Archive for abril, 2014

  • A Caminho de Casa

    Date: 2014.04.26 | Category: contos, plantas, vida interior | Response: 0

    Ele pegava o metrô para o trabalho todos os dias. Sempre pelo mesmo caminho, ida e volta, passando por aquela figueira imensa, barbuda e sombria, a um quarteirão de casa. Era, para ele, um eterno desagrado aquela árvore; na ida o símbolo do desencanto com o trabalho que não gostava, na volta o marco do cansaço, o ponto onde ele sempre suspirava e pensava “mais um quarteirão e estou em casa”.

    Era uma árvore centenária e mal-humorada, se é que árvores têm humor. Sombria, escura, parecia saída de um pântano de filme de terror, as grossas raízes tomando conta da calçada, as folhas verde-escuras tapando o sol acima, as folhas amarelas e caídas atrapalhando o passo abaixo. Todo dia, duas vezes por dia, ele a olhava descontente, quase tão soturno quanto ela, e se cruzavam com um grunhido e um farfalhar de asas – porque os pássaros da região pareciam não compartilhar da má impressão que ele tinha daquela árvore, e nela construíam ninhos, tranquilas e satisfeitas. Mas, para que haja uma história é preciso que algo aconteça, e aconteceu.

    O Rio tem as suas tempestades, e naquele dia teve uma delas — das grandes, cheias de ventos, raios e inundações. A esposa já ligara durante a tarde, avisando que tomasse cuidado na volta, as ruas estavam alagadas. Ele saiu do escritório no Centro, antevendo a corrida de obstáculos habitual dos cariocas nos dias de chuva: pulando poças e disputando marquises enquanto duelavam com seus guarda-chuvas. Sem muitos problemas chegou no metrô, e suportou conformado o empurra-empurra da hora do rush. Um assento finalmente vagou para ele na última estação antes da sua, mas ele o ignorou – o curto tempo que sentaria só teria o efeito de amaciar o corpo e tornar a corrida até em casa mais sacrificada no meio da chuva.

    Aliviado descobriu que já não chovia na sua vizinhança, o vento havia levado as nuvens pesadas para o outro lado do morro (sempre há um morro à vista nesta cidade, pensou ele meio sem saber porquê). Fechou o guarda-chuva e observou da saída da estação se seria um trajeto penoso, se valia a pena fumar um cigarro e esperar os outros passageiros dispersarem. Com um olhar rápido percebeu que a água do chão já secava, aumentando a umidade do ar e a sensação de calor. Decidiu guardar o cigarro para fumar na janela de casa.

    No caminho de volta, a surpresa: uma equipe do Departamento de Parques e Jardins trabalhava diligentemente para remover a figueira, que caíra durante a tempestade. Ele parou um instante para olhar os trabalhos, sem saber se a árvore caíra pela força da chuva e do vento ou apenas por puro cansaço de viver. Talvez, ele pensou com um riso curto, ela tenha se suicidado por pura maldade, apenas para derrubar espetacularmente os três postes que ele via no chão, até que o riso se transformou em gemido, ao pensar nos lances de escada que teria de subir se o prédio estivesse sem luz.

    Desistiu de olhar os funcionários da prefeitura recortarem o tronco caído da árvore morta e terminou o trajeto até sua casa, tornado um pouco mais longo e difícil pelas escadas que foi realmente obrigado a subir. Escutou o relato da esposa, irritada pelas quase 12 horas sem energia, desistiu totalmente do cigarro (estava mesmo tentando parar) e tomou seu banho à luz de velas antes de deitar. Tanto melhor a falta de luz, pois assim ele dormia mais tempo sem assistir aos noticiários deprimentes da TV.

    Dormir cedo fez com quem ele acordasse antes do despertador e da esposa, coisa rara para quem se arrastava a contragosto para fora da cama toda manhã. Resolveu que o cigarro adiado de ontem podia ser fumado esta manhã, antes que a mulher acordasse para reclamar do cheiro. Pegou o maço, o isqueiro, o cinzeiro e apoiou os cotovelos no peitoril da janela da cozinha. Foi aí que ele viu o buraco.

    A paisagem da janela estava drasticamente alterada pela ausência daquela árvore. Inesperadamente, sentiu aquele vazio dentro do peito também. Sozinho e de cigarro na mão, enfrentou a realidade que as coisas MORREM mesmo, quando chega a hora, mesmo figueiras centenárias. E a morte é uma coisa boa, que tem o seu papel. Tudo o que vive mais que deveria — e isto às vezes acontece — se transforma em fonte de aborrecimento e desgosto. A figueira partira e sua partida abrira um pedaço de céu que não existia antes na sua janela.

    Terminou o cigarro e acendeu mais um, recebendo da esposa já desperta uma caneca de café forte e quente, e um resmungado “mas você não tinha parado de fumar?” Ele sorriu e disse “verdade” enquanto apagava o cigarro. Talvez fosse mesmo o último, subir as escadas ontem o deixou totalmente sem ar. Voltou a olhar a janela, enquanto tomava a bebida fumegante da caneca. Escutava atrás de si as idas e vindas da mulher arrumando a mesa do café da manhã; sorvia sua bebida e olhava para fora, pensando no buraco de céu onde antes havia uma figueira. A mulher, já tomando seu próprio café sentada à mesa, avisou que ele estava se atrasando para o trabalho.

    Pousou a caneca na pia.

    Saiu da cozinha traçando uma linha reta até o telefone.

    Discou o número que sabia de cor, depois de tanto tempo.

    O sinal de chamada tocou uma vez, tocou duas.

    “Alô. Escritório de advocacia, bom dia.”

    “Maurício, sou eu.”

