• É o Lobo!

    Date: 2002.09.29 | Category: amizade, espírito, vida interior | Tags:

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    Sou do Exército de Pedro. Quem leu os livros de Monteiro Lobato e o texto de Alexandre Soares Silva no www.digestivocultural.com sabe o que isto significa. Pra quem não sabe, vou dar a minha versão dos fatos. A criança, falando em um sentido (suspiro), bem, existencialista da coisa, é um ser infinitamente superior ao adulto que ela se torna. O que chamamos de “coisa de criança” geralmente é o que de melhor existe no ser humano. Quer alguns exemplos? O sentimento de maravilha diante das pequenas coisas, capacidade de concentração sem esforço, doação absoluta ao que se está fazendo, alegria sem razão de ser, confiança implícita, elasticidade do corpo e do coração. Precisa dizer mais?

    Pois então. Sou do Exército de Pedro. Faço parte daquele grupo de pessoas que luta ardentemente para continuar criança. Mas – ora bolas! – todo mundo olha pra mim e vê que já sou gente grande. Tenho trabalho de gente grande, pertenço a agremiações de gente grande, estudo assuntos de gente grande. Nos últimos vinte e cinco anos ninguém me viu subir em uma árvore ou me jogar do alto de um trampolim ou dar uma estrela. Onde está minha criança? Olhe bem dentro de meus olhos. Não, de longe não. Venha mais perto. Eu ajudo, deixa eu tirar estes óculos de gente grande. Olha bem. Viu o brilho no fundo dos meus olhos? Pois é, esse é o brilho da estrela onde mora minha criança, desde que li O Pequeno Príncipe de Exupéry pela primeira vez. A diferença é que minha criança não tem uma rosa só, tem um jardim fantástico que aprendeu a cultivar com Tistu, O Menino do Dedo Verde de Maurice Druon.

    Mas não pára por aí não. Minha criança tem também uma canastrinha como a da boneca Emília, de onde tira coisas estupendas; e um monte de amigos dos mais maravilhosos: fadas, piratas, crianças que não querem crescer, sereias, deuses do Sol e da Lua, Leões que morrem e vivem de novo, animais falantes, além, é claro, de elfos e hobbits que conheceu na Middle Earth de Tolkien. E uma vitrola de onde saem músicas lindas, e uma estante mágica com livros de ilustrações fantásticos e todas as fábulas que os Irmãos Grimm compilaram, além de – maravilha das maravilhas! – um aparelho de televisão onde só passam cartoons BONS! Josie e as Gatinhas, Os Flintstones, Laboratório do Dexter, Os Impossíveis, Penélope Charmosa e a Quadrilha de Morte, todos desfilam pela tela o dia inteiro, alegrando a vida da minha criança. Essa criança que mora numa estrela que se reflete no fundo dos meus olhos. Sou, definitivamente, sou do Exército de Pedro.

    Quem tem (outro suspiro) mais de trinta como eu, lembra-se de uma penca de cartoons fantásticos da Hanna-Barbera, que infelizmente hoje em dia não passam mais. Eu adorava vários deles, mas dei por estes dias para lembrar do Lobo Bobo. Lembram, balzacas? Aquele lobo magricela que vivia correndo atrás de um carneirinho minúsculo que era protegido por um cão pastor gigantesco com uma franja que lhe cobria os olhos. O Lobo maquinava, tentava de tudo para pegar o petisco lanudo, mas na hora “H” o pequeno gritava “É o Lobo! É o Lobo!” E lá vinha o Cão, e lá ia o Lobo pelos ares gritando “Você não tem esportiva!”

    Muito bom! Como diz o Calvin, gosto de humor físico, tortas na cara e bigornas caindo. Mas a lembrança deste cartoon em particular não é devida ao fato dele ser um de meus preferidos, ou de ter um valor maior que os outros na minha memória. Não. Foi por causa da imagem do carneiro, do lobo e do cão pastor.

    Parênteses

    Tenho um Amigo. Nossa!, dirão vocês, ela tem um amigo! Que chocante! Pois é, tenho um Amigo. O Melhor de todos os amigos. Epa! Espera aí, antes que vocês comecem a levantar e ir embora, não vou pregar nada, não vou pedir dinheiro por uma causa, nem vou falar nada a respeito do meu Amigo. Basta que vocês saibam esta coisa a meu respeito: tenho um Amigo.

