• Contos de Fadas

    Date: 2004.06.13 | Category: Asas de Borboleta, contos, encantamento | Tags:


    Greg Olsen

    – Tia borboleta, tia borboleta!
    – Sim, crianças?
    – Conta uma história?
    – Conto sim. Todo mundo preparado?
    – SIM!
    – Pois muito bem:

    “Era uma vez um conto de fadas às avessas. Desta vez, não era a princesa que ficava presa numa torre, mas sim um príncipe encantado que estava preso num labirinto. Durante um longo tempo ele esperou encontrar sozinho a saída de lá, mas em vão.

    Um belo dia, uma princesa peregrina passou ao lado da grande muralha de pedra que cercava o labirinto, e escutou o lamento do príncipe, que chorava através de sua flauta. O som a fez parar e escutar. Logo, ela começou a cantar do lado de fora do labirinto, e foi o príncipe que se quedou a escutar. Enfim, começaram a fazer música juntos, mas a muralha de pedra encantada que o aprisionava reagiu, e a hera que a cobria criou enormes espinhos pontiagudos, e a princesa foi obrigada a se afastar.

    Sentada debaixo de um grande carvalho, a princesa recostou no tronco centenário e pensou. E pensou, e pensou. Finalmente,erguendo a mão, arrancou três fios de seu cabelo vermelho, e com eles teceu o que parecia o corpo de um pássaro, sem asas. Tendo feito isto, a princesa pensou no cárcere frio que aprisionava aquele nobre príncipe, e duas grossas lágrimas caíram de seus olhos. Ao cair, as duas lágrimas se transformaram em duas grandes plumas brancas. Estas ela espetou, uma de cada lado do boneco tecido com seus cabelos, nos lugares onde haveria asas em um pásaro.

    Em seguida, a princesa pegou este curioso boneco em suas mãos, trouxe-o para bem perto de seu rosto e sussurrou-lhe palavras, baixinho. Pousando-o na grama, tirou de seu vestido um broche que enfeitava o vão entre seus seios, e com ele espetou seu dedo. Três gotas de sangue caíram sobre o boneco, que tornou-se um lindo pássaro vermelho de asas brancas e alçou vôo em direção ao labirinto.

    O príncipe, que nada conseguia enxergar além da muralha de seu labirinto, achava que tinha tido um sonho, que apenas em sua imaginação escutara a voz de um anjo a acompanhar sua flauta. Deprimido, sentado na grama entre lindas flores que não percebia mais, o príncipe apoiava os braços sobre os joelhos flexionados, e descansava a cabeça sobre os braços. Quando o pássaro começou a cantar, numa voz que parecia um som mesclado de sua flauta e a voz que escutara, o príncipe quase não levantou a cabeça, tão convicto estava que era um sonho. Mas o cantar insistente do pássaro acabou por aguçar sua curiosidade, e ele levantou a cabeça. O pássaro começou a instruir o príncipe, com as seguintes palavras:

    – Alteza, é chegada a hora da sua liberdade. A princesa que me criou o espera do lado de fora. Para que consiga sair daqui, é preciso que siga minhas instruções.

    – Instruções?

    – Sim, meu príncipe. Vou pousar em seu braço, e você vai ter de me matar com sua faca. Abra meu corpo e tire meu coração de dentro do peito, segure-o nas mãos. Ele vai se transformar num lindo anel de rubi. Ponha-o no dedo. Minhas asas se transformarão em duas plumas brancas, espete-as na sua boina. Meu corpo se transformará em um cordão mágico, segure-o forte entre as mãos quando ele começar a mexer.

    Dito isto, o pássaro deu um rasante e pousou suavemente no braço do príncipe. O príncipe acariciou a cabeça do animal, hesitante de matar bicho tão lindo, mas com algumas palavras de incentivo do pássaro, acabou por pegar a faca e abrir o peito emplumado. Ao pousar o coraçãozinho do animal, que ainda batia, na palma de sua mão, apareceu o dito anel. O pássaro voltara a ser o boneco tecido de cabelos vermelhos, com duas plumas brancas espetadas como asas.

    Quando o príncipe retirou as plumas e espetou-as em sua boina, o corpo do boneco, esquecido na grama, começou a se retorcer e desmanchar, e os três fios vermelhos começaram a crescer e engrossar, trançando-se e virando uma grossa corda que se movia em direção ao paredão de pedra. O príncipe lembrou do conselho do pássaro mágico e agarrou a corda com as duas mãos. Tornado leve pelas plumas e protegido dos galhos e espinhos pelo anel de rubi, o príncipe foi arrastado para cima e por sobre o muro, cavalgando aquele grosso cordame como se fosse uma serpente marinha.

    Logo estava diante da princesa, o cordame mágico rapidamente diminuindo e transformando-se novamente em três fios de cabelo, que retornaram à cabeça da princesa. Esta o olhava.”

    – E cada um que invente o seu final da história – disse a Borboleta sorrindo.

    – Ahhhhhhhhh!

    – Sinto muito garotada. Cada um vai ter de imaginar o que aconteceu depois.

    Alguns protestos, muita algazarra, as meninas defendendo o final feliz, os meninos imaginando os mais bizarros finais de filme de terror. Logo todos estavam correndo e brincando, a Borboleta e o conto já esquecidos. Todos menos uma: a mais pequenininha, que tinha ficado quieta e arregalada enquanto a Borboleta tecia a trama da sua história, subiu ao colo da Borboleta. Lá, pergutou baixinho:

    – Tia Borboleta…

    – Sim, pequena?

    – Algum dia vou ser capaz de criar um pássaro com meus cabelos?

    – Ah, lindinha, talvez. Mas é ainda muito cedo. Antes, você precisa aprender direitinho a ser muito feliz, para depois então começar a aprender a fazer o pássaro – para fazê-lo você precisa aprender duas coisas difícieis.

    – Que coisas, Tia Borboleta?

    – A primeira você já aprendeu, que eu vi enquanto contava meu conto, querida. A primeira é ter empatia profunda pelo outro. Chorar lágrimas sinceras pela dor alheia. Eu bem vi seus olhinhos molhados hoje – disse a Borboleta dando um beijinho no nariz da menina. Esta sorriu e perguntou:

    – E a segunda?

    – A segunda é ainda mais difícil, docinha. A segunda é aprender a escutar e entender a voz de seu próprio coração. Só quem é capaz de escutar todos os corações é capaz de fazer um pássaro como o da princesa da história. Agora vá viver, brincar, crescer, e um dia me conte o seu final para este conto!

    Com mais um sorriso, a menina se juntou à algazarra soando na distância, e a Borboleta sorriu e fechou os olhos. Num instante, no lugar dela via-se um estranho pássaro vermelho, de asas brancas, com um penacho de plumas coloridas na testa que lembrava curiosamente uma borboleta. Este pássaro levantou vôo e…