• Date: 2003.09.24 | Category: luta | Tags:

    Porque é que as pessoas vão às ruas vestidas de branco, falando de “PAZ”? Ninguém quer paz. As pessoas que saem às ruas querem desabafar alguma perda pessoal, passear, namorar, aproveitar o dia ou apenas tentar ver algum famoso, mas não pensam nem agem como se quisessem paz.

    Querem um exemplo? Este sábado, com continuação na segunda-feira, houve uma cena — das muitas que têm sido transmitidas pela Rede Globo na novela do doente e misógino Manoel Carlos — onde uma esposa é espancada brutalmente com uma raquete de tênis. Como a esposa é a belíssima atriz Helena Ranaldi, ela não vai parar no hospital, nem fica desfigurada ou com lesão permanente na coluna vertebral, apesar de ter apanhado nas costas.

    Entretanto, fica o exemplo. Fica a mensagem subliminar que espancamentos não têm consequências físicas. Que abusos deste tipo são suportáveis ou suportados em silêncio. E que maridos podem bater em suas mulheres, já que este personagem tem feito isto repetida e publicamente, sem que nenhuma pessoa da novela dê um pio a respeito. Sem que haja também um pio de protesto das senhoras donas de casa que assistem à novela.

    Pois eis que esta manhã minha faxineira chega em minha casa abatida com a morte de sua amiga Rosa. Como morreu Rosa? Estraçalhada pelo marido ciumento, de quem tentava se separar, e com quem voltara a morar sob ameaças, por puro medo. Morreu recebendo machadadas na cabeça, enquanto seu filho dormia. O “marido” está foragido, e coube ao menino ir à delegacia anunciar o assassinato de sua mãe… cometido por seu pai.

    Meus leitores dirão que estas coisas acontecem todos os dias, que a intenção deste autor nojento — é, Manoel Carlos, você é NOJENTO — é justamente denunciar espancamentos de mulheres. Se isto é verdade, e estas cenas não são a versão global do que fez Gugu Liberato em busca de Ibope, respondam queridos leitores a estas perguntas:

    1. Porque é que as cenas de espancamento são tão explícitas e repetidas, e porque a punição deste homem ainda não ocorreu?

    2. Porque é que a atriz não mostra sinais visíveis de espancamento, se o objetivo é chocar a sociedade para que ela se mobilize?

    3. Porque é que o senhor Manoel Carlos, autor, e senhor Ricardo Waddington, diretor da novela e marido da atriz que recebe os espancamentos em cena, não estão recebendo o mesmo tratamento que o senhor Gugu Liberato, por incitar crimes?

    Qualquer autor de fábulas poderia explicar a esta anta que escreve novelas que a impunidade é estímulo para prática do crime, e um texto com intenções moralistas ou de protesto deveria mostrar quase que imediatamente algum personagem — mesmo que não a pobre esposa espancada — tomando providências legais para a proteção da vítima.

    Mesmo achando que o senhor Gugu Liberato passou de todos os limites do razoável ao “simular” uma entrevista com criminosos, o autor e o diretor desta novela têm repetidamente ido além, mostrando atitudes criminosas sem qualquer consequência. Estes, sim, incitam ao crime contra a mulher, e não acho que tenha sido mera coincidência que Rosa tenha tido seus miolos espalhados pela sua cama apenas um dia depois destas imagens chocantes. E, por favor, não vamos usar o argumento gasto de que é ficção. Qualquer ator de novelas sabe que, no imaginário popular, a fronteira entre a realidade e a ficção desaparece.

    O que Manoel Carlos escreve é criminoso, o que o senhor Ricardo Waddington produz em vídeo é mais criminoso ainda. Vamos aproveitar o que acontece com o senhor Liberato para pensar com mais cuidado na influência maléfica que o sensacionalismo e a busca pela audiência têm tido na televisão e na sociedade brasileira.

    Hoje, o sangue de Rosa mancha a mão de três homens. Que ela descanse em paz, pobrezinha, e que estes três homens recebam o castigo que merecem.

    CHEGA!!!