    De volta à nossa programação

    Àqueles que lembram do Lobo Bobo, eu pergunto: onde estava o pastor? Víamos o lobo se esgueirando por toda a parte, o carneirinho inocentemente vagando por aí, e a presença atenta e protetora do cão. Mas onde estava o Pastor? Será que ele estava, como o Imperador – Pai do Leão Aslan nas Crônicas de Narnia de C.S. Lewis – “do outro lado do oceano”? Onde andava este Pastor aparentemente tão displicente, que deixa seus carneirinhos à mercê de um lobo faminto? Que Pastor é esse que entrega seu rebanho à própria sorte?

    A questão central é: estava mesmo o rebanho entregue à própria sorte? Não víamos, episódio após episódio, que quando tudo parecia perdido o cão aparecia e triturava o lobo? Esse cão aparecia do nada, e o lobo imediatamente se lascava! Por isso o carneirinho era tão confiante. Ele bem sabia quem o protegia. Ele sabia que o lobo nada podia contra aquele cão. E também sabia que o cão jamais o abandonaria. Bom para um carneiro saber tudo isso, né?

    Carneiros e Lobos

    Outro dia conversava com um amigo – não O Amigo, um amigo, que infelizmente não pertence ao Exército de Pedro, pouco soube o que era ser criança de verdade, e hoje é um adolescente sério, sério, que lê Nietzsche e acha que tudo é em vão – e este me dizia que não acreditava em Deus, que não era religioso por ser por natureza um lobo e não uma ovelha. “Qual o problema em ser uma ovelha?” perguntei. Ao que ele respondeu “Sue, você também não é um a ovelha, apesar de querer ser”.

    Parei tudo. Pensei. É, não sou uma ovelha. Posso ser muitas coisas, mas dentre minhas qualidades ocultas e meus defeitos patentes não se encontra nenhuma característica de ovelha. Não possuo nem um átomo de mansidão, nem sou indefesa, nem fico quietinha quando me levam para o matadouro. Muito pelo contrário, a simples sugestão de tal coisa me faz gritar e espernear feito uma louca. Matadouro uma ova! Eu sou agressiva e intensa, tanto nas coisas que gosto quanto nas coisas que não gosto. Entre o preto e o branco aceito no máximo uns quatro tons de cinza. E deixa alguém me pisar nos calos (metaforicamente, pois não tenho calos de verdade)! O sangue calabrês de minha avó paterna me sobe à cabeça, e aí não me responsabilizo mais. Menos ovelha, impossível. Será que eu sou um lobo?, pensei desolada…

    A opção cão pastor

    Meu amigo já esfregava as mãos e afiava o garfo e a faca, pensando: agora ela está perdida! Não sai desta. Só que eu lembrei de uma coisa. Perguntei a ele: “De onde vêm os cães?” “Como?!?!”, perguntou ele meio confuso. “De onde vêm os cães?” repeti. “Ora, eles vêm dos lobos.”

    Não é que vêm mesmo? Olha só, eu estava tão triste, me sentindo obrigada a optar entre ser uma ovelha, fraquinha, indefesa – e boa – e ser um lobo, forte, astucioso – e malvado. Mas me lembrei que os cães são lobos que escolheram ser fortes, astuciosos – e bons. Esta opção do malvado forte contra o bonzinho fraco é uma mentira. As pessoas são fracas ou fortes – ovelhas ou lobos. Tanto as ovelhas quanto os lobos, uma hora ou outra, têm de escolher se vão ou não ser bons. Se você nasceu lobo, não se desespere. Treine para ser um Cão Pastor quando crescer. E saia por aí protegendo as Ovelhinhas e triturando os Lobos Maus.

    Em tempo

    Aos membros de sociedades protetoras de animais, já declaro logo: o Lobo a que me refiro é o Lobo dos contos de fadas e fábulas. Nestes lugares ele aparece com esta coloração de astúcia mesclada com maldade. Nada tenho contra o animal lobo, que é leal à família e afetuoso com seus filhotes, e se come ovelhas, bem, nós também comemos. Agora, com licença, meu surto de La Fontaine passou e está na hora do lanche. Bom apetite!