• Presentes especiais

    Date: 2004.08.30 | Category: amizade, amor, Asas de Borboleta, espírito, mãe, vida interior | Tags:

    Existem alguns presentes que a gente não esquece nunca na vida. Meu primeiro presente assim foi uma passagem de avião.

    Antes que alguém estranhe, uma explicação. Já falei aqui, em vários posts, que perdi minha mãe para o câncer aos 21 anos de idade, depois de cinco anos de muita luta. O que não lembro se já mencionei aqui é que ela passou seus últimos dois anos de vida em Recife, e eu longe dela aqui no Rio. Quando ela entrou no que os médicos chamam de ‘estado terminal’ – quando sua alma começou a se preparar para abandonar seu corpo cansado – ela ficava uma semana de cada mês comigo aqui em casa, para as sessões de quimioterapia. Foi o período em que ficamos mais juntas, eu dormia no quarto com ela, conversávamos feito duas amigas adolescentes, até dormir.

    Mas a última semana de vida ela passou no hospital em Recife onde finalmente descansou. Logo que baixou hospital, meu pai ligou para o Rio e avisou a mim e a meu irmão que ela estava com pneumonia. Para alguém no estado em que ela estava, isto era a última chamada do vôo, e eu sabia. Implorei para meu pai que me mandasse buscar. Eu PRECISAVA estar com ela. Meu pai, provavelmente querendo me poupar, pediu que eu aguardasse notícias. Meu irmão assistia a tudo calado. Quando me viu desligar o telefone e soluçar, ele perguntou se papai ia mandar a passagem. Disse que não e comecei a ligar para os parentes próximos. Ele saiu sem falar mais nada.

    Dois ou três telefonemas depois, volta ele. Com aquela passagem de que falei no início deste texto, comprada com seu salário. Meio envergonhado, pois meu irmão é muito reservado, ele me põe a passagem na mão e diz: “vai, Sue, eu não tenho coragem, mas eu sei o quanto é importante para você.” Importante? Dezoito anos depois, ainda tenho guardado num lugar bem protegido o canhoto do bilhete. Foi a coisa mais bonita que meu irmão podia ter feito, por mim e por ela.

    Muitos anos passaram, e eu tive de substituir de muitas formas em casa a mãe que partira, e isto foi um impedimento concreto de seguir muitos sonhos. Não é uma reclamação, pois se a opção fosse novamente colocada à minha frente, novamente faria tudo o que fiz. Mas é uma constatação realista. Uma das coisas que ficou guardada na gaveta era meu gosto e alegria em escrever. Fiquei muda, por 15 anos. Até que recebi meu segundo presente inesquecível. E este, a pessoa que deu sequer sabe que me deu um presente mais precioso que todas as barras de ouro do mundo. Ele me deu minha voz de volta, com um gesto simples, mas eloquente, de enviar meu primeiro texto para publicação virtual. Um escritor por quem eu tinha o maior respeito e admiração considerou um texto meu bom o suficiente para ser publicado, me tirou de um casulo de anos e me deu incentivo para abrir estas Asas de Borboleta. Alexandre, você nem sabe, mas você me devolveu minha vida, que estava perdida de mim. Este é o segundo presente que jamais vou esquecer. Obrigada.

    O terceiro presente inesquecível foi um xale. Um agradecimento pela amizade, pela lealdade, pela empatia. Um dos gestos mais bonitos que me fizeram, mas não quero falar dele, me dá vontade de chorar.

    Quando eu já considerava que tinha esgotado minha quota de presentes inesquecíveis, quando eu estava fundo num buraco de tristeza, pensando até mesmo em calar novamente minha voz, que não é alta nem é bela como a de outros escritores, mas é fonte direta de força, de felicidade para mim, num mundo onde é raro encontrar fontes destas duas coisas, outro milagre aconteceu. Uma cadeia de pequenos acontecimentos me levou delicadamente pela mão até um blog que pertence a uma pessoa que entende das pequenas coisas que eu entendo: lealdade familiar; caminho diário de trabalho e de luta; vitória conquistada devagarinho, centímetro a centímetro, no meio de muito sofrimento; um coração cheio de amor e de dor. Um poeta.

    Eis que um outro horizonte se abre onde não parecia haver mais nada, e o novo me devolve o antigo, e agora minha vontade é escrever, e produzir, e deixar estar. Levar esta voz até onde ela conseguir alcançar, para me sentir viva outra vez. Rogério, apesar de seu lindo presente estar escrito em meu coração, eu achei que ele se perderia na janela de comentários, e deveria estar aqui. Obrigada, poeta, pela ajuda que você nem sabe que deu. É sempre assim.

    ASA DE BORBOLETA

    Queria dedicar-te um canto
    Nesta terna e longa viagem
    Através da poesia.
    Queria dar-te uma flor
    Que jamais seque algum dia.
    Pois ser feliz é esquecer…
    A amargura do momento
    E só assim a vida é sublime
    Bonita ao mesmo tempo
    Como este mar
    Que nos separa
    Nesta noite amena e calma
    Silêncio! Que o meu luar
    Vai beijar a tua alma.

    Rogério Simões