’s more room in a broken heart…”

    Nada mais a fazer, a não ser seguir a marcação da peça: exit stage, left. Bateu a porta com um ‘merda’ baixinho, sabendo de antemão que aquele aperto na garganta ia levar litros de lágrimas para passar.

    “It’s coming around again…”

  • Um Certo Cansaço

    Date: 2004.10.18 | Category: alegria, amor, Asas de Borboleta | Response: 0

    A vida tem coisas espetaculares. As ditas coincidências que nos levam a dobrar uma esquina e dar de cara com uma alma gêmea, O gesto inesperado de apoio e carinho vindo de uma pessoa com quem não se contava. Um dia que nasce esplendoroso de dentro de uma noite chuvosa. A precisão quase geométrica das pétalas de uma rosa. Tem muita coisa que faz com que se olhe em volta e diga: Deus fez tudo muito bem feitinho…

    Mas tem gente que parece ter como ocupação profissional transformar o bonito em feio, o milagre em corriqueiro, a vida em tédio. Alguns por falta de um olhar mais caridoso para si e para o mundo, alguns atormentados por tarefas prementes desta nossa época agitada, outros simplesmente porque sofrem de azedume crônico da alma. Entretanto, há pessoas demais assim, e as almas mais líricas sofrem com os constantes baldes de água fria a lhe jogarem no rosto.

    Hoje, se fosse possível, gostaria que todos que lessem isto tentassem olhar longamente e em silêncio para algo bem bonito – pode ser esta rosa aí em cima – e deixassem que a mensagem que está oculta nesta beleza se revelasse diantede seus olhos.

    “The most incredible things about miracles is that they happen. A few clouds in heaven do come together into the staring shape of one human eye. A tree does stand up in the landscape of a doubtful journey in the exact shape of a note of interrogation. I have seen both these things myself within the las few days. Nelson does die in the instant of victory; and a man named Williams does quite accidentally murder a man named Williamson; it sounds like a sort of infanticide. In short, there is in life a sort of elfin coincidence which people reckoning on the prosaic may perpetually miss. As it has been well expressed in the paradox of Poe, wisdom should reckon on the unforeseen.” (G.K. Chesterton – Father Brown Stories – Penguin Popular Classics – p. 07)

    “A coisa mais incrível a respeito dos milagres é que eles acontecem. Algumas nuvens no céu se juntam, sim, na forma de um olho humano a encarar. Uma árvore se destaca, sim, da paisagem de uma jornada dúbia, na forma exata de um ponto de interrogação. Eu mesmo vi estas duas coisas nos últimos dias. Nelson realmente morre no instante da vitória; e um homem chamado Williams, por puro acidente, pode, sim, assassinar um homem chamado Williamson (“Filho de William”); soa como uma espécie de infanticídio. Em suma, existe na vida uma espécie de coincidência mágica que as pessoas que raciocinam com o prosaico perpetuamente ignoram. Como já foi bem expresso no paradoxo de Poe, a sabedoria tem de levar em conta o imprevisto.” (tradução minha)

  • Mais um Adeus

    Date: 2004.10.11 | Category: amor, Asas de Borboleta, espírito, saudade, vida interior | Response: 0

    Recife, inverno de 1985. A mocinha que eu fui ficou sabendo que um dos escritores que adorava estaria numa livraria o Shopping Recife autografando seus livros. Entusiasmada mas tímida, pegou dois deles e levou dentro da bolsa. Não sabia se teria coragem de se aproximar de tão exaltada figura e pedir o carinho de ter uma dedicatória pessoal para provar que ele era de fato seu amigo querido. Não estranhem ela nunca o ter visto antes, o amor através dos livros que os escritores e seus leitores trocam é forte e verdadeiro. Tanto quanto o leitor precisa da visão especial do escritor para conhecer melhor o mundo, o escritor precisa daqueles corações e daquelas mentes vibrando em harmonia com ele e dizendo, “Sim, é isso mesmo! Como não percebi antes?”

    A Sue-mocinha então selecionou os dois livros deste amigo, e foi para o shopping, ainda sem saber se teria coragem de se aproximar dele. Vai que a imensa simpatia e doçura presente nos livros se mostrasse apenas construção do talento dele de escritor, e o homem não fosse da mesma estatura?

    O Shopping. Lá estava ele. De longe percebeu um homem maduro, mais velho um pouco que seu pai, mas ainda bonitão. Parecia simpático. Foi-se aproximando devagarinho, e teve a grata surpresa de ser acolhida com um enorme sorriso. O grande escritor não se esquivou de mineiramente trocar um dedinho de prosa com a menina, e ainda escreveu uma dedicatória que fez o coração dela inchar de alegria: “A Sue esta lembrança afetuosa com um abraço amigo do Fernando Sabino – Recife, 19/06/85”

    O livro, Faca de Dois Gumes, foi relido aquela noite com uma nova emoção. Agora ela sabia um pouquinho mais deste livro, sabia que ele tinha sido escrito por um homem bom, com entusiasmo de menino e modos de cavalheiro. Ela já tinha vontade de escrever bem como ele. Agora passou a ter vontade de ser uma pessoa assim.

    Quase 20 anos depois, o telejornal anuncia que o meu amigo morreu aos 81 anos, depois de dois anos de luta contra um câncer. Será que alguém vai entender as lágrimas que me escorrem dos olhos enquanto escrevo isto? Será que vocês vão entender que Fernando Sabino – e Manoel Bandeira, e Carlos Drummond e Clarice Lispector e tantos outros – é parte da minha alma?

    Hoje o mineirinho contador de causo morreu. Esse mundo ficou um pouquinho mais vazio e mais triste. E o outro mundo ficou um pouquinho mais alegre. Diz o noticiário…

    Velório de Sabino é no S. João Batista
    O Globo
    GloboNews TV

    RIO – O corpo do escritor Fernando Sabino está sendo velado no cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul, onde será enterrado nesta terça-feira, às 11h. Alguns amigos como o cartunista e escritor Ziraldo e o jornalista Wilson Figueiredo estão no local. Sabino sofria de um câncer no fígado há dois anos e, segundo amigos, passou os últimos dois dias sedado. A pedido do escritor, seu túmulo terá a inscrição “nasci homem, morri menino”.

    O que eu digo é que este menino tocou fundo meu coração, e agora o Asa está de luto. Não quero falar mais, deixo com vocês Fernando Sabino…

    A Última Crônica – Fernando Sabino

    A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

    A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

    Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

    Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

    A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

    São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.

    A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

    Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

    Texto extraído do livro “A Companheira de Viagem”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.

Tópicos recentes

Comentários

Arquivos

Categorias

Meta