• Date: 2003.08.30 | Category: vida interior | Tags:



    Doçuras

    Eu sou uma pessoa que gosta de e acredita em acarinhar sempre que possível. Faz parte do meu temperamento, da minha criação e das minhas convicções religiosas. É, esta palavra forte mesmo. Estou convicta que é só através do amor que nos aproximamos de Deus. Que nos tornamos um pouco como ele, por mais pálida que seja a cópia. Aprendi esta lição muito cedo, através do sorriso de minha mãe, e a lição foi reforçada no Colégio Marista de Brasília, onde estudei o primário e o ginásio – sim, eu sou da época que as pessoas chamavam o ensino fundamental de primário e ginásio.

    Havia um irmão diretor do colégio que todas as crianças adoravam, o irmão Egídio. Durante o recreio, o irmão diretor fazia questão de comprar sacos de pipoca no pipoqueiro da escola e distribuir entre as crianças. Enquanto distribuía, conversava gentilmente conosco, às vezes acompanhado do carneirinho que era o mascote da banda do colégio. Eu especialmente o adorava, tanto que nunca esqueci seu nome, apesar de ter a memória particularmente fraca para nomes. Foi com este irmão marista que aprendi que o Beato Marcelino Champagnat, fundador da ordem marista, tinha uma frase que gostava muito de repetir: “Uma colher de mel atrai mais moscas que um barril de vinagre.”

    Não é que o beato tinha razão? Durante toda a minha vida, em situações várias, um sorriso, um baixar de armas, um pedido de desculpas, um elogio, uma lágrima de arrependimento, um gesto de paz tiveram mais efeito que todas as palavras duras reunidas. Muitas vezes já não é mais possível ou desejável, no entanto, retroceder no que se disse, e a amargura do vinagre do desentendimento supera a doçura do mel da amizade. Estas situações sem volta carrego comigo como cicatrizes da alma. Situações em que falhei em agir com acredito e como sei que deveria. Mas Deus sabe do meu coração, e entende minhas imperfeições, como entende as de todos nós.

    Mas sou uma pessoa abençoada. Para cada colher de amargor Deus me envia um barril de doçuras. Amigos inesperados, pessoas mágicas que se aproximam de mim de forma surpreendente, criando elos fortes de amizade onde nada havia antes. Para cada uma destas pessoas eu peço todos os dias a Deus que envie doçuras de volta, e tento ser eu mesma fonte de tal doçura.

    Para as pessoas que me trazem travos de amargor à boca, já que não possuo santidade suficiente para devolver doçura, procuro ser apenas… nada.

    Agradecimentos ao meu querido amigo Ruy Maia Freitas, do blog Despoina Damale, que graciosamente enviou arquivo com a informação que o Beato é hoje São Marcelino Champagnat. Que São Marcelino Champagnat proteja e ampare a mim, ao Ruy e a todos os professores…