Archive for novembro, 2005

  • Date: 2005.11.13 | Category: vida interior | Response: 0

    Sem pretensão de ser nada além de uma pessoa que publica seu coração online.
    Sem vontade de parecer nada além do que eu realmente sou.
    Sem paciência para ego nenhum, nem o meu nem o dos outros.
    Sem medo de nada a não ser de me perder no caminho.

    Hoje eu quis vir aqui, sem ter muito o que falar, sem nenhuma obrigação de apresentar para vocês asas iridescentes ou pó de pirlimpimpim. Meu pai está muito doente e eu estou muito cansada. Mas a vontade de vir aqui permanece, este meu sentimento de curiosidade profunda a respeito de quem está aí, do outro lado desta tela iluminada…

    Uma adolescente pensando que achou uma amiguinha
    (achou sim, lindinha)…

    Um serial killer pensando em fazer angú de borboleta
    (um peteleco no seu nariz!)…

    Uma pessoa sozinha pensando em suicídio
    (pára de merda e vem conversar)…

    Um amigo distante em busca de notícias
    (você tem meu número de telefone)…

    Um inimigo antigo em busca de regozijo
    (fique à vontade!)…

    Um estranho que já foi meu melhor amigo
    (siga em paz, querido)…

    Um estranho que ainda vai ser a pessoa mais importante da minha vida
    (você está atrasado!)…

    Um blogueiro preguiçoso em busca de plágio
    (ih, nem tente, poucas pessoas têm força para ser eu; publique um gif animado e deixe para escrever amanhã)…

    As reticências são tantas que o interesse pelo que acontece (e eu não fico sabendo) me mantém vindo aqui, mês após mês. Não há tristeza, alegria, sofrimento ou felicidade que me distraiam do interesse pela vida que eu sinto fluir subterrânea. Aqui ou no meio da madrugada, namorando a lua.

    Que, aliás, está me chamando.

    Beijo em todos, menos no serial killer. Aiaiai, menino, que coisa feia! Vá arranjar algo de útil para fazer!

  • Num quarto de hospital

    Date: 2005.11.05 | Category: pai, vida interior | Response: 0

    Image hosted by Photobucket.com

    Cinco e quinze da madrugada do quarto dia do mês de novembro. Na escuridão do quarto de hospital, escuto a porta abrir e a enfermeira plantonista avisar “vou acender a luz” e dar um “bom dia!” alto e alegre – um décimo de segundo antes da forte luz fria ferir meus olhos e os do meu pai, que ainda estava profundamente adormecido.

    Era apenas para medir a pressão e a temperatura, o que poderia ter sido feito tranquilamente duas horas depois, quando o bom dia teria feito mais sentido. Efetuadas as devidas mensurações, a ensolarada plantonista deixa o aposento, acompanhada do olhar mais assassino do meu pai. Com um resmungo rouco, que eu suspeito ter sido um palavrão cabeludo, ele se ajeita na cama e volta a adormecer.

    Meu sono, no entanto havia sido definitivamente encerrado pelo feliz sadismo da enfermeira. Totalmente desperta, sento na cama; levanto; vou ao banheiro; bebo água; torno a deitar; reviro na cama; desisto e levanto novamente.

    (Enquanto isto, lá fora, o escuro estava pontilhado de milhares de pequenas estrelas de luz elétrica, que ofuscavam as estrelas do céu, já parcialmente encobertas pelos restos mortais das nuvens que tomaram conta do dia anterior. A névoa que acompanhava as nuvens, entretanto, já havia sumido, e o ar da noite estava claro.)

    Neste tempo que passei no hospital não havia muito a fazer a não ser oferecer apoio moral e logístico a um pai tomado de mau-humor por estar internado. Este é o sinal mais claro de que ele está melhor a cada dia, e respondendo muito bem ao tratamento. Sempre fico nervosa quando o vejo meu genioso pai quietinho e aceitando passivamente o que acontece com ele. Isto aconteceu no princípio do tratamento, mas graças ao bom Deus ele é forte e está determinado a ficar bom, e a passividade sumiu. O que parece ser metade do caminho andado.

    A falta de muita coisa a se fazer além de esperar, somada à necessidade de ficar reclusa no quarto do hospital – tanto para ajudar meu pai quanto para evitar os vírus e bactérias muito malvados que povoam os corredores do hospital – me fizeram liberar a mente para vagar onde ela quisesse. Não havia coisa alguma para ela fazer lá, e ela merecia – já que o corpo estava preso àquele quarto – a oportunidade de fugir por alguns instantes.

    Não é engraçado como as coisas funcionam? A danadinha da minha mente, de posse da liberdade para ir onde quisesse – podendo ir às estrelas e voltar, nadar no mar do Caribe ou mimar-se de qualquer forma que lhe fosse mais prazerosa – preferiu voltar àquele quarto de hospital e meditar sobre seu parceiro cativo, o meu corpo.

    (Pela janela do quarto podia ver a aurora tomar vagarosamente conta do céu. Certamente que é um privilégio estar num hospital que fica numa ilha no meio da Baía de Guanabara, e poder ver os perfis montanhosos de Niterói e do Rio ligados por esta enorme ponte, que parecia naquele instante um traço negro a sublinhar os amarelos e malvas do amanhecer. O mar escuro lentamente ficava azul-acinzentado. O céu se transformava numa pintura de Monet, e parecia um presente especial para mim. Um pássaro que não reconheci pelo canto conclamava e instigava todos os outros a saudar a chegada do sol. O dia já parecia que teria a beleza que realmente teve, e foi me visitar de antemão, naquele lugar triste. Tudo, mas TUDO mesmo tem seu lado bom.)

