Archive for janeiro, 2016

  • Rabiscos

    Date: 2016.01.19 | Category: Asas de Borboleta, contos | Response: 0

    Miriam não se considerava escritora, ela rabiscava. Tinha sempre na bolsa um bloco de papel de onde tirava papeluchos para escrever pequenas notas — no ônibus, no metrô,  na recepção do consultório do dentista, no salão de cabeleireiro. Qualquer coisinha que chamasse a atenção merecia uma anotação num pedacinho de papel.  Chegando em casa, retirava da bolsa aqueles papeizinhos amassados e os colocava mais ou menos organizados numa caixa de papelão que viera com um antigo presente de aniversário.

    Logo, precisou comprar uma caixa maior, depois duas. Já estava na terceira caixa. Os amigos, curiosos, queriam saber o que tinha escrito lá.  “Cacos”, ela respondia. A resposta não satisfazia, e a curiosidade não satisfeita virou pressão. “Quando você vai nos mostrar o que tem lá?” “A gente quer ver, oras, que bobagem esconder!” Um dia, cansada do assédio constante,  pegou três papeizinhos, um de cada caixa, e os apresentou numa reunião de amigos. Não queriam ler? Pois ali estava.

    Os rabiscos de Miriam passaram de mão em mão, por toda a sala. O silêncio foi aumentando. Aumentando e se alongando. Finalmente, o melhor amigo de Marisa disse, resumindo o que parecia ser o sentimento de todos:”Não entendi.”

    “É por isso que não mostro.” respondeu Miriam. Sem mais, recolheu os três papeluchos e os retornou às suas caixas.

    No dia seguinte, um domingo, ela saiu de manhã bem cedo com sua cachorrinha Menina, uma cesta de lanche e as três caixas.  Levou Menina de carro até a Floresta da Tijuca, sentou num lugar sossegado e tirou as caixas da sacola. Um por um, ela leu em voz alta para Menina todos os rabiscos. Menina escutava atenta, aqueles olhos de mel cheios de amor pela dona.

    Miriam lia, sorria e perguntava: “Que tal?” Menina sacudia a cabeça para um lado ou para o outro, tentando entender o que a dona queria. Se fosse para a direita, Mariana fazia pequenos barquinhos de papel e colocava de volta na caixa, se para a esquerda, ela picotava em pedacinhos e colocava na outra caixa. Se não houvesse reação, ela fazia bolinhas e guardava na terceira caixa. Logo Menina desinteressou-se da brincadeira, aliviou-se numa árvore e deitou-se aos pés de Miriam para roer seu brinquedo favorito.  A dona passou então a ler para si mesma e metodicamente produzir barquinhos, picotes e bolinhas.

    Já era tardinha quando Miriam acabou a leitura. O lanche consumido, Menina alimentada e dormitando na grama fresca. Alguns passarinhos, atraídos pelo som ritmado da leitura, levantaram vôo e foram procurar o que fazer.  Miriam pegou as caixas e procurou uma mangueira centenária. Com a ajuda de uma ferramenta pega na mala do carro, cavou um buraco fundo  ao lado da raiz grossa, com a ajuda entusiasmada de Menina. Ali deitou todas as bolinhas e tornou a cobrir o buraco com a terra remexida.  Menina queria cavar de novo, mas Miriam a levou de volta para o carro.

    Parou na entrada do Parque Nacional da Tijuca, na área das churrasqueiras. Lá, escolheu uma que ainda estava incandescente da farra domingueira dos frequentadores do parque e queimou os picotes.  As duas caixas vazias ela deixou na área de lixo reciclável do parque. Partiu na direção da Barra.

    O final de tarde estava lindo, a brisa agradável, o mar meio agitado. Trancando o carro, levou menina e a última caixa para a areia. Logo, uma frota de barquinhos de  papel navegava rumo a alto mar. A caixa vazia voltou para o carro cheia de pedaços de conchinhas. Pelo visto, pensou com um sorriso torto, continuo colecionando cacos. Voltou para casa com a cachorrinha profundamente adormecida no banco de trás, tirou definitivamente o bloquinho da bolsa e ligou o computador.

    Naquele mesmo ano, lançou seu primeiro livro.

     

     

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