• Súplicas

    Date: 2004.05.05 | Category: Asas de Borboleta, pai, vida interior | Tags:

     

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    A Suplicante de Camille Claudel

    Há 23 anos atrás meu pai me disse uma frase que eu nunca esqueci… estávamos no carro sozinhos, eu não me lembro o contexto. O que falamos antes e depois está completamente perdido para mim. Lembro apenas desta troca de frases, que até hoje me impressiona pela rapidez e intensidade com que dissemos coisas tão difíceis.

    Meu pai, enquanto dirigia para casa, algumas centenas de metros antes de virarmos a esquina de nossa rua, disse esta frase: “Filha, POR FAVOR, vê se cria uma casca logo, se não você vai sofrer demais na vida.” Eu lembro que baixei os olhos, com um certo pudor de estar falando de assuntos tão íntimos com meu pai, pois era com minha mãe que costumava fazer isto, e respondi: “Ah, pai, se eu soubesse como…”

    Estas frases curtas são as minhas maiores verdades, as frases que foram repetidas de forma mais complexa ao longo de toda a minha vida adulta até agora. Amigos, amigas, namorados, irmãos, todos de alguma forma me recomendam “criar uma casca”, aumentar a distância entre meu coração e o mundo. A minha resposta ainda não mudou – se eu ao menos soubesse como…

    Desde muito nova, nunca pude resistir a um suplicante. Eu, que era uma menina que tinha todo o conforto e o carinho, era irresistivelmente fascinada pela carência alheia. Enquanto meus irmãos barganhavam ferozmente com minha mãe – que ao final de cada ano nos fazia separar os brinquedos mais antigos para doar ao orfanato das irmãs de São Vicente – eu tinha de ser freada, pois sempre queria dar pelo menos um de meus brinquedos mais caros ou mais bonitos. Eu nunca entendi o conceito de caridade como sendo “dar o que sobra”; eu sempre quis dar aos outros o que tinha de mais caro e bonito.

    Enquanto se tratava de coisas de criança, minha mãe me freava. Logo, no entanto, descobri que tinha uma riqueza maior, que falta a tanta gente, mesmo as mais endinheiradas e as mais nobres: eu possuía e possuo uma riqueza afetiva, uma segurança profunda vinda do grande amor que recebi de meus pais, uma felicidade interna que pode até ser abalada com alguns cataclismas da vida, mas nunca desmorona. Esta riqueza é cobiçada por muitos, e muitos fazem uso dela, com a minha permissão, mas poucos dão a ela o valor que merece. E muito cedo minha mãe não estava aqui para me ensinar que não se joga pérolas aos porcos…

    Eu as jogo. Aos porcos, aos passarinhos, aos gatos, às plantas, às pessoas de todo o tipo. O espantoso é que os pássaros, gatos e plantas devolvem generosamente as pérolas que recebem, multiplicadas. Descubro muitas vezes que são as pessoas que intimamente desprezam o presente dado com tanta facilidade, e as jogam no lixo da primeira esquina. Mas existe dentro de mim esta mola que me impulsiona a achar e a tentar tocar em uma sala de aula o coração do aluno mais inseguro; a amar com muita intensidade os amigos que menos entendem o que é amar; doar do meu tempo e da minha atenção muito, muito mais que deveria.

    Um dia, numa exposição, eu vi uma mão estendida em súplica. Era uma mão de cobre, apenas uma mão, deitada sobre o feltro escuro de uma vitrine de museu. uma mão em concha, os dedos levemente arqueados e separados, a palma escura parecia pedir que eu depositasse ali a pérola mais preciosa. Talvez fosse o estudo inicial para as mãos da estátua acima, talvez Camile apenas estendesse, mais uma vez, e uma outra, por toda a eternidade, a todas as pessoas à volta, a própria mão eternamente vazia.

    Aquela mão me manteve parada em frente àquela vitrine, as pontas dos dedos estendidas em sua direção, minha palma ardendo para tocar aquela palma vazia, encher de calor aquele metal frio. As enormes esculturas à volta desapareceram, exceto a da mão vazia e a da suplicante. Eu chorei, porque percebi que a sensibilidade profunda daquela mulher não tinha o respaldo da estrutura que eu tinha, e a pobre Camille sem casca naufragou na dor e na loucura.

    Eu, ainda sem casca, mas fortemente armada e protegida pelo Amor, sobrevivo.

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    Camille Claudel