    Tamanha imobilidade me é incomum. Talvez isto tenha feito com que eu notasse coisas que normalmente me passam despercebidas. Quando corro aqui e ali, cumprindo as mil e uma tarefas que minha rotina exige, mal noto meu corpo. Ele é a paciente mula de carga – o “irmão jumento”, como diria São Francisco de Assis a respeito de seu próprio corpo – que mansa se submete a tudo que minha inquieta mente cisma de fazer. Só neste momento de parada forçada, quando não há possibilidade de inventar coisa alguma para meu corpo fazer, nem de forçá-lo a correr para lá e para cá, voltei-me para ele e o observei de forma mais atenta.

    Lembrei-me – sou a rainha da idiossincrasia, parece – que minha irmã tem um amigo que vive em função de seu fetiche por mãos e pés. Ele tem um site sobre este tema, e realiza festas e eventos para seus… eh… correligionários. Este rapaz é respeitosa e reverentemente apaixonado pelas mãos e pés de minha irmã. É até justo que seja, minha irmã tem mesmo pés bonitos e arqueados, tornozelos bem torneados, mãos de dedos longos com unhas também longas e cuidadosamente tratadas todas as semanas, geralmente pintadas de vermelho. Que ele vive implorando para fotografar para seu site.

    Examinando com olhar crítico meus próprios pés e mãos, tinha dúvidas se fariam o deleite de alguém com tal fetiche – apesar de saber que o fetiche é, por definição, inexplicável e ilógico. Não que meus pés e mãos sejam feios, porque não acho que sejam. São fortes, sem muita delicadeza.

    Eu tenho muitos aspectos de meu corpo que são delicados – um rosto suave, um sorriso bonito, uns olhos verdes que expressam muita doçura, uma pele macia e cheirosa, uma voz que um amigo querido uma vez definiu como “voz de menina” – mas meus pés e mãos não estão entre estes atributos delicados. Eles estão em outro grupo de características físicas minhas que posso dizer que são quase viris – a maneira rápida e decidida como ando, a minha gargalhada estrondosa, minha juba de cabelos rebeldes.

    (O sol já havia feito sua entrada triunfal no dia, terminando de rasgar a cortina de farrapos das nuvens do dia anterior, sendo solenemente anunciado por um galo-arauto das redondezas. O pássaro desconhecido continuava sua cantoria, mas agora apenas pontuava a algazarra dos bem-te-vis. O Rio de Janeiro é mesmo um lugar especial…)

    Pois é, não acho que meus pés e mãos ficariam bem estáticos, numa foto em um site. Eles são prosaicos demais, visualmente inexpressivos. Minhas mãos são quadradas, não alongadas, meus dedos são curtos e gorduchos. Os pés são pouco arqueados, os tornozelos um tantinho grossos demais. Seu momento de beleza acontece quando estão em movimento. São pés e mãos que agem, trabalham e cuidam, não têm muito valor parados.

    Meus pés agradam de modo intenso minha gata, pois ela adora que eu os estenda no ar para que ela possa esfregar sua maciez peluda neles. Temos um ritual matinal: quando acordo, ela já me aguarda na saída do quarto, e oferece imediatamente a barriga para o afago. Perfeitamente adestrada por ela, esfrego meu pé em seu pêlo, o que faz com que ela de pronto o abrace com as quatro patas, dando lambidas e mordiscadas amorosas nele. Depois ela dispara na minha frente em direção à cozinha e ao seu desjejum. Alimentada, ela novamente se esfrega em minha pernas e pés, num sinal de gratidão, e finalmente permite que eu tome meu café da manhã sossegada.

    Meus pés são assim, são pés próprios para serem usados numa carícia. Quando não há outro uso para eles, os dois me mantêm estabilizada e firmemente plantada no chão. São pés firmes, seguros, que não me deixam tropeçar.

    Da mesma forma são as minhas mãos: unhas mantidas curtas, pois quebram com facilidade, dedos ágeis e fortes, marcados pelos inúmeros pequenos cortes e queimaduras de mais de vinte anos na cozinha. Minhas mãos, tampouco, são bonitas em repouso. Elas se tornam bonitas quando trabalham; são velozes e capazes manuseando uma agulha de crochê ou fatiando frutas e legumes; são delicadas e precisas quando desenham ou quando costuram. São mãos amorosas com sua dona e – como os pés – sempre prontas para o carinho. Têm, os pés e as mãos, a mesma pele macia do resto do corpo, que nenhum produto de limpeza ou sapato apertado parece ser capaz de engrossar.

    A conclusão a que cheguei – com o sol firme no céu e a madrugada definitivamente encerrada pela manhã – é a de que meu corpo, seus pés e mãos e olhos e voz e ouvidos, é bom. Ágil, forte e bonito quando se move, ele todo é uma acolhida e um aconchego, o que deixa meu espírito sereno e contente, pois é isso mesmo que desejo ser.

    Decidi, nestas horas de meditação, que amo meu corpo. Ele é meu auxiliar e meu cúmplice nestes caminhos tortuosos que percorro. Quase nunca reclama dos maus-tratos que imponho a ele, e reage com alegria e prazer a cada pequeno agrado. Meu corpo, na verdade, é capaz de sobreviver com muito pouco, mas também decidi neste período que antecedeu a manhã do último dia desta – esperamos, esperamos, rezamos e pedimos – última internação de meu pai que ele precisa de mais.

    Saí daquele hospital determinada a diminuir os maus-tratos o quanto puder, e a cuidar melhor desta minha mula querida. Quero torná-la a cada dia mais capaz, mais forte e mais veloz – e mais bonita e feliz – para que ela possa acompanhar com passo leve a minha mente a cada lugar que ela decidir ir.

    Acho que também estou reagindo bem ao tratamento de meu pai…

Tópicos recentes

Comentários

Arquivos

Categorias

Meta