• Trajetos

    Date: 2016.12.12 | Category: Asas de Borboleta, Olhares, vida interior | Tags:

    Desperto. Antes mesmo de abrir os olhos, sinto o peso do gato na perna. Como durmo de lado, geralmente virada para o lado direito, ao abrir os olhos vejo a janela do quarto e a estante logo abaixo dela, que guarda meu CD player e meus CDs. Passeio os olhos sonados pelas lombadas das capas, pensando se vale a pena colocar um para tocar, mas as playlists no computador me tornaram preguiçosa.

    Viro de costas e o gato já sai correndo do quarto, prevendo a refeição que virá. Aos pés da cama, o armário, marfim e azul. Gosto deste tom de azul, um pouco mais acinzentado que o azul céu, mas claro o suficiente para ser repousante. Espreguiço e alongo, coisa que nunca mais deixei de fazer desde a terapia com RPG. É um ritual gostoso, meio felino, este de esticar.

    Levanto. Ao lado da cama a bancada do computador e, perto da porta, meu oratório. Faço minhas orações da manhã, geralmente breves, porque há miados insistentes vindos da sala. A caminho do banheiro para outro ritual matinal, saúdo silenciosamente as fotos de família e os livros da estante do corredor. Da porta do banheiro, vejo os quatro gatos espalhados pelas cadeiras da sala, esperando atentos. Lavo o rosto e termino de despertar. Hora do café.

    Faço o trajeto do corredor até a cozinha com escolta felina, dezesseis patinhas seguindo meus pés. Chego à pia e eles se posicionam: uma no banco, outra na prateleira, os dois machos na porta da sala. No caminho, claro, de quem quer colocar a mesa do café. Antes de tentar, desisto, e dou aos gatos o desjejum primeiro. Depois de quinze minutos de atividade frenética, posso finalmente sentir o prazer do cheiro de café sendo coado, arrumar a mesa e tomar uma caneca fumegante.

    Geralmente não compro pão de manhã, sempre tenho algum estoque congelado. Isso me dá tempo de contemplar, sentada à mesa, a vista que tenho da janela, misto de bonita, com um pedaço enorme de céu e as árvores, e feia, suja pelos postes, fios e prédios de arquitetura duvidosa. O sol da manhã carioca costuma ser forte, e o céu muito azul, as tempestades são vespertinas.  A passarada da Floresta da Tijuca sempre visita – as maritacas passam em bando aos gritos, os bem-te-vis discutem a relação nos fios de alta-tensão. Um deles, gorducho e folgado, gosta de pousar no meu aparelho de ar-condicionado e provocar os gatos; se eu levanto e me aproximo, voa rápido dali.

    Depois determinar a segunda caneca de café, é hora de colocar a vida para rodar. Recolho a louça do café até a pia, arrumo o que tenho de arrumar, limpo o que tenho de limpar, sento ao computador para trabalhar.  A minha rua geralmente não me dá bom dia, só um boa tarde meio ofendido pela falta de atenção matutina. Mas é uma rua que eu gosto, muito arborizada, antiga, às vezes o paralelepípedo aponta debaixo de um buraco no asfalto. É uma rua que mostra as gerações todas da Tijuca, com casas centenárias e prédios recém-construídos.

    Descendo a rua em direção à rua principal, cumprimento sempre com o olhar a Casa de Maria Thereza. Esta, ao menos, é a informação em relevo (enquanto escrevo, não consigo lembrar se baixo ou alto), logo abaixo do beiral do telhado, junto com o ano 1914. A casa tem uma fachada estreita, mas como os terrenos na minha rua são fundos, pode parecer menor do que realmente é. É linda como uma casa de contos de fada, branca, varanda com pilares de pedra, as telhas antigas com múltiplas cores, um arbusto profusamente florido tombando por cima do muro alto, concessão da modernidade. Eu sempre me pergunto se aquela mensagem na alvenaria é uma homenagem de um marido amoroso, de um amante, de um filho saudoso, ou se havia ali algum tipo de lar assistencial num passado remoto. Namoro a casa e sigo adiante, porque a vida não espera a gente contemplar.

    Chega o fim da rua, que é uma pequena amostra do que é morar no Rio. De um lado, o comerciante português e sua delicatessen. Do outro, o coreano com sua lanchonete. Em frente, do outro lado da rua principal, o clube judaico. Uns passos adiante, a imensa igreja do tempo do império. Ao lado do marco histórico, a saída (porque saída, se vou entrar? me pergunto sempre) do metrô.

    E desce depressa, que o tempo não para nem espera.