• Date: 2002.11.09 | Category: Asas de Borboleta | Tags:

    Eu sou uma borboleta outonal. Por vários motivos. Um deles, talvez o mais importante de todos, é que tenho a noção exata do preço a pagar por ser quem sou. Cedo ou tarde, a questão é que esta lição eu já aprendi. Saber que não se pode ter certas coisas, e que não se pode pagar certos preços, é uma lição que bota você com os dois pés na maturidade. Não há jovem que entenda isso.

    Quando eu era jovenzinha, achava que o mundo era limitado apenas pelo que me era permitido ou não por meus pais. Como todo jovem, achava que eles eram a única barreira entre a Sue e a liberdade ampla, geral e irrestrita. E muitas vezes me impacientava com eles, como um cão que joga seu peso todo na correia, na tentativa de se ver livre dela. Hoje eu sei que a “correia” era para a minha proteção, tanto quanto para a proteção dos outros. Esta lição fica clara quando lemos os jornais hoje, e vemos uma jovenzinha que, para se livrar da correia, arrancou fora a mão que a segurava. E será devidamente tratada como uma “cachorra louca”, Deus tenha pena de sua alma doente.

    A questão é… limites não existem só de sacanagem. Se esta menina estivesse dentro dos limites de um ser humano saudável, jamais premeditaria um crime tão bárbaro, que vai de encontro a tudo que torna o homem HUMANO. Os limites existem para que não nos machuquemos demais, para que não corramos riscos que não podemos enfrentar, para que não destruamos barbaramente o corpo ou o coração de outro ser.

    Eu hoje, então, aceito com mais prudência meus limites, e os testo com menos frequência e mais cuidado do que quando tinha 19 anos. Quase 20 anos depois, descobri que certas experiências DÓEM, e que certas dores são inúteis, não levam a lugar algum, a não ser ao divã do analista. Às vezes, terrivelmente, a lugares mais tenebrosos, como ao suicídio ou ao assassinato. Ou, ainda pior, à destruição de outrem. ESSE é um preço que não posso pagar, e não quero.

    Vivo minha vida tentando derramar à minha volta as delicadezas que acho tornam nossa estadia neste planeta mais suportável. Já perdi as esperanças de ter estas delicadezas retornadas, não é por isto que as pratico. Elas são parte de quem eu sou, minha identidade, e não abro mão delas. Mas o caso é que — nesta época de poucas delicadezas — ser uma pessoa que as pratica sinaliza coisas engraçadas às outras pessoas.

    O Fabio Danesi Rossi disse-o bem em seu blog, quando falou que homens que chamam mulheres de senhora e lhes abrem a porta e lhes dão passagem são imediatamente taxados de “otários”. Amigo Fabio, não se iluda, as mulheres educadas e delicadas padecem sina semelhante. Muitas vezes, por exemplo, a mania que tenho de chamar todo mundo de ‘amor’ ou ‘querido’ me causa dores de cabeça. Seja por causa de atenções masculinas não desejadas, seja por fúria feminina menos solicitada ainda. Outras vezes, a atenção cuidadosa dada a um amante é tida como ‘sufocante’ ou ‘dependente’… eu, justo eu, que já abri e abro todos os dias mão de coisas que me são tão caras… Abri mão DELE, veja só… e fiz das proverbiais tripas coração para que meu sofrimento não o incomodasse.

    Pois que seja. Àqueles que sentem um frio na barriga cada vez que eu me aproximo, que pensam ‘lá vem ela novamente’; àqueles que acham que podem abusar de um coração porque ele está de portas abertas; àqueles que não dão valor aos pequenos cuidados, por serem tantos, eu digo uma coisa: eu NÃO VOU me modificar, eu NÃO VOU sair do país, como o Fabio declara ter intenção de fazer, eu sequer pretendo mudar de vizinhaça; eu NÃO VOU deixar de ser quem eu sou, porque vocês estão incomodados ou escondem o sorriso irônico do aproveitador barato. Esqueçam. Mudem vocês de país, porque este é o MEU LAR, minhas raízes aqui estão fundas, e daqui só saio de cabeça erguida, por alguma aventura maior num outro lugar.

    Jovenzinhos, aqueles meus amigos que me emocionam tanto, olhem bem nos olhos de sua borboleta e prometam: não comprometam seu eu por pessoa alguma, não se sintam estranhos, não se sintam menores, só porque alguma pessoinha resolveu alardear aos quatro cantos isto a seu respeito. Sejam como são, exatamente, respeitem suas naturezas, e a natureza daqueles à sua volta. Se houver alguma situação em que encontrem naturezas imcompatíveis, retirem-se mansamente, sem briga. Não se pode proibir uma ave de voar, nem pedir a um peixe que more na floresta. A natureza humana é tão diversa quantos as espécies animais, e muitas vezes nos deparamos com limitações que nos incomodam.

    Aceitem suas limitações com tolerância, sempre tentando expandir seus limites aos poucos, sem forçar a musculatura da alma. Uma entorse destas dói bem mais que um estiramento muscular, acreditem, e leva bem mais tempo para sarar. Amem-se, e aprendam a amar a diversidade humana, e usar da mesma tolerância que tiveram com seus próprios limites em relação aos limites alheios. Não existe outra maneira de resolver os problemas sérios que nos afligem hoje, a não ser com muita tolerância, amor e delicadezas.