Archive for fevereiro, 2007

  • Date: 2007.02.22 | Category: amor | Response: 0

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    Que mais?

    Que se pode fazer quando a vida mostra com crueza que não há como escapar da dor? Vagarosa e lentamente transformar a dor em beleza. O que fazer quando o amor se apresenta envolto em uma névoa de tristeza? Cuidadosa e calmamente separar do sentimento o amargor.

    Ela sabia. Quando nada mais resta a fazer a não ser colar de volta os pedaços, nada melhor que escutar a voz daqueles que conseguem transmutar sofrimento em música. Com um sorriso banhado de lágrimas, ela estendeu a mão e o convidou para dançar. Com o olhar marejado e o coração trêmulo de medo, ele aceitou.

    Só uma música poderia ser a canção dos dois amantes feridos…

    You’ve Got To Learn (Il Faut Savoir) – Charles Aznavour

    You’ve got to learn to show a happy face
    Although you’re full of misery
    You mustn’t show a trace of sadness
    And never look for sympathy

    You’ve got to learn, although it’s very hard
    The way of pocketing your pride
    And sometimes face humiliation
    While you are burning up inside

    Facing reality is awful hard to do
    When it seems happiness is gone
    You’ve got to learn to hide your tears
    And tell your heart life must go on

    You’ve got to learn to leave the table
    When Love is no longer being served
    Just show them all that you are able
    To leave without saying a word

    You’ve got to learn to hide your sorrow
    And go on living as before
    What good is thinking of tomorrow
    Who knows what it may have in store?

    You’ve got to learn to be much stronger
    At times your head should rule your heart
    You’ve got to learn, from hard experience
    And listen to advice and sometimes pay the price

    But I won’t learn to live –
    With a broken heart

  • Date: 2007.02.10 | Category: mãe, pai, vida interior | Response: 1

    Eu me lembro…

    Uma certa vez, na longínqua década de 70, minha mãe me advertiu, escondendo um sorriso, ao ouvir meu comentário sobre como Tarcísio Meira era lindo: “Psiu, filha, não fala isto não, eu também acho, mas seu pai morre de ciúmes do Tarcísio Meira…”.

    Em 2006, numa rara oportunidade em que assistia à novela das oito com minha família, tive a chance de provocar meu pai com a coisa do ciúme; ele respondeu com outro sorriso meio escondido: “Ora, é claro que não vou admitir que se fale que outro homem é bonito na minha casa, imagina!”.

    Em muitos finais de semana, também na longínqua década de 70, meus pais namoravam num exercício de gastronomia afetiva que sempre me enterneceu… Eles colocavam suas músicas no som da sala – canções que iam de Maria Creusa e Roberto Carlos até cantores diversos da Motown, passando necessariamente por Frank Sinatra, Charles Aznavour e Elvis – e cada um preparava um prato do almoço, com seu copo de cerveja à mão, que bebericavam e que provavam um nos lábios do outro, nas bitoquinhas que trocavam quando achavam que não estávamos olhando. Nestes dias, o almoço sempre saía mais tarde, mas mais gostoso.

    Minha mãe era constantemente pinicada pelas amigas, devido ao costume que ela tinha de se referir a meu pai como “meu marido lindo”. Em vez de ficar aborrecida com as piadas das amigas, ela dava de ombros casualmente e dizia que “ele era lindo mesmo…”.

    Meu pai era um homem das antigas, sempre exigiu decoro e boas maneiras de nós, sempre reforçou os valores de família e de comportamento cristão, mas nunca foi maldoso com ninguém, nem preconceituoso. Ele me contava das peripécias de solteiro, quando passeava com seu irmão mais velho pelos spots noturnos mais… eh… alternativos de Porto Alegre. Ele contava que, recém-casado, passeava pela Rua da Praia com minha mãe quando encontrou um destes velhos amigos, um negão imenso e de aparência assustadora que era leão de chácara de uma casa de má reputação. O negão o saudou carinhosamente com um “Oi, Betinho”, para susto de minha mãe. Papai se divertia com o susto da noivinha inexperiente, mesmo muitos anos depois da morte dela.

    No final de sua vida, depois de vir morar com as filhas, meu pai continuou a dar mostras de ser uma pessoa acolhedora com todos que freqüentavam nossa casa, apesar de sua formação tradicional. Conheceu muitos amigos nossos, e ficou especialmente próximo de um que tinha um namorado firme. Os dois rapazes vinham visitar-nos regularmente, quase sempre juntos, mas quando este meu amigo chegava à nossa casa desacompanhado, papai perguntava com uma carinha marota onde estava “seu fiel escudeiro”, e dava uma piscadinha no final.

    Minha mãe era uma pessoa tão carinhosa, distribuía afeto e cuidado com tanta generosidade, que nos colocava em situações inusitadas. Ela faleceu na madrugada de 13 para 14 de maio de 1986, o que fez com que meu pai voltasse para casa durante a noite e não permanecer com ela no hospital até de manhã, como estava sendo o costume. Cedinho, quando levantamos, antes de meu pai descer as escadas para tomarmos o café, encontrei a equipe de taifeiros da casa oficial que morávamos toda perfilada, e o copeiro-chefe, Seu Everaldo, perguntou, em tom cauteloso: “Sue, como está Dona Maria Helena?” Quando eu respondi que agora ela estava bem, nos braços da Virgem Maria, toda a equipe – composta de homens barbudos, maduros, pais de família – começou a chorar copiosamente, o que tornou necessário que eu e minha irmã adolescente ficássemos algum tempo a consolar todos eles. A cena mais tocante foi ver o cozinheiro – um tipo grandalhão que era apelidado de “vaqueirão” e que usava como multiprocessador uma peixeira imensa – chorando, inconsolável, abraçado com o filtro. Muito mais gente que apenas eu e meus irmãos ficou órfã naquele dia…

    Meu pai era um chefe rigoroso, da mesma forma que era um pai rigoroso. Exigia muito de todos nós. Entretanto, nos dois lados de sua vida, ele nunca pediu nada que não estivesse preparado para dar em troca, e nunca pedia que fizéssemos algo que ele também não fizesse. Era justo, carinhoso, e conquistava a lealdade dos filhos e dos subordinados igualmente. Igualmente estava preparado para lutar por ambos.

    Quando morreu, deixou um legado de respeito por onde passou, e fiquei feliz de escutar de um ex-subordinado seu de muitos anos atrás que ele era “uma referência” até hoje. Realmente, nunca vi meu pai cometer uma injustiça com subordinados, e toda vez que discutimos era apenas porque ele não conseguia entender com muita clareza esta mistura de doçura saturnina que eu sou.

    Tive pais assim: amorosos, rigorosos, alegres, felizes, amigos um do outro e de nós, severos na cobrança da retidão de comportamento, rápidos em ajudar a quem quer que pedisse sua ajuda para uma causa justa. Eles não estão mais aqui, presentes em corpo. Estão presentes, no entanto, em cada pensamento meu, em cada objeto de minha casa, em cada história relembrada.

    Meu pai, minha mãe, não se preocupem. Eu lembro. Eu nunca vou me esquecer.

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