• Joaquins

    Date: 2007.12.12 | Category: amor, espírito, luta, saudade, vida interior | Tags:

    Os caminhos que a vida traça sem a gente perceber… chega a ser engraçado, se ao menos não fosse tão triste. Uma faxina mais corajosa nos pertences do pai, mais umas sacolas de livros doados à Biblioteca Municipal, e eis que uma figura muito importante do meu passado aparece de fininho, elegante como sempre foi, sem exagero de expressão, quase calado como ele era. Um livrinho escrito por um outro-pai, um homem que me amava e a quem eu amei exageradamente, com coração de filha e de criança. Nunca cheguei à conclusão se ele era um poeta que lutava ou se era um guerreiro que fazia poesia. Ele morreu enquanto eu era jovem demais para descobrir.

    Hoje há outro Joaquim que eu amo, exageradamente como amei meu primeiro Joaquim, mas sem a inocência e o salvo-conduto da infância. Amar na idade madura é tão mais arriscado, tanto calo a ser pisado onde só havia alegria antes… Meu primeiro Joaquim era metade como eu, sensível e apaixonado, se expressava na poesia. Metade ele era como o segundo Joaquim, calado e guardado, desesperançado com o mundo. O primeiro Joaquim morreu de tristeza, ainda muito novo, poeta que era, novo demais, com muita poesia tragicamente por escrever. Deixou de cumprir a promessa-ameaça que jocosamente fazia a meu pai, que era a de me levar, ele mesmo, ao altar e entregar minha mão à um prometido que ainda estava no porvir.

    Teria sido perfeito, tio amado, que você pudesse ter-me levado àquele prometido altar, e entregue sua pequena amiga para um segundo Joaquim, jovem, confiante e livre para me receber diante de Deus e dos homens. Mas este mundo, este mundo que nos rala a pele e nos enche a alma de cicatrizes, este mundo não é perfeito, não é, querido?

    De um Joaquim para outro, passando por dentro do meu coração:

    Amigos de Longos Anos
    (Maj. Brig. Joaquim Vespasiano Ramos)

    Fixei-me no horizonte
    À procura do infinito
    E só a linha do horizonte
    Apareceu-me no infinito!

    Procurei no escuro do firmamento
    A mais bela e distante estrela;
    Escondida no escuro do firmamento
    Estava a mais bela e distante estrela!

    Contemplei, do deserto, a miragem
    Com a esperança de olhos cansados.
    Eclipsou-se, porém, do deserto a miragem
    Para a tristeza dos olhos cansados.

    Esperei as ilusões de um lindo sonho
    No meu sono tranquilo e profundo;
    Recusou-me ilusões o lindo sonho
    Do meu sono tranquilo e profundo!

    Busquei, no âmago do pensamento,
    As alegrias e venturas do passado;
    Nada havia no âmago do pensamento —
    Nem alegrias e venturas no passado.

    Ofereci a mão da amizade
    Ao amigo de longos anos;
    Estendida ficou a mão da amizade
    Sem a do amigo de longos anos!

    Procurei na gota de orvalho
    A lágrima que me falta.
    Desmanchou-se a gota de orvalho
    E a lágrima inda me falta.