• Date: 2003.11.17 | Category: espírito, luta, vida interior | Tags:

    Quando perderes o gosto humilde da tristeza…

    Manuel Bandeira

    Quando perderes o gosto humilde da tristeza,

    Quando, nas horas melancólicas do dia,

    Não ouvires mais os lábios da sombra

    Murmurarem ao teu ouvido

    As palavras de voluptuosa beleza

    Ou de casta sabedoria;

    Quando a tua tristeza não for mais que amargura,

    Quando perderes todo estímulo e toda crença,

    – A fé no bem e na virtude,

    A confiança nos teus amigos e na tua amante,

    Quando o próprio dia se te mudar em noite escura

    De desconsolação e malquerença;

    Quando, na agonia de tudo o que passa

    Ante os olhos imóveis do infinito,

    Na dor de ver murcharem as rosas,

    E como as rosas tudo que é belo e frágil,

    Não sentires em teu ânimo aflito

    Crescer a ânsia de vida como uma divina graça;

    Quando tiveres inveja, quando o ciúme

    Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;

    Quando em teus olhos áridos

    Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas

    Em que se amorteceu o pecaminoso lume

    De tua inquieta mocidade:

    Então, sorri pela última vez, tristemente,

    A tudo o que outrora

    Amaste. Sorri tristemente…

    Sorri mansamente… em um sorriso pálido… pálido

    Como o beijo religioso que puseste

    Na fronte morta de tua mãe… sobre sua fronte morta…