    “Fala rapaz! Não vem trabalhar hoje?”

    “Não vou trabalhar mais. Eu me demito.”

    “Ahn!?”

    “_”

    Ao sentar diante da esposa de queixo caído, pensou na modernidade e como era anticlimático não colocar com firmeza o telefone no gancho… Aquele CLICK fazia falta. Nem tudo precisava morrer, afinal… Com um sorriso maroto e aliviado, pediu à mulher estupefata:

    – Me passa a manteiga, por favor.

  • A Rosa e os Espinhos

    Date: 2014.04.14 | Category: amor, espírito, vida interior | Response: 2

    Ela andara só por toda a vida. Como nunca tivera o que verdadeiramente chamar de seu e nunca realizara o destino que desejara para si, ela cobiçava. Cobiçava o destino alheio. Assim é a vida… Quando por muito tempo o caminho trilhado é só, nos parece que só resta espiar, maravilhado e faminto, aqueles caminhos que são compartilhados – daqueles que tiveram a chance do amor verde, tenro e frutificado. Companhia, por isso, parecia a ela o maior dos tesouros. Nunca lhe viera fácil companhia de qualquer tipo. Era simples saber o porquê: nunca fora mansa, não era mansa e duvidava de um dia vir a ser mansa.

    Desde cedo só, testando forças e resistências sem apoio e sem ajuda, percorrera a maior parte do caminho em companhia apenas do vento e de seus pensamentos. Aprendera a solidão e a solidão a fortalecera, pois as dificuldades da vida, quando acompanhadas da solidão, quebram ou fortalecem. Ela certamente se fortalecera, e não só isso. Ela se mantivera isolada, indomada e altiva, cavalo selvagem e livre que não aceita arreio, com o temperamento afogueado e guerreiro como o dos melhores puro-sangue. O fogo e a força a mantinham trilhando, confiante, os caminhos difíceis demais para os mais fracos.

    Mas era preciosa a companhia. Ela a queria. A cada sinal da possibilidade de encontro – que ela sempre desejara livre, forte, afogueado e intenso como ela – ela parava. Muitas e muitas vezes ela se perguntara se era Ele quem chegava, aquele que andaria parelho com nela no seu passo veloz, sem tentar frear a velocidade ou fugir do desafio. Aquele que ela sabia ser tão forte quanto ela (ou mais, mais forte, desejava ela), mas que não utilizasse esta força para coagir ou impedir. Este seria o amor que a impeliria a enfrentar caminhos ainda mais únicos, mais difíceis e ermos, mais cheios de realização pessoal. Era Ele quem traria, por contraste e complemento, aquilo de melhor que ela era.

    Sempre, no entanto, a miragem se desfazia em algum momento, e ela via que, em vez dEle, havia um potro jovem pedindo proteção, um manso jumento que não tinha a menor idéia do que fazer com ela além de admirá-la, às vezes até um pangaré que à distância parecia mais do que era.Ela suspirava e olhava em volta, perguntando ao vento onde Ele estava, antes de partir mais uma vez num caminho só. O vento jamais lhe respondera.

    Tudo isso a tornara arisca. Exposta a muitos perigos sozinha, algumas vezes tomada de assalto e largada na beira da estrada quebrada e ferida, ela se erguia, uma vez e mais uma vez e mais uma outra ainda, para com um suspiro cansado voltar a carregar seus tesouros e suas chagas na esperança de poder depositá-los um dia, aliviada, aos pés dEle. Como ela percebia intensa a cura de saber que a grande distância que a levaria até Ele seria a mesma, até menor que o caminho que Ele percorrera. Que felicidade seria passear pela primeira vez nos amplos salões de uma vida que não foi projetada a dois, mas que foi preparada para este encontro. Óleos perfumados, presentes mútuos, jardins murados e alcovas secretas, tudo há muito guardado para este momento. Ela cobiçava, andava e meio impaciente esperava.

    Aos poucos a impaciência virava serenidade, a cobiça virava contemplação, e ela percebia que não, apesar de ser preciosa, a companhia não era a coisa mais preciosa que havia. Havia algo maior.

    Dentro de seu coração sem porteira e sem barreira, dentro de sua alma sem casca e sem proteção, lá no interior de sua morada havia um anjo com espada flamejante protegendo a entrada de um jardim vazio a não ser por um único banco de pedra; pairando sobre este jardim havia um coração em fogo coroado de espinhos que gotejava lentamente um sangue rubro e vivo, que regava uma única rosa rubra e viva que crescia por trás do banco, no meio de um imenso arbusto de espinhos. Ela senta no banco de pedra, finalmente entronizada em si mesma e n’Aquele que realmente importava mais que sua altivez, que sua força, que sua liberdade. Vagarosamente o arbusto de espinhos cresce e toma conta de todo o jardim, dificultando até mesmo a visão do anjo lá fora.

    Ao deitar no banco de pedra surpreendentemente confortável e acolhedor, e adormecer junto à sua rosa rubra, presente do grande coração de seu Mestre e verdadeiro amor de sua vida, ela suspira baixinho: Senhor, fico convosco; se Ele ainda vem, então que me busque aqui.

  • Oi!

    Date: 2014.04.10 | Category: alegria, Asas de Borboleta | Response: 4

    Já fiz isso umas tantas vezes ao longo do tempo em que este blog existe.  Chegar de mansinho, tirar a poeira, jogar fora as flores mortas, arrumar tudo bem bonitinho e chamar vocês todos de volta para minha casa.  Nunca demorei tanto, mas estou de volta. Que seja uma coisa boa, este voltar.

    Bem vindos ao Asa de Borboleta versão 2014. 🙂

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