• Seixos

    Date: 2004.07.12 | Category: alegria, amizade, encantamento | Tags:

    Ficou a lembrança dos seixos que forram as ruas por onde caminhei: arredondados ou chatos, sempre irregulares; alguns escorregadios, outros pontiagudos; limpos ou cobertos de lodo. Juntos ou afastados, sob meus pés, davam a sensação que era uma cabra montesa escolhendo com cuidado o caminho a seguir, desejosa de manter o equilíbrio e a dignidade da locomoção. Porque o pavimento de Paraty é um desafio para qualquer um que ache que é algo banal andar em linha reta.

    Nestas ruas anguladas, cobertas de antigos seixos e lajotas de pedra, rolava a água da chuva para o meio da passagem, e nas margens dos riachos e lagoinhas improvisados rolavam seixos humanos. Também estes tinham múltiplas formas… arredondados ou chatos, jovens e velhos, educados ou intrometidos, famosos e desconhecidos, elite vestida para a festa ou hippies vendendo seu artesanato espalhado no chão. Era uma babel de sons e cores e caras e jeitos, num murmurar constante de tantos modelos diferentes de seres humanos que chegava a confundir os olhos. Então, o escritor português aparece aos olhos da minha lembrança miscigenado com o povo moreno à sua volta, e o escritor greco-americano aparece mesclado com o negro bonito que passou logo ali.

    Paraty semana passada era feita de seixos, de gente e de letras. Eu me pergunto qual foi o impacto disto neste lugar, bem queria saber o que pensam as pedras e as gentes de Paraty, tendo visto passar esta multidão esquisita, esta centopéia carregada livros debaixo dos múltiplos braços. Queria saber do manso cavalo o que ele acha das senhoras inglesas – de curtos cabelos brancos, pesados óculos de aros escuros, que passam por ele com andar apressado – enquanto ele desfila sua tranquilidade herbívora e arrasta atrás de si os turistas na charrete preta.

    Queria descobrir quais foram os sentimentos desta cidade em que cheguei pela primeira vez e que me acolheu tão bem, neste abraço monárquico e colonial, no aconchego do antigo. Queria mesmo saber se a cidade gostou de ver aquelas alvas e barulhentas naves estelares pousadas ao lado de seu centro histórico… será que gostaram de ver os escritores tanto quanto pareceram gostar de ver os VIPs da mídia que entravam nas filas para assistir às palestras? Já que estou a perguntar coisas, quantos dos nativos de Paraty assistiram às palestras?

    Foram quatro dias de intenso movimento, e eu imagino a cidade agora, em clima de fim de festa, os convidados tendo partido e deixado a arrumação por fazer. Que será que pensam os moradores agora, têm saudades de nós? Em Paraty a chuva caiu, o sol veio e foi, o vento trouxe o calor e o levou embora, mas lá nada consegui descobrir dos enigmáticos seixos que marcham por suas ruas.

    Agora, de volta ao abraço cosmopolita e indiferente do Rio de Janeiro, carregada de adjetivos e metáforas a respeito da coisas que vi e vivi, procuro as respostas dentro de mim.