• Date: 2007.03.04 | Category: Asas de Borboleta | Tags:

    O mundo gira…

    E mais uma vez cá estamos neste mês de março, que acumula suas dores, suas perdas, suas saudades àquelas que ainda estou digerindo, vindas do mês de janeiro. Nesta ocasião em que sou confrontada com tudo aquilo que me foi tirado, que me falta, torna-se necessário olhar com cuidado, ter à mão tudo que possuo ainda.

    Ao longo dos cinco anos incompletos de existência deste meu cantinho na net muita coisa aconteceu… fiz parte de um grupo informal de blogueiros bastante especiais que, mesmo espalhados pelo mundo, juntos se negaram a ceder ao veneno travestido de religiosidade. Fui acusada de tanta coisa, de ter um blog de “menininha”, com conteúdo pouco “literário”. Fui chamada de muitos nomes, doces e ofensivos, ao mesmo tempo “minha borboleta de asas azuis” e “borboleta retardada”.

    Pessoas passaram pela minha vida e pelo meu coração. Algumas ficaram, outras partiram. Às que ficaram devoto meu mais profundo afeto; às que partiram – seja pelos braços inclementes da Morte, seja pelos movimentos inexoráveis da Vida – manifesto gratidão sincera por tudo aquilo de bom que deixaram comigo ao partir.

    Entretanto, a morte recente de meu pai se transformou em um forte foco de luz que me obrigou a olhar tudo isto, parar e refletir. Afinal de contas para que, Pai Eterno, em nome de QUE escrevo neste local ainda, depois de tanto? Porque não deixar o Asa de Borboleta descansar em paz na Internet, como uma princesa encantada em sono profundo?

    A explicação existe, mas é um pouco extensa. Quem já leu meus posts antigos sobre minha família sabe o que minha mãe – que já não está neste mundo há quase 21 anos – significou para mim na costrução da pessoa que sou. Já falei do imenso coração de D. Maria Helena, de seu sorriso iluminado, daquele abraço acolhedor que sempre buscava enlaçar o mundo inteiro. De meu pai falei menos, não por falta do que falar, mas por ainda estar construindo com ele um relacionamento, e por que ainda me perguntava o que dizer exatamente.

    Agora esta dúvida não existe mais. Posso dizer, depois de muita meditação, que meu pai foi um homem de coração tão grande quanto o de minha mãe, talvez maior. Por força das diferentes situações de vida, dos caminhos trilhados, do papel social e moral que ele exercia como Pai e Provedor, seu coração teve de ser escondido e abrigado por trás de peito forte. Este peito aparou, ao longo de 76 anos, pancadas brutais, muitas vezes para impedir que estas pancadas atingissem sua família. Enquanto minha mãe era viva, ele buscava alívio em seus braços. Depois que ela partiu, ele se permitiu apenas a dignidade do silêncio.

    Meu pai era um homem passional com o que acreditava, impaciente com a falta própria e alheia, quando percebia que podia-se ter feito melhor. Ele me ensinou que uma pessoa só pode manter a cabeça erguida sobre os ombros se agir de acordo com seu código pessoal de honra, sem nunca comprometer este código para agradar a outrem. Um amigo que jamais conheceu meu pai, numa conversa comigo, definiu este tipo de comportamento como sendo a atitude do “guerreiro impecável”.

    Pois meu pai tentou toda sua vida ser este Guerreiro Impecável, da mesma forma que minha mãe buscava ser a Mãe Amorosa. Apesar dos tropeços a que todo ser humano está fadado, por esta nossa natureza dual e imperfeita, agora que meus pais se foram posso encher o peito de orgulho e amor, dizendo a vocês com segurança e sem hesitação que ambos foram bem sucedidos em suas aspirações.

    Então, é por isso que permaneço aqui, porque sou filha de meus pais. Defendo o que acredito, e eu acredito na Beleza, acredito na Poesia do dia-a-dia, acredito na Gentileza, acredito no Amor. Não é literatura que busco fazer aqui, apesar de saber que alguns posts bem podem ser considerados “literários”. Eu busco aqui deixar sinais, pequenos e grandes da vida que desejo para mim e para todos que de mim desejem se aproximar.

    O Asa é, portanto, um farol. O que espero deste farol é que ele me atraia muitas Borboletas Azuis, muitos Poetas do Amor e da Dor, muitos Cavaleiros de La Mancha, muitos Guerreiros Impecáveis, muita Mães Amorosas. Quero à minha volta pessoas que – como meu pai, como minha mãe – passem inteiros por este mundo, sem fazer parcerias com os valores dúbios que encontram pelo caminho. Gente diferente de mim, se for o caso, mas que nunca admita que o Mundo as force a ser o que não são. Por isso e para isso o Asa continua.

    Falando ainda de meu pai, há uma canção famosa, de que ele muito gostava, que eu tenho escutado frequentemente. Esta música de certa forma o define, foi esta música que me ajudou a parar de chorar, a parar de tentar manter meu pai neste mundo e deixá-lo partir e seguir seu caminho. Esta música também me ajudou a escrever este longo post, e agora a compartilho com vocês. Senhoras e senhores, o grande Frank Sinatra:

    My Way

    And now the end is near
    And so I face the final curtain
    My friends, I’ll say it clear
    I’ll state my case of which I’m certain.

    I’ve lived a life that’s full
    I travelled each and every highway
    And more, much more than this
    I did it my way.

    Regrets, I’ve had a few,
    But then again, too few to mention
    I did what I had to do
    And saw it through without exception.

    I planned each charted course
    Each careful step along the byway
    And more, much more than this
    I did it my way.

    Yes there were times, I’m sure you knew
    When I bit off more than I could chew
    But through it all when there was doubt
    I ate it up and spit it out
    I faced it all and I stood tall
    And did it my way.

    I’ve loved,
    I’ve laughed and cried,
    I’ve had my fill, my share of losing
    And now, as tears subside
    I find it all so amusing
    To think I did all that
    And may I say not in a shy way
    Oh no, oh no not me
    I did it my way.

    For what is a man, what has he got?
    If not himself, then he has naught
    To say the things he truly feels
    And not the words of one who kneels
    The record shows, I took the blows
    And did it